Ateliê Caixa de Música – As Fábulas de La Fontaine – 23 de setembro em Lisboa

Setembro 4, 2017 às 8:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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O que significa ser a última geração que viveu o mundo analógico

Setembro 4, 2017 às 8:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Texto do site https://www.nexojornal.com.br/ de 5 de setembro de 2016.

Ana Freitas 05 Set 2016 (atualizado 18/Jul 12h37)

Você se lembra de quando se via sem nada para fazer e contemplava o ócio, sem sacar o celular do bolso? Essa é uma reflexão que tende a acabar junto com aqueles que vivenciaram o mundo off-line.

Quando foi a última vez que você se viu sem absolutamente nada para fazer e contemplou o ócio? Momentos como esse têm se tornado cada vez mais raros no cotidiano. O motivo é que, mesmo naqueles minutos de espera do ônibus ou da chegada de um amigo no bar, sua atenção é desviada para o celular.

Muito em breve, esse tipo de reflexão sequer existirá. A última geração que viveu o mundo completamente analógico —e portanto pode comparar a espera off-line e a on-line—, não terá mais representantes em cerca de 40 ou 50 anos. E as experiências pessoais sobre como a vida era antes e depois do digital desaparecerão com ela.

Essa é a provocação do jornalista canadense Michael Harris. Autor do livro “O Fim da Ausência”, lançado em 2014, Harris fala sobre a última geração “bilingue” — capaz de traduzir o mundo analógico para o digital, e vice-versa — e como essa será a última geração a conhecer o que chamamos de “não fazer nada”.

 A geração em transição

Harris defende que qualquer pessoa que tenha nascido antes de 1985 faz parte da última leva de seres humanos que sabe o que é a vida sem internet — “estão fazendo a peregrinação do antes para o depois”, escreve Harris.

O “antes” é um mundo em que a comunicação era mais lenta e acontecia de maneiras completamente diferentes, no qual havia menos tipos de entretenimento e os pensamentos e opiniões pessoais das pessoas recebiam menos atenção pública.

Para Harris, os indivíduos que conheceram o mundo analógico têm uma habilidade única — a capacidade de notar como a introdução da tecnologia no mundo mudou a maneira como as pessoas se relacionam. E esse é o público alvo do livro, de acordo com ele.

O maior prejuízo que a ubiquidade da tecnologia vai causar às gerações futuras, de acordo com o autor, é a ausência da sensação de ausência. O estado de conexão permanente, com o celular ligado no bolso, nos impede de estar definitivamente sozinhos.

Ainda assim, Harris fala disso mais como observador e menos como crítico. O autor assume uma postura sobre o “antes” e o “depois” que não tenta classificar um ou outro como melhor ou pior, mas só como “como as coisas são”.

Harris não foi o primeiro a falar sobre como a tecnologia nos afasta do ócio. O comediante norte-americano Louis C.K., em uma entrevista em 2013, refletiu sobre a ausência de momentos solitários nos tempos modernos — e, de maneira tragicômica, sobre como nos ocupamos com a tecnologia para afastar reflexões existenciais que podem trazer frustração.

 “Você precisa cultivar a habilidade de ser você mesmo e não estar fazendo nada. É isso que os celulares estão tirando, a habilidade de só ficar sentado [fazendo nada]. Isso que é ser uma pessoa. Porque por baixo de tudo na sua vida tem aquela coisa, aquele vazio — eterno. O conhecimento de que nada vale a pena e que você está sozinho. Está lá, no fundo. E às vezes quando tudo sai da frente, você não está assistindo nada, no seu carro, sozinho, você pensa ‘Ah, não, lá vem. Estou sozinho’. Começa a vir. Só aquela tristeza. A vida é triste demais, só estar nela…”

 Louis C.K.

Comediante norte-americano, em entrevista ao programa Late Night With Conan O’Brien

Apesar do tom bem humorado, a provocação de C.K. se conecta com as reflexões de Harris no livro. “Logo, ninguém vai se lembrar da vida antes da internet. […] Os silêncios provenientes de ‘sonhar acordado’ nas nossas vidas foram preenchidos: as solidões sufocantes foram extintas. Não há ‘tempo livre’ verdadeiro quando você está com seu celular”, diz o livro.

 “Na medida em que adotamos os dons da tecnologia, normalmente falhamos em considerar o que a tecnologia pede de nós em troca — os pagamentos sutis, que dificilmente notamos e que fazemos em troca de seu maravilhoso serviço. […] Por que nos importaríamos em notar o fim da solidão, da ignorância, da ‘falta’? Por que deveríamos nos importar que a ausência desapareceu?”

 Michael Harris

No livro “The End of Absence”, de 2014

O autor argumenta que vai faltar, no futuro, a capacidade de deixar a mente correr livremente, de se sentir entediado e a importância das descobertas feitas nesses momentos. Mas que só essa geração “híbrida” vai sentir falta dessas coisas como parte da experiência humana.

Valor próprio definido por curtidas

Outra mudança, escreve, está na maneira como avaliamos nosso valor como pessoas — que, nos nossos tempos, frequentemente está conectado com números em redes sociais. A capacidade de observar isso, diz, também é exclusiva dessa geração que está passando pela transição entre dois mundos.

“Acho que tem a ver com a noção de prestação de contas [de si mesmo] online. Então [há a ideia de que] se um tweet ganha centenas de reweets, deve significar que meus pensamentos valem [alguma coisa]. Se minha foto é muito curtida, deve significar que sou bonito. Uma das coisas que me preocupa na conexão permanente é que perdemos a habilidade de decidir, por nós mesmos, o que pensamos sobre quem somos”, disse Harris, em entrevista ao site Quartz.

O livro de Harris, como muitos do tipo que analisam as mudanças sociológicas impulsionadas pela revolução digital, foi escrito depois que o autor decidiu tirar uma folga de um mês de qualquer aparelho digital.

Seu período sabático, no entanto, não despertou nenhuma habilidade adormecida ou desencadeou um momento de epifania: ele concluiu que uma pausa ocasional pode ser útil, embora quase inviável para a maioria das pessoas. “Acho que o que você consegue [de um período de abstinência do digital] é uma luz interior mais rica e a habilidade de se enxergar de uma perspectiva mais crítica. Porque, se você está no meio de algo, nunca dá para ver propriamente”, disse, sobre a experiência.

 

 

 

“Queria ter um sítio onde pudesse velar o meu bebé”

Setembro 4, 2017 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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texto do https://www.publico.pt/ de 23 de agosto de 2017.

Adriano Miranda

 

Em Junho, 11 corpos de fetos ou recém-nascidos não reclamados esperavam no Instituto de Medicina Legal. Alguns pais não querem ver o corpo e outros não são informados e não o reclamam. Outros queriam enterrar os filhos com menos de 24 semanas, mas a lei não os deixa.

No final de Junho deste ano, eram onze os cadáveres não reclamados de fetos ou recém-nascidos que estavam nas delegações de Lisboa, Porto e Coimbra do Instituto de Medicina Legal e Ciências Forenses (IMLCF). No final do ano passado eram cinco.

“Há pais que não querem mesmo ver o corpo do bebé, por opção”, diz Vítor Varela, presidente da Mesa do Colégio da Especialidade de Enfermagem de Saúde Materna e Obstétrica da Ordem dos Enfermeiros. E, nesse momento, o corpo do feto ou recém-nascido fica “por reclamar”. “Por outro lado, há alguns pais que não são informados e não reúnem a informação suficiente para poderem optar por ver o bebé antes de ir para a morgue”, acrescenta Vítor Varela.

“Há o lado legal das questões, mas depois há o lado emocional. E o nosso país é bastante deficiente no apoio que dá aos pais para viverem as questões de luto na perda gestacional. Até porque as pessoas têm crenças religiosas bastante díspares e isto não é sequer tido em consideração”, sublinha Sara Vale, presidente e co-fundadora da Associação Portuguesa pelos Direitos da Mulher na Gravidez e Parto.

Luto solitário

“Quando as mães perdem os bebés, muitas vezes ainda nem disseram a toda a gente que estavam grávidas e, por isso, quando elas dizem que perderam o feto é quase um luto solitário porque ninguém sabia. Não há muitas vezes o reconhecimento de que se perde algo, porque as pessoas nem estavam a par da gravidez”, explica Sara Vale.

Portugal optou por um caminho. Mas há outros. “Num país como a Inglaterra uma das grandes diferenças que se vê em relação a Portugal nestas questões da perda gestacional é a formação específica que alguns profissionais ingleses têm neste campo, o apoio psicológico dado aos pais e o respeito que há pela perda gestacional. Eles enquadram a perda gestacional como um parto, em que a mulher precisa de apoio no período das contracções e no fim, se desejar, pode ver o feto. Têm por exemplo berços frigoríficos em que o corpo está à disposição dos pais. E perguntam aos progenitores se querem ver o bebé, se querem dar o nome, se querem tocar”, afirma Sara Vale quando faz um retrato britânico em matéria da perda gestacional.

A presidente da Associação Portuguesa pelos Direitos da Mulher na Gravidez e Parto acredita que a dor pode ser diminuída com pequenos gestos. “É claro que há certas práticas que não se conseguem transplantar de uma cultura para outra, mas acho que há bastante a aprender com a sensibilidade dos ingleses. Por exemplo, deve haver o cuidado de os pais estarem numa ala do hospital onde não estão outras mães, onde não se ouvem outros bebés a chorar”, defende Sara Vale.

Há casos em que o certificado de óbito e o funeral são necessários, noutros não. Segundo o director do Departamento de Obstetrícia, Ginecologia e Medicina da Reprodução do Hospital de Santa Maria, Carlos Calhaz Jorge, “na morte fetal espontânea com mais de 24 semanas de gestação é obrigatório certificado de óbito e o funeral. No caso da Interrupção Médica da Gravidez ou morte fetal espontânea com menos de 22 semanas nunca há certificado de óbito nem funeral”. Nos casos intermédios, a morte fetal espontânea entre as 22 e as 24 semanas, cabe ao casal optar por certificado de óbito e funeral ou não.

As regras estão escritas mas alguns progenitores levantam questões. “Nunca me disseram o que ia acontecer”, afirma Sílvia Melo, agora 36 anos. “Eu tive duas perdas gestacionais. Na primeira o feto tinha 20 semanas e na segunda tinha oito semanas. Disseram-me que o bebé ia para analisar no Centro de Genética Clínica do Porto. Mas nunca me disseram o que depois acontecia com o corpo”, explica.

“Queria ter um sítio onde pudesse velar o meu bebé”, diz Sílvia. “Eu queria muito. Eu pedi muito. E disseram-me que era a lei. Que não a podiam alterar”, conta. “Mas explicaram-me também que antes das 24 semanas eu não podia fazer funeral. Na altura afectou-me muito não ter o corpo do bebé. Não saber onde ele estava. Acho que teria sido bom para mim e para o meu luto ter feito funeral”, afirma Sílvia Melo.

Não há uma lista

“Não há” um número total e exacto de corpos — de crianças e adultos — não reclamados em Portugal, diz Carlos Almeida da Associação Nacional de Empresas Lutuosas (ANEL).

A única conta que está feita resulta em 67 corpos que, em Junho deste ano, esperavam nas delegações do Instituto de Medicina Legal em Lisboa, Porto e Coimbra. Os cadáveres não reclamados que estão nas morgues dos hospitais ficam à espera de serem incluídos na soma.

A morte chega e ninguém a reclama. Espera-se 30 dias por um telefonema. E ninguém reclamou o corpo que jaz na morgue. “O Instituto de Medicina Legal e Ciências Forenses tem de aguardar no mínimo um mês pela reclamação dos corpos”, esclarece Pedro Tavares, porta-voz do Ministério da Justiça, que tutela o IMLCF. Só pode reclamar o cadáver, segundo a lei em vigor, “o testamenteiro”, o “cônjuge sobrevivo”, a “pessoa que vivia com o falecido”, “qualquer herdeiro” e “qualquer familiar”.

No final do ano de 2016, 58 corpos não tinham sido reclamados nas delegações do IMLCF. A meio deste ano, já eram 67. E há mais cadáveres sem reclamação, mas não se sabe quantos. Entre os que ficam nos hospitais e os que vão para o IMLCF, não existe uma lista que cruze os dados dos corpos não reclamados. Por exemplo, no Centro Hospitalar do Algarve, até à data, há três cadáveres, todos do sexo masculino, de nacionalidades espanhola, soviética e alemã.

O último dia de 2016 contava com 58 corpos não reclamados com mais de um mês de espera. Em 2014, o Instituto de Medicina Legal tinha lidado com 54 corpos não reclamados. Os números não se alteram muito. Mas este ano a marca dos sessenta cadáveres com mais de um mês já foi ultrapassada no mês de Junho.

Não há uma lista com todos os corpos não reclamados a nível nacional. Uns esperam no Instituto de Medicina Legal, outros nos hospitais. Mas só o IMLCF faz a soma de cadáveres não reclamados nas cidades de Lisboa, Porto e Coimbra. A restante estatística não é conhecida.

“Concordo com a existência da lista caso seja criada para fins estatísticos, visto que ainda não há uma forma de saber quantos cadáveres existem nestas circunstâncias”, afirma Carlos Almeida da ANEL.

Trinta dias depois de ninguém reclamar o cadáver, a responsabilidade pelo corpo transita imediatamente para as autarquias. “Compete à câmara municipal do local onde se encontre o cadáver promover a inumação do cadáver não entregue”, explica a Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias ao PÚBLICO.

O fim chega sem família

“Quando vier a Primavera/ Se eu já estiver morto/ As flores florirão da mesma maneira”, esperava Alberto Caeiro. O heterónimo de Fernando Pessoa não contava que Luís Silva, da Funerária de Santa Cruz do Bispo, se preocupasse com as flores que acompanham o funeral dos corpos não reclamados. No fim dos trinta dias de espera, o agente funerário é informado pelo IMLCF que está disponível um corpo não reclamado para enterrar.

“A funerária desloca-se ao IMLCF para levantar a guia de transporte, cópias dos documentos do falecido (se houver). Com esses registos a funerária desloca-se à conservatória do Registo Civil para realizar o assento de óbito. E marcamos o funeral no cemitério de Agramonte, no Porto”, descreve Luís Silva.

Chega o dia. “No dia da inumação a funerária passa pelo IMLCF do Porto para levantar o corpo não reclamado, transporta-o no carro funerário directamente para o cemitério para efectuar o enterro (sem família, só com a funerária e os coveiros)”, as etapas estão todas memorizadas por Luís.

Texto editado por Pedro Sales Dias

 


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