O cérebro adolescente

Junho 24, 2017 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto da http://revistaneuroeducacao.com.br/ de 25 de setembro de 2015.

Muitas vezes eles pensam e sentem como os adultos. Mas não raro se comportam como crianças. A explicação é neurobiológica: algumas regiões cerebrais responsáveis pela autorregulação amadurecem mais tardiamente. Estudos com as modernas tecnologias de imageamento trazem uma melhor compreensão das intensas transformações que ocorrem nessa etapa da vida

por Gilberto Stam

Desejara que não houvesse idade entre 16 e 23 anos, ou que a mocidade dormisse todo esse tempo.” Na peça Conto de inverno, escrita entre 1610 e 1611 por William Shakespeare, o personagem denomina os jovens de “cérebros ferventes”. Sua reação à rebeldia típica dessa fase da vida revela que nada mudou ao longo do tempo. Os adultos, em geral, sentem muita dificuldade de compreender o comportamento dos adolescentes.

Em tempos modernos, a mesma atitude tem sua melhor tradução em uma expressão bem conhecida de todos nós: “são os hormônios!”, um bode expiatório invisível que explicaria o comportamento dos jovens. Essa afirmação, na verdade, indica pouco conhecimento sobre o assunto. “Existe apenas um hormônio importante na adolescência, o sexual, e por si só ele não explica outros comportamentos típicos da faixa etária, como a sociabilidade e a propensão ao risco”, diz a neurocientista Suzana Herculano-Houzel, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, autora do livro O cérebro em transformação (Objetiva). “Quem comanda as mudanças da adolescência, inclusive a produção do hormônio sexual, é o cérebro”, explica.

É evidente que um adolescente tem o cérebro imaturo, já que, por definição, ele ainda não é um adulto. Mas o corpo desenvolvido, já parecido com o do adulto, acaba gerando nos mais velhos a expectativa de um comportamento mais maduro, o que se torna fonte permanente de frustração. Um dos motivos desse tipo de engano está em informações científicas incorretas. Há duas décadas, a teoria predominante era que o cérebro atingia sua maturidade máxima no final da infância. Mais recentemente, constatou-se que o adolescente, na verdade, não está totalmente maduro fisicamente – inclusive no que diz respeito ao cérebro. “A maturação do cérebro humano segue pela adolescência e pode continuar até a idade adulta”, diz a neurocientista Sarah-Jayne Blakemore, da Universidade de Londres. “Dez anos atrás, sabíamos pouco sobre o cérebro adolescente. Avançamos muito graças às novas tecnologias de imagem, feitas por ressonância magnética”, diz.

Imagens que dizem muito

Um grande projeto nessa área de pesquisa é conduzido pelo Instituto Nacional de Saúde Mental dos Estados Unidos, que conta com cerca de 8 mil imagens de 2 mil pessoas – entre crianças, adolescentes e adultos –, oferecendo uma nova perspectiva sobre o desenvolvimento do cérebro. Uma das mudanças mais visíveis nessas sequências de imagens ocorre na chamada massa cinzenta, a região mais exterior do órgão, que é constituída pelos corpos celulares dos neurônios. Ao contrário do que se possa imaginar, a massa cinzenta diminui ao longo da adolescência.

Essa diminuição, no entanto, não representa uma perda de neurônios, cujo número, em geral, pouco muda. Ela ocorre devido a uma grande perda de sinapses (conexões entre os neurônios mediadas por substâncias químicas chamadas de neurotransmissores). As sinapses começam a aumentar durante a gestação e atingem o pico aos 6 meses de vida do bebê. Na adolescência, o quadro muda. “No começo dessa fase, há um grande número de sinapses, mas, quando se inicia a transição para a fase adulta, ocorre uma morte programada de sinapses, que refina as conexões”, diz a neuropsicóloga Cláudia Berlim de Mello, do Centro Paulista de Neuropsicologia. “Essa perda de algumas sinapses – e consolidação de outras – acontece de acordo com o uso”, explica. Ou seja, sinapses usadas com frequência são reforçadas, enquanto as que deixam de ser usadas são perdidas, de modo que as opções feitas nessa fase da vida ajudarão a formar o cérebro do adulto.

Paralelamente, ocorre outra mudança importante na chamada matéria branca, constituída por axônios (parte do neurônio responsável por conduzir os impulsos elétricos que partem do corpo celular). Ao longo do desenvolvimento, os axônios são cobertos por uma camada de mielina, que forma uma espécie de capa. A mielina é um isolante e aumenta a velocidade de transmissão do sinal entre as células. Assim, enquanto a matéria cinza diminui devido ao corte das sinapses, a branca aumenta por causa do aumento na mielina. Entre a perda e o refinamento das sinapses, a massa total do cérebro permanece relativamente constante, mas o funcionamento vai se aprimorando graças às mudanças estruturais e químicas. Além de ajudar a entender o adolescente, essas descobertas podem levar muitos adultos a questionar própria maturidade cerebral. Isso porque o corte de sinapses pode avançar até os 30 anos, e o aumento na massa branca, até os 40.

EMBATES COM A FAMÍLIA

Há outro dado nesse complexo processo: a maturação do cérebro não se dá de maneira homogênea, mas em ritmos diferentes em cada região. As novas tecnologias de imagem mostram que a última parte do cérebro a amadurecer – o córtex pré-frontal – é justamente a região onde se processam comportamentos tipicamente de adultos, como capacidade de planejamento, concentração, inibição de impulsos e empatia. Ao mesmo tempo que o corte do excesso de sinapses aperfeiçoa o funcionamento dessa importante área, as novas e melhoradas fibras com mielina permitem que diferentes partes dentro do pré-frontal se comuniquem melhor. “Essa integração resulta em um aperfeiçoamento da linguagem e da coordenação motora, por exemplo”, diz Herculano–Houzel. “Não por acaso, pacientes adultos que sofreram lesões no córtex apresentam comportamentos típicos de adolescentes”, completa.

Com o amadurecimento do córtex pré-frontal, o adolescente vai se aproximando do mundo adulto, embora de maneira não muito suave. “Nessa fase, começam a se desenvolver o comportamento autorreflexivo, a autorregulação e o raciocínio, levando a uma maior consciência crítica de si e dos outros”, diz Berlim de Mello. “Por isso, eles tendem a ver incongruências no mundo dos adultos. Ao contrário da criança, que tende a ser alegre, o adolescente é mais irritadiço e nega ou questiona o que vem antes dele.” Como o cérebro ainda está se consolidando, as oscilações de humor são comuns, assim como o comportamento reativo. “Eles começam a olhar o mundo de forma mais profunda, mas o lado emocional não está totalmente amadurecido. Daí surgem embates com os adultos e com a família”, explica a neuropsicóloga. “Além disso, eles são mais impulsivos, reativos e intensos. Percebem as incongruências, mas não sabem como lidar com elas.”

Se, por um lado, a maturidade emocional do adolescente oscila, é nessa fase também que ele passa a possuir ferramentas que o preparam para a vida adulta. Surge a capacidade de tomar decisões, julgar e planejar. No córtex pré-frontal, uma região chamada córtex orbitofrontal (localizada atrás dos olhos) é a última a amadurecer e promove as capacidades de usar emoções para nortear decisões e de criar empatia pelos outros – características fundamentais da vida adulta.

Insaciáveis

Outra mudança fundamental ocorre no sistema de recompensa, “conjunto de estruturas no cérebro responsáveis por premiar com prazer ou bem-estar comportamentos que acabaram de se mostrar úteis ou interessantes”, conforme Herculano-Houzel define em seu livro. Isso significa que o adolescente precisa de muito mais para sentir prazer. É algo difícil de visualizar porque ocorre em nível bioquímico – no cérebro, o prazer é proporcionado pela molécula dopamina, que é um neurotransmissor. Os adolescentes possuem um terço dos receptores para dopamina. Por isso, precisam de experiências mais intensas, que estimulam mais a liberação da substância, para sentir prazer. Essa mudança, por si só, é a principal responsável pela maioria dos comportamentos típicos do adolescente, como a busca de novidades, os excessos (como ouvir música alta) e o comportamento de risco, que também gera euforia e produção de dopamina. Sem falar na nova e mais importante descoberta: o sexo, cujo prazer só é possível porque o sistema de recompensa se torna sensível aos hormônios que promovem o prazer sexual. E tudo isso não é ruim, pois a procura pelo prazer é o que move o adolescente a descobrir coisas novas e a buscar independência.

Riscos possíveis

As coisas podem se complicar, porém, quando o comportamento de risco e a sociabilidade nascente se combinam. “Na adolescência, a causa principal de morte são os acidentes que, em geral, são causados por comportamento de risco”, diz Blakemore. “Um dos motivos principais do comportamento de risco é a influência do meio social. Os adolescentes são levados a impressionar os amigos, em busca de aprovação, enquanto também vão se tornando mais independentes dos pais.”

O encontro de um cérebro em formação com o comportamento de risco, como consumo de álcool e de drogas, é o ponto de maior vulnerabilidade. Afinal, a especialização das sinapses ocorre tanto para bons quanto para maus hábitos. O risco de dependência é maior porque o jovem está numa fase de experimentação. Dependências adquiridas podem permanecer durante a vida adulta. As descobertas sobre esse período da vida ajudam a lançar um olhar novo sobre o adolescente e a reconhecê-lo como alguém que não está pronto e que, por isso, precisa ser acolhido e orientado. Elas ajudam a pintar com detalhes um quadro que já havia sido delineado pela psicologia, mostrando que a adolescência é uma fase característica e que, também no cérebro, os adolescentes apresentam suas peculiaridades – que precisam ser respeitadas.

 

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