Porque é que os professores portugueses chumbam tantos alunos?

Maio 26, 2017 às 10:00 am | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

Texto do blog http://www.comregras.com/  de 22 de maio de 2017.

Por

Alexandre Henriques

Portugal lidera os chumbos no 1º ciclo!

É esta a conclusão que se pode tirar do estudo do EPIS (Empresário pela Inclusão Social), que foi coordenado por Maria de Lurdes Rodrigues (sim… a senhora continua no ativo), indicando que os professores chumbam e chumbam em força.

Mas o que passa em Portugal para existirem tantos chumbos e que pelos vistos começam logo no 1º ciclo? Será “mania” dos professores ou será dificuldades dos alunos?

O estudo revela como principais motivos: as dificuldades na leitura, na escrita e dificuldades de concentração. Mas na minha opinião existem outros motivos e que não se restringem ao gráfico em baixo.

Vejamos:

O chumbo é uma questão cultural, é algo que está enraizado nas nossas escolas há décadas. Tal como eu, muitos milhares de professores enquanto alunos, assistiram ao discurso “se não estudas chumbas!”, ou “se tiveres mais de 2 negativas, estás chumbado!”. O chumbo era um repressor efetivo, hoje o ensino tornou-se mais permissivo e tolerante ao erro do aluno. Para alguns, o chumbo era significado de umas férias de trabalho, ou de umas palmadas bem assentes para registar o infeliz acontecimento.

Atualmente o chumbo é algo contornável, maleável, e a própria legislação o apelida de excecional. Mas se é excecional, porque é que os números mostram que é a norma?

O chumbo é a consequência natural de um parasitismo que se instalou nas salas de aulas e que não merece ser recompensado com a transição de ano. Seja por mau comportamento, seja por falta de trabalho, ou até mesmo por falta de capacidades, a realidade é que os professores não aceitam que um aluno sem determinadas competências progrida para o ano seguinte, mesmo tendo em conta a política de ciclo.

Estarão os professores errados? Devem os professores premiar um aluno indisciplinado ,”baldas”, ou sem alicerces sustentáveis com uma passagem administrativa? Devem os professores transmitir aos alunos que o “crime” compensa? E os outros alunos, o que vão sentir? É justo para eles?

O professor não é uma tabela de Excel e deve analisar uma série de fatores determinantes para a transição/retenção do aluno.

Porém, o chumbo como punição é um facto, não é assumido, mas é real. Não fica bem dizer isto publicamente, mas é verdade e a verdade é o que é. Como também é verdade que a punição é uma mera consequência da falta de desempenho ou requisitos do aluno.

E depois do chumbo? Pois… o problema está aí….

É mais do mesmo, os apoios são escassos, os Fénixs, Turmas +, tutorias e outros que tais, são estratégias que não salvam o grosso e muitos terminam em percursos alternativos onde a “qualidade” do ensino tem muito que se lhe diga.

Então para quê chumbar??? De que adianta??? Os estudos apontam que pouco ou nada muda e por isso tenho defendido que o chumbo, neste modelo de ensino, é apenas uma consequência e não uma resolução.

Somando a tudo isto, um sistema educativo que está constantemente em mutação, que não dá estabilidade a professores e alunos, que as estratégias variam consoante as cores políticas – veja-se o caso dos cursos vocacionais e das tutorias – e que a única certeza é a incerteza. Leva muitos professores a assumirem a decisão do chumbo como o meio mais “seguro” para tentar recuperar o aluno. Para os professores, as alternativas são pouco credíveis e os recursos irrisórios, restando-lhes a repetição como o meio mais fiável para aprendizagem/correção de comportamentos.

E faz sentido pensar assim?

Com referi, o ensino pela repetição é a única “política educativa” estável das nossas escolas e como tal é a única medida equitativa. O problema é que a repetição pelo chumbo tem um preço e o preço é a desmotivação dos alunos, o seu alheamento e a descrença em si e na escola.

“Azar o deles” dirão alguns. Sim, é verdade, quem se lixa é o aluno que vai ficar para trás, mas se pensarmos um pouco vamos constatar que o preço social será elevado e que a marginalidade ficará ainda mais próxima com consequências e custos para todos.

É preciso mudar a forma como se ensina, é preciso mudar a forma como se aprende e é preciso mudar o sistema de progressão. Não com o objetivo de facilitar a vida a ninguém, mas sim de não encravar todo um sistema que precisa de fluir e validar competências adquiridas de forma justa, transversal e responsável.

Mais de 500 escolas com mais chumbos do que a média nacional

(TVI via LUSA)

As dificuldades com a aprendizagem da leitura são consideradas pelos professores como “normais”, argumentando que as crianças são todas diferentes e a grande maioria dos professores das turmas visitadas considera que não é possível eliminar totalmente o insucesso no primeiro ciclo.

Perante situações concretas em que os alunos não atingem os objetivos estabelecidos no programa para a leitura, os professores consideram que têm apenas uma de duas alternativas: a repetência ou a passagem automática.

Para os professores entrevistados a repetência é a alternativa correta, a única alternativa. No seu leque de opções não são encaradas outras alternativas, não são referidas outras soluções.

De acordo com a investigação, o apoio proporcionado pela coordenação da escola ou pelo agrupamento é predominantemente a disponibilização de tempo dos designados professores do apoio educativo mas, no final, os esforços empreendidos pelos professores não têm impacto significativo.

“No final do ano, os que recuperaram progridem, os que não recuperaram repetem. Para ser diferente seriam necessárias, na opinião dos professores, outras medidas”, revela o estudo adiantando que a repetência é vista como uma oportunidade e não como um problema.

Deve ser possível chumbar alunos aos seis anos, dizem professores de escolas com mais insucesso

(Clara Viana – Público)

 

 

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