“É possível mudar o cérebro dos adolescentes. O que é bom e mau”

Janeiro 2, 2018 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista do https://www.publico.pt/ a Sarah-Jayne Blakemore no dia 10 de dezembro de 2017.

Os adolescentes precisam de ser “assim”, como são. De se afastarem dos pais, de se aproximarem dos amigos, de correrem mais riscos. Precisam de exercitar a autonomia, treinar a independência. É uma necessidade biológica adaptativa, constata a neurocientista Sarah-Jayne Blakemore, que estuda o (cada vez menos) misterioso mundo do cérebro do adolescente.

Andrea Cunha Freitas (Texto) e Ricardo Lopes (Fotografia)

A neurocientista britânica Sarah-Jayne Blakemore costuma contar uma história para mostrar uma das muitas diferenças entre crianças e adolescentes. Quando os mais pequeninos se irritam, podemos tentar acalmá-los sugerindo cantar a sua canção favorita. E, muitas vezes, isso resulta. Para os adolescentes, esta estratégia pode ser usada em sentido contrário, constituindo nada mais, nada menos do que uma ameaça. “Ou paras de fazer isso ou canto aqui a tua canção favorita” é uma frase capaz de os travar pela vergonha.

Quando chegam à adolescência, os filhos afastam-se dos pais, aproximam-se do seu grupo de pares, correm mais riscos, são impulsivos. Além das hormonas, do ambiente e da genética, o seu cérebro está a mudar. Pode parecer óbvio, mas a descoberta de que o cérebro continua a desenvolver-se durante a adolescência, e não apenas durante os primeiros cinco anos de vida, é recente.

Uma boa parte dos créditos por esse conhecimento sobre a plasticidade do cérebro adolescente pertence à investigadora do University College de Londres que esteve em Lisboa numa conferência, organizada pela Fundação Manuel dos Santos, em homenagem a João Lobo Antunes, para falar sobre “O cérebro adolescente”. Graças às novas tecnologias que nos permitem espreitar para este misterioso mundo, sabemos hoje que é possível mudar o cérebro dos adolescentes. Mas ainda sobram muitas perguntas que nos podem ajudar a perceber como e o que fazer para um final (adulto) feliz. Numa entrevista ao P2, a cientista fala sobre o que aprendemos com as imagens cerebrais que denunciam as diferentes estratégias cognitivas nesta conturbada fase da vida. Ficam também alguns conselhos simples. É preciso que todos (pais e filhos) saibam que esta é uma fase de mudança e que é transitória. Recomenda-se ainda uma boa dose de paciência. Tanta (ou mais) como a que tivemos quando eles eram crianças.

O que mudou nos últimos anos sobre o que sabemos dos adolescentes?
Até há cerca de 20 anos havia muita coisa que não sabíamos sobre o cérebro dos adolescentes. Não tínhamos a tecnologia para olhar para dentro de um cérebro humano a funcionar e perceber como muda ao longo da vida. Não sabíamos quando o cérebro parava de se desenvolver. Nos últimos 20 anos, os cientistas têm sido capazes de usar técnicas como a ressonância magnética, funcional e estrutural, para despistar mudanças no cérebro de crianças e adolescentes. Essa investigação, que está a ser feita em todo o mundo, já mostrou que o cérebro não pára de se desenvolver na infância, mas, na verdade, continua a desenvolver-se, em termos de estrutura e funções, ao longo da vida. Durante a infância e também durante a adolescência e no princípio da fase adulta.

Esse processo de desenvolvimento explica o comportamento de um adolescente? Correr riscos, afastar-se dos pais, ser influenciado sobretudo pelos seus pares.
Provavelmente. Até sabermos que o cérebro continua a desenvolver-se na adolescência, todos estes comportamentos típicos dos adolescentes eram atribuídos a alterações hormonais, mudanças no ambiente, sociais, esse tipo de factores. Agora percebemos que as mudanças de comportamento na adolescência são causadas por uma combinação de factores diferentes, incluindo mudanças muito substanciais no cérebro.

E o que podemos fazer com esse conhecimento?
É útil perceber que correr riscos, a consciência de si mesmo, a influência dos pares e a impulsividade, que são comportamentos mais evidentes na adolescência comparando com outras idades, acontecem por razões biológicas, adaptativas. Não é nada que os adolescentes tenham possibilidade de controlar. São coisas que precisam de fazer e o seu cérebro está a mudar de uma forma que permite que as façam. Estes comportamentos provavelmente coincidem com pressões evolutivas para que se tornem independentes dos pais, para explorar o ambiente que os rodeia, correr riscos, experimentar, para se ligarem aos seus pares, ao seu grupo, para que, eventualmente, muitos anos depois se tornem adultos independentes.

Mas podemos ajudá-los ou resta-nos ser pacientes?
Somos pacientes com as crianças, permitimos que se desenvolvam. Eu tenho dois filhos. Sei que permitimos que façam tolices, tomem decisões tolas, ajudamo-los, sentimos empatia, não esperamos que sejam completamente independentes e que tomem excelentes decisões para eles próprios. Precisamos de fazer isso com os adolescentes. É a mesma coisa. Eles também estão a passar por mudanças substanciais do seu desenvolvimento cognitivo. Como adultos, colocamos muito mais pressão e expectativas nos adolescentes do que nas crianças pequenas. Talvez porque os adolescentes se pareçam com adultos. Esperamos que se comportem como adultos e que tomem boas decisões e que sejam capazes de planear; todo o tipo de comportamentos que, na verdade, sabemos que ainda estão em desenvolvimento.

Por vezes, as coisas correm mal nesta altura da vida, seja na escola seja noutro tipo de situações mais graves, que envolvem crimes, drogas ou álcool. Como cientista, acredita que é possível interferir neste processo de desenvolvimento e, assim, prevenir ou reabilitar estes casos problemáticos?
Sim. As neurociências já mostraram que o cérebro dos adolescentes tem muita plasticidade, é possível mudá-lo. O que é bom e mau, ao mesmo tempo. É mau porque significa que, se o cérebro está a mudar na adolescência, os acontecimentos stressantes no ambiente que os rodeiam podem ser uma má influência para o desenvolvimento do cérebro. Mas também existe aqui uma oportunidade.

Na área da educação e da reabilitação?
Sim, é uma potencial oportunidade em que intervenções, aprendizagens, reabilitações terão um grande impacto, porque o cérebro ainda é maleável. Muito maleável. Se tivermos um adolescente que não teve muito bons resultados na escola primária, por exemplo, não é demasiado tarde para esperar uma mudança. O cérebro ainda se está a adaptar e a aprender.

Encontrou diferenças entre rapazes e raparigas?
Na verdade, não. Os estudos iniciais sobre o desenvolvimento cerebral sugeriam uma diferença de género. Isso foi há 17 anos. Desde essa altura, estudos com mais participantes, apoiados em técnicas de imagem com mais qualidade e melhores técnicas de análise, mostraram que, na verdade, essas diferenças de género não existem de forma evidente.

Mesmo olhando para fenómenos como a diminuição da matéria cinzenta e o aumento da matéria branca do cérebro que já se percebeu que ocorrem neste período da adolescência?
Sim, é quase a mesma coisa nos rapazes e nas raparigas. Acho que isso faz sentido, porque, mesmo que estejam lá, há tanta sobreposição entre os dois géneros que é muito difícil ver diferenças nas médias.

Então não há razão para dizer que as raparigas “crescem” mais rapidamente, são mais sensatas, mais “adultas”?
Essa é uma grande questão. Há tantos estereótipos de género nas culturas.

Isso é um estereótipo?
Não sei. Mas não há provas científicas que mostrem que isso não passa de um estereótipo. Embora, por outro lado, se saiba que há diferenças de género, por exemplo nas doenças mentais. A seguir à puberdade, a depressão é mais comum nas raparigas do que nos rapazes. O mesmo pode dizer-se para os distúrbios alimentares e automutilações. As adições, por outro lado, são ligeiramente mais comuns em rapazes do que em raparigas. Ou seja, há diferenças entre géneros, mas é muito difícil saber por que é que elas existem. Se isso é o resultado de diferenças hormonais… acho que parcialmente será por causa das hormonas, porque as diferenças de género revelam-se na puberdade, quando as hormonas estão a mudar.

Mas também pode ser, em parte, por causa das expectativas. As expectativas sociais para as mulheres são muito diferentes das que existem para os rapazes. Podemos ver isso de forma clara nos distúrbios alimentares, que, já agora, estão a tornar-se mais comuns nos rapazes. Mais uma vez julgo que isso acontece porque a sociedade está a colocar mais pressão e expectativas na imagem que os rapazes devem ter: musculados, bronzeados, e essas coisas. Mas há mais pressão nas raparigas do que nos rapazes. Sobretudo na sua aparência.

Estas descobertas sobre o cérebro dos adolescentes são recentes e, por isso, é impossível fazer comparações. Porém, acredita que este mundo de informação, tecnologias, redes sociais, jogos de computador, novas formas de comunicar, que envolve os adolescentes de hoje, está a mudar o seu cérebro?
Não sabemos, não temos essas informações, mas sabemos que o ambiente muda o cérebro. Sabemos que isso acontece na adolescência. Então, parece-me lógico assumir que passar muito tempo em frente de um ecrã nas redes sociais, nos jogos de computador, funcionará como um input ambiental. Portanto, provavelmente, vai influenciar o desenvolvimento do cérebro. No entanto, o mais importante é saber se isso é bom ou mau. Se isso danifica o cérebro ou não. E isso não sabemos. É importante lembrar que, para cada tempo e nova tecnologia que surgiram, se olharmos, por exemplo, para a televisão, rádio, imprensa escrita, mesmo recuando até à invenção da escrita, os adultos dessas gerações também se preocuparam com as consequências destas tecnologias nas mentes dos mais jovens. Platão, por exemplo, tem citações muito interessantes sobre o impacto da escrita. Ele diz que a escrita iria destruir as memórias dos mais jovens, porque eles já não iriam precisar de se lembrar de nada, porque tudo estaria escrito. Portanto, não devemos entrar em pânico sem conhecer exactamente as provas científicas sobre como os ecrãs estarão a afectar o desenvolvimento do cérebro. Actualmente, não temos essas provas.

A sua investigação nesta área começou pelas doenças mentais, mais precisamente pela esquizofrenia, sabendo que muitas delas se manifestam na adolescência. Ainda está à procura dos “gatilhos” destas doenças no cérebro dos adolescentes?
Não estou a trabalhar nisso. Estou a trabalhar ainda no desenvolvimento típico do cérebro dos adolescentes. Ainda há muitas perguntas sem resposta sobre isso. Mas há outros investigadores que estão a procurar neuroprecursores de doenças mentais. Esses estudos ainda estão no início, mas há algumas indicações que mostram que o cérebro se desenvolve de forma diferente, na sua estrutura e funções, em adolescentes que acabam por desenvolver esquizofrenia ou outras doenças mentais.

Do que está à procura no cérebro dos adolescentes?
Estamos a olhar para a plasticidade do cérebro e a tentar perceber se é particularmente bom a aprender certos tipos de informação na adolescência. Se é um período especial para a aprendizagem.

Recentemente foi publicado um artigo por membros da sua equipa sobre as capacidades para a matemática. É esse tipo de estudos que estão a fazer?
Sim. Mostrámos que o raciocínio não verbal, relacionado com a matemática, acaba por ser mais bem apreendido na adolescência mais tardia do que na inicial. Isso contradiz o que a maioria das políticas educativas defende, acreditando que este tipo de aprendizagem diminui com a idade.

O início da adolescência tem um marco biológico que é o início da puberdade. Costuma dizer que está estabelecido que o fim da adolescência acontece quando aquele indivíduo conquista um papel independente na sociedade. O que, na sociedade em que vivemos, pode significar os 30 anos. Não há nenhum marco na evolução do cérebro que possa servir para separar os adolescentes dos adultos?
Não sabemos quando é que o cérebro se torna adulto. Julgo que será diferente para cada pessoa. Há uma série de regiões do cérebro que param de mudar em idades diferentes. Um dia poderemos ter um neuromarcador para quando o cérebro se torna adulto. Porém, neste momento, ainda não temos.

Mencionou a influência das hormonas, do ambiente social, entre outros factores, no desenvolvimento do cérebro dos adolescentes. E a genética?
A genética, obviamente, interage com o ambiente e influencia o desenvolvimento do cérebro. Já há alguns trabalhos que mostram isso. Por exemplo, a esquizofrenia é mais comum em jovens que são emigrantes, que se mudaram para diferentes populações e sociedades, e mais comum em jovens que fumam muita cannabis. Mas isso só é verdade para as pessoas que têm uma predisposição genética para a doença. Assim, o ambiente pode funcionar como um “gatilho” para o factor de risco genético.

O que pode dizer aos pais que têm ou vão ter adolescentes em casa que possa ajudá-los a lidar com esta fase?
Acredito que é muito útil ajudar os pais e os adolescentes a perceber as mudanças que eles estão a atravessar e explicar-lhes a ciência que está por detrás destas mudanças. Trabalhei com muitos adolescentes que acharam muito útil o que descobriram sobre o seu cérebro. Lembro-me de ser adolescente e sei que teria sido útil saber o que se estava a passar no meu cérebro e, sobretudo, saber que isso não iria durar para sempre.

Isso não é dar-lhes uma desculpa? Eles podem fazer o que quiserem justificando apenas que é o cérebro que está a mudar.
Talvez, mas essa desculpa serve para todos nós. Tudo o que fazemos é causado pelo nosso cérebro. Todos podemos fazer coisas más e dizer, bem, não fui eu, foi o meu cérebro. Na verdade, acho que os ajuda saber estas coisas. Dá-lhes a garantia, que os pode tranquilizar, de que esta fase é transitória e que está a acontecer por uma razão, e que não são só eles que estão a passar por isso.

Foi uma adolescente difícil?
Acho que não fui muito difícil, era uma adolescente típica. Fiz tudo o que o adolescente normalmente faz. Era muito ligada aos meus amigos, corri riscos que hoje não correria, tomei algumas más decisões e esse tipo de coisas. Lembro-me que era muito ligada à música e à moda. Aliás, a ligação à música é muito comum no período da adolescência. Curiosamente, a música que ouvimos nessa altura é algo que continuamos a gostar de ouvir mais tarde. Não tudo, mas uma parte. Há um lugar especial da música na adolescência.

A música poderia ser uma boa ferramenta para trabalhar e perceber o desenvolvimento do cérebro? Se colocássemos um adolescente a ouvir heavy metal durante um ano inteiro e outro a ouvir música clássica, podíamos ver diferenças no desenvolvimento do cérebro?
É um bom exemplo de uma experiência hipotética que, infelizmente, por razões óbvias, não podemos fazer. Se começássemos com um grupo de adolescentes exactamente iguais, com os mesmos antecedentes socioeconómicos, a mesma escola, o sítio onde vivem, o mesmo QI, o género e tudo o resto, e fizéssemos uma experiência, dividindo-os em dois grupos, expondo um a música clássica e outro a música pop, durante um ano, uma hora por dia… sim. Eu estaria à espera de ver diferenças no cérebro destes adolescentes, ainda que fosse com manifestações muito subtis. Não seria uma surpresa para mim. Algo que também poderia traduzir a forma como a música os fez sentir.

A influência das drogas e do álcool será mais fácil de observar?
É outro tipo de experiências que não podemos fazer, por razões éticas. O que alguns investigadores procuram fazer é olhar para as diferenças no desenvolvimento entre grupos de crianças que beberam muito álcool e outros que não beberam, ou que fumaram muita cannabis e outros que não o fizeram, mas não é uma experiência, é uma observação.

Um dos projectos (MYRIAD) em que está envolvida visa o desenvolvimento de programas escolares apoiados no treino de mindfulness para adolescentes e professores. Essa é uma experiência que já se pode fazer?
Sim, tivemos de passar por procedimentos éticos muito cuidadosos e assegurar que vamos monitorizar estas crianças para detectar qualquer possível efeito negativo. Estamos confiantes de que não vamos ter efeitos negativos, mas vamos estar atentos. Aliás, esperamos que a meditação mindfulness tenha efeitos positivos, com a sensação de bem-estar e menos pressão nos adolescentes que vão receber este treino. Mas ainda não começámos este estudo. Vai durar sete anos e foi conseguido pela Universidade de Oxford (no Reino Unido), eu sou apenas uma das colaboradoras.

Estas tecnologias que nos permitem ver o que se passa dentro do cérebro também têm as suas limitações. Há muitas coisas que acontecem e que uma ressonância magnética não mostra, certo?
Certo. A ressonância dá-nos informação sobre o desenvolvimento do cérebro, mas não nos mostra o que acontece a um nível celular. Assim, vemos que a matéria cinzenta e a branca estão a mudar no cérebro ao mesmo tempo, mas não sabemos por que é que isso acontece, o que é que está a acontecer a um nível celular, nos neurónios e nas sinapses. A ressonância não tem a resolução para nos mostrar as informações a esse nível. Estamos à espera dessa nova tecnologia, mas ainda vai demorar muitos anos.

Mas já foi possível perceber, por exemplo, que a percepção do outro é muito diferente entre adolescentes e adultos. Usam estratégias diferentes?
Sim. Quando pensam nas outras pessoas, e nas suas perspectivas e emoções, os adolescentes usam a mesma rede de regiões cerebrais que os adultos. Porém, o padrão de actividade é diferente. É a denominada “rede social do cérebro”. Os adultos usam a parte do córtex pré-frontal menos do que os adolescentes; e usam a região temporal mais do que os adolescentes. A actividade nas regiões pré-frontais diminui com a idade durante a adolescência, e a actividade na região temporal aumenta. Usam as mesmas regiões, mas os níveis de actividade são diferentes nestas redes.

Hoje sabemos muito mais sobre o cérebro dos adolescentes do que há 20 anos, como disse, mas os adolescentes ainda são um mistério?
Há muito menos mistério do que já houve, e o conhecimento destas mudanças no cérebro contribui para isso.

Quais são as questões em aberto mais importantes para si?
As diferenças individuais. Como é que a cultura, o ambiente, a nutrição, o exercício físico, o tempo passado no ecrã, o ambiente social… como é que todas essas coisas afectam o desenvolvimento do cérebro na adolescência. Sabemos que devem afectar, mas não sabemos como. Outras questões: por que é que alguns adolescentes desenvolvem doenças mentais e outros não? Por que é que alguns correm muitos riscos e outros nem tanto? São questões importantes sobre diferenças individuais. Até agora, o campo do desenvolvimento cerebral na adolescência tem estado muito focado em médias. Agora temos de começar a olhar para as diferenças entre indivíduos e o desenvolvimento do cérebro.

Mas será sempre o resultado de muitos factores.
Claro. O ambiente social muda de uma forma tremenda durante a adolescência, e as hormonas, e também a forma como os pais e a sociedade tratam os adolescentes. Eles permitem mais independência e liberdade. Todas estas coisas vão contribuir para o desenvolvimento dos adolescentes, para o seu comportamento e da sua mente.

Tem dois filhos pequenos. Está com medo da adolescência que vem aí?
Não, não, não, não! Os meus filhos estão prestes a tornar-se adolescentes, um tem 12 anos e meio e outro 10 anos e meio. Acho que é realmente um momento emocionante. É um tempo em que desenvolvem o sentido de si mesmos, a sua identidade de uma forma mais profunda.

Isso não será porque é cientista? Está entusiasmada com a ideia de fazer investigação em casa?
(risos) Talvez. Mas, mais uma vez, insisto que ajuda saber o que se passa no seu cérebro. Às vezes, quando um adolescente está mal-humorado, é rude ou mesmo se revolta contra nós, é muito difícil para os pais. Estamos habituados a que façam o que dizemos e que nos tomem como exemplo e, de repente, eles não estão a fazer nada disso. Mas saber que essa é uma parte muito importante do seu desenvolvimento e da sua independência, é útil. Eles precisam de experimentar e exercitar a independência, a autonomia, a tomada de decisões. Eles precisam de ser um pouco rebeldes contra os seus pais.

Por que é a influência dos pares tão importante na adolescência?
É uma forma de se filiarem num grupo e se tornarem gradualmente independentes dos seus pais, e mais integrados numa rede social própria, com uma hierarquia social. Eles precisam de ser independentes. Como nós também precisámos um dia.

Os adolescentes ainda a podem surpreender, como cientista?
Sim. A vastidão das diferenças individuais é muito interessante. Embora, no fundo, isso não seja assim tão surpreendente, porque todos somos diferentes.

A entrevista encontra-se publicada no P2, caderno de domingo do PÚBLICO

 

 

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O que os faz felizes?

Janeiro 2, 2018 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do http://expresso.sapo.pt/ de 16 de dezembro de 2017.

Katya Delimbeuf  texto

Carlos Esteves  infografia

Eles só querem tempo com os pais. E brincar. Quer saber o que faz o seu filho feliz? Leia

Dizem-nos que ser mãe ou ser pai é a melhor coisa do mundo, mas ninguém avisa que isso implica também passar a viver acompanhados por questões constantes. “Será que fiz bem?” “Exagerei no castigo?” “Será que não disse que não com a frequência que devia?” No meio de todas as dúvidas que assaltam os pais, há uma resposta universal. Pergunte-se a qualquer um qual a coisa mais importante que quer para o seu filho e a resposta será: que seja feliz. A forma que reveste essa felicidade é todo um novo capítulo.

O que os faz as crianças felizes? Brincar? Passar tempo com os pais? Fazer atividades físicas ou artísticas? Superar desafios? E os miúdos, têm noção da sua própria felicidade? Vários estudos trazem alguma luz sobre a questão. As respostas parecem apontar um caminho, o da simplicidade. É no tempo passado em família e nos momentos de brincadeira que as crianças encontram a felicidade. Assim comprova o último estudo de uma conhecida marca de brinquedos (a Imaginarium), que entrevistou 1131 pais portugueses de crianças dos 0 aos 8 anos. Mais de metade (51,89%) acredita que a origem da felicidade dos filhos está no tempo passado com os pais e familiares, e 34,56% no tempo de brincadeira. O afeto ocupa um lugar-chave na felicidade dos mais novos: 33% defendem que é quando os filhos se sentem “ouvidos e queridos” que são mais felizes. Na mesma linha, 14% defendem que é fundamental reforçar a autoestima das crianças “elogiando-as e incentivando-as quando fazem algo bem”.

O que têm as crianças holandesas?

Em 2013, um relatório da UNICEF que mediu a felicidade e o bem-estar em 29 dos países mais ricos do mundo (incluindo Portugal) concluía que as crianças mais felizes eram as holandesas. Que especificidades têm? Primeiro, os bebés holandeses dormem mais horas; as crianças trazem poucos ou nenhuns trabalhos de casa na escola primária; a liberdade é incentivada desde cedo, podendo os miúdos ir sozinhos de bicicleta para a escola, ou brincar na rua sem supervisão; fazem refeições em família regularmente; passam mais tempo com os pais que nos outros países europeus; não têm uma cultura materialista — brincam com objetos em segunda mão; e, numa nota curiosa, comem cereais de chocolate ao pequeno-almoço.

Neste estudo, Portugal encontrava-se a meio da tabela, no 15º lugar entre 29. Alguns destes itens, como as refeições em família, são comuns à nossa cultura, que traz para a mesa a maior parte dos convívios. Contudo, o grau de liberdade e de confiança depositada na criança é menor, o que não lhe permite superar por si mesma os desafios, e assim reforçar a autoestima. A psicóloga clínica Tânia Gaspar, da Universidade Lusíada de Lisboa, considera que esta questão não é tão linear como pode parecer. “Tem de haver supervisão, mas sem excesso de controlo”, defende.

O tempo passado com os filhos é outra desvantagem dos progenitores lusitanos. No inquérito da Imaginarium, mais de metade dos portugueses inquiridos sente que “passa pouco tempo de qualidade com os filhos”, e quase 90% acreditam que “um horário laboral mais flexível lhes permitiria aumentar esse tempo de qualidade”. Estes momentos são dos que mais contribuem para o bem-estar das crianças. Mais de metade dos portugueses (52%) que respondeu ao inquérito afirmou que “aquele bocadinho antes de ir para a cama” é o mais feliz. É o momento da história, do mimo, em que pai, mãe e filho partilham instantes de cumplicidade. 19,96% elegem o tempo de brincadeira no jardim ou no parque, e 11,52% a hora do banho.

Tânia Gaspar, que em 2008 se doutorou em Qualidade de Vida em Crianças: Fatores Pessoais e Sociais Promotores da Qualidade de Vida, pela Universidade do Porto, concorda que o tempo de qualidade é central. É importante “criar momentos próprios, de conversa, de partilha”, em que pais e filhos falam sobre o dia, o que correu bem ou o que correu mal. Alerta: “A comunicação aberta tem de começar desde pequenino, para que seja normal na adolescência.” É também importante aceitar, em vez de criticar, para que o canal se mantenha.

A psicóloga coordenou ainda, em 2013, a parte portuguesa do European Kidscreen, que mede a qualidade de vida e o bem-estar das crianças europeias dos 8 aos 18 anos em 13 países europeus. A principal conclusão é muito positiva: “As nossas crianças, de um modo geral, são felizes”, afirma. “As crianças mais novas — até aos 12 anos — são mais felizes do que as mais velhas”, quando entram na pré-adolescência, mas Tânia Gaspar atribui esse facto às “alterações de desenvolvimento que caracterizam esta fase”, em que o jovem se torna mais independente da família, tenta perceber quem é e fazer as suas escolhas. Neste estudo, Portugal encontrava-se de novo a meio da tabela. As razões prendem-se essencialmente com a escola. “As crianças portuguesas são das que têm pior relação com o meio escolar, a pressão académica, o facto de acharem que são maus alunos.” Nesse sentido, a ausência de trabalhos de casa na escolaridade primária dos holandeses joga em favor da sua felicidade. Habituam-se a gostar da escola antes de a associarem à obrigação de estudar e ser avaliado.

A psicopedagoga Ana Vasconcelos acredita igualmente que “o sucesso escolar de um país é um índice de felicidade”. O ser humano é por definição um animal curioso, que gosta de aprender. E desde que a escola cumpra a sua função e forneça ferramentas, os alunos gostarão de a frequentar e terão resultados em consonância. Dá o exemplo da matemática, eterno ‘bicho papão’ em Portugal. “Uma criança que pensa bem a matemática é uma criança com segurança pessoal. Para se ter pensamento abstrato, é preciso ter concentração ao aprender. E se se estiver preocupado, não aprende”.

Não fala em felicidade, mas em qualidade de vida. “A felicidade é um conceito moral. Tem a ver com emoções e com sentimentos. Qualidade de vida é o que dá a sensação de felicidade”, diferencia. Ana Vasconcelos aconselha os pais a manterem a “ternura na ponta dos dedos”. A seu ver, educar para a felicidade é simples. É preciso conseguir algum grau de “qualidade diária”, mesmo quando a vida profissional é intensa; e é importante os pais não se sentirem culpados. “Estes têm de estar seguros das suas competências.” O que mais entristece uma criança, assegura, é sentir a tristeza dos pais, captar a sua “insegurança face à vida”, e registar “incoerência no cuidar”. As crianças refletem muito o estado dos progenitores. Portanto, pais felizes têm maior tendência para criar filhos felizes. Tânia Gaspar ressalva o seguinte: “A felicidade é uma direção, um processo, algo que se vai construindo.” Estamos no bom caminho. Para os pais eventualmente preocupados com o que irão dar aos filhos este Natal, deixamos uma ideia. Em vez de prendas, deem-lhes tempo. É tudo o que querem.

 

 

 

 

 

Quem tem medo do lobo mau? Oficinas pais e filhos no Museu do Dinheiro – 6 e 27 de janeiro em Lisboa

Janeiro 2, 2018 às 12:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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mais informações no link:

https://www.museudodinheiro.pt/evento/10513/quem-tem-medo-do-lobo-mau


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