“Os nossos filhos podem tornar-se estranhos”

Setembro 18, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista da http://www.paisefilhos.pt/ a Gordon Neufeld no dia 31 de agosto de 2017.

 

Escrito por Elsa Páscoa

Nas últimas décadas, o papel dos adultos enquanto motores de educação e transmissão de valores tem vindo a ser substituído junto das crianças pela influência incontrolada dos seus pares. E as consequências podem ser preocupantes.

O psicólogo clínico canadiano Gordon Neufeld, em entrevista à Pais&filhos, revela de que forma os educadores podem perder o norte, em favor de terceiros. E de que modo são capazes, através de um profundo conhecimento das crianças e dos seus próprios instintos, de resistir à maré que ameaça colocá-los à margem.

A nossa sociedade permitiu o surgimento do fenómeno da orientação das crianças pelos seus pares, em detrimento da orientação da família. Os pais desistiram do seu papel?
Não acredito que os pais devam ser responsabilizados na maior parte dos casos. Penso que é a cultura instalada nas nossas sociedades que deve ser responsabilizada. O papel fundamental das estruturas culturais é o desenvolvimento e a preservação dos vínculos necessários à educação das crianças e à transmissão dos nossos valores. A cultura tem vindo a desempenhar esse papel há milhares de anos. Entretanto, surgiu a revolução industrial e o materialismo dela resultante, a revolução na escola e, hoje, a revolução digital. Estas profundas alterações tiveram reflexos nos costumes, rituais e tradições que tinham como papel manter-nos unidos. Alguns exemplos são as refeições, os passeios, os jogos as reuniões de família. Tudo isto tem vindo a ser substituído por atividades e tecnologias que favorecem a criação de vínculos das crianças umas com as outras. Assim, em vez de viverem na órbita dos adultos responsáveis por elas, muitas crianças gravitam agora em redor de outras crianças e afastam-se da órbita dos pais e dos educadores.

Sem que estes possam fazer alguma coisa?
Cabe-lhes compensar o que a atual cultura não consegue transmitir. Os vínculos não acontecem de forma espontânea. São cultivados nos momentos em que nos deliciamos na companhia uns dos outros, desfrutando a experiência de existirmos na presença dos outros. A menos que assumamos esta missão, criando as tradições que nos permitam permanecer unidos, ficaremos aquém do que desejamos.

Estão os valores, identidade e códigos de conduta das crianças irremediavelmente afastados da influência da família?
Levando em linha de conta que muitas crianças substituíram a família pelos pares e que estes apresentam diferentes valores, é um facto que os nossos filhos podem tornar-se estranhos para nós. As boas notícias são que muitas crianças ainda vivem na órbita dos seus pais, famílias e professores. A má notícia é que este estado de coisas está a mudar e é essa alteração que nos deve preocupar. O problema não é tanto saber se existe uma mistura de influências, mas sim o facto de que as crianças não conseguem ser próximas dos pais e dos pares em simultâneo. É nesse cenário que os vínculos podem entrar em polarização e, frequentemente, as crianças afastam-se da família para procurar vinculação aos seus pares.

A orientação pelos pares é sempre um fenómeno negativo?
Certamente que não. Existe um conjunto de cenários em que a orientação pelos pares pode ser positiva. Por exemplo, todos nós conhecemos casos em que uma criança ou um adolescente foi resgatado da sua família disfuncional pelos amigos. Neste caso, a orientação pelos pares é certamente uma coisa boa. O mesmo acontece quando uma criança é orientada por pares que partilham os valores da família: nestes casos serve mesmo para reforçar o sentido de pertença.

É possível os adultos perceberem quando as desejáveis amizades dos filhos se transformam na indesejável orientação pelos pares?
Habitualmente não é difícil distinguir as situações. As amizades saudáveis permitem à criança ou ao adolescente manifestar a sua personalidade de forma livre. Quando começa a substituir o seu “eu”, por influência do “outro” – a nível de preferências, atitudes, linguagem – então estamos perante orientação por pares, em vez de amizade. Um outro sinal é visível quando a criança já não consegue manifestar vínculos familiares quando está na presença dos seus pares. As ligações com outras crianças não devem ser incompatíveis com a família. As crianças que não são orientadas pelos seus pares desejam que estes e a família tenham pontos de ligação. A situação já não é muito saudável quando estar com os ‘amigos’ leva a que a criança ou o adolescente se afaste dos irmãos, dos pais e dos avós.

Pais, educadores, e até os media, tomaram já consciência de que muitas crianças e jovens estão a ser afastados das famílias?
A orientação pelos pares tem vindo a desenvolver-se. No entanto, os media parecem mais preocupados em transmitir as mensagens que o consumidor quer ouvir do que a verdade.

Como assim?
Por exemplo, os parâmetros de avaliação escolar centram-se agora nas médias obtidas, em vez de valorizar as classificações que era possível obter. Nos dias de hoje, muitos adultos viram-se para os seus próprios pares para receberem orientação de como se comportarem e até de como serem. Tradicionalmente, isso não acontecia: virávamo-nos para os mais velhos, para as tradições, para a religião e mesmo para a ciência. Atualmente, na nossa sociedade obcecada pelos pares, existe uma preocupação avassaladora para ser normal, o que basicamente significa ser igual a toda a gente. A generalização da orientação por pares está na base da cultura popular e é o motor, por exemplo, das indústrias de publicidade e de moda. Até atingiu já o campo da investigação científica. Em muitos estudos sociais e comportamentais, entende-se a norma não como o que poderia ser, ou deveria ser, mas como o que é típico. E qualquer desvio do típico é considerado fora do normal.

Qual é a maior ferramenta que os pais necessitam na educação dos seus filhos? A intuição?
Tradicionalmente, a intuição tem sido a nossa grande ferramenta enquanto pais. Enquanto as estruturas culturais permaneceram intactas e as crianças mantinham vínculos familiares fortes, era possível, na maior parte dos casos, confiar nos nossos instintos. Os nossos antepassados não precisavam de ler livros para saberem o que fazer. O problema com a intuição é de que necessita do contexto para ser utilizada. Quando a nossa cultura nos falha, ou as nossas crianças não estão fortemente vinculadas, perdemos a intuição. É precisamente isto que parece estar a acontecer aos pais um pouco por todo o mundo. A intuição esteve ao serviço de pais e educadores durante milhares de anos, mas hoje estamos a perder acesso a esta importantíssima parte de nós mesmos. O que pode trazer esperança é o facto de ser possível recuperarmos os nossos instintos enquanto educadores.

De que forma?
Através de um profundo conhecimento das nossas crianças. Se as conseguirmos conhecer e compreender de forma profunda e total, recuperamos a intuição que nos é inata. Assumir conscientemente a missão de perceber quem são e como são os nossos filhos não era uma necessidade em sociedades antigas: esse conhecimento era resultado de vínculos quase inquebráveis. Hoje necessitamos de o fazer, para compensar a falta do contexto educativo natural. É por isso que é essencial que as nossas crianças nos façam sentido.

E como é que isso é possível?
Passei toda a vida a tentar que as crianças fizessem sentido – as minhas e as dos outros. Felizmente tive cinco filhos meus e, agora, três netos com os quais pude e posso praticar. E foi assim que desvendei algumas conceções da ciência do desenvolvimento nos campos das teorias da vinculação, vulnerabilidade e maturidade. Nos últimos 40 anos, tenho tentado mover as peças do puzzle, na tentativa de criar uma teoria integrada do desenvolvimento baseado nos esquemas de vinculação, que seja relativamente livre do ‘calão’ e dos termos esotéricos que tendem a ser a grande praga das teorias psicológicas.

Como é que isso se consegue?
Uma boa teoria deve ser acessível, ecoar a intuição e explicar fenómenos que não podem ser entendidos de outra forma. Procuro ajudar outros a verem as suas crianças através destes instrumentos. O maior problema dos dias de hoje é que não estamos a fazer as perguntas certas. Em vez de nos perguntarmos ‘o que estou a ver?’, a perguntarmo-nos ‘o que devo fazer?’ Assim, em vez de discernimento, obtemos estratégias inúteis, pois a vida tende a ser muito mais complexa. Se conseguirmos perguntar ‘o que estou a ver?’, procurando ir para além dos sinais de comportamento, é possível obter progressos.

A uma certa altura das nossas vidas, todos necessitamos de orientação. A educação de uma criança começa no sentido de missão e/ou na confiança dos pais?
Há algo de errado connosco, enquanto pais, se não experimentarmos sentimentos de insegurança perante a perspetiva de criarmos uma criança. Mas se respondermos a essa insegurança procurando respostas em terceiros, acabamos por perder a intuição. Para encontrar a nossa intuição parental, ao invés de procurar as respostas, devemos assumir o papel de sermos a resposta ao nosso filho. Se assumirmos esta atitude, tudo o resto surgirá quando for necessário. O tipo de confiança de que necessitamos enquanto pais não se encontra nos livros. Provém do sentido de que a nossa missão é sermos o pai ou a mãe de que o nosso filho precisa. O sentido de missão e a confiança é tudo para os pais e educadores, mas apenas se podem descobrir. Não se podem ensinar.


O livro que escreveu chama-se “Hold on to your kids – Why parents need to matter more than peers (“Segure os seus filhos – Por que razão os pais devem ter mais importância que os pares”, em tradução livre). Como é que isso se faz?
É necessário fazer os possíveis para preservar o tipo de proximidade que os protege da necessidade de se realizarem fora da família. Os nossos filhos necessitam de nós até à altura em que são maduros o suficiente para procurarem o seu caminho. Como é que seguramos os nossos filhos? Fazendo da nossa relação mútua uma prioridade, não deixando nada ficar entre nós e criando estruturas e rituais que nutram a relação e não ‘namorando’ os nossos competidores.

Os pares e a sua influência?
Certamente. O melhor das relações entre pais e filhos é que nunca é demasiado tarde e existe sempre esperança. A partir do momento em que sabemos por onde começar, habitualmente surgem progressos.

Em Portugal, os valores das famílias encontram-se ainda muito presentes. Uma determinada cultura pode influenciar a orientação por pares?
Com toda a certeza. Apetece-me dizer que vos invejo em Portugal. Neste campo, o vosso país está em muito melhor forma que outras regiões da civilização ocidental. Mas, a menos que determinem o que é realmente importante, correm o risco de perder essa vantagem. A vossa cultura terá agora de sobreviver a uma cultura europeia que sobrepõe os valores materiais aos valores culturais e a uma revolução digital que fomenta os vínculos indesejados com os pares. Para que a vossa cultura sobreviva, os portugueses terão de perceber o que vale a pena segurar.

 

Quem é Gordon Neufeld

Reconhecido psicólogo clínico canadiano, possui longa experiência em questões de família e viu as suas teses reconhecidas internacionalmente após a publicação do livro “Hold on to your kids – Why parents need to matter more than peers”, escrito em parceria com o médico Gabor Maté. Defensor da ideia de que o papel dos pais é insubstituível, procura alertar para a importância de manter vínculos estreitos em todas as fases de crescimento e desenvolvimento das crianças e adolescentes

 

 

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