A infância roubada das “crianças de fábrica”

Outubro 31, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do site  https://www.swissinfo.ch/por/ de 18 de outubro de 2017.

Durante a industrialização, inúmeras crianças na Suíça trabalharam nas fábricas até caírem de cansadas. A proibição só veio graças ao esforço de um “outsider” político.

“Procura-se: duas famílias numerosas de trabalhadores, especialmente com crianças aptas ao trabalho, para trabalhar em uma fábrica de fiação”.

Com este anúncio no jornal “Anzeiger von Uster”, um industrial suíço procurava funcionários na década de 1870. Era evidente que as crianças das famílias operárias tinham que contribuir com a sua força de trabalho. O trabalho infantil não começou com a industrialização, mas deixou de ser algo do cotidiano para se tornar uma verdadeira exploração de mão-de-obra barata.

Agricultores e trabalhadores domésticos viam seus filhos como trabalhadores já antes da revolução industrial. A família era predominantemente uma comunidade de trabalho; era essencial que os mais jovens também trabalhassem. Assim que uma criança era grande o suficiente para cooperar, ela tinha de ajudar na fazenda ou oficina. Ao mesmo tempo, o trabalho árduo era tarefa dos adultos. Via de regra, as crianças faziam apenas os trabalhos que correspondiam às suas possibilidades. Elas não eram consideradas uma força de trabalho de total competência.

A industrialização descobre as crianças

A industrialização atravessou a Suíça a todo vapor. No século XIX, houve uma mudança de cenário – dos campos para a fábrica – mas ainda se considerava a criança como força de trabalho. Aí começou a exploração real: em contraste com o trabalho na agricultura, na indústria não havia diferença se o trabalho era desempenhando por um adulto ou criança. Afinal, não era preciso muita força física para alimentar a máquina de tecelagem.

Muitas destas “crianças de fábrica” trabalhavam nos teares e máquinas de bordar. As fábricas da indústria têxtil estavam localizadas principalmente na Suíça Oriental e no cantão de Zurique. Ao longo do rio Aabach, entre o lago de Pfäffikon (Pfäffikersee) e o lago Greifen (Greifensee), foi criado um conglomerado da indústria têxtil e, desta forma, de trabalho infantil. Quase um terço dos trabalhadores nessas fábricas tinham menos de 16 anos.

Algumas famílias tinham seu próprio tear ou uma máquina de bordar em casa, de onde trabalhavam por encomenda para as grandes empresas têxteis. As crianças também eram empregadas nessa tarefa caseira.

Trabalho do início até o final do dia

O destino dos filhos e filhas de uma família de trabalhadores têxteis, seja em uma fábrica ou nos trabalhos domésticos, logo foi selado. Eles praticamente não tinham como se desenvolver de acordo com sua própria vontade. Ainda na mais tenra idade, passavam a maior parte do tempo no trabalho monótono em casa ou na fábrica, raramente na escola e brincar era praticamente impensável.

Aos seis anos algumas crianças já trabalhavam para a indústria têxtil, em grande parte como auxiliares de bordador. Enfiar as linhas na agulha era então uma tarefa demorada, que exigia dedos mais finos e por isso era realizada principalmente por mulheres e crianças.

Quando eles chegavam à idade escolar, era normal que passassem até seis horas por dia enfiando linhas nas agulhas – no início da manhã antes da escola, ao meio-dia e depois da escola até tarde da noite.

Trabalho infantil como fator econômico

Tanto trabalho teve um impacto natural na saúde infantil. Os inspetores notaram as costas tortuosas, os olhos ruins e a impressão cansada e sem força das crianças. Um pastor de Appenzell-Ausserrhoden escreveu em 1905 sobre a vida de crianças trabalhadoras, cuja sobrecarga levou-as a estarem “cansadas, sonolentas, opacas, mental e fisicamente adormecidas. Elas eram desatentas e desinteressadas, dispersas e indiferentes a tudo”.

A exploração das crianças da classe operária tinha um sistema, mas não se tratava de maldade ou ignorância. Por causa dos salários baixos, as famílias dependiam muitas vezes dessa renda adicional. Além disso, na virada do século, o filho de uma família de trabalhadores, artesãos ou camponeses, tinha uma posição muito diferente da de hoje. Para os pais, ele era principalmente uma força adicional de trabalho.

Os empresários, convenientemente, viam nas crianças uma reserva ideal de mão-de-obra barata. Com este argumento econômico, muitos liberais defendiam o trabalho infantil. Victor Böhmert, importante economista da época, recomendou que as fiações “deveriam funcionar com trabalho infantil e trabalho feminino com baixos salários” como uma forma de enfrentar a concorrência internacional.

Vozes críticas

No final do século XIX as críticas aumentaram e o trabalho infantil foi reconhecido como um problema sério. Mesmo Böhmert, o economista citado acima, já tinha suas reservas. Ele descreveu o trabalho infantil como um “aspecto negativo preocupante do moderno mundo fabril”.

Hoje surpreende que as críticas ao trabalho infantil tenham vindo da burguesia e não das próprias famílias trabalhadoras. Afinal, elas tinham medo de não sobreviver sem a renda extra de seus filhos. Embora muitos políticos da burguesia tenham reconhecido o problema, pouco fizeram para mudar a situação. Foi na verdade um político independente quem desencadeou esse processo.

Indivíduo com missão social

Em 1867, o deputado federal Wilhelm Joos, sem partido, deu o primeiro passo ao apresentar um projeto de lei para o trabalho nas fábricas. Originário de Schaffhausen, Joos era conhecido por seu compromisso com os mais pobres. Era uma época em que essas posições eram vistas com grande desconfiança pelo poder local. Visto na época como uma figura obstinada, hoje ele é considerado um político visionário.

Quando Joos apresentou o primeiro projeto de lei nacional, alguns cantões já tinham leis que regulavam o trabalho nas fábricas, incluindo o trabalho infantil. Porém os empregadores eram muitas vezes muito negligentes e as regras diferenciavam-se muito entre os cantões.

A proposta de Joos de lançar uma lei federal demorou para dar frutos. Em 1877, dez anos depois da proposta original, a Suíça finalmente adotou sua primeira lei trabalhista de amplitude nacional. Com isso o trabalho infantil também foi proibido. Essa primeira lei trabalhista da Suíça era uma das mais rigorosas do mundo. O ex-conselheiro federal socialista Hans-Peter Tschudi chamou-a de uma “conquista pioneira em escala internacional”.

Trabalho infantil de acordo com a nova lei

Teoricamente, as crianças deveriam ter desaparecido das fábricas. Até a nova lei ser respeitada em toda a Suíça, levou algum tempo. No Ticino, por exemplo, 20 anos após a sua entrada em vigor, as crianças ainda trabalhavam nas fábricas.

De toda maneira, o trabalho infantil pouco a pouco desapareceu, pelo menos nas fábricas. Na agricultura a situação era diferente: ela durou até boa parte do século 20. Muitas famílias camponesas mantiveram ainda por cima crianças escravas, as chamadas “Verdingkinder” (ver box abaixo). Este capítulo sombrio da história suíça só foi revisado adequadamente há alguns anos.

Suíços pagam por trabalho infantil no exterior

Desde então não há mais trabalho infantil na Suíça. Mas sempre há casos de empresas suíças acusadas de se beneficiar do trabalho infantil no exterior. O exemplo mais recente ocorreu com o grupo de cimento Lafarge Holcim, acusado de comprar matérias-primas na África Oriental extraídas por crianças.

Uma iniciativa de responsabilidade corporativa exige agora que essas empresas sejam responsabilizadas. Seus iniciadores defendem que empresas suíças atuantes no exterior cumpram as leis suíças também em outros países. Uma demanda controversa: a adoção de uma iniciativa semelhante poderia prejudicar a Suíça como centro econômico internacional, conforme predizem alguns analistas econômicos.

“Verdingkinder”, as crianças escravas

Em sua maioria originárias de famílias pobres, mães solteiras ou órfãs, essas crianças eram colocadas (às vezes à força) sob a guarda das autoridades até serem despachadas para famílias de acolho, geralmente em fazendas. Ali elas eram frequentemente tratadas como escravas e usadas para trabalho forçado sem pagamento. De acordo com diversos testemunhos da época, elas eram exploradas, humilhadas e até violadas. Algumas inclusive foram mortas.

Trecho de uma redação escolar de um menino de 12 anos. Ele descreve seu cotidiano de operário, enfiando linhas nas agulhas dos teares, nos anos 1880.

“Assim que me levanto pela manhã, tenho que descer as escadas até o porão, para começar minha jornada. São mais ou menos cinco e meia da manhã. Aí eu tenho que enfiar as linhas nas agulhas dos teares até as sete horas e só então tomo o café-da-manhã. Depois volto ao trabalho até a hora de ir para a escola. Quando a escola termina, às onze horas, vou para casa e volto para as agulhas até às doze horas. Almoço e volto a trabalhar até pouco antes de uma da tarde. Retorno à escola, onde aprendo muitas coisas úteis. Quando chego em casa, trabalho até escurecer. Aí janto. Depois da janta, trabalho novamente até as dez da noite. Às vezes, quando o trabalho é urgente, fico até às onze da noite no porão. Depois digo aos meus pais boa noite e vou dormir. É assim todos os dias.

Adaptação: Flávia C. Nepomuceno dos Santos

 

 

Há jovens que enviam mensagens agressivas a si próprios na Internet, revela estudo

Outubro 31, 2017 às 1:30 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.publico.pt/ de 30 de outubro de 2017.

Karla Pequenino

Investigadores americanos acreditam que o problema está por trás de alguns casos de suicídio

Por vezes, quem é alvo de mensagens ofensivas na Internet é também quem as escreve e envia a si próprio, sob pseudónimo. O problema existe, pelo menos, entre jovens. Um grupo de investigadores norte-americanos revelou que cerca de um em cada 20 adolescentes (entre os 12 e os 17 anos) envia mensagens agressivas a si mesmo. O alerta vem num estudo publicado esta semana na revista cientifica Journal of Adolescent Health.

“O autoflagelo digital [digital self-harm, no original], como chamamos à tendência, ocorre quando um individuo cria uma conta anónima online e a utiliza para enviar insultos e ameaças a si próprio”, explica ao PÚBLICO Sameer Hinduja, um investigador em cyberbullying da Universidade Atlântica da Florida, que participou no estudo.

O problema, explica, veio à tona em 2013, após o suicídio de uma jovem britânica de 14 anos. A morte de Hannah Smith foi inicialmente associada ao bullying que sofria através do site de mensagens Ask.fm, onde lhe escreviam “morre, toda a gente ficará mais feliz” ou “faz-nos um favor e mata-te”. Porém, uma investigação posterior concluiu que 98% das mensagens de ódio recebidas tinham sido enviadas pela própria adolescente. A história de Natalie Natividad, em 2016, no Texas, é semelhante. Mas não são as únicas.

Dos 5593 jovens americanos inquiridos pela equipa de Hinduja, mais de 300 (6%) admitiu já ter enviado mensagens agressivas a si próprio. Metade (51,3%) disse que apenas o tinha feito uma vez, mas 13,2% admitiu fazê-lo múltiplas vezes.

Para Hinduja é uma percentagem relevante. “Os pais já não podem ignorar a possibilidade de que uma mensagem ofensiva recebida pelos seus filhos tenha vindo dos seus próprios filhos”, frisa o investigador. “Sempre que um jovem experiencie cyberbullying, há um problema que tem de ser resolvido. Especialmente se o emissor e o receptor forem a mesma pessoa.”

Os motivos variam: desde jovens que o fazem como uma forma de diversão, a pessoas que querem testar a reacção dos amigos, ou casos de indivíduos deprimidos que se querem obrigar a sentir pior. “Os estudantes que admitiram estar deprimidos, ou que se magoavam de outras formas [fora da Internet], tinham uma maior probabilidade de incorrer no comportamento”, nota Hinduja.

A idade e a etnia dos inquiridos não afectou as respostas, mas o género e a sexualidade, sim. O comportamento era mais prevalente em adolescentes que não se identificam como heterossexuais, e pessoas que tinham sido vítimas de bullying no passado. Os rapazes também tinham mais probabilidade de enviar mensagens ofensivas a si próprios, mas era frequentemente como uma piada ou forma de conseguir atenção de amigos ou interesses amorosos.

Já o local das ofensas – Facebook, Instagram, Twitter, Ask.fm ou outra rede social – não é relevante para o investigador: “Não acho que faça a diferença. De momento não sei se acontece mais numa plataforma que noutra, apenas que está a acontecer e que os estudantes admitem que o fazem.”

Segundo o relatório dos investigadores, “entre 13 e 18% de jovens em todo o mundo envolve-se em algum tipo de comportamento para se magoar durante a sua vida e este tipo de comportamento continua a crescer nas últimas duas décadas”. Para Hinduja, as agressões verbais, através da Internet não podem ser descuradas.

“Estas investigações mostram que comportamentos autodestrutivos vêm antes de tentativas de suicídio”, frisa Hinduja. “Queremos impedir que isto aconteça, e é por isso que estamos a tentar alertar para o problema das ofensas autodirigidas através do mundo digital”.

 

 

 

Crianças com ganho persistente de peso têm melhor qualidade óssea

Outubro 31, 2017 às 12:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do http://ispup.up.pt/ de 20 de outubro de 2017.

O aumento persistente de peso desde o nascimento até aos 7 anos de idade associou-se com uma melhor qualidade do osso das crianças, conclui um estudo desenvolvido por investigadores da Unidade de Investigação em Epidemiologia (EPIUnit) do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto (ISPUP).

“A qualidade óssea é, em grande parte, conservada desde as primeiras décadas de vida. Por isso, a infância é hoje encarada como um período de oportunidade para intervir em fatores modificáveis que possam promover melhor saúde óssea, com a finalidade de prevenir fraturas de fragilidade (osteoporóticas) na vida adulta”, diz Teresa Monjardino, primeira autora do estudo, coordenado pela investigadora Raquel Lucas.

Contudo, pouco se sabe sobre o impacto das trajetórias do peso da criança ao longo do crescimento na qualidade do osso durante os primeiros 10 anos de vida. Por isso, a presente investigação estudou a influência da evolução do peso de 1889 crianças da coorte Geração XXI –  projeto iniciado em 2005, que acompanha o crescimento e o desenvolvimento de mais de oito mil crianças nascidas em hospitais públicos da Área Metropolitana do Porto – nas propriedades físicas do osso aos 7 anos de idade. As crianças foram avaliadas através de densitometria óssea, sendo extraídos dados sobre a sua densidade mineral óssea.

Os investigadores identificaram quatro trajetórias designadas “ganho normal de peso”, “maior ganho de peso no início da infância”, “maior ganho de peso mais tarde na infância” e “ganho persistente de peso”.

Concluiu-se que as crianças com uma trajetória de crescimento caracterizada por “ganho persistente de peso” apresentavam um osso mais forte aos 7 anos de idade. “Não é novidade que as crianças que têm mais peso num determinado momento necessitam de mais massa óssea para responderem às exigências mecânicas. O que este estudo acrescenta é que, para além do peso numa determinada idade, também a trajetória de crescimento até atingir esse peso é determinante das propriedades do osso na infância. Estes achados indicam que é possível observar diferenças na qualidade do osso logo desde a infância, e apoiam uma abordagem de ciclo de vida à saúde óssea e às políticas de saúde para a sua promoção”.

A investigação, publicada na revista “Journal of Pediatrics”, intitula-se “Weight Trajectories from Birth and Bone Mineralization at 7 Years of Age” e foi também assinada por Ana Cristina Santos e por Teresa Rodrigues, da EPIUnit do ISPUP, e por Hazel Inskip, Nicholas Harvey e Cyrus Cooper da Universidade de Southampton (Reino Unido).

Imagem: Pixabay/ benscherjon

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/29033242

Estudantes criaram site que agrega desenhos de crianças internadas

Outubro 31, 2017 às 6:00 am | Publicado em Site ou blogue recomendado | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.noticiasaominuto.com/ de 19 de outubro de 2017.

 

Um grupo de estudantes da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP) criou uma plataforma online que agrega desenhos da autoria de crianças hospitalizadas em pediatrias de todos os distritos de Portugal.

Os desenhos ilustram a visita do papa Francisco a Fátima por ocasião do centenário das aparições, no passado dia 13 de maio.

“De fácil navegação e bastante intuitivo”, o ‘site’ está preparado para ser apresentado em cinco diferentes línguas (português, inglês, francês, italiano e espanhol) e possibilita a consulta dos desenhos através da navegação do mapa de Portugal dividido em distritos, explica a FEUP, em comunicado.

O projeto, denominado ‘Waves of Drawings’, foi desenvolvido por sete estudantes da FEUP, cinco do Mestrado Integrado em Engenharia Informática e Computação e dois do Mestrado em Multimédia, que realizaram todo o trabalho em regime extra curricular. O grafismo da plataforma ficou a cargo da ‘designer’ Emília Dias da Costa.

A FEUP esclarece que “o pontapé de saída do ‘Waves of Drawings’, projeto nacional agregador de todas as pediatrias do Serviço Nacional de Saúde (SNS), foi dado pelo Centro Hospitalar de São João”, do Porto, que coordena.

“Após ter organizado, em 2015, uma exposição de desenhos de 28 serviços de pediatria dos estados-membros da União Europeia (UE), decidiu organizar uma outra, desta vez com desenhos de todas as pediatrias do SNS, apresentada no passado mês de setembro, à presidente do Hospital ‘Bambino Gesù’, Mariella Enoc, em Roma”, refere.

O Bambino Gesú, também conhecido como o ‘Hospital do Papa’, é um hospital pediátrico tutelado administrativamente pela Secretaria do Estado do Vaticano e é considerado “um ponto de referência no tratamento de crianças não só de Roma como de toda a Itália”.

mais informações na notícia:

Pediatrias do Serviço Nacional de Saúde unidas em projeto com ADN FEUP

 

 

 

 


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