5 ideias para pôr o seu filho a falar português

Maio 31, 2017 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do site https://portcast.net/ de 5 de maio de 2017.

por Catarina Stichini

Enquanto professora de Português Língua de Herança e mãe de uma criança bilingue que vive fora de Portugal, sou frequentemente confrontada com a dificuldade dos pais em pôr os filhos a falar português. Promover a competência comunicativa de crianças bilingues faz parte do meu dia-a-dia e, muito provavelmente, do seu.

Como havemos então de ajudar os nossos filhos neste fabuloso processo? Apesar de acreditar que há muito que fazemos bem, de forma instintiva, parece-me importante estar a par dos estudos realizados no campo do bilinguismo.

Bilinguismo

Atualmente, as vantagens do bilinguismo pertencem quase ao âmbito do senso comum no que diz respeito tanto ao nível socioeconómico (com benefícios óbvios num mundo globalizado) como ao nível cognitivo, uma vez que os indivíduos que crescem recorrendo a duas línguas revelam maior capacidade de concentração, planificação e resolução de problemas, e maior flexibilidade mental. No estudo The impact of bilingualism on brain reserve and metabolic connectivity in Alzheimer’s dementia, de Perani et al. (2016), foram ainda estabelecidas relações entre um elevado nível de bilinguismo e a resistência à demência e à doença de Alzheimer.

É neste contexto, e para facilitar o contacto com a família, que, na minha opinião, cresce nos pais o interesse em desenvolver as competências linguísticas dos filhos residentes no estrangeiro. No entanto, muitos são os pais que ficam frustrados e desistem quando os filhos respondem constantemente na língua mais forte, do país onde moram, e se recusam a falar português. Se esse é o seu caso, aqui fica o meu conselho: não desista, nunca!

Num estudo realizado em 2012 com crianças de 18, 30 e 42 meses, Meredith Rowe, da Harvard Graduate School of Education, concluiu serem determinantes para a competência e variedade lexical das crianças fatores como:

a quantidade de vocabulário a que tinham sido expostas um ano antes;

a utilização de vocabulário diversificado e sofisticado com crianças com idades compreendidas entre um e três anos;

o contar de estórias a crianças em idade pré-escolar.

A exposição à língua é, pois, fundamental para a sua aquisição e aprendizagem e, mesmo que os seus filhos pareçam indiferentes aos seus esforços, a verdade é que estão a ouvir e a assimilar tudo o que lhes diz. Sugiro, assim, que sempre que possível transforme o uso da língua num jogo divertido e variado, que constitua um desafio e que os leve a falar sem dar por isso.

5 ideias para falar português

Aqui ficam 5 estratégias que uso em casa para pôr o meu filho de seis anos a falar português:

  1. Jogo de pistas

Num passeio pelo bairro, proponho uma série de tarefas ao meu filho (por vezes acompanhado por amigos) como, por exemplo, encontrar a estátua de uma mulher sentada, percorrer uma determinada distância ao pé-coxinho, dizer-me com quantos gelados ficamos se tivermos seis e os dividirmos entre nós, ou levar-me a uma loja onde posso comprar jornais. Após a resolução de cada tarefa, as crianças recebem uma letra, devendo utilizá-las no fim para construir uma palavra. Desenvolve a competência leitora, a curiosidade, a motricidade grossa e a relação com o meio.

  1. Um papagaio português

Mais simples não podia ser: sempre que o meu filho fala em sueco comigo, repito em português o que me disse, geralmente em forma de pergunta, como se quisesse confirmar que o entendi bem. Por vezes, introduzo informação errada, propositadamente, para provocar uma reação. Quanto mais tonta for a sugestão, melhor! Mesmo que ele não mude automaticamente para o português, assim exponho-o à língua de uma forma contrastiva e contextualizada, que faz sentido para ele, e vou introduzindo expressões novas no seu vocabulário. Desenvolve a compreensão e a expressão orais, a pronúncia e o léxico.

  1. Lista de compras

Faço listas de compras em português e leio-as no supermercado, pedindo ao meu filho que encontre os produtos mencionados. Por cada cinco produtos identificados corretamente, pode acrescentar outro à sua escolha (o tipo de produtos pode ser decidido anteriormente, em conjunto). Desenvolve a competência leitora, o léxico e a autonomia.

  1. Quem sabe mais palavras?

Com este jogo tentamos ver quem consegue traduzir mais palavras ou expressões, no nosso caso, do português para o sueco e vice-versa. Quando era pequena, passava horas assim entretida com um primo, na altura desafiávamo-nos mutuamente em inglês, e agora promovo-o com a família, quando vamos passear ou durante as refeições. Desenvolve o léxico, a pronúncia e atos de fala.

 

  1. E agora, o que achas que vai acontecer a seguir?

As estórias são um ensaio, uma preparação para a vida, e devem assumir tantos formatos quanto possível. Cá em casa, fazem parte do nosso quotidiano. Eis algumas das formas como as uso para desenvolver a competência linguística do meu filho:

No sofá da sala – Muitas vezes, quando o meu filho diz que não quer ler, sento-me na sala e leio alto. Passado pouco tempo, tenho-o ao meu lado a seguir a estória e a fazer perguntas.

Na biblioteca – Ir à biblioteca é uma ocasião especial em que vemos as novidades, lemos alguns livros e trazemos outros para casa. Tentamos ir uma vez por mês e toda a visita, do princípio ao fim, é quase como uma festa, um banquete de estórias.

Em viagem – Quando temos pela frente uma viagem de carro ou comboio mais longa, ouvimos audiolivros. Também ouvimos, cantamos e discutimos música em português.

Ao deitar – Todas as noites, lemos 15 minutos em português e 15 minutos em sueco, na cama. São raras as vezes em que o meu filho não nos pede para lermos só mais uma estória ou só mais uma página. Quando acabamos, gosta de ouvir música ou podcasts até adormecer.

Trataremos em posts futuros diferentes estratégias para trabalhar a leitura. Para já: leia, ouça e discuta diversos tipos de textos e livros que interessem aos seus filhos. Não se limite àquilo que gostaria que lessem. Além de contos infantis ou tradicionais, aventuras e Banda Desenhada, tenha também ao seu alcance, por exemplo, livros mais fatuais e informativos, guias de viagem, compilações de anedotas, jornais e revistas.

Desenvolve tudo e mais alguma coisa! O léxico, a compreensão e expressão orais e escritas, a curiosidade, a imaginação, o gosto pela leitura, o raciocínio lógico e a capacidade argumentativa.

Resumindo…

Estas são apenas algumas ideias que resultam bem cá em casa. O importante é variar e adaptar as estratégias ao contexto em que se encontra, e de acordo com a idade e os interesses das crianças que estão consigo.

Divirta-se, insista, e vai ver que os seus filhos, não tarda, falam português!

E, já agora, diga-nos que estratégias usa aí em casa!

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Créditos

Imagem de destaque: Catarina Bandeira

Catarina Stichini é professora há mais de vinte anos, tendo já lecionado do ensino infantil ao universitário. Em 2014, foi nomeada para o Prémio de Melhor Professor da Universidade de Estocolmo, na Suécia, país onde é atualmente professora de Português Língua de Herança. Dedica parte do seu tempo ao www.portcast.net, uma plataforma para a aprendizagem de português através de podcasts. Tem um filho luso-sueco com 6 anos.

Catarina Bandeira é desde muito cedo apaixonada por Fotografia, tendo concluído a Licenciatura na Universidade Lusófona, em 2015. Após estágio na Agenda Cultural de Lisboa, entrou, ainda nesse ano, ao serviço do Estúdio Fotográfico Studio8A. Aqui realizou trabalho de estúdio, fotografou eventos e orientou workshops de fotografia e Photoshop. É fotógrafa independente.

 

 

 

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