“Os bebés não têm manhas, isso são coisas dos adultos”

Julho 28, 2017 às 8:00 pm | Publicado em Livros | Deixe um comentário
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Texto do http://observador.pt/de 13 de julho de 2017.

Ana Cristina Marques

Um bebé que não dorme e chora precisa de colo e mimo. Fazer birra não é manha e não há “treinos do sono”. Quem o diz é a psicóloga Clementina Almeida, autora do livro “Socorro! O meu bebé não dorme”.

Não há treinos ou métodos milagrosos que ponham os bebés a dormir tranquilamente e durante toda a noite. Esta é, talvez, uma das principais premissas de Clementina Almeida, psicóloga clínica há 25 anos e especialista em bebés. Clementina é também a autora do livro “Socorro! O meu bebé não dorme” (Porto Editora), onde apresenta explicações científicas — escritas de uma forma acessível — que ajudam a compreender os hábitos de sono dos bebés.

Há mitos que Clementina Almeida faz cair por terra ao longo de 156 páginas e, também, ao longo desta entrevista. Ao Observador, a psicóloga que também está certificada em saúde mental infantil no Reino Unido e nos EUA, além de ser fundadora e investigadora do BabyLab da FPCE-UC, um dos laboratórios da Universidade de Coimbra, explica que existem fatores económicos e sociais que direta ou indiretamente pressionam os pais a “ensinar” os seus bebés a dormir.

E ao contrário do que se possa pensar, pegar ao colo e mimar um bebé é sinal de um desenvolvimento cerebral sustentável, até porque manhas é coisa que os adultos inventaram: “Os bebés não têm manhas, isso são coisas dos adultos. Os bebés precisam que lhe respondam e isso é a base de um desenvolvimento cerebral saudável. O mimo não estraga: os bebés não passam do prazo de validade. É preciso dar muito mimo para que sejam adultos seguros no futuro.”

Tem-se falado muito nos “treinos do sono”. O que é isso e quais são os seus principais perigos?

Tem que ver com a suposição de que o bebé pode ser treinado e que consegue aprender a adormecer sozinho ou a dormir a noite toda, coisas que em termos do desenvolvimento de um bebé são impensáveis. Estes métodos representam perigos para a saúde de um bebé, nomeadamente para o seu desenvolvimento cerebral e psicológico, uma vez que a maior parte deles criam sensações de abandono. Ou seja, os métodos exigem colocar os bebés nos berços para que estes se acalmem sozinhos; quando começam a chorar os pais vão lá e pegam neles, para depois voltarem a deixá-los e os bebés voltarem a chorar. Isto é contranatura, porque efetivamente os bebés não vêm preparados para dormir sozinhos, além de ser uma experiência, no mínimo, muito negativa, esta de ser deixado a chorar para adormecer.

E pode ter consequências a longo prazo?

Sim, porque na realidade os bebés não aprendem a adormecer sozinhos nem a acalmar-se sozinhos. O que aprendem é que não vem ninguém quando eles choram, a isto chama-se “desânimo aprendido”. É um pouco depressivo para um bebé aprender isso logo no início da sua vida. Em termos neurológicos, quando os bebés estão a chorar estão em stress, estão a pedir ajuda porque dependem do outro para sobreviver e, por isso, libertam cortisol — o cortisol em excesso e durante longos períodos (ou períodos repetidos) vai literalmente queimar neurónios. Atenção que este é o período de maior desenvolvimento e crescimento cerebral que nós temos na vida. Além disso, sabemos que quando o bebé se cala, mesmo passados dois ou três dias, os níveis de cortisol continuam elevados e a destruição de ligações também continua.

O treino que estava a descrever parece semelhante ao que é proposto por Estivill.

Exatamente, é o método Estivill ou o método Ferber. Baseiam-se todos na mesma prática, de tentar que os bebés se acalmem sozinhos e que adormeçam sozinhos por longos períodos. Note-se que o próprio Richard Ferber veio pedir desculpas aos adultos que foram treinados por este método. Estamos a falar de um pediatra muito conhecido, que trabalha em Boston, e que há 20 anos não tinha o conhecimento das neurociências que nós temos hoje em dia — eles não tinham como saber os danos que podiam causar.

Porque é que acha que estes métodos ficaram tão populares?

Primeiro, eles já foram propostos há muitos anos, há décadas. Depois, nós não tínhamos a noção do que é que se passava dentro do cérebro de um bebé quando estes métodos foram aplicados. Eles foram veiculados por muitos canais de informação e as pessoas tiveram acesso a eles e, portanto, tentaram de algum modo aplicá-los. Efetivamente os bebés deixavam de chorar por desânimo aprendido, não por estarem a dormir. Nos últimos 20-25 anos, mais no EUA, houve uma proliferação enorme de “conselheiros do sono” e de livros acerca do sono do bebé, porque nos últimos 50 anos o sono tornou-se uma das grandes preocupações para os pais, mais por imperativos sociais e económicos do que pelo desenvolvimento do próprio bebé. É fácil compreender o motivo por que estes métodos se tornaram extremamente populares.

Sendo que há muita oferta sobre este tipo de literatura, em que é que o seu livro se diferencia?

A diferença é que eu não sou “conselheira do sono”. Os “conselheiros do sono” são pessoas que nem sempre têm formação de base na área da saúde e que fazem um curso específico, superficial, sobre o sono do bebé. São cursos de uma semana e alguns deles incluem um módulo de marketing sobre o seu próprio negócio — dá para perceber o tipo de curso de que estamos a falar. Depois, são pessoas que utilizam sempre o mesmo método para todos os bebés (e todos os bebés são diferentes). Eu sou psicóloga clínica. Sou especialista na área dos bebés e tenho uma prática de 25 anos em psicologia clínica. Também sou investigadora e trabalho num laboratório de investigação acerca dos comportamentos dos bebés, em Coimbra. Todo este livro, apesar de ter tentado que fosse o mais simples possível em termos de leitura, de maneira a ser acessível a todos os pais, está apoiado nas mais recentes investigações científicas sobre o desenvolvimento do bebé, incluindo o sono.

Pode desenvolver a ideia dos imperativos sociais e económicos, que são colocados acima das necessidades do bebé?

Se repararmos, temos licenças de maternidade muito curtas, algo muito diferente do que acontecia há 100 anos, quando tínhamos as mamãs em casa a cuidar dos filhos. Hoje em dia, as mulheres trabalham, trabalham muito, e ao fim de seis meses têm de voltar ao trabalho. A única coisa que perturba o sono de uma mãe é o sono do bebé. Se um bebé não andar aos 14 meses, não se ouve ninguém dizer “tem de andar, tem de o forçar… ele tem de cair e chorar…”, porque isso não vai perturbar o sono da mamã que tem de trabalhar ao fim de seis meses. De facto, aos seis meses os bebés não estão capazes de dormir as noites todas ou o número de horas que uma mamã precisaria para ir trabalhar no dia seguinte. Estes treinos têm como objetivo pôr os bebés rapidamente a dormir e de forma independente, ou seja, vão contra o seu desenvolvimento porque efetivamente a economia da sociedade precisa que as mães estejam a trabalhar — a única coisa que está a perturbar isso é o sono do bebé.

Que mitos sobre o sono do bebé é que pretende fazer cair por terra?

Não sou eu, é a ciência. Não digo nada de novo, o que eu faço é traduzir muito do que ainda está em artigos científicos, como acontece de resto em todas as áreas do saber — tudo aquilo que está nos artigos científicos demora algum tempo a passar para o conhecimento prático do dia a dia. Os mitos passam por esta questão de os bebés não serem independentes. Os bebés vêm milenarmente programados para serem seres dependentes, eles são o computador mais sofisticado em termos de aprendizagem que temos e, para isso, precisam de ter alguém que cuide deles, que lhes dê afeto, segurança, alimento e conforto. Não são capazes de ser independentes, muito menos de se auto-regularem. Nós em adultos também temos alguma dificuldade, nem sempre as nossas formas de auto-regulação funcionam e, às vezes, temos de fazer terapia. Imagine-se então um bebé de seis meses…

Idealmente, qualquer pai quer que um bebé durma a noite toda. Isso também é um mito, não é?

Sim. Alguns bebés conseguem dormir cinco horas por noite, mas nem todos conseguem chegar a isso. E essas cinco horas/noite são o que nós consideramos uma noite completa para um bebé e não uma noite completa para nós.

Imaginemos crianças dos zero aos seis meses. Quantas horas por dia é que devem dormir?

Em relação ao número de horas que os bebés dormem por dia… ele varia muito e, sobretudo, no primeiro ano de vida. Só no final do primeiro ano de vida é que temos algum tipo de médias. O facto de um bebé dormir mais cinco horas do que outro não significa que seja anormal. De facto, há uma grande variabilidade no número de horas que os bebés precisam de dormir. Só no final do primeiro ano é que as coisas começam a ficar um pouco mais estáveis, sendo que todos começam a precisar mais ou menos de um número de horas semelhantes. Há, portanto, uma grande variabilidade que pode ir até às cinco horas por noite. Os bebés não dormem só de noite. Nos primeiros seis meses temos bebés a dormir normalmente muitas horas, que podem ser 12 mas também 15. Dormem-nas de forma muito repartida ao longo de 24 horas, com vários despertares.

Qual a importância das sestas, isto é, do sono diurno?

O sono diurno regula o sono noturno. É um sono que ativa áreas diferentes do cérebro e que trabalha memórias que não são trabalhadas no sono da noite. A verdade é que quanto melhor for a qualidade do sono das sestas, melhor é a qualidade do sono da noite, o que significa menos despertares antecipados.

Quais são os perigos de um bebé dormir a noite toda, na aceção de um adulto?

Nos mais pequenos há o risco de os bebés poderem parar em termos respiratórios. Podem também não se alimentar o suficiente, uma vez que todos estes despertares estão programados não só em relação ao afeto que os bebés precisam e ao desenvolvimento cerebral, mas também tendo conta as suas necessidades de alimentação — no início, os estômagos dos bebés são muito pequeninos, pelo que precisam de ser amamentados regularmente. Progressivamente, os bebés vão desenvolvendo um padrão neurológico do sono, que se vai aproximar daquilo que é o padrão neurológico do adulto.

É possível explicar, de forma sucinta, as grandes diferença entre o sono do adulto e o sono do bebé?

As grandes diferenças têm que ver com a forma como os bebés adormecem, que é completamente diferente da nossa. Nós adormecemos em sono profundo e eles adormecem em sono leve, o equivalente ao nosso sono REM. Têm, portanto, um sono do qual podem despertar mais facilmente. Depois, entra a questão dos ciclos de sono. Nós fazemos ciclos de sono de hora e meia, com períodos em que estamos suscetíveis a despertar de quatro em quatro horas, enquanto os bebés fazem-no de hora a hora. Essas são as grandes diferenças.

O livro fala muito sobre a questão de os pais terem receio de acarinhar ou socorrer o bebé, com receio de que este ganhe manhas… Porque é que acha que os pais acreditam que os bebés se conseguem acalmar sozinhos?

Os bebés não têm manhas, isso são coisas dos adultos. Os bebés precisam que lhe respondam e isso é a base de um desenvolvimento cerebral saudável. O mimo não estraga: os bebés não passam do prazo de validade. É preciso dar muito mimo para que sejam adultos seguros no futuro — coisa que, no fundo, é o nosso instinto. Isso são projeções que fazemos, manhas têm os adultos e não os bebés. Os bebés não conseguem ter manhas, têm é necessidades e arranjam a melhor forma para as ajudar a fazer conhecer e para tentar satisfazê-las. Algumas dessas necessidades são de conforto e de colo, o que é uma necessidade básica.

O que acontece a um bebé cujo choro não é atendido pelos pais?

O choro é, na realidade, uma das primeira formas de expressão do bebé. O bebé exprime-se essencialmente através do corpo e vai-nos dando alguns sinais, o choro é um deles. Como as competências de comunicação não são as mais elaboradas, eles utilizam o choro para transmitir as suas necessidades. Pode ser fome, pode ser desconforto…

O choro não deveria ser, então, uma coisa que os pais devessem temer?

De maneira nenhuma, muito pelo contrário. O que nós sabemos, e que os estudos acabam por reforçar, é que os bebés precisam de colo. O afeto e o amor é a base para o desenvolvimento cerebral. Ou seja, não há estimulação neuronal sem a base afetiva pelo meio, não é possível uma coisa sem a outra. Chama-se, inclusive, o jogo de dar e receber — o bebé faz e o adulto responde e assim sucessivamente. Isso é a base para criarmos seres humanos seguros e felizes, pelo que não devemos ter medo de todo.

Dando um exemplo prático e real, o que aconselha à mãe de uma bebé de dois meses que não consegue pregar olho durante o dia, apesar do cansaço visível?

Provavelmente o que está a acontecer é que os pais não estão a conseguir captar os sinais de sono do bebé. Normalmente os sinais que vemos por aí espalhados na Internet, como o bebé começar a esfregar os olhos ou a coçar orelha, não estão corretos. São antes sinais de que o bebé está a dizer que já não vão conseguir pô-lo a dormir, porque ele já está inundado em cortisol e, por isso, vai ter muita dificuldade em relaxar o seu sistema nervoso. Provavelmente estamos a deixar passar algum sinal de que o bebé precisa de descansar, que por norma são sinais mais discretos. É por exemplo o facto de o bebé ficar com um olhar mais parado e não reagir de imediato ao nosso estímulo. Esses são os sinais de que o bebé precisa de dormir, a seguir vão vir os sinais de que ele já está em desalinho completo e já não vai conseguir adormecer com tanta facilidade.

Passando esses sinais, do olhar disperso e da lentidão a responder, o que é que os pais devem fazer para tentar adormecer a criança?

Pegar ao colo é importante, porque ajuda a fazer a integração de toda a informação sensorial e ajuda o sistema nervoso a relaxar. O próprio pressionar o corpo ajuda o bebé a relaxar, bem como o ato de embalar e a criação de um ambiente mais zen. Nada de deixar que o bebé durma de dia com luz e com a televisão acesa, e à noite com escuridão e sem estimulação nenhuma — qualquer dia também queremos que eles tirem café, já que eles fazem tudo. Tudo isto dá sinais ao cérebro e não podemos dar sinais que sejam contraditórios.

Porque é que os bebés resistem tanto ao sono?

Os bebés resistem ao sono porque deixamos passar os sinais e eles ficam cheios de cortisol — chama-se o ‘efeito vulcânico’ porque eles ficam muito irritados e não conseguem dormir; é como nós termos um dia cheio de trabalho e, chegada a noite, não conseguimos descansar, o cérebro não consegue desligar, vêm ideias à cabeça, apesar de sabermos que queremos descansar. Os bebés ficam exatamente nesse estado de exaustão e, por outro lado, eles estão a passar pela maior fase de desenvolvimento cerebral e, portanto, dormir é a coisa mais aborrecida à face da terra. Dormir e comer é algo que eles, mais tarde, vão dispensar. Eles querem é coletar dados acerca do mundo e das pessoas. Até ao primeiro ano o trabalho científico deles é coletar dados sobre os objetos, como é que eles se comportam. A partir daí o que lhes interessa são as pessoas. Por isso é que às vezes vemos pessoas a dizer que os bebés estão a desafiá-las… nada disso, eles estão só a reunir dados.

O não dormir não é uma manha, mas antes uma reação química do corpo?

Sim, é o desenvolvimento cerebral a dar-se, quer dizer que o bebé está a fazer o trabalho dele, que é ser um dos melhores cientistas à face da terra. Não dormir é problemático para nós, para eles não.

Que rotinas para adormecer é que aconselha?

O essencial é que a rotina seja o mais zen possível, ou seja, que consigamos diminuir toda a estimulação à volta para que o cérebro não continue a reter informação. É necessário um ambiente mais calmo, mais convidativo ao sono e escuro, bem como retirar o bebé de zonas onde há muita gente a falar ou há uma televisão ligada. Ouvimos dizer que os bebés ou a crianças pequenas têm de ir para a cama muito cedo, caso contrário não criam a rotina de ir para a cama às 21h. Mas sabemos que muitos pais chegam a casa depois das 21h. Se um bebé não tiver mãe e pai suficiente no seu dia, garanto que ele vai acordar de noite para ter mãe e pai. Agora, esse não é o melhor tempo de qualidade para o bebé ou para os pais. O ideal é a família adaptar-se a uma rotina, ou seja, ser consistente todos os dias, de maneira que haja uma certa previsibilidade para que o cérebro saiba que aquilo vai acontecer e para que se vá adaptando. Falo de uma rotina que seja confortável para cada arranjo familiar.

O que é que esta rotina poderá incluir?

Pode incluir o diminuir as luzes, diminuir a estimulação auditiva, o embalo, o cheiro de alfazema no quarto, que é calmante, e a rotina do banho — nos primeiros tempos os bebés são, por vezes, resistentes ao banho e mais para o fim começam a achar piada e o banho transforma-se numa brincadeira, o que pode ser bom em termos de rotina. Pode até ser um momento de qualidade para brincar e pode ajudar o bebé a acalmar antes de ir dormir. Já agora, não se deve confundir locais onde o bebé adormece com locais de grande brincadeira. Se o bebé brinca durante o dia no berço, depois vai ser difícil associar que ir para o berço é sinónimo de dormir.

O que fazer quando um bebé não dorme por nada? E o que é que pode estar aqui em causa?

Tem de ser avaliado, porque há várias situações, nomeadamente patologias que têm de ser avaliadas com mais cuidado e com mais rigor para, depois, saber que medidas tomar.

Quando é que um pai deve ficar preocupado?

Acho que deve seguir o seu instinto e ter em conta caso o bebé mostre grandes sinais de cansaço, nomeadamente muita irritabilidade durante o dia e dificuldades na alimentação. Se isso perturbar as outras áreas do desenvolvimento, então aí é sinal de preocupação.

Já deu a entender que sociedade anda obcecada com o sono do bebé. O que falta mudar?

É preciso aumentar as licença de parentalidade ou, pelo menos, propor que as mães e os pais regressem ao trabalho de uma forma mais adequada àquilo que seria saudável para todos. Até porque entramos noutras questões, que é o facto de as mães deixarem os bebés com seis meses em infantários, que em Portugal não têm a qualidade desejável por uma simples razão — não cumprem o rácio de 1 para 1 no primeiro ano de vida, ou de 3 bebés para 1 nos dois anos. Se conseguíssemos libertar um pouco os pais nesse primeiro ano, isso seria o ideal para termos bebés mais saudáveis e sociedades mais felizes e equilibradas.

 

 

Realizou-se em França a atividade “Copain du Monde 2017” com jovens acompanhados pelo Projecto Rua do Instituto de Apoio à Criança

Julho 28, 2017 às 3:52 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Entre os dias 17 e 23 de julho de 2017, o Secours Populaire Français proporcionou a 5 crianças do IAC Projecto Rua, umas férias inesquecíveis. Fica na memória de todos (entre muitas outras atividades que não cabem nestas linhas) a visita ao Palácio e jardins de Versalhes, o almoço com vista para a Torre Eiffel, um cruzeiro no Sena no afamado Bateau-Mouche, o voo pelos céus de Versalhes em avioneta e tão ou mais importante que as experiências anteriores, os laços que se criaram com crianças francesas e gregas que nos ensinaram (entre outras coisas) a dizer no final destas maravilhosas férias, “merci beaucoup e efcharistó polý” (muito obrigado).

 

 

 

O Encontro Comemorativo dos 20 Anos da Rede Construir Juntos decorreu em 30 de junho de 2017

Julho 28, 2017 às 3:37 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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No dia 30 de junho, assinalou-se os 20 Anos da Rede Construir Juntos (RCJ), com a realização de um Encontro Comemorativo, que decorreu no Auditório do Instituto Português do Desporto e Juventude, em Lisboa.

A sessão de abertura contou com a presença de Manuela Eanes – Presidente Honorária do IAC, Augusto Fontes Baganha – Presidente do Conselho Diretivo do IPDJ, Hugo Carvalho – Presidente do Conselho Nacional da Juventude e José António Vieira da Silva – Ministro do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social. Manuela Eanes, no seu discurso sábio, salientou que uma das grandes prioridades da Europa tem de ser o Social, num trabalho responsável e humanizado, enfatizando a importância que a constituição da Rede Construir Juntos teve para a promoção da intervenção, não só do IAC mas também das demais entidades parceiras. Vieira da Silva evidenciou a enorme importância de se estabelecer um diálogo aberto com as redes da sociedade civil, numa lógica de cooperação com os poderes instituídos.

Terminada a sessão de abertura, um grupo de jovens subiu ao palco para ofertar a cada um dos presentes uma flor, portadora das suas mensagens, como símbolo da sua Voz. Seguiu-se depois um Momento Musical com a atuação de representantes da Rede Juvenil Crescer Juntos.

O 1º painel – “20 Anos a Construir Juntos” teve a participação de Matilde Sirgado, Coordenadora do IAC – Projecto Rua, Paula Nobre de Deus da Direção da Associação Chão dos Meninos de Évora e Carlos Caixas, Psicólogo e consultor para a intervenção profissional de pessoas vulneráveis.

 

 

Matilde Sirgado levou-nos numa “viagem “ pelas várias etapas do crescimento da RCJ, com “escala” obrigatória em momentos fulcrais da vida desta Rede. Convidando-nos a participar num “regresso ao passado”, recordou o momento de formalização pública da Rede, destacou a tipologia de acções levadas a cabo, demonstrando a capacidade que esta Rede sempre demonstrou em antecipar respostas adequadas aos problemas sociais emergentes, promovendo a transferibilidade de metodologias a nível nacional e internacional, reforçando a inevitabilidade do trabalho em parceria.

Frisando a importância do registo de todos os momentos que ajudaram a Rede a crescer, Paula Nobre de Deus desafiou os presentes a “regressar ao futuro”, a renovar o compromisso de partilha, a ligar esta Rede a outras redes por forma a ter uma visão concertada dos problemas e a assumir uma postura de lobby para que possamos ter uma política pública, para as crianças/jovens e suas famílias, que garanta uma transversalidade necessária no âmbito dos Direitos.

Carlos Caixas proferiu a comunicação: “Construir Juntos(,) o Portugal Social e a Europa”. Recordou a importância que a RCJ teve para o crescimento da ArteNave de Moimenta da Beira. Abordou a necessidade de financiamento das redes para que possam efetivar o seu trabalho e que os projetos deveriam ser tomados pelas instituições e não por pessoas.

No período da tarde, Paula Duarte, Coordenadora do IAC – Fórum Construir Juntos em Coimbra, Alexandre Gencer e Maria Lopes – Representantes da Rede Juvenil – abordaram o tema “Rede Juvenil Crescer Juntos – Os Jovens como Agentes de Mudança”.

 

 

Paula Duarte fez um balanço dos sete anos de Rede Juvenil e evidenciou a importância/dedicação do trabalho desenvolvido pelos jovens da Rede Juvenil Crescer Juntos (RJCJ).

Alexandre Gencer partilhou com os presentes as mais valias de pertencer a uma rede, na qual os jovens tem uma participação ativa em todo o processo e se sentem representados. Considerou ainda que é pertinente que todas as instituições tenham conhecimento do trabalho umas das outras para que possam ser mais eficazes e não duplicar ações.

Maria Lopes deu o seu testemunho, enquanto membro da Rede Juvenil, conseguindo passar a mensagem de uma forma emotiva e criativa.

A Coordenadora do Núcleo da EAPN de Lisboa, Maria Joaquina Madeira, apresentou uma comunicação sobre “O Valor Acrescentado do Trabalho em Rede”. Realçou que as instituições desenvolveram novas competências que só são possíveis com um trabalho em rede e que alguns dos problemas se resolvem inovando. Considerou que esta Rede é uma rede vitoriosa pois contempla a ação humana, os afetos, a cooperação e a coragem de inovar.
Hermano Carmo, Professor Catedrático, abordou a temática “As Parcerias na Educação para a Cidadania”. Referiu que não é possível lidar sozinho com problemas complexos. Daí a importância de um cidadão, para exercer o seu dever de cidadania, ser autónomo, solidário e socialmente responsável. Para concluir referiu que a “chave da sustentabilidade de qualquer parceria está na capacidade de ser autêntica, ou seja a sua prática tem de corresponder à sua retórica”.

 

 

Paulo Teixeira, Consultor Logframe – Consultoria e Formação -falou sobre a “RCJ – Que perspetivas para o Futuro?”. Referiu que estamos num contexto de mudança nas formas de pensar e agir na área social. Neste sentido, considerou a RCJ um bom exemplo de resiliência e de adaptabilidade. Para o futuro, considerou que a Rede deverá ser sustentável, ganhar escala, ter aumento de eficiência e eficácia, de forma a responder rapidamente a novos desafios. Neste sentido, as redes não são uma opção, mas sim uma inevitabilidade.

Na sessão de encerramento, contámos com a presença de Dulce Rocha-Presidente do IAC, Cinelândia Cogumbreiro Presidente do IAC Açores, José Carreiro – Presidente do CASLAS –Lagos, João Afonso – Vereador dos Direitos Sociais CML, Pedro Folgado – Diretor do Departamento da Juventude do IPDJ e João Paulo Rebelo – Secretário de Estado da Juventude e do Desporto. Foi dado ênfase ao facto de a RCJ, nos seus projetos, dar voz aos jovens, respeitando o direito à participação e opinião das crianças, numa lógica de empoderamento da juventude. Em jeito de conclusão e, como afirmou Hugo Carvalho, ”olhar para a descendência de uma rede é olhar para o futuro”.

Paralelamente à realização do Encontro, esteve patente ao público uma exposição, sobre o percurso da Rede ao longo de duas décadas, ilustrada com imagens das atividades mais emblemáticas. Considerou-se ainda importante e oportuno, pela temática abordada, a divulgação do livro Crianças em Situação de Rua: O caso do IAC – Projecto Rua “Em Família para Crescer”, da autoria de Matilde Sirgado.

Salienta-se ainda a amável colaboração da Casa Pia de Lisboa, que proporcionou um saboroso coffee break servido pelos seus alunos.

“25 anos de intervenção do Projecto Rua em retroespetiva”

Julho 28, 2017 às 11:00 am | Publicado em Livros | Deixe um comentário
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“25 anos de intervenção do Projecto Rua em retroespetiva”

Decorreu no dia 29 de junho, na livraria Bulhosa do Campo Grande, o lançamento do livro “Crianças em Situação de Rua: O Caso do IAC – Projecto Rua “Em Família para Crescer”, da autoria de Matilde Sirgado.

No estudo e investigação apresentados neste livro pretende-se analisar a problemática das crianças em situação de rua na cidade de Lisboa, recorrendo à metodologia de intervenção desenvolvida pelo IAC- Projecto Rua ao longo de 25 anos.

 

 

Através de uma pesquisa exploratória de estudo de caso único, apoiada numa abordagem qualitativa teórico e analítica, faz-se uma análise aprofundada do Projecto que visou a compreensão do seu papel na construção de percursos de inclusão, em torno das seguintes dimensões: como Observatório Social da problemática, como Laboratório Social, como Serviços de Cuidados de Proximidade e como contributo para a adequação de Políticas Públicas.

Para além da equipa do Projecto Rua e representantes de entidades parceiras, a sessão contou também com a presença da Presidente Honorária do IAC, Dra. Manuela Ramalho Eanes, tendo a apresentação da obra ficado a cargo do Professor Dr. Hermano Carmo do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa e orientador do mestrado que deu origem a esta obra, e da Presidente da Direção do IAC, Dra. Dulce Rocha.

Atualmente esta obra está disponível para venda através do IAC e Edições Silabo e a partir de setembro nas livrarias habituais.

Paula Paçó

“Passa! Remata! Sr. Árbitro, você é cego?” Na Suécia, há clubes que querem por os pais na linha

Julho 28, 2017 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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texto do site http://24.sapo.pt/ de 10 de julho de 2017.

Um inquérito levado a cabo na Suécia revelou que as crianças sentem diretamente o impacto da exigência de alguns pais — que muitas vezes apenas querem o melhor para os filhos, mas que não conseguem evitar o seu espírito combativo. De acordo com o britânico The Guardian, um em cada três jovens pondera abandonar o futebol devido à pressão que sente. Assim, três clubes de Estocolmo resolveram atuar e tomar medidas

A competitividade sempre existiu, a rivalidade entre clubes, também. Mesmo entre miúdos. Mas o mundo não para de girar, a tecnologia evoluiu e o futebol com ela. Em tempos idos, os primeiros toques eram dados na rua, com amigos e à vontade do dono da bola — o rei do bairro. Mais tarde, para alguns, a transição era feita para um campo pelado. Aqui, no verão comia-se pó e apurava-se a técnica; no inverno, treinava-se a força nas possas de água e na lama. Primeiro num campo de 5×5, mais tarde para os 7×7 e, por fim, alguns anos depois, para o futebol de 11×11. Hoje, há academias, treinadores especializados, botas de todas as cores, festejos à Ronaldo e toda uma panóplia de exercícios que visam criar máquinas modernas do beautiful game. No entanto, há algo que parece inerente às eras: os pais e os treinadores de bancada que querem ensinar tudo aquilo que sabem aos mais novos. A gritar.

Zlatan Ibrahimovic, Henrik Larsson, Fredrik Ljungberg, Sven Rydell ou Anders Svensson são filhos da nação da bandeira azul e amarela. A competir em provas internacionais desde 1908, ano em que competiram nos Jogos Olímpicos de Londres, os suecos têm uma longa história crivada no desporto-rei, apesar de não serem uma seleção proliferamente associada a títulos. Contudo, no futebol, seja no norte da Europa, seja em qualquer outra parte do mundo, há algo em comum: nos jogos das camadas jovens, em muitos casos a dar os primeiros toques na bola e nos primeiros ciclos de aprendizagem, existem famílias que assistem às partidas nas bancadas que se esquecem da idade e do ambiente a seu redor.

Quem já assistiu a jogos das camadas jovens, sabe que é uma realidade. E, quanto maior a exigência, maior a dívida a cobrar aos mais novos. Há muito que deixou de ser um jogo a ser disputado por prazer, relegando a diversão própria da idade para contornos menos dignos dum jogo amado por milhões.

Ainda no passado 3 de junho, houve um treinador que foi despedido por incitar a equipa a ganhar por um resultado capaz de tirar a alegria a qualquer jovem — independentemente se esteja a vencer ou não. A equipa B de sub-11 dos Serranos, da cidade de Valência, recebeu e goleou o Benicalap C, também de Valência, por 25-0. A dilatada vantagem num jogo em que o campo era ocupado por meninos de 10 e 11 anos, caiu mal à direção da equipa vencedora que acabou mesmo por demitir o treinador.

Foi precisamente devido a estes moldes, para evitar que crianças deixem de jogar futebol devido a pressões exteriores, que três clubes clubes da capital sueca, suspeitando que estas estavam a ser afetadas, quiseram aprofundar o seu conhecimento sobre o assunto.

Os resultados foram, no mínimo, alarmantes: uma em cada três jovens atletas queria desistir devido ao comportamento daqueles que, de acordo com inquérito, eram catalogados de “pais sobreenvolvidos”. Dos 1.016 adultos que responderam ao questionário, 83% afirmou já ter assistido a pais que exigiam demais dos seus filhos ou que teciam duras criticas aos árbitros — também eles jovens — e juízes de linha, em alto e bom som.

Os clubes — Djurgdarden, AIK e Hammarby — ficaram atónitos com as respostas às perguntas e com os números que estas mostraram. E decidiram atuar — pondo as rivalidades, palmarés e a clubite inerentes às proximidades geográficas, de parte.

Combatendo numa frente em conjunto, partiram num uníssono em prol de uma resolução do problema em mãos. Assim, juntaram-se e elaboraram um “código futebolístico” que, esperam, venha a instar uma mudança de comportamento por parte dos pais que assistem aos jogos dos filhos ou das equipas de formação dos emblemas. O código, citado pelo The Guardian, numa tradução livre, escreve o seguinte:

“Eu, como pai, farei tudo o que estiver ao meu alcance para apoiar o meu filho, as outras crianças, os membros do clube, os árbitros e os [outros] pais nos campos de treino e durante os jogos — através de um ambiente positivo”.

Mais de 1.600 pais já assinaram. E, a cada dia que passa, mais o fazem e seguem os passos daqueles que já subscreveram o intento dos três emblemas de Estocolmo. A intenção, segundo alguns pais, passa por imprimir a mensagem em t-shirts para que o código se estenda e chegue a mais pessoas — algo que parecem ter conseguido, pois já existem outros clubes a quererem associar-se à iniciativa.

Na voz do vice-capitão do AIK, Stefan Ishizaki: “Num ambiente desportivo, para proteger a criança, a felicidade tem de ser a coisa mais importante porque é então que a vão levar para o resto das suas vidas. Os jogos, os torneios e as sessões de treino, é onde vais passar o tempo com os teus amigos e a fazer algo que gostas. Futebol é paixão. É a felicidade, tristeza e todas as emoções entre elas. Futebol é a coisa mais bonita que existe — e é assim que se deve manter.”

O inquérito, levado a cabo pela Survey Sampling Internacional, chamou a atenção dos media nacionais e já se espalhou opiniões pelo país. O The Guardian escreve que “não se trata de um problema apenas da Suécia”, mas que alastra pelo mundo inteiro. No entanto, escreve a publicação que todas as lutas têm de começar nalgum lugar, sendo que o país do “Rei Zlatan” foi o primeiro a dar exemplo. Agora é esperar que outros trilhem o mesmo caminho para que continuem a aparecer novas esperanças como Alexander Isak.

 

 

 


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