“Um bebé que mama não tem que ser pesado todas as semanas”

Outubro 2, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do http://observador.pt/ de 28 de setembro de 2017.

A presidente da Comissão Nacional Iniciativa Amiga dos Bebés e ex-ministra da Saúde, Ana Jorge, diz que há médicos que ainda consideram a amamentação um “fundamentalismo”.

Não tem que ser uma imposição, mas tem que ser uma decisão esclarecida, a de amamentar ou não uma criança. Quem o diz é a ex-ministra da Saúde, Ana Jorge, agora à frente da Comissão Nacional Iniciativa Amiga dos Bebés — a mesma que forma profissionais de saúde em aleitamento materno. Em entrevista ao Observador, Ana Jorge defende que as duas horas previstas na lei para aleitamento e acompanhamento de um bebé no seu primeiro ano de vida deviam estender-se até aos dois anos da criança. A pediatra fala, ainda, na importância da alimentação nos dois primeiros anos de vida do bebé e da necessidade de o fazer de forma concertada, em casa e nas creches. Este é, aliás, um dos temas a explorar na Conferência Internacional de Aleitamento Materno 2017, que esta sexta-feira vai ter lugar na Escola Superior de Enfermagem de Lisboa (Pólo Artur Ravara, Parque das Nações). Tanto tempo depois de se conhecerem as vantagens da amamentação, ainda assim, diz Ana Jorge, há uma grande comunidade médica que considera o aleitamento materno um “fundamentalismo”.

Qual a importância do leite materno nos primeiros anos de vida de uma criança e para a mãe?

O leite materno é o alimento essencial mais bem preparado para a alimentação do bebé, tem todas as propriedades e necessidades nutritivas até aos seis meses de idade, daí a defesa da amamentação exclusiva. Depois, deve ser consumido com outros alimentos até aos dois anos. O leite da mãe transmite defesas, protegendo o bebé contra infeções e contra algumas doenças nos primeiros meses de vida. Também protege do ponto de vista das intolerâncias alimentares, reduz as gastroenterites e as infeções respiratórias. A relação entre mãe e filho é reforçada e a recuperação do pós-parto é mais fácil para a mãe. Há estudos que mostram que há uma menor incidência do cancro da mama e de outras patologias para mulheres que amamentaram.

Há bebés que a partir dos cinco meses começam a mamar com maior frequência. Significa que é necessário introduzir outros alimentos antes dos seis meses?

Se o leite da mãe não for suficiente sim. O horário da mamada é livre e não é só a frequência da mamada que é o indicador de que necessita de outros alimentos. Se isso acontecer, a mãe deve falar com alguém para ensinar a compreender as necessidades do bebé.

Como é que os hospitais podem promover o aleitamento materno?

Sabe-se que nos primeiros dias do nascimento há uma grande sensibilidade da mãe, e haver condições dentro do hospital para a apoiar é um grande contributo para o sucesso da amamentação. É fundamental haver alguém por perto a ensinar a mãe a por o bebé no peito. Porque quando a mãe sente dor, é porque a pega está mal feita. Um bom início de amamentação significa maior sucesso. Também é importante esta profissionalização nos cursos de preparação para o parto e nos centros de saúde, que devem trabalhar em estreita ligação com os hospitais.

O que são “Hospitais Amigos dos Bebés”? Como são controlados?

Em 1991 foi assinado um manifesto internacional e os países foram aderindo. Em Portugal a primeira comissão começou em 1993 e o objetivo era que os hospitais tivessem práticas que promovessem o aleitamento materno. A nossa Comissão é composta por um grupo de profissionais que tem promovido a formação em aleitamento materno nos hospitais. Existem 15 hospitais, num total de 33 ou 34 (locais onde nascem bebés) certificados. A certificação dura três anos, findos os quais é feita uma reavaliação através de questionários feitos a profissionais e a mães, na intervenção em consultas e em salas de parto. Analisa-se tudo. Isto porque os profissionais de saúde estão sempre a rodar e ao fim deste tempo os hospitais podem ficar sem profissionais formados em aleitamento materno. Avalia-se se o bebé é colocado ao peito na primeira meia hora após o nascimento, se existe uma determinada percentagem de funcionários com a formação e o que dizem os profissionais às mães. O profissional tem que ter tempo para explicar como estimular o leite, como é que mãe e bebé acabam por estabelecer um ritmo nas mamadas, que um bebé amamentado a peito não aumenta de peso como com um biberão, que o bebé não tem que ser pesado todas as semanas, se está a crescer bem. Se não temos uma balancite! Um bebé mama conforme a sua necessidade e autoregula-se. E a cada mamada, mama quantidades diferentes. E tem que se ensinar à mãe qual o comportamento do bebé quando não está satisfeito.

Por outro lado, não considera que se está a criar a ditadura do aleitamento materno? Uma mulher não pode simplesmente optar por não amamentar?

Não tem que haver uma ditadura do aleitamento materno. A opção é livre e esclarecida da mulher. A mulher tem direito à sua opção se não quiser dar de mamar. É obrigação dos profissionais de saúde dar-lhe informação das vantagens do aleitamento materno para que tenham uma decisão consciente e sem dúvidas. Porque às vezes as mães têm medo. Há mulheres que não podem amamentar de todo por razões clínicas. Há mulheres que não têm leite. É raro, mas há. Há mulheres que conseguem dar mama três, quatro anos, outras menos tempo. A grande maioria tem leite suficiente para os bebés. Somos mamíferos e a produção do leite faz parte. Em Portugal, por exemplo, uma mulher portadora de HIV não tem indicação para fazer aleitamento materno, se estiver em África tem, porque ainda assim o risco é inferior, porque não há leite nem água potável.

Há leite fraco?

É um mito. O leite muitas vezes tem uma boa composição, a mãe pode é produzir pouco leite e daí a necessidade de vigilância, de ver como o bebé se comporta. Há sinais: como bebés inquietos ou a dormir demasiado, não evoluir no peso. Tudo tem que ser avaliado.

Há mães que deixam de amamentar porque estão cansadas e porque consideram que os bebés que bebem leite artificial dormem melhor durante a noite e não acordam tantas vezes. Verdade ou mito?

Quando as mães decidem ter um bebé, a vida muda. Sou mãe para ter que assumir que um bebé tem o seu ritmo e nos primeiros tempos têm necessidade de mamar. Mais para a frente, temos que ver se o bebé acorda porque tem necessidade de mamar ou necessidade de estar com a mãe. Hoje a vida é agitada, muitas mulheres não têm a vida facilitada. E, apesar de Portugal ser dos países com melhores leis de parentalidade do mundo, nem sempre é facilitado pelos empregadores. As mulheres que têm um trabalho precário não têm direito a uma série de licenças. Vamos ter, a curto prazo, em Portugal uma empresa que dá pausas durante o trabalho para poder tirar leite e dá espaço para guardá-lo. Isso é fundamental pelo menos até ao primeiro ano de vida. Manter as refeições de leite com o leite da mãe. Mas é preciso que os empregadores permitam que a mulher tire esse leite. Estamos a tentar despertar esta discussão pública.

Qual a diferença entre um bebé amamentado só até aos seis meses ou até aos dois anos?

Uma criança que mama tem melhores condições de saúde quando adulto. Há um grupo brasileiro que seguiu uma população ao longo de trinta anos e que percebeu essa diferença. Aquilo que defendemos é o que a Organização Mundial de Saúde defende: exclusivo até aos seis meses, não precisa de água, comida, nada… Mas, a partir dos seis meses, devem introduzir-se outros alimentos. A necessidade de leite a partir da introdução de outros alimentos vai reduzindo, se reduzir o número de mamadas reduz a produção e o desmame é mais natural. Quanto mais tempo o bebé beber leite materno, melhor. Obviamente que há um limite. Depois dos dois anos, fica à vontade das mães, mas não é essencial. As defesas estão constituídas e do ponto de vista do desenvolvimento global não é essencial, não é significativo.

A comunidade médica está recetiva a passar declarações de amamentação depois de um ano de idade e promove essa prática?

A comunidade médica não está aberta! Há uma corrente que acha que dar de mamar pode ser muito fundamentalista. Até um ano, a lei diz que as mulheres têm direito a uma redução de duas horas no dia de trabalho, não só para dar de mamar, mas também para estar mais tempo com o bebé. Há estudos científicos que indicam o quanto este acompanhamento é importante do ponto de vista cerebral. Aquilo que seria importante era que as mulheres tivessem estas duas horas para mamar e estar com os filhos, do meu ponto de vista pessoal, até aos dois anos. Mas tem que ser honesto. As mães têm que estar com os filhos.

A alimentação nos dois primeiros anos da criança não devia passar por uma estratégia concertada entre as famílias e as creches?

Portugal tem bons indicadores no aleitamento materno, na alimentação, mas somos penalizados nos relatórios internacionais por não haver uma política concertada. Queríamos discutir isso amanhã [na conferência], devia haver uma orientação nacional sobre as regras da alimentação nos dois primeiros anos de vida.

 

 

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Colóquio “Educar para o Direito” destinatários jovens dos 12 aos 21 anos – 11 de outubro no CED D. Nuno Álvares Pereira, Lisboa

Outubro 2, 2017 às 12:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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mais informações:

https://www.facebook.com/Educar-Para-o-Direito-848831975226022/

Lançamento da 11.ª edição dos Desafios SeguraNet 2017/18

Outubro 2, 2017 às 9:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Notícia do site http://www.seguranet.pt/ de 19 de setembro de 2017.

A 11.ª edição dos Desafios SeguraNet 2017/18 terá início no dia 15 de outubro, prolongando-se até 31 de maio de 2018.

Esta edição destina-se a todas as escolas, públicas e privadas, do ensino básico.

Para participar nos Desafios, as Escolas deverão efetuar o registo com o código de estabelecimento de ensino (não o código de Agrupamento).

Os utilizadores já registados só necessitam de se inscrever na nova Atividade dos Desafios.

Nos Desafios dirigidos ao 1.º ciclo do ensino básico, as turmas registadas serão, ao longo do ano, convidadas a responder a três Desafios sobre temas relacionados com a segurança digital.

No caso dos Desafios dirigidos ao 2.º e 3.º ciclos do ensino básico, as equipas de alunos e professores poderão responder a um desafio por mês e as equipas de encarregados de educação a desafios trimestrais.

Informações e registo em: http://www.seguranet.pt

O percentil do seu bebé não está na média? Calma, isso pode não ser um problema

Outubro 2, 2017 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.publico.pt/ de 20 de setembro de 2017.

Investigadores portugueses criaram tabelas de percentis adequadas à realidade portuguesa. Objectivo é conseguir diagnósticos mais rigorosos e diminuir angústias dos pais

Mariana Correia Pinto

Se durante os nove meses de gravidez o bebé se afasta da média, se o crescimento ou o peso fetal é baixo, os progenitores ficam “muito angustiados”. A gravidez, nota o investigador Ricardo Santos, “é o único momento em que os pais desejam ter um filho padronizado em vez de especial”. E, às vezes, acumulam preocupações excessivas. Foi também por isso que uma equipa de investigadores do Cintesis (Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde) se debruçou na criação de curvas de referência de crescimento fetal e peso à nascença — vulgarmente conhecidas por tabelas de percentis — adaptadas à realidade portuguesa.

O estudo, publicado no European Journal of Obstetrics & Gynecology, vem introduzir três novas curvas de referência: uma para meninos, outra para meninas e uma terceira indiferenciada para os dois géneros. Todas têm em conta as características das mulheres portuguesas. Os médicos de família e obstetras já podem descarregar gratuitamente uma aplicação (disponível apenas para Android) com esses valores. E há também uma outra possibilidade ainda mais personalizada (já lá vamos).

Estas tabelas de percentis são essenciais no acompanhamento das gravidezes. Permitem aos obstetras e médicos de família estimarem o tempo de gravidez, a data prevista do parto e diagnosticarem eventuais problemas de desenvolvimento dos fetos, nomeadamente restrição do crescimento fetal ou macrossomia fetal (excesso de peso). Esta diagnose permite identificar sintomas de doenças na gravidez como a diabetes, a pré-eclampsia, doenças metabólicas ou genéticas.

O problema, sublinha o também obstetra no Hospital de Guimarães Ricardo Santos, é que estas tabelas são excessivamente padronizadas: “Há uma busca por um padrão global que na minha opinião não existe”, disse em conversa telefónica com o PÚBLICO.

É muito fácil uma grávida obter valores que ficam fora da curva e isso “causa-lhe grandes transtornos” — quando muitas vezes nem é um problema. Ricardo Santos exemplifica: uma mulher com 1,90 metros que já vá na terceira gravidez terá sempre uma curva diferente de uma mulher de 1,55 metros, com 45 quilos e mãe pela primeira vez.

O uso das curvas de crescimento fetal é generalizado — e algo “sobrevalorizado”. Sobretudo tendo em conta as “deficiências” de algumas tabelas internacionais utilizadas. Se estas não reflectirem a distribuição da população e as suas características físicas e clínicas podem conduzir os profissionais médicos ao “sobre ou subdiagnóstico de algumas doenças”.

Para conseguir diagnósticos mais exactos — e ajudar a diminuir a angústia dos pais —, a equipa de investigadores do Cintesis recolheu dados de mais de 660 mil nascimentos ocorridos em 22 instituições portuguesas, seleccionando dados de 62 mil recém-nascidos.

A amostra revelou, por exemplo, que o peso médio de um bebé português à nascença pode variar em mais de 150 gramas quando comparado com um recém-nascido do Reino Unido, Irlanda, Nova Zelândia ou Estados Unidos da América. E, por outro lado, se aproxima muito do peso dos bebés espanhóis e franceses.

Há vários factores que influenciam o crescimento fetal: o género (os rapazes são, regra geral, maiores), a etnia, a herança genética, o peso e altura da mãe, as doenças da progenitora, bem como o número de filhos tidos anteriormente, o consumo de álcool ou tabaco (fumar diminui aproximadamente 5% o peso do bebé às nascença). Até a altitude do local onde a mulher vive pode ter influência.

Por isso, “ter curvas de percentis fidedignas é fundamental”, aponta: “Tem de ser algo matematicamente fiável.” Com este estudo, a equipa do Cintesis espera “disseminar a importância destas tabelas” ao mesmo tempo que “desmistifica” o seu uso. “Um percentil de 10 pode não ser preocupante. Tem apenas de pôr a pulga atrás da orelha, deixar os médicos mais vigilantes”, diz.

Depois das curvas clássicas, os investigadores portugueses desenvolveram ainda um software — este não está disponível gratuitamente — que permite aos médicos criarem curvas de percentis de peso fetal e à nascença personalizadas, introduzindo valores de referência de uma grávida em particular.

O estudo citado na notícia é o seguinte:

Development of a birthweight standard and comparison with currently used standards. What is a 10th centile?

 

 


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