Acidentes roubaram a vida a 80 menores

Junho 8, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Jornal de Notícias de 23 de maio de 2017.

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Intercâmbios Europeus de Jovens – Oportunidades para este verão, em Lisboa

Junho 8, 2017 às 4:01 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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O  Clube Intercultural Europeu – associação socioeducativa de Lisboa – co-organiza este verão, em Lisboa, três intercâmbios de jovens juntando jovens vivendo em França e em Portugal.  

Espaços de aprendizagens, de animação, de atividades diversas, de convívio e partilha intercultural, apoiadas pelo Programa Erasmus + Juventude.

Preço de inscrição para cada intercâmbio: 50 euros incluindo seguro, alojamento, alimentação, transportes locais, atividades. Sendo que no e com o Clube ninguém fica de fora por motivos financeiros, pelo que não hesites em falar connosco.

 Estas são oportunidades imperdíveis para jovens dos 15 aos 25 anos!

Mais informações por mail clubeinterculturaleuropeu@gmail.com ou por telefone 213140073

Agradecemos todo o apoio na divulgação e esperamos encontrar-vos este verão!

https://clubeinterculturaleuropeu.wordpress.com/

https://www.facebook.com/clubeinterculturaleuropeu/

 

Oito métodos para uma internet mais segura

Junho 8, 2017 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto da http://www.paisefilhos.pt/ de 25 de maio de 2017.

Family with laptop in bed. Mother and child with computer at home

As recentes notícias sobre o jogo “Baleia Azul” – cuja consequência mais grave é poder levar os jovens participantes ao suicídio – são apenas o último “susto” que os pais de crianças e jovens têm vindo a experimentar no que diz respeito à forma como os filhos agem online. Há muito que medos relacionados com a exposição a conteúdos pornográficos, ciberbullying ou a atuação de predadores sexuais na internet fazem parte do quotidiano dos adultos. Há por isso que adotar estratégias que, ao mesmo tempo que reconhecem a omnipresença do mundo virtual na vida dos mais novos, promovem uma maior segurança.

Recentemente, a especialista britânica Katharine Hill lançou um livro com o título “Left To Their Own Devices?” (“Deixados à solta?”, em tradução livre), onde não só identifica algumas das situações a que pais, avós e adultos de referência devem estar atentos, como identifica oito métodos para promover o uso da internet de uma forma mais segura em meio familiar.

 1 – Não proibir a tecnologia

“Não é produtivo impedir as crianças de terem acesso à tecnologia. Eventualmente, haverá um amigo ou colega que tem um tablet ou um smartphone e as imagens e conteúdos vão chegar. Trata-se, antes de mais, de aprender a distinguir o certo do errado”.

 2 – Não deixar que os ecrãs dominem o quotidiano

“Enquanto pais ou avós, há que evitar que a vida seja passada à frente dos ecrãs, começando por dar o exemplo. Há que falar sobre o tempo que é gasto e que poderia ser perfeitamente utilizado para outras atividades de lazer. E, se for necessário, estabelecer regras de utilização adaptadas às diferentes idades das crianças e adolescentes”.

 3 – Criar um “acordo familiar tecnológico”

“Uma das coisas mais importantes que os pais podem fazer é usar os valores familiares no uso da tecnologia. Por exemplo, criar um ‘acordo tecnológico’ que estabeleça claramente o que as crianças estão autorizadas a fazer, o que é de evitar e o que não podem mesmo fazer e basear essas escolhas nos princípios que regem a vida da família”.

 4 – Deixar os equipamentos a carregar for a do quarto

“Uma parte importante desse ‘acordo tecnológico’ é estabelecer que os carregamentos dos aparelhos são feitos, durante a noite, fora dos quartos. Isto é o equivalente a impedir o acesso à internet durante essas horas. Mas, atenção: mais uma vez, todos os membros da família devem respeitar essas ‘horas sem net”, tanto crianças como adultos”.

 5 – Usar os sistemas de controlo parental

“No Reino Unido, a idade média em que as crianças têm acesso aos primeiros conteúdos pornográficos é aos 11 anos. Daí ser extremamente importante usar os sistemas de controlo parental nos sites e smartphones. Não se trata de impedir acesso à informação e conteúdos positivos, mas sim gerir e bloquear conteúdos impróprios”.

 6 – Estar envolvido na “vida online” dos mais novos

“No caso dos adolescentes, não há que hesitar: os adultos devem fazer parte das suas redes sociais e segui-los atentamente. Mas nunca de uma forma que pareça controladora, antes mostrando envolvimento positivo. Por exemplo, tirar uma foto de uma atividade em família e postá-la conjuntamente no Instagram”.

 7 – Estar informado e preparado para falar

“Não se pode enterrar a cabeça na areia e evitar falar de assuntos difíceis. Os pais podem pensar algo como ‘o meu filho não vê pornografia’ ou ‘nunca será uma vítima da Baleia Azul’, mas isso está longe de ser uma certeza. Daí ser importante os adultos manterem-se a par dos desenvolvimentos, bons e maus da tecnologia, para que as crianças saibam que podem falar abertamente sobre estes temas e serem compreendidas”.

8 – Limitar o uso adulto dos ecrãs

“Mais uma vez repito que é essencial ensinar pelo exemplo. Os valores transmitem-se, não se impõem. Se nos momentos em família, durante as brincadeiras ou às refeições, os adultos não largam os ecrãs, nada mais natural que as crianças e jovens façam o mesmo. Há que mostrar que o pai e a mãe sabem limitar o uso, em vez de lhes exigir que o façam apenas porque são os mais novos”.

 

 

 

Como explicar o terrorismo às crianças?

Junho 8, 2017 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Desta vez um ataque terrorista teve como alvo um público muito jovem. Devem os pais falar sobre isso com os filhos? E como? Fomos ouvir um pedopsiquiatra e quatro psicólogas.

Na terça-feira à noite, as 21 mil pessoas que assistiam ao concerto da cantora pop norte-americana Ariana Grande no Manchester Arena, em Inglaterra, foram surpreendidas, no final do espetáculo, por uma forte explosão que vitimou 22 pessoas e deixou outras 59 feridas. Mais um atentado, já reivindicado pelo Estado Islâmico, que se soma a muitos outros nos últimos meses mas este com uma particularidade que o distingue dos demais: desta vez o alvo foram sobretudo crianças (e os pais que as acompanhavam).

Por isso, e pelo facto de o atentado ter ocorrido no final de um concerto de um dos ídolos pop das crianças e jovens, faz com que, provavelmente, as crianças e adolescentes se sintam mais identificadas e estejam mais sensíveis a estas notícias. É também natural que as dúvidas e perguntas em torno deste atentado e vindas desta faixa etária surjam com mais expressão.

A pensar nisso, no concerto desta cantora que está agendado para o dia 11 de junho no MEO Arena, nos receios dos pais e nas eventuais perguntas que possam surgir em casa, o Observador falou com quatro psicólogas e um pedopsiquiatra para ajudar a encontrar respostas para algumas das questões que possam estar a surgir neste momento.

  1. Deve-se falar e explicar o terrorismo às crianças e pré-adolescentes?
    Sim. Esconder informação não deve ser opção.

“Vindo a propósito, os pais podem falar do terrorismo, sem alarmismo”, defende Pedro Pires, pedopsiquiatra do Hospital Garcia de Orta, em Almada. Uma opinião subscrita pela psicóloga clínica Filipa Silva: “Neste momento, a questão da violência e do terrorismo estão na ordem do dia e devem ser discutidas. Não é possível abafar a informação e não parece que esconder informação seja a melhor abordagem”.

Também Isabel Abreu-Lima, professora na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto, defende que a criança que interroga sobre este assunto deve ter uma resposta e que os pais não devem mentir. “Contudo essa verdade deve ser doseada. Devemos ajustar as nossas explicações, monitorizando a forma como a criança está a reagir.”

E a psicóloga clínica e psicoterapeuta Patrícia Câmara é da opinião que “a abordagem não deve ser nunca que as coisas não acontecem, ainda que não devam ser empoladas”.

2. Como deve ser feita a abordagem? Como se deve explicar o terrorismo?
“Há pessoas boas e más”

OK, deve-se falar sobre estes atentados e sobre o terrorismo às crianças e pré-adolescentes. Mas como? Inês Marques, psicóloga clínica, coordenadora da equipa infanto-juvenil da Oficina da Psicologia, aconselha a que os pais evitem vocabulário difícil quando estão a falar para crianças em idade de pré-escolar ou a frequentar o ensino primário. “O ideal é falar de pessoas boas e más, sempre na lógica de que as pessoas não nascem más mas que há algo na história de vida dessas pessoas que as levou para esse extremo”. E questionados sobre as motivações dessas pessoas más, os pais podem “assumir que é muito difícil perceber o que está por detrás de tudo isto, que eles próprios não entendem. Ser genuíno é muito importante”.

Também Filipa Silva, psicóloga clínica e formadora, começa por dizer que é preciso “adaptar o discurso”. “Até aos seis anos devemos explicar, contrariamente a alguns livros de histórias encantadas, que nem toda a gente é boa e que nem todos os fins de história são felizes. E isso não tem mal nenhum”, assegura a psicóloga, acrescentando que “dos seis aos 10 anos, ainda numa fase da infância, podemos começar a usar a palavra ataque e explorar o que é isto do ataque. Da pessoa que não está bem e que planeia fazer mal aos outros”. Isso, remata a Filipa Silva, “sem nunca fazer associações a etnias, nem religiões, nem nacionalidades.” A partir dos 11 anos, “aí já podemos elaborar a ideia de terrorismo porque já vão perceber os conceitos”.

Um dos conceitos que as crianças devem aprender desde cedo é o da maldade, e também têm de perceber que há limites e que todos os atos têm consequências nos outros, sublinha a docente da Universidade do Porto, Isabel Abreu-Lima. “Tem de se explicar que existe maldade, que há pessoas, de facto, más e que causam sofrimento nos outros, que há pais que ficaram tristes e meninos que morreram, mas que também há muitas pessoas boas e que isso é o mais frequente.” Ou seja, até aos seis ou sete anos de idade o melhor mesmo, destaca a psicóloga, é dar uma “explicação simples e linear de que há pessoas más” pois a criança “não vai entender o que é o terrorismo”.

Abordar o assunto pela tónica de que “a maldade existe e que o mundo também é feito de pessoas más” é a melhor solução também na opinião do pedopsiquiatra Pedro Pires. Quanto a uma explicação mais elaborada, essa só deve chegar mais tarde. “A partir dos 10 anos a explicação pode ir até onde o pai ou a mãe sabe que vai a maturidade do filho.”

Para Patrícia Câmara, mais do que dizer que são más pessoas, pode-se dizer que são “pessoas que esqueceram que são pessoas que não aguentam que os outros sejam felizes”.

3. Explicar só depois das crianças perguntarem ou explicar mesmo sem haver perguntas?
Procurar perceber o que a criança quer saber. “Menos é mais”
O pedopsiquiatra acha que a explicação só deve chegar caso a criança pergunte. Já a psicóloga clínica Filipa Silva considera que no caso das crianças até aos seis anos “devemos observar e ver se têm algum tipo de alteração de comportamentos ou se abordam o assunto para não introduzirmos conteúdos precocemente sem necessidade”.

Para Inês Marques, da Oficina da Psicologia, “um bom princípio é, ainda antes de responder às questões, perguntar à criança ou pré-adolescente o que já sabe, o que já ouviu falar e o que gostava de saber mais”. Desta forma, acrescenta, a mãe ou o pai poderão “adequar o conteúdo e a quantidade de informação, assim como a linguagem”.

Já Patrícia Câmara responde com cautela, afirmando que “conhecendo os nossos filhos e se sabemos que ficam mais impressionados com o tema devemos falar, mesmo que eles se calem. Devemos gerir o assunto de acordo com o tipo de criança que temos e a idade, mas sobretudo tentando não minimizar mas, por outro lado, não tornando o assunto demasiado próximo”.

4. Como evitar que as crianças fiquem com medo?
Dizendo que há mais pessoas boas do que más

Sem esconder os próprios receios — “porque o medo é uma emoção que surge para nos proteger mas que muitas vezes é ativado em situações não reais” –, os pais devem “passar, na medida do possível, confiança e segurança aos filhos”, sublinha a psicóloga Inês Marques, e, para tal , devem insistir na ideia de que “a maioria das pessoas é boa e não usa violência e que este grupo de pessoas más é uma minoria e que estes atentados são circunscritos”.

Também a psicóloga Filipa Silva sublinha a importância de os adultos se acalmarem antes de falar com os filhos. “Importa primeiro regular as nossas próprias emoções e então mais calmos podemos falar com as crianças. Se estamos a tentar acalmar as crianças e não estivermos tranquilos elas vão sentir isso”, começa por dizer Filipa Silva, para logo acrescentar que “é preciso dizer que há mais pessoas boas do que más”. Além disso, “vale a pena muitas vezes pegar no argumento de que estes atentados são distantes e até se pode mostrar no mapa. Se a distância não puder ser usada como argumento de segurança, podemos pôr o foco nas figuras policiais e dizer que o senhor mau já foi apanhado”. Questionados sobre a possibilidade de voltar a acontecer uma situação parecida, os pais devem dizer a verdade: “pode acontecer, mas é pouco provável”.

Desde logo “os pais têm de estar calmos e não passar o nervosismo porque a criança fica mais aflita com a reação dos pais do que com o acontecimento em si”, frisa o pedopsiquiatra Pedro Pires, que insiste na ideia de que não se deve gerar alarmismo. “Não podemos passar a ideia de um mundo perigoso porque isso pode criar na criança um medo excessivo e generalizado. Os pais devem dizer que há de facto perigos, mas que, de um modo geral, o mundo não é perigoso.” E na mesma onda, Isabel Abreu-Lima sublinha a importância de não passar a ideia de que “o mundo e a vida são negativos e que não há nada a fazer contra estes atentados”. “A mensagem deve ser sempre de esperança.”

“É importante passar a mensagem às crianças que, aconteça o que acontecer, há sempre alguém e que mesmo que estejam sozinhas vai sempre haver alguém que vai ajudar, uma mão que vai aparecer. E que essas mãos, às vezes, vêm de dentro de nós, da força interna das coisas boas que vivemos”, aconselha a psicóloga Patrícia Câmara.

 

5. Qual o controlo em relação às imagens do atentado?
Pais devem controlar o acesso às imagens do atentado
Na opinião de Inês Marques, os pais devem “tentar que as crianças não tenham demasiada exposição às imagens e vídeos porque as crianças podem não ter maturidade suficiente para gerir essas imagens violentas”. Também Filipa Silva alerta que “é preciso ter cuidado com o tipo de imagem a que as crianças têm acesso. A criança pode ver uma foto, não tem de ver 10”.

Também o pedopsiquiatra do Garcia de Orta não tem dúvidas que “a criança deve ser protegida dessas imagens” que vão sendo divulgadas dos momentos que sucederam à explosão da bomba artesanal. “Não é expondo a realidade crua que faz com que as crianças tenham noção da realidade.”

“A gestão das imagens deve vir acompanhada da gestão de tudo o resto. A exposição às imagens oferece um nível de crueldade às crianças que não há necessidade”, defende a psicóloga Patrícia Câmara.

 

6. Devo deixar a minha filha ou o meu filho ir ao concerto da Ariana Grande em Lisboa?
Não há decisões certas, nem erradas
Para o pedopsiquiatra Pedro este atentado não deve fazer os pais mudarem de ideias “porque o atentado não teve a ver com a Ariana Grande. O que se passou foi a utilização de um acontecimento”, embora “tenham o direito de ter receio e não querer que os filhos vão. E aí devem ser francos”. O médico deixa contudo claro que “reforçar a segurança só reforça a insegurança. O ideal é agir de forma natural”.

Também Filipa Silva sublinha que “os pais têm total legitimidade de ficar preocupados e que não há escolhas certas nem erradas” e nesse sentido podem dizer que “neste momento, face à proximidade deste atentado, não se sentem à vontade para ir ao concerto. É como se fosse uma ferida que ainda está a sarar”. Porém, acrescenta, “há um princípio importante: quando começamos a fortalecer o medo e contornar questões eventualmente perigosas, começamos a encher um balão e se começamos a contornar tudo o que possa envolver perigo voltamos à era em que voltamos a ter crianças em casa”. E, por isso, na opinião desta psicóloga a abordagem, perante a insistência da criança ou pré-adolescente, pode ser outra: “fico mais intranquilo do que estava, mas se queres ir vamos porque se não vamos agora não vamos a mais nenhum concerto, nem tínhamos ido a Fátima ver o Papa”.

Patrícia Câmara é igualmente da opinião que “reiterar o medo é dar força à parte maligna” e, por isso, “escondermo-nos em bunkers não é solução”, até porque é preciso saber lidar com a “imprevisibilidade da vida”, sendo certo que a última decisão caberá sempre aos pais.

“Manter as nossas rotinas é importante”, defende Inês Marques. E caso os pais sejam questionados sobre a hipótese de vir a acontecer um atentado como o que teve lugar em Manchester, devem ser “sinceros” e dizer que “pode acontecer, embora a probabilidade de acontecer seja reduzida”.

Já a docente da Universidade do Porto, Isabel Abreu-Lima, vestindo a pele dos pais diz que “tentaria não tomar decisões já e abriria a porta para uma reflexão, tentando que a decisão fosse partilhada com a criança”. “Adiar a decisão é o mais sensato porque em cima do acontecimento será sempre não”, afirma, enfatizando que “a decisão diz respeito aos pais” e que eles “têm de ser soberanos”.

 

Artigo do Observador, publicado em 23 de maio de 2017

Stuart Brown. “Os adultos têm de ser capazes de brincar para que os filhos também o façam”

Junho 8, 2017 às 6:02 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Psiquiatra norte- americano começou a estudar a brincadeira depois de investigar homicídios em massa. Descobriu um ponto em comum entre os assassinos: brincaram muito pouco em crianças. Nos últimos 45 anos, tem-se batido pela ciência do brincar.

Nos últimos 45 anos, Stuart Brown entrevistou mais de 6 mil pessoas para reconstruir o seu historial de brincadeira em criança. O interesse surgiu ao investigar homicídios em massa. Um dos primeiros casos que analisou foi o massacre da Universidade do Texas, em 1966, em que Charles Whitman, ex-marine e estudante universitário, foi responsável pela morte de 16 pessoas. Na altura, Brown trabalhava no Baylor College of Medicine e liderou uma recolha de dados sobre a vida de Whitman para documentar o processo, a pedido do governador do Texas. Além do stress a que estava sujeito, a infância de abusos e num ambiente “tirano” em que cresceu foi uma das constatações da equipa: um vizinho contou por exemplo à equipa que Charles não podia brincar na rua, não podia subir às árvores nem levar amigos a casa.

A privação de brincadeira veio a ser declarada oficialmente como um dos fatores de risco para o crime. Depois deste, seguir-se-iam outros casos, que levaram o psiquiatra a traçar um denominador em comum: acredita que a falta de brincadeira em criança, sobretudo nos primeiros dez anos de vida, é um fator de risco para comportamentos antissociais e violentos.

Numa Ted Talk, em 2008, Brown lembrou o trabalho pioneiro, os exemplos de como os animais também brincam e os que não o fazem se tornam menos “inteligentes” e deixou o alerta: brincar é mais do que diversão. Em vésperas do Dia Mundial do Brincar, que se assinala este domingo, Brown respondeu, por email, a algumas perguntas do i. O desafio de dar prioridade à brincadeira espontânea no dia-a-dia mantém-se, acredita. E a mudança começa nos adultos.

Os novos fidget spinners voltaram a fazer-nos pensar nos brinquedos que chamam a atenção das crianças. Como explica este fenómeno?

Pelo movimento em si, pela facilidade com que se atiram, pelo contágio social – são uma moda. E sobretudo porque é divertido brincar com eles – uma brincadeira que não precisa necessariamente de ter um resultado. É como os boomerangs na Austrália, será que regressam mesmo para as nossas mãos quando são bem lançados?

Há quem defenda que os spinners ajudam a reduzir a hiperatividade e défice de atenção. Há estudos que o demonstrem?

O envolvimento e o movimento em doses curtas mas intensas tende a aliviar sintomas moderados de síndrome de défice de atenção e hiperatividade. Sabemos que brincar, no geral, alivia os sintomas, mas há diferenças individuais.

Tem havido sucessivas modas no que toca a brinquedos, antes do fidget spinner houve o Pokemon Go mas também o diablo ou o tamagochi. Vê alguma relação?

Claro, acima de tudo têm de ser brinquedos divertidos, depois levam a que pessoa tente aperfeiçoar a sua técnica (o que faz parte das brincadeiras autênticas) e depois existem componentes de atração visual e movimento corporal.

Começou por estudar homicídios.

O que descobriu?

Que os homicidas, em geral, tiveram uma privação extrema de brincadeira quando eram crianças. Ao comparar com indivíduos da mesma população, via-se que estes tinham brincado muito mais do que os assassinos que estudámos.

Ao fim destes anos a estudar a ciência de brincar, qual é a sua principal conclusão?

Que a brincadeira está programada no nosso cérebro, é uma ferramenta de sobrevivência, é necessária para que desenvolvam plenamente as competências e que a sua falta tem consequências desastrosas. A ciência tem vindo a demonstrar a sua necessidade.

Que tipo de jogos trazem mais benefícios às crianças?

Cada um brinca de forma diferente, o que os pais têm de perceber é o que traz aos seus filhos mais alegria e liberdade. Hoje em dia temos mais privação de brincar na cultura ocidental do que havia no passado. As consequências? Basta perguntar a qualquer pai com filhos demasiado organizados.

Onde é que os pais estão a errar?

Os pais geralmente são bem-intencionados, mas não têm boas recomendações baseadas em ciência.

Oferecer aos filhos muitas atividades, seja karaté, ballet ou natação, é uma ilusão?

Não, mas isso não deve esmagar a capacidade que os miúdos têm para organizarem as suas verdadeiras brincadeiras.

Quando fala com pais e professores, o que é que os surpreende mais?

A ideia de que os adultos precisam de ser capazes de brincar para que as crianças sintam que têm permissão (geralmente inconsciente) para o fazer também.

Neste Dia Mundial do Brincar, que medidas se impõem?

Espalhar a ideia de que a cooperação humana, a empatia pelos outros, o melhor aproveitamento dos talentos de cada um exige que estamos ativos e sensibilizados para a importância da brincadeira.

 

Jornal i, em 26 de maio de 2017


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