Família e a escola – Espaço de relação e de afetos

Maio 17, 2017 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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texto do site http://uptokids.pt/ de 8 de maio de 2017.

Família e a escola – Espaço de relação e de afetos

Não basta a uma criança ter uma inteligência suficiente e uma saúde satisfatória para que se possa desenvolver e adaptar.

Necessita também de uma sensibilidade desenvolvida e de capacidades relacionais que lhe permitam servir-se das suas capacidades físicas e intelectuais.

Um grande número de desadaptações sociais e escolares e de perturbações no comportamento têm origem em dificuldades afetivas. Começamos a compreender que, ao lado da idade cronológica e da idade mental, há uma idade afetiva que é a função do grau de maturação da sensibilidade e que essa maturação é intimamente solidária da maturação da líbido, ou seja, da vida relacional sexualizada, feminina ou masculina.

Se existe um meio onde a sensibilidade relacional desempenha um papel essencial, é a família e a escola. Os laços afetivos que se estabelecem entre pais e filhos são simultaneamente os mais profundos e os mais duradouros. O amor e o ódio, a ternura e a agressividade podem desenvolver-se nesse meio, excluírem-se ou coexistirem, com uma força muitas vezes insuspeitada.

Relações Humanas

Nenhuma relação humana compromete o indivíduo de uma maneira tão total e tão profunda. A relação conjugal dos pais confronta o homem e a mulher na sua mais íntima sensibilidade, ao mesmo tempo, corporal e psíquica. Põe à prova o seu grau de maturidade viril ou feminina. A paternidade e a maternidade põem em jogo os mais poderosos sentimentos. São eles que mais comprometem o indivíduo na afirmação de si mesmo.

A criança imatura, mergulhada no meio familiar e formada por ele, constrói-se interiormente em função das reações afetivas dos pais. Fraca e maleável, a criança é frequentemente tratada como uma “coisa” pelo adulto. Com o pretexto de que não passa ainda de uma criança é sobrecarregada com juízos e apreciações, fala-se dela sem reserva na sua presença como se ainda não existisse como ser humano, quando devíamos tratá-la com o mesmo respeito que se pode ter pela personalidade de um adulto.

A escola, constitui o lugar da primeira aprendizagem relacional no plano social. Conhece-se bem a importância educativa das relações afetivas alunos-professores e dos alunos entre si.

Mas o que não se sabe tão bem é que essas influências afetivas recíprocas não se desenrolam unicamente num plano consciente; elas atuam em profundidade, de um modo inconsciente e sem que os indivíduos o saibam. Essa influência, manifesta-se por vezes num sentido inverso ao do comportamento consciente.

Certa mãe escrupulosa e aparentemente bem intencionada dissimula uma agressividade não menos real que o seu aparente desejo de ajudar a criança.

Determinado pai aparentemente autoritário disfarça a ansiedade e a dúvida de si mesmo.

Determinada criança agressiva e com espírito de oposição busca  inconscientemente auxílio e carinho.

Determinado professor obedece a receios ou a agressividades que alimentam tensões e conflitos, angústia ou indisciplina entre os alunos.

Sensibilidade consciente e inconsciente

Entre o que a criança representa no inconsciente do adulto e o que este pode experimentar conscientemente, há muitas vezes uma considerável diferença. A criança no inconsciente é muitas vezes um símbolo revestido de agressividade, de angústia, de líbido ou de culpabilidade, sem que o educador tenha consciência disso. Destes dois modos de expressão –consciente e inconsciente – da sensibilidade, o mais atuante nem sempre é a sensibilidade consciente. A sensibilidade consciente de si mesma, dominada e elaborada pelo psiquismo do indivíduo, é menos exigente do que a sensibilidade inconsciente.

Esta última, devido à sua natureza profunda e inacessível ao domínio do indivíduo, continua compulsional e tirânica.  Pode ser recalcada, mas não dominada. Mantêm a sua intensidade e o seu poder animal. O inconsciente só conhece a lei da satisfação imediata. E essa violência instintual do inconsciente mantém-se enquanto não tiver sofrido, por intermédio da relação com o outro e pela mediação da palavra, o freio da realidade exterior. O poder absoluto enlouquece, dizia Platão.

O mesmo é dizer que o poder absoluto dos educadores não deve estar subordinado às exigências dos seus desejos inconscientes.

Por Paula Norte, psicóloga, para Up To Kids®

 

 

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