“Não há conteúdo pedagógico sério”: o que os especialistas dizem de SuperNanny

Janeiro 17, 2018 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do http://observador.pt/ de 15 de janeiro de 2018.

Ana Cristina Marques

Tânia Pereirinha

Psicólogos e pediatras condenam a exposição das crianças, mas dizem que SuperNanny faz pensar na falta de soluções para apoiar estas famílias. No estrangeiro, houve críticas graves a programas iguais.

Mãe e filha debatem-se na imposição de regras. Chegada a hora de ir dormir, a menina de sete anos faz birra porque não quer ir para a cama. A mãe vê-se forçada a impor um castigo, que passa por sentar a menina no banco durante alguns minutos. A criança esperneia-se, chora e diz repetidamente “não quero ir para o banco”. Tudo isto acontece ao som de uma pianada melancólica e com a supervisão da SuperNanny, a apresentadora do programa emitido no domingo à noite, na SIC, que já levou a Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Proteção das Crianças e Jovens (CNPDPCJ) a emitir um comunicado a alertar para o “elevado risco” de o programa “violar os direitos das crianças, designadamente o direito à sua imagem, à reserva da sua vida privada e à sua intimidade”.

Académicos, psicólogos e pediatras dividem-se. Os diferentes especialistas na área da educação, contactados pelo Observador, falam num tom depreciativo sobre a exposição desnecessária a que a criança foi sujeita, e os conselhos transmitidos por Teresa Paula Marques, a apresentadora que no programa não se assume enquanto psicóloga, geram pouco consenso.

“Ela tem de voltar a formar-se”

“A estratégia do tempo de pausa foi completamente mal utilizada”, aponta Maria Filomena Gaspar, docente na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação, da Universidade de Coimbra. “Isto é muito mau”, continua, referindo-se precisamente ao momento em que a menina de sete anos é castigada e votada a ficar sozinha, sentada num banco. “Primeiro, não se isola a criança. Segundo, não se faz a criança sentir que está de castigo. O tempo de pausa é o tempo em que a criança se pode acalmar e nunca pode ser superior a cinco minutos”, afirma a docente, que fala ainda numa atitude “completamente desrespeitadora” para com a criança.

Filomena Gaspar, que assistiu ao programa de domingo à noite, refere que Teresa Paula Marques, cuja atuação já foi alvo de queixas recebidas na Ordem dos Psicólogos, “comportou-se como uma especialista”, no sentido em que impôs a necessidade de existirem respostas certas. “Ela é que dava as respostas todas, foi isso o que me chocou mais”, diz, destacando o facto de a SuperNanny não ter tido em conta as competências da mãe.

Maria Filomena Gaspar dá ainda outro exemplo, referindo-se ao momento de confrontação entre mãe e avó, na presença da pedagoga: “Aquilo não é intervenção, não tem nada que ver com terapia familiar. Ela [Teresa Paula Marques] não trabalha nem utiliza os modelos que promovem a mudança. Estes são modelos que dão receitas fáceis e tornam as pessoas dependentes dos especialistas. Não promovem a autonomia nem o crescimento pessoal”. A docente universitária deixa claro que a experiência profissional “não é, nem nunca foi, sinal de eficácia” e atira: “Ela tem de voltar a formar-se”.

Já o pediatra Jorge Amil Dias, presidente do Colégio da Especialidade de Pediatria, acrescenta que os “princípios gerais subjacentes aos conselhos dados parecem corretos”, ainda que devam ser “enquadrados nos problemas específicos de cada família”. “Há uma simplificação e tentativa de ‘tipificação’ de comportamentos que podem ser gravemente perniciosos”, acrescenta, condenando as “receitas mágicas” que diz estarem muito provavelmente condenadas ao insucesso e que podem ainda potenciar novos conflitos. Jorge Amil Dias defende ainda que o programa parece revelar “uma aparente teatralização de uma situação familiar”.

“O programa mostra a lacuna que existe na educação parental”

Isabel Abreu Lima, docente na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto (FPCEUP) prefere sugerir que há diferentes pontos de vista em causa e começa por dizer que não vê nenhuma atuação da psicóloga que seja “passível de recriminação”, apesar de apontar o dedo à exposição da criança de sete anos. “Há aqui um intuito de mediatismo, já não sabemos bem definir o que é público do que é privado, habituados que estamos à devassa total da vida privada. Por outro lado, tenho a dizer que o que a psicóloga está a transmitir aos pais é extremamente útil. É possível que tenhamos muitos pais e mães a identificarem-se com aquela situação”, diz, chamando a atenção para as estratégias positivas apresentadas no programa, isto é, a imposição de regras, a criação de rotinas e a definição de limites.

Dito isto, a mesma docente deixa claro que não é partidária “de fazer estas intervenções sem o devido enquadramento”, admite que a aprendizagem dos conselhos dados não é assim tão direta e imediata, e assegura que não é adequado largar “estas coisas” na esfera pública sem salvaguardar que são bem entendidas. Isabel Abreu Lima fala ainda na necessidade de uma intervenção preventiva face à educação parental: “O programa mostra a lacuna que existe ao nível da formação de pais e da informação dada aos pais. Não tenho dúvidas que a maior parte dos pais precise de ajuda e que ninguém lhes esteja a dar essa mesma ajuda”.

Filipa Jardim da Silva, psicóloga clínica contactada pelo Observador, concorda e fala da probabilidade de uma “mãe profundamente vulnerável” ter recorrido ao programa enquanto solução de último recurso. “Qual é o nível de oferta deste tipo de serviços em Portugal?”, questiona, ao mesmo tempo que defende não existir lugar para uma intervenção emocional nas consultas de psicologia nos hospitais públicos. “Vale a pena pensar, antes de criticar esta mãe e esta produção, qual seria a alternativa”, diz, reconhecendo que a forma do programa “não é perfeita” e que o nível de “exposição valeria a pena ser revisto e ponderado”.

“Este tipo de programas não agoira coisas positivas e embora se diga que só participa quem quer, as pessoas e as famílias que o fazem encontram-se em situações vulneráveis”, garante Miguel Ricou, presidente da Comissão de Ética da Ordem dos Psicólogos. É também ele quem diz que “nenhum modelo na psicologia defende a exposição pública”.

Para o pediatra já citado, Jorge Amil Dias, o programa assenta na “exploração ‘modernaça’ de conflitos e ansiedades familiares”, no qual “não há conteúdo pedagógico sério”.

Afinal, quem é a SuperNanny?

Se não fosse psicóloga, diz Teresa Paula Marques num dos vídeos de apresentação do novo reality show da SIC, seria jornalista, “pois tem na comunicação uma das suas paixões”. Aos 51 anos e em SuperNanny, a psicóloga volta a aproximar os dois mundos — há anos que colabora com várias revistas e canais de televisão.

A primeira colaboração foi com a revista Teenager, onde tinha uma espécie de consultório e respondia às dúvidas dos adolescentes. Seguiram-se Bravo, Mariana, TV Mais, Caixa Activa, Ageless, Certa, Professor +, Flash, Viver com Saúde, Abarca, Correio da Manhã e Pais & Filhos. E depois programas de televisão, como Muita Lôco e Queridas Manhãs (SIC) e Rua Segura (CMTV).

Em 1996 publicou o primeiro livro: Cada jovem é um caso. Até 2011, editaria outros quatro, todos relacionados com psicologia infantil ou juvenil: Como lidar hoje com os filhosGuia prático para compreender o seu filhoNinguém me entende! e Clínica da Infância.

Em 25 anos de profissão, trabalhou “num bairro com famílias de etnia cigana”,”com pessoas seropositivas e respetivas famílias”, organizou “sessões de esclarecimento em escolas” e deu “aconselhamento a pais”.

Convidada há já dois anos para protagonizar SuperNanny, a psicóloga garantiu ao Observador, depois da polémica do primeiro episódio, que levou a queixas da Comissão de Proteção de Crianças e da Unicef Portugal, que não está no programa como tal — mas recusou revelar em que outra qualidade aparece.

Em vez disso, no texto da sua apresentação no site de SuperNanny, Teresa Paula Marques, natural do Tramagal, Abrantes, diz que gosta de ir ao cinema, de escrever e de fazer bijuteria — “Quase todos os colares que usa são feitos por si”.

Críticas das Nações Unidas e sentenças em tribunal

Um relatório do Comité dos Direitos das Crianças das Nações Unidas, tornado público em 2008, exortava o governo do Reino Unido, entre outras coisas, a tomar medidas para proteger a privacidade das crianças. Em causa estavam programas como SuperNanny, disse aos media britânicos Lucy Smith, à data membro do comité e professora de Direito na Universidade de Oslo, condenando “a invasão da privacidade das crianças” por formatos do género, que as mostraram “a comportar-se de forma terrível e as retrataram sob uma luz horrível”.

Não foi a única ocasião em que o formato recebeu um parecer negativo: um episódio do alemão “Die Super Nanny”, decidiu o Tribunal Administrativo de Hanover em 2014, após queixas de telespetadores e da Comissão de Proteção de Menores, “violou a dignidade humana”. Em causa estava um capítulo do reality show, emitido três anos antes, onde terão sido exibidas várias cenas de gritos, ameaças e agressões de uma mãe para com os filhos.

Nos Estados Unidos, onde além de SuperNanny foi exibido também o idêntico e concorrente 911 Nanny, os especialistas em psicologia infantil e pediatria criticaram abertamente os formatos, não só por as amas em questão darem conselhos “simplistas” ou até “questionáveis aos pais desesperados”, mas sobretudo pelas consequências deste tipo de exposição.

“A ausência de consentimento por parte das crianças preocupa-me. Quando crescerem estes miúdos vão ver as gravações em que aparecem a comportar-se como fedelhos e vão ficar envergonhados”, disse ao The New York Times, em 2005, Deborah Borchers, membro da Academia Americana de Pediatria.

 

 

“A lei que temos permite suspender o programa” Declarações de Dulce Rocha do IAC ao DN

Janeiro 17, 2018 às 12:30 pm | Publicado em O IAC na comunicação social | Deixe um comentário
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Leonardo Negrão / Global Imagens

Declarações da Drª Dulce Rocha, Presidente do Instituto de Apoio à Criança, ao https://www.dn.pt/ de 17 de janeiro de 2018.

Presidente do Instituto de Apoio à Criança defende suspensão de Supernanny e considera que o ideal seria “a própria SIC fazê-lo”. Canal diz não estar a equacionar tal.

“Estou convencida de que a lei que temos permite suspender o programa, assim haja vontade.” Dulce Rocha, presidente da direção do Instituto de Apoio à Criança (IAC) e magistrada do MP, crê que será possível interpor uma medida cautelar no sentido de evitar a repetição de um programa que a deixou “muito chocada” e considera “pôr em causa a própria dignidade da criança, que é um valor fundamental.” Adiantando que “o ideal seria a própria estação, a SIC, tomar essa iniciativa”, defende que deve haver uma “atuação preventiva para se evitar a exposição de mais crianças.” Contactada, a SIC, através da coordenadora do gabinete de comunicação Carla Martins, lembra que a exposição das crianças foi legalmente autorizada pelos pais e certifica que “a legitimidade do programa do nosso ponto de vista mantém-se; não estamos a equacionar a retirada do ar.” Esclarecendo que a produção não terminou — “Estão ainda a decorrer filmagens” , admite que a estreia correu muito bem em termos de audiências: “Para um domingo à noite foi muito bom.”

Considerando “normal” que “haja discussão sobre este tipo de temáticas, que dividem”, Carla Martins escusa-se a comentar o facto de a primeira emissão do programa ter desencadeado a condenação da Comissão de Proteção de Menores, que o reputou de “manifestamente contrário ao superior interesse da criança, podendo produzir efeitos nefastos na sua personalidade, imediatos e a prazo” e chamou os pais da menina retratada na estreia de domingo (terão sido ouvidos anteontem), assim como da Unicef e IAC. “O programa existe desde 2004 em vários países com legislações tão boas ou melhores que a portuguesa na defesa dos direitos das crianças”, contrapõe Carla Martins, repetindo um argumento constante do comunicado que a estação difundiu na segunda-feira. “E está longe de ser o único programa com crianças que recebe este tipo de críticas. Há programas de talentos em que as crianças têm um sonho e são obrigadas a lidar com as suas frustrações em público. E há até aqueles, como o Master Chef, em que manuseiam facas.”

Carla Martins tem razão: existem outros programas em que crianças ou adolescentes são expostos, mas em nenhum caso se verificou uma tão rápida e unânime condenação por parte de instituições de defesa dos direitos de menores. Algo que, de resto, a estação e a produtora do programa, a Warner (que o DN não logrou ouvir), decerto antecipariam, já que há muito que as críticas agora expressas em Portugal foram dirigidas à Supernanny por organizações de defesa dos direitos humanos. “Reality shows como a Supernanny violam a dignidade das crianças, invadindo a sua privacidade e retratando-as de péssima forma”, acusou em 2008 o Comité dos Direitos da Criança, uma organização norueguesa associada às Nações Unidas, num relatório sobre a situação dos direitos de menores no Reino Unido. E num workshop de especialistas europeus sobre privacidade das crianças que teve lugar em 2017 — está em preparação uma diretiva europeia sobre o assunto — afirma-se: “As crianças devem ter um direito à privacidade independente da visão que os pais têm desse valor. (…) Deve haver uma mais clara exigência em termos de procedimento que acautele os interesses da criança (…). É necessária mais pesquisa sobre o impacto de emissões nos media que expõem crianças para se entender o efeito, tanto positivo como negativo, que isso tem nelas. (…) Algumas das que apareceram nos primeiros programas que retratam as suas vidas, como o Supernanny, que foi para o ar pela primeira vez em Julho de 2004, só agora estão a alcançar uma idade na qual têm capacidade de refletir sobre a sua experiência e falar sobre ela.”

O debate que ocorre em Portugal está pois inteiramente alinhado com a preocupação crescente evidenciada na Europa em relação a estas matérias — uma preocupação relativamente nova, frisa Dulce Rocha, o que poderá, no seu entender, explicar por que motivo o formato não suscitou, noutros países, tão prontas e claras reações. Quanto às formas de ação, a procuradora hesita: “Confesso que ainda não tive tempo de estudar o assunto a fundo, mas creio que será possível a interposição de uma providência cautelar. Com base no primeiro programa deve-se agir no sentido de prevenir a exposição de mais crianças.” Sobre quem terá a legitimidade para interpor essa providência, já que os legais guardiões dos direitos das crianças em causa — os pais — deram o seu consentimento, naquilo que a magistrada qualifica como “um abuso de direito”, será, considera, o MP ou as instituições que têm o poder de aplicar coimas Instituto de Defesa do Consumidor ou a Entidade Reguladora da Comunicação Social (a qual já tornou público ter recebido várias queixas relativas à Supernanny).

Mas se é certo que, como estabelece a ERC numa deliberação de 22 de Novembro de 2016, “o artigo 27º da Lei da Televisão estabelece os limites à liberdade de programação, fazendo uma ponderação entre a esta e outros direitos fundamentais, em particular os consagrados no artigo 26.º da CRP, que reconhece os direitos à identidade pessoal, ao desenvolvimento da personalidade (…), ao bom nome e reputação, à imagem, à palavra, à reserva da intimidade da vida privada e familiar e à proteção legal contra quaisquer formas de discriminação”, e no que respeita a “crianças e adolescentes, os limites à liberdade de programação visam (…) a salvaguarda do direito fundamental ao desenvolvimento da personalidade, que tem de ser especialmente protegido durante a infância e adolescência, uma vez que estas etapas do desenvolvimento individual influenciam decisivamente a personalidade para o resto da vida”, praticamente toda a doutrina do regulador sobre esta matéria diz respeito ao efeito dos programas sobre crianças e adolescentes espectadores — e não intervenientes ou protagonistas.

 

 

SuperNanny. Pais de criança de 7 anos vão ser ouvidos pela Comissão de Proteção de Crianças e Jovens

Janeiro 17, 2018 às 11:20 am | Publicado em O IAC na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do http://observador.pt/ de 15 de janeiro de 2018.

Tânia Pereirinha

Ana Cristina Marques

Cátia Bruno

A CPCJ de Loures vai ouvir, ainda esta segunda-feira, os pais da criança no centro da polémica do programa da SIC. “Não estou no programa como psicóloga”, diz Teresa Paula Marques.

A Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Proteção das Crianças e Jovens (CNPDPCJ) emitiu esta segunda-feira um comunicado a alertar para o “elevado risco” de o programa SuperNanny, que estreou este domingo à noite na SIC, com a psicóloga clínica Teresa Paula Marques, “violar os direitos das crianças, designadamente o direito à sua imagem, à reserva da sua vida privada e à sua intimidade”.

Em comunicado enviado para as redações, a CNPDPCJ acrescentou ainda que o formato revela um “conteúdo manifestamente contrário ao superior interesse da criança, podendo produzir efeitos nefastos na sua personalidade, imediatos e a prazo“.

O conceito do reality show, decalcado do original britânico com o mesmo nome (emitido no Reino Unido entre 2004 e 2010), é o seguinte: uma família, a braços com birras infantis ou mau comportamento adolescente, pede ajuda a uma “super ama”, que se desloca à respetiva casa para primeiro observar a dinâmica pais-filhos e depois sugerir e supervisionar a aplicação de novas regras que permitam “recuperar a calma e a alegria familiar”. Tudo é filmado.

Em entrevista ao Observador, Rosário Farmhouse, presidente da CNPDPCJ, garantiu que os pais da criança de 7 anos no centro da polémica em torno do programa, vão ser ouvidos ainda esta segunda-feira pela Comissão de Proteção de Jovens e Crianças de Loures.

“Estamos muito preocupados. Para nós é um programa que expõe a criança de forma muito negativa e viola a sua imagem e privacidade. A criança tem 7 anos, não faz ideia do impacto que isto terá na sua vida. Já na semana passada fomos contactados por familiares da criança, que referiram que ela já estava a ter problemas na escola só por causa das promos. Hoje quando chegou à escola deve ter enfrentado muitas reações, a situação deve ter-se agravado”, revelou Rosário Farmhouse. “A mãe expôs a criança a este perigo mas gostaríamos que outras crianças não fossem expostas ao mesmo”, concluiu.

A CNPDPCJ, que informou ter recebido várias queixas relativamente ao programa, diz ainda que já entrou em contacto com a SIC, no sentido de manifestar a sua “preocupação face a este tipo de formato e conteúdos solicitando uma intervenção com vista à salvaguarda do superior interesse da criança”.

Em comunicado divulgado ao final da tarde desta segunda-feira, o canal garante que o programa cumpre “a lei aplicável”, porque foram recolhidas “as necessárias autorizações para o efeito”. E justifica a exibição com o sucesso alcançado no estrangeiro com o mesmo formato, em países como Reino Unido, Alemanha, Espanha e Suécia: “São exemplos de países onde os padrões de proteção dos direitos dos menores não se revelam menos exigentes do que os existentes em Portugal. A experiência acumulada nesses países tem demonstrado que o SuperNanny não gera efeitos negativos ou de censura em ambiente escolar e social, antes contribuindo para uma melhoria significativa da qualidade de vida familiar”.

“São abordadas situações reais, ocorridas em ambiente familiar, de um modo responsável, não exibicionista e sem explorar situações de particular fragilidade”, pode ler-se ainda no texto enviado para as redações.

A CNPDPCJ pediu ainda pareceres sobre o assunto à Comissão de Proteção de Crianças e Jovens (CPCJ) e deixou um apelo aos órgãos de comunicação social: “Certos da delicadeza dos temas relacionados com crianças e jovens e reconhecendo o papel fundamental da Comunicação Social na construção de uma opinião pública informada e sensibilizada para a defesa dos direitos da criança, vem esta Comissão apelar aos meios de comunicação social que assumam um papel responsável, protetor e defensor dos Direitos da Criança“.

A Entidade Reguladora da Comunicação Social (ERC) confirmou entretanto que também recebeu queixas sobre o programa, esclarecendo que “os textos versam essencialmente sobre uma alegada violação de direitos fundamentais e serão oportunamente apreciados pelo Conselho Regulador da ERC”.

Já a Unicef Portugal acusou o novo reality show da SIC de violar o artigo 16 da Convenção sobre os Direitos da Criança — que determina o “direito da criança a ser protegida contra intromissão na sua vida privada” — e pediu ao Estado que “tome as medidas necessárias para proteger a criança e o seu bem-estar”. No comunicado assinado por Beatriz Imperatori, directora executiva do organismo das Nações Unidas em Portugal, é ainda feita referência às consequências que a participação no programa pode trazer para as crianças: “A exposição pública, nomeadamente dos comportamentos violentos retratados, poderá colocar em causa o bem-estar da criança e o seu desenvolvimento atual e futuro”.

O Instituto de Apoio à Criança (IAC) também se pronunciou sobre o assunto, através de um comunicado: “Assistimos ontem a situações de conflito entre uma criança e sua mãe, ocorridas em contexto privado, as quais foram exibidas em horário nobre num canal televisivo de grande audiência, o que decerto causará sérios prejuízos à imagem da criança vítima da exposição pública”.

Considerando que o programa SuperNanny incorreu numa “violação do direito de uma Criança à sua imagem e à intimidade da sua vida privada”, a direção do IAC, que assina o texto, aludiu ainda como ponto positivo à entrada em vigor, em maio de 2018, de uma nova diretiva da União Europeia que poderá no futuro evitar situações semelhantes, já que “restringirá ainda mais os direitos dos pais à imagem dos filhos, para que estes não possam ser privados de direitos fundamentais, apenas por serem crianças”.

“Não estou no programa como psicóloga”

Teresa Paula Marques remeteu quaisquer esclarecimentos sobre o assunto para a Warner Bros. TV Portugal, responsável pela produção do programa. Ainda assim, confrontada pelo Observador a propósito da queixa da CNPDPCJ, a psicóloga começou por dizer que a questão da violação da privacidade e dos direitos das crianças que aparecem no formato “é um problema da SIC”. Sobre a sua responsabilidade como profissional, obrigada a obedecer a um código deontológico, garantiu ainda: “Não estou no programa como psicóloga”. Mas não quis explicitar em que qualidade aparece então no formato da SIC, a partir de um original britânico replicado em cerca de 15 países, EUA, Brasil, França, Suécia, Alemanha e Espanha incluídos.

Num dos vídeos promocionais de SuperNanny, Teresa Paula Marques apresenta-se como alguém que gosta de “fazer doces, ler e escrever”, que tem livros publicados sobre aconselhamento parental e que exerce psicologia “há mais de 25 anos”.

Em entrevista à Sábado, antes da estreia deste domingo, a psicóloga, de 51 anos, disse que sabia que o programa ia “gerar polémica”, mas não se mostrou incomodada por isso: “Haverá pessoas que gostam e outras que não, por exemplo os mais permissivos vão discordar”.

Ordem dos Psicólogos deu parecer negativo ao programa

Em março de 2016, diz ao Observador fonte oficial da Ordem dos Psicólogos Portugueses, a Comissão de Ética emitiu um parecer “sobre a alegada prática da psicologia nos media”, a pedido da produtora de SuperNanny, a Warner Bros. TV Portugal. Foi negativo, ainda assim, o programa avançou.

Ao longo de 5 páginas, assinadas pelo presidente da Comissão, Miguel Ricou, a Ordem dos Psicólogos repudia a “prática da psicologia em programas de divulgação massiva, bem como a conivência do psicólogo na exposição pública das pessoas, nomeadamente pela participação em programas no formato de reality show“.

Invocando o código deontológico da profissão e princípios basilares como a “relação de confiança entre o psicólogo e o cliente”, a “diversidade individual” e a “privacidade”, a Comissão de Ética manifesta-se contra formatos como o que estreou este domingo na SIC e adverte: “Dada a natureza da intervenção psicológica, a sua aparição no espaço mediático não é adequada, devendo limitar-se a situações genéricas e não adaptadas a casos particulares“.

No texto, a comissão é categórica a defender que a exposição pública de clientes “não pode, de forma alguma, ser considerada no melhor interesse destes”. E explica ainda que “exemplos concretos da intervenção psicológica não podem ser aplicados ou generalizados a outras situações“, o que deita por terra o argumento de Teresa Paula Marques, que garantiu à Sábado ter aceite o convite para participar em SuperNanny, sobretudo por razões pedagógicas: “A componente pedagógica do programa agrada-me. Estamos na altura de mudar o comportamento dos pequenos”.

Para terminar o parecer, a Comissão de Ética da Ordem dos Psicólogos advertia ainda os profissionais para a necessidade de deixarem explícito, caso contra todas as recomendações decidissem participar em programas “onde se exponham publicamente casos particulares”, que não estavam “a levar a cabo qualquer tipo de intervenção psicológica”.

No final do primeiro episódio do programa, ao longo do qual a vida privada e íntima de uma criança de 7 anos foi tornada pública, desde as rotinas de casa de banho até às birras da hora de ir para a cama, passando por palmadas disciplinadoras e por momentos de choro e desespero da mãe, foi exibida uma advertência, a garantir que “durante as gravações foi respeitada a privacidade dos intervenientes”.

Não foi utilizado qualquer tipo de filtro para disfarçar a identidade da criança em causa, nem da mãe, que se inscreveu no casting da primeira série do programa, que deverá ter 8 episódios, nem da avó materna. Mais: para além de ser identificada a casa onde a família mora, em Loures, foi também revelada a empresa onde a mãe, mediadora de seguros, trabalha.

No mesmo retângulo negro, Teresa Paula Marques aparece descrita como “educadora” em vez de como psicóloga, em cumprimento do último ponto do parecer da Comissão de Ética: “O trabalho da educadora visa divulgar técnicas e instrumentos pedo-pedagógicos que podem contribuir para um relacionamento familiar saudável e não substitui o acompanhamento por parte de profissionais de saúde em caso de necessidade”.

Ordem já recebeu queixas contra Teresa Paula Marques

Na sequência do programa SuperNanny, a Ordem dos Psicólogos recebeu queixas contra a psicóloga Teresa Paula Marques(cédula profissional número 916) e poderá abrir um processo, segundo confirmou ao Observador o presidente da Comissão de Ética, Miguel Ricou. “As queixas vão ser julgadas no contexto do Conselho Jurisdicional”, disse Ricou, que não consegue precisar o número de queixas recebidas.

“Este tipo de programas não agoira coisas positivas e embora se diga que só participa quem quer, as pessoas e famílias que o fazem encontram-se em situações vulneráveis”, continua Miguel Ricou, que garante que “nenhum modelo na psicologia defende a exposição pública”. Ricou adianta ainda que a Ordem está a ponderar a criação de uma figura do provedor da criança e do jovem.

 

 

 

O Big Brother da parentalidade já nasceu e tem nome: “Supernanny”

Janeiro 17, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do http://p3.publico.pt/ de 15 de janeiro de 2018.

Texto de Sara Berény

Confunde-se ter autoridade com autoritarismo, baralham-se ordens com pedidos, facilmente se passa do “à vontade” para o “à vontadinha”, tudo é “negociável”, chamam-se “birras” a marcados comportamentos de desafio e oposição.

E o Big Brother chegou à Psicologia. É o “Vale Tudo” da Psicologia Parental. Despir assim as famílias é obsceno, perigoso e humilhante, não só para os pais e filhos que se inscrevem no programa Supernanny, mas também para as ciências psicológicas.

O tema das competências parentais encontra-se na ordem do dia nos mais variados contextos: televisão, jornais, livros, blogues, escolas, workshops e formações. Pretendia-se que a família dos silêncios, do autoritarismo e da punição física fosse derrubada pela família da comunicação democrática, do equilíbrio e da ternura. Mas isso ainda não aconteceu. Efectivamente está a tornar-se difícil atingir bom senso e a harmonia nas práticas parentais. Confunde-se ter autoridade com autoritarismo, baralham-se ordens com pedidos, facilmente se passa do “à vontade” para “à vontadinha”, tudo é “negociável”, chamam-se “birras” a marcados comportamentos de desafio e oposição. É uma sensação constante da competição para se ter o título do “o melhor pai”, “a família do ano”, “o filho perfeito”, “os irmãos exemplares”.

TEMOS família, mas será que SOMOS família? Os empregos dos adultos sugam a energia da parentalidade sem darmos por isso. Durante a semana e nos fins-de-semana, as baterias esgotam-se, mas não de brincadeiras em casa ou ao ar livre, de boas conversas entre pais e filhos. Educar tornou-se numa corrida contra o tempo. Está a perder-se o tempo da infância, de crescer e desenvolver ao sabor de cada dia que passa, de acompanhar o ritmo do dia-a-dia, de saborear as rotinas. Os pais sentem-se perdidos e cansados, sedentos de ajuda e orientação. Tornaram-se a presa fácil para programas televisivos predadores.

A culpa, a vergonha, a angústia e o medo dos pais merecem maior respeito. A parentalidade é um desafio precioso, mágico, mas também íntimo. Não requer pressões, julgamentos ou grandes audiências. Construir espaços, momentos ou eventos que funcionem como escola para pais parece-me pertinente e sensato. Mas não serão locais onde se pratica psicologia pornográfica. Ensina-se a “aprender a aprender” a parentalidade. A perceber que amar não chega, que temos que ir mais além, vasculhar na infância que tivemos para melhor entendermos as expectativas e desejos que temos como pais. Reflectirmo-nos enquanto imagem interior de sentimentos, emoções e pensamentos. Sermos concretos e seguros no que queremos deste mundo. Deixarmo-nos surpreender pelos filhos, pelos seus gostos, interesses e resoluções. Encarar os “filhos multimédia” como uma realidade nem boa nem má, mas sim uma realidade que tem que ter regras para se poder usufruir dela. Abusar dos livros, das cavalitas, das canções, dos desenhos, dos jogos. Tranquilizar com os filhos num longo abraço, chorar tristeza em lágrimas ranhosas, soltar risadas de alegria olhos nos olhos, protegê-los com o medo bom do “isso não”, correr com pernas furiosas as zangas do dia. E sim, perceber que os filhos precisam que os pais mandem neles e aprender estratégias saudáveis de comunicação e de assertividade para gerir essa relação; conhecer um pouco mais da fase desenvolvimental das crianças para os pais poderem saber se o medo do escuro ou dos ladrões está ou não ajustado à idade ou se realmente as crianças “entendem” o que é a morte. Mas sem passar do 8 para o 80. A Psicologia está na moda. Por tudo e por nada é preciso ir ao psicólogo, perguntar ao pediatra, ir ver ao blogue ou ao Google como agir. Estamos a perder o instinto parental. Coisas que são “normais” e até expectáveis requerem uma resposta intuitiva, aquilo que se chamava o bom senso comum.

A parentalidade não é o “tudo ou nada”, um “ou eu, ou tu”. Não é dicotomia de extremos. Não é uma “Nanny-Psicóloga-Super” que invade as fronteiras do espaço familiar e que faz dos pais marionetas. É um percurso sistémico, de contacto directo entre os pais e os filhos, os avós, a escola, os amigos. É por excelência o papel mais importante das sociedades humanas, aquele que nunca poderá estar ameaçado ou em vias de extinção. Um programa como este apenas serve para “poluir a parentalidade”. Vamos reciclar os pais, mas humanizando a parentalidade.

 


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