Os perigos de deixar as crianças sozinhas em casa

Novembro 3, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto da http://www.sabado.pt/ de 1 de novembro de 2017.

por Ana Catarina André

Horas a mais na Internet, ansiedade e cyberbullying – os riscos de não ter um adulto por perto.

Incêndios, assaltos, mas também conversas online com desconhecidos e publicação de fotografias impróprias em redes sociais. Deixar um miúdo sozinho em casa nas férias pode ser sinal de perigo – é preciso avaliar cada caso, alertam os especialistas. “As crianças mais pequenas nunca devem ficar sozinhas, mas aos 12/13 anos já poderão estar preparadas – depende da maturidade, da responsabilidade, do tempo que se pretende que fiquem sós e dos perigos que há em casa e nas redondezas”, considera a psicóloga Vera Ramalho. E alguns destes perigos são novos. Sem adultos por perto, os mais pequenos estão mais vulneráveis à Internet e às tecnologias e podem comprometer o seu desenvolvimento saudável e socialização. Saiba mais.

Estranhos nas redes sociais

Para Joana [nome fictício] aquele era um download inofensivo. Só depois é que a adolescente de 14 anos percebeu o perigo. “Um homem de 50 anos abordou-a. Como se viam através da câmara do smartphone, pediu-lhe que se despisse. Ficou muito assustada, mas felizmente contou o que se tinha passado. Se se tratasse de uma rapariga mais vulnerável, com um contexto familiar de risco, poderia ter acedido ao pedido”, conta a psicóloga Ivone Patrão, autora do livro #Geração Cordão – A geração que não desliga!. A especialista defende que se deve fazer uma socialização digital desde muito cedo. “As tecnologias devem ser introduzidas de forma segura na vida das crianças, com regras e transparência. Deve fomentar-se que falem sobre o que fazem online para que os pais e educadores as possam ir alertando para os perigos”, refere.

Tecnologias fora de controlo

Ficar em casa pode ser um convite a usar o tablet, a televisão ou o computador sem limites. “Estar muitas horas em frente ao ecrã de um tablet ou computador não só afecta o desenvolvimento cerebral (pode tornar-se um vício), como a socialização”, explica Ivone Patrão. Até à idade adulta – explica a especialista – treina-se muito a interacção social. Se esta for exclusiva ou maioritariamente digital, essas crianças e adolescentes não estarão preparados para lidar no futuro com reuniões de trabalho ou conflitos com o namorado ou marido. “As nossas crianças não estão a desenvolver o toque e a capacidade de contacto com outros”, afirma. Mais: ao não terem limite sobre a utilização de computadores, tablets ou televisões, correm também o risco de aceder a conteúdos inadequados para a sua faixa etária, seja pornografia ou drogas. Apesar de tudo, Ivone Patrão considera que a televisão envolve menos riscos no que diz respeito à socialização e desenvolvimento. “É um meio menos interactivo do que a Internet. Quando estamos online, podemos sempre fazer mais pesquisas e receber mais input através de chats. Diante de um televisor assumimos uma posição mais receptora de informação.”

Jogos perigosos

A ausência de supervisão pode também levar os mais novos a envolverem-se em jogos como a Baleia Azul. Nos últimos dois meses, as comissões de protecção de menores registaram 34 casos com eventuais ligações ao fenómeno que incita ao suicídio e à automutilação e que se espalhou através das redes sociais. “Mesmo que a criança esteja com os pais ou outro elemento da família o risco mantém-se”, defende a psicóloga Raquel Ferreira, da clínica BRD Teen.

Fotografias ousadas nas redes sociais

Há quem aproveite para publicar ou enviar fotos a amigos e desconhecidos – em poses ousadas ou sem roupa –, sem ter noção das consequências. Um dos pacientes de Ivone Patrão contou-lhe que enviou imagens suas, “comprometedoras”, a uma rapariga que conheceu na Internet. Queria conquistá-la, mas acabou por ser vítima de cyberbullying: se ele não lhe desse dinheiro, ela enviaria as fotos à família e aos amigos. “Ele decidiu não ceder e contou tudo aos pais que valorizavam a sua iniciativa de admitir o que sucedera”, diz a psicóloga. E acrescenta: “Era um jovem de 22 anos, mas podia ter acontecido a um adolescente ou pré-adolescente”.

Ansiedade e medo

Se não tiverem sido preparados pelos pais (ver caixa) e não tiverem ainda autonomia suficiente para se sentirem bem sem a presença de um adulto, os miúdos podem sentir-se desamparados. “Se for uma criança muito protegida e insegura, será incapaz de estar sozinha e provavelmente entrará em stress”, explica Vera Ramalho, salientando a importância de os pais avaliarem a responsabilidade, a capacidade de compreensão de regras e maturidade dos filhos antes de os deixarem sem supervisão.

Posts de pais e professores

“Muitos adultos esquecem-se de que também são modelos digitais para os mais novos. Por isso, devem ter cuidado com as partilhas nas redes sociais”, alerta Ivone Patrão. Se um pai ou uma mãe publicar fotos ousadas – mesmo que sejam só de rosto – ou fizer publicações diárias sobre os locais onde está, as crianças e adolescentes quererão fazer o mesmo, diz a especialista. O mesmo acontece se perceberem que o adulto leva o telefone para o quarto e o utiliza antes de adormecer. “Estas situações geram uma certa ambivalência e perda de autoridade parental”, explica Ivone Patrão, frisando a importância de estabelecer regras de utilização dos dispositivos electrónicos.

Artigo originalmente publicao na edição 694 de 17 de Agosto de 2017.

 

 

 

 

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“Se eu morresse e vivesse outra vez podia ser um menino normal

Novembro 3, 2017 às 1:03 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.publico.pt/ de 2 de novembro de 2017.

Ana Dias Cordeiro

Quando a avó Laurinda chegou para o ir buscar, à Divisão de Investigação Criminal da Polícia Judiciária (PJ) de Setúbal, o menino estava muito magro, sujo e mal vestido. Passara lá o dia todo. O raide à casa onde oito adultos abusaram sexualmente de oito crianças, durante quase dois anos, tinha acontecido às primeiras horas da manhã desse dia 25 de Junho de 2015, quando “todos dormiam”.

Renato destacou-se dos outros meninos, porque deu pulos na cama dando vivas aos polícias ao mesmo tempo que dizia “estamos salvos, estamos salvos”, soube a mãe Vanda, que se constituiu assistente do processo.

O seu mundo não ruiu de uma vez — desabou aos poucos. Primeiro com as revelações de que o filho vivera com o pai numa casa onde este último era um dos principais suspeitos de abusos. Nessa altura, Vanda vivia e trabalhava no Algarve e via o filho de forma muito espaçada. Nesse mês de Junho de há dois anos — quando o ex-marido e outros dois principais arguidos ficaram em prisão preventiva — começou por pensar que Renato tinha sido poupado ao que de mais violento se passava na casa onde festejou os cinco anos.

Mais tarde, imaginou que ele poderia ter sido exposto para fins de pornografia infantil, mas não abusado fisicamente — a acusação veio a confirmar que o foi “um número indeterminado de vezes”. Depois das perícias na PJ, Renato fez declarações para memória futura no tribunal e foi ouvido para perícias psicológicas no Instituto Nacional de Medicina Legal (INML).

Pedidos de ajuda

Desde o início, Vanda bateu a várias portas a pedir apoio psicológico para o filho então com seis anos. A Comissão de Protecção de Crianças e Jovens (CPCJ) da Lourinhã, onde então Vanda passou a residir com Renato e a filha mais velha, não tinha psicólogo. Formalmente, quando isso acontece, a CPCJ reencaminha o pedido para o centro de saúde ou para a câmara municipal, explica a secretária (adjunta da presidente) desta CPCJ, Sara Gonçalves. Porém, acrescenta, a CPCJ não pode avançar com qualquer iniciativa formal “sem o consentimento de ambos os pais”. A mãe deu consentimento e pediu ajuda. O pai estava preso e não chegou a autorizar.

Perante a insistência de Vanda, a CPCJ aconselhou-a informalmente a tentar ela própria uma consulta num dos dois locais — centro de saúde ou câmara municipal —, o que não lhe foi garantido por falta de recursos e obrigatoriedade de ficar em lista de espera. Nenhuma entidade teve em conta a excepcionalidade da situação de Renato.

Só em Novembro de 2015, quando exigiu, no Hospital de Torres Vedras, que o filho fosse acompanhado, ameaçando com “um escândalo na televisão”, conseguiu marcar consulta. Tinham passado cinco meses do fim dos abusos. Renato começou a ter apoio psicológico regular mas pouco frequente — de três em três semanas, em média.

“O apoio psicológico devia ter sido coordenado pelas várias entidades que tinham conhecimento do processo”, considera Vanda. “Eles são responsáveis sem serem responsáveis, porque não está nada escrito sobre quem deve providenciar esse apoio. Se deve ser a PJ, o Instituto de Medicina Legal, o tribunal, a Segurança Social.”

Respostas desarticuladas

Na realidade, essa responsabilidade não está definida. “O que falha aqui é não haver uma entidade que tenha a responsabilidade de fazer a avaliação das necessidades da criança”, sublinha Cristina Soeiro, psicóloga forense e responsável da Escola de Psicologia da PJ. “Não existe um procedimento estruturado, e é importante que exista. É preciso melhorar e aumentar as respostas integradas dos vários serviços.”

Na resposta ao PÚBLICO sobre um eventual dever de informação às vítimas sobre a possibilidade de serem apoiadas, a Direcção Nacional da PJ remete para o artigo do Código de Processo Penal que determina que “a direcção do inquérito cabe ao Ministério Público, assistido pelos órgãos de polícia criminal”, e estes “actuam sob a directa orientação do Ministério Público e na sua dependência funcional”. Nem o Instituto da Segurança Social nem o Tribunal de Setúbal, a quem foram dirigidas perguntas semelhantes, responderam em tempo útil.

Os apoios são locais e variam de local para local, confirmam dois magistrados do Ministério Público. Existem associações, como a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV), que tentam colmatar essas faltas no sistema há vários anos. Em Janeiro de 2016, lançaram a rede CARE – Rede de apoio especializado a crianças e jovens vítimas de violência sexual.

Porém, foi junto da CPCJ da Lourinhã que Vanda reforçou o pedido de acompanhamento psicológico de Renato, quando ouviu da boca do próprio filho, no dia 26 de Outubro de 2015, o que realmente tinha acontecido. Voltavam da perícia psicológica no INML, em Lisboa. “Íamos no carro, e ele contou-me o que lhe faziam.”

Disse-o “como se não se passasse nada”, lembra Vanda. “E isso é do pior que pode acontecer.” É sinal para a mãe de que o indizível, agora, terá mais tarde um efeito devastador. “Ele lembra-se de tudo, sabe tudo, apenas não atribui a gravidade certa aos actos” que sofreu. “É difícil explicar a uma criança impedida de falar durante tanto tempo que deve contar o que se passou com ela. Acredito que o meu filho ainda esteja a viver os efeitos da lavagem ao cérebro que lhe fizeram para não falar”, diz Vanda.

Proteger a mãe

Ele fala mais livremente com Laurinda, confirma Vanda, como se pressentisse que a avó tem mais capacidade para aguentar o que ele tem para dizer. “Ele diz que não quer ver a mãe triste.”

Quando recebeu em casa a acusação, Vanda não foi capaz de a ler. O companheiro leu por ela, chorou durante horas e implorou-lhe que não lesse. Um dia, diz Vanda, terá de o fazer. Pelo filho.

Sabe em traços gerais o que levou o Ministério Público a proferir a acusação em Junho de 2016, um caso com crianças muito pequenas (entre cinco a 14 anos) e adultos que agiram em grupo, o que faz deste, de acordo com uma fonte conhecedora do processo, “um caso muito grave” no qual os agressores têm muitos factores de risco, de reincidência: oito arguidos foram acusados por centenas de crimes de abuso sexual de crianças, crimes de violação agravada, actos sexuais com adolescentes, crimes de pornografia de menores agravada e lenocínio agravado.

O principal arguido, líder da suposta seita “Verdade Celestial” que obrigava as crianças a manterem relações sexuais com ele e os outros adultos, sob pena de serem amaldiçoadas ou de algo muito grave acontecer às suas famílias, apresentava-se como “purificador”, lê-se no despacho de acusação. Considerava que, para serem purificadas, “as crianças não deveriam ter mais de 12 a 14 anos”. Quando com ele tinham sexo oral ou anal, e a criança começava a chorar, tapavam a boca à criança para abafar o som, diz ainda o documento numa referência a abusos filmados e cujas imagens foram encontradas no vasto material informático apreendido.

“Tu salvas-me, avó?”

Nos primeiros meses, a viver com a mãe, e depois com a mãe em casa da avó, Renato tinha muitas vezes o sono assombrado por medos e pesadelos. Gemia e chorava, acordava a suplicar, em voz alta, para ser salvo.

Ainda hoje, acontece por vezes acordar assustado: “Larguem-me, não me agarrem.” E quando acontece, ele implora, ainda adormecido: “Não me levem daqui.” E já acordado: “Tu salvas-me, avó?’”

O que se passará na cabeça dele?, interroga-se a mãe. “Ele não quer lembrar-se, está a guardar tudo lá dentro. Meteram-lhe na cabeça que aquilo era normal. Mas já conseguimos que ele abrisse a caixinha. Disse-me que o pai o obrigava a beber cerveja. Eu tento não pensar nisto numa base diária. Mas é difícil”, diz Vanda. Interrompe a entrevista, pede para continuar noutro dia.

Laurinda fala sem vacilar. “Isto é um pesadelo. Enquanto o julgamento não terminar, o meu neto não está livre de que o chamem”, diz. “Então as crianças não merecem ter paz de espírito? Os pais não merecem ter paz de espírito? E saberem que os responsáveis vão pagar pelo mal que fizeram?”, interroga-se, indignada.

O julgamento decorre desde Janeiro de 2017 no Tribunal de Setúbal. As alegações finais, que antecedem a última sessão na qual é feita a leitura do acórdão, foram adiadas pela quarta vez, souberam os advogados na última segunda-feira. Não apenas por razões de saúde do juiz que preside ao colectivo. Também porque as perícias psicológicas dos arguidos, pedidas pelos advogados de defesa ao INML, ainda não foram entregues ao tribunal. As que foram feitas por psicólogos forenses da PJ não são aceites pela defesa.

Foi difícil dizer ao menino, então com seis anos, que o pai ia ficar preso: “Quando ele perguntava, dizíamos-lhe: ‘O pai ainda está lá com os polícias’”. “E ele não pode falar comigo?”, perguntava. “Ele está de castigo, tiraram-lhe o telefone.”

O Código de Processo Penal prevê uma duração máxima de prisão preventiva até três anos e quatro meses, em processos de “excepcional complexidade, devido, nomeadamente, ao número de arguidos ou de ofendidos”. Os três principais acusados neste processo estão presos preventivamente há quase dois anos e meio.

Repreender de forma instrutiva

“Só quero que ele tenha uma vida em que seja feliz. Uma vida normal na visão que ele terá da vida. Se for homossexual, que seja feliz na sua homossexualidade. Vivo com o medo que ele se meta nas drogas, ou a roubar, ou noutras coisas…”

No mês passado, Renato surpreendeu a avó: “Sabes uma coisa? Eu gostava de morrer. Se eu morresse e vivesse outra vez, podia ser um menino normal.” Laurinda não ficou sem palavras e disse-lhe que ele é uma criança como as outras. “Mas como é que eu digo ao menino que é normal o que lhe aconteceu?”, desabafa agora.

“Temos de saber a todo o momento agir com ele para que não sofra”, salienta Vanda. “Não podemos ser demasiado permissivos nem demasiado rígidos. Temos de o educar como a qualquer outra criança, mas ele não é como qualquer outra criança. Quando é preciso, tem de ser repreendido. E nós repreendemos, instrutivamente.”

Renato é muito pequeno, come muito mas continua magro. Como se o desenvolvimento físico tivesse parado pelo que se passou, diz a mãe. Durante meses, passou fome. Os agressores preferiam as crianças magras, lê-se na acusação.

Hoje com oito anos e meio, Renato frequenta o 3.º ano do ensino básico, nunca chumbou e não revela problemas de comportamento. “Quando ele começar a ter noção do que lhe fizeram e que o pai não o protegeu, como vai ele reagir?”, questiona-se a avó. Não tem esperanças, tem dúvidas: “Como vai ele crescer?”

Vanda e Laurinda vivem numa corrida contra o tempo, sem saberem em quantos pedaços ficou a vida do menino, a sua infância, o seu desenvolvimento, a sua confiança no mundo e nos outros.

“Se não queria deixar o filho com a mãe, que não tinha condições económicas, não teria sido melhor deixar com os seus pais, os avós paternos, do que vender o filho?”, indigna-se Laurinda. Lembra que Renato “vinha muito mal”. Mesmo tão pequenino, “gritava e era agressivo”.

Ele tem melhorado porque tem a família, a ligação familiar, dizem ambas em entrevistas em separado. “Brinca, vai à praia, come gelados, não pode comer doces”, diz Laurinda, rindo. “É o trivial numa família normal, com cães, gatos, carinhos, mimos e castigos quando se porta mal. Ele não sabia que tinha tanta família. Não sabia que podia ser tão feliz.”

Renato, Vanda e Laurinda são nomes fictícios

 

 

 

Os efeitos irreversíveis do bullying e o perigo de dizer “é coisa de criança”

Novembro 3, 2017 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do https://brasil.elpais.com/ de 21 de outubro de 2017.

É necessária uma reflexão profunda, uma revisão dos modelos com os quais educamos nossos filhos

Olga Carmona

É com uma assiduidade assustadora que ouvimos notícias de um menino ou uma menina que são hospitalizados por terem sido vítimas de maus tratos na escola –o bullying.

É preciso chegar ao extremo de uma situação em que a vida de uma criança corre risco, seja por conta de um espancamento, seja por uma tentativa fracassada de suicídio, para que, levados pelo horror e pela incompreensão, pensemos sobre o velho discurso do “é coisa de criança” que nós, adultos, produzimos ao mesmo tempo em que desviamos os olhos para outra coisa qualquer. “A vida inteira sempre foi assim”, “sempre houve e sempre haverá fortes e fracos”, “não se meta nisso”, “se te pegarem, devolve na mesma moeda”…

Um empurrão súbito e que se repete. Um xingamento ao entrar na classe, uma risada de zombaria com o dedo indicando a vítima, um apelido humilhante – tudo isso se chama violência. Chama-se mau trato entre iguais.

A ONG Save the Children, voltada para a infância, tem a seguinte definição: “A violência contra a infância é definida como a ação ou a omissão que produz dano e que ocorre em uma situação de impossibilidade de defesa ou de desequilíbrio de forças”. O bullying é o mau trato físico e/ou psicológico deliberado e contínuo no tempo recebido por uma criança ou adolescente da parte de outros, com o único objetivo de prejudicá-lo e submetê-lo, a fim de alcançar um objetivo determinado ou simplesmente para satisfazer o impulso violento do agressor. Pode significar silêncio, ameaças, agressões físicas, gozações, rechaço, exclusão. Costuma ser iniciado e liderado por uma outra criança e seguido por um grupo de cúmplices, que se tornam necessários. Algumas têm parte ativa, seguindo as instruções do agressor, enquanto os demais, a grande maioria, preferem olhar para outro lado a fim de “não se meter com problemas”. A vítima se sente só e muito indefesa, enquanto os adultos referenciais, ou seja, pais e professores dão pouca importância às queixas da criança agredida ou nem sequer ficam sabendo do ocorrido.

É verdade que o assédio escolar sempre existiu e que suas causas não se alteraram muito com o passar do tempo. Ataca-se o diferente: a criança que usa óculos, o gordinho, o estudioso, o mais fraco. As estatísticas mostram, porém, um aumento importante do número de casos e a existência de uma nova forma de assédio que só poderia mesmo existir nos dias de hoje e que deixa a vítima sem qualquer escapatória: o assédio cibernético.

São inúmeras as causas do bullying. Ambientes socioeconômicos e culturais mais carentes são mais propensos a ele, bem como a exposição das crianças e adolescentes a conteúdos audiovisuais violentos, a ausência dos pais na educação ou a existência de pais violentos. Simplificando bastante, pode-se dizer que a causa mais propícia ao surgimento da conduta violência é uma educação principal calcada na ausência de limites, basicamente punitiva, por meio da qual se castiga mediante ameaças, intimidações, ou agressão física direta, e a partir da qual a criança interioriza que a violência é uma forma aceitável para se atingir um objetivo. Um menino educado à base de violência física ou psíquica aprenderá de forma inconsciente a vê-la como algo normal, e sem dúvida a exercerá contra os outros.

O agressor não aprendeu a gerar empatia nem foi educado à luz da ética e dos valores necessários para se respeitar as diferenças. Costuma ter autoestima fraca, que requer reforços vindos de fora (daí a necessidade de exibir os maus tratos). Tende a ser impulsivo, egocêntrico, com resultados escolares ruins. Pelas estatísticas, tem grande chance de que provenha de um ambiente sociocultural inferior.

Como educadores e pais, temos de estar atentos para uma série de sintomas por meio dos quais podemos detectar quando uma criança está sendo vítima de assédio:

– Mudanças de comportamento, tais como ansiedade, tristeza, irritabilidade, apatia, insônia, pesadelos, verbalização de culpas, comportamentos de fuga, perda de autocontrole, choro frequente, recusa em ir à escola, queda brusca do rendimento escolar, somatizações como dor de cabeça, de barriga, vontade de vomitar.

– Não quer participar de excursões ou atividades da escola.

– Não se relaciona com seus colegas.

As consequências do assédio escolar são devastadoras. À opinião pública chegam apenas os casos que acabam em um hospital ou cemitério, mas não os outros, aqueles em que a criança sobrevive aos maus tratos com sequelas que, em alguns casos, perduram para o resto da vida. Sequelas que destroem a autoestima da vítima, afetando seu rendimento escolar, suas relações presentes e futuras, sua visão de mundo. A maioria das crianças que sofreram assédio escolar apresentam Transtorno por Estresse Pós-traumático (TEPT), Ansiedade Generalizada, tendência à depressão. Cabe acrescentar que os efeitos não se limitam ao momento presente da vítima, contaminando sua infância de forma irreversível. Eles avançam para sua vida adulta, como demonstram vários estudos, cujas conclusões atestam uma relação entre o estresse sofrido a partir do assédio escolar e a tendência a contrair doenças físicas (doenças metabólicas e cardiovasculares) e psiquiátricas, como transtornos de alimentação, uso abusivo de álcool e outras substâncias tóxicas, depressão e até mesmo alguns tipos de cânceres.

É preciso haver uma reflexão profunda, uma revisão dos modelos nos quais educamos os nossos filhos. Os casos de assédio em que o agressor tem uma personalidade disfuncional ou algum transtorno psiquiátrico constituem exceções. Na maioria dos casos, trata-se da expressão de um sintoma, a ponta do iceberg de uma sociedade desconectada, individualista e egocêntrica que educa com base na filosofia do “não tenho nada a ver com isso” e que procura, acima de qualquer outro valor, apenas a comodidade. Uma sociedade que deixa os filhos sozinhos, para que outros os eduquem para nós, que não tem tempo para eles, que vive desconectada de si mesma e dos demais e que banalizou o uso de formas sutis de violência para se atingir uma finalidade.

Quero encerrar com algumas palavras extraídas da carta que Diego, 11 anos, vítima de assédio escolar, deixou aos seus pais antes de cometer suicídio:

“Por favor, espero que vocês um dia possam me odiar um pouquinho menos”.

 

 

 

A primeira adaptação de “O Diário de Anne Frank” a banda desenhada

Novembro 3, 2017 às 6:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Notícia do blog https://bertrandptsomoslivros.blog/

Anne Frank escreveu as primeiras linhas do seu famoso diário há 75 anos e o seu pai, o seu primeiro editor, publicou-o cinco anos depois. Para celebrar estas duas efemérides, este ano foi editada a primeira adaptação em banda desenhada de O Diário de Anne Frank. Com texto do argumentista e realizador Ari Folman e ilustrações de David Polonsky, a nova versão teve como base os textos originais de Anne e foi aprovada pelos descendentes da jovem escritora.

Anne nasceu a 12 de junho de 1929 em Frankfurt, na Alemanha, no seio de uma família judaica. Em 1933, depois da subida ao poder dos nazis, a família mudou-se para Amesterdão. Depois de dois anos escondidos num anexo, os Frank foram descobertos e detidos. Anne Frank morreu pouco mais de um ano depois, em março de 1945, no campo de concentração de Bergen-Belsen, para onde foi levada.

O seu diário, escrito durante o período de reclusão, tornou-se numa das obras de não ficção mais lidas de todos os tempos. A primeira adaptação gráfica chega às livrarias de todo o mundo já neste mês de setembro. A edição portuguesa, com chancela da Porto Editora, sai já no próximo dia 21 de setembro.’

Veja aqui o vídeo.

Notícia via: http://observador.pt/2017/09/18/porto-editora-publica-primeira-adaptacao-grafica-do-diario-de-anne-frank/

 

 


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