Necessidades Educativas Especiais: “Sinto-me excluído de tudo”

Maio 13, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.publico.pt de 5 de abril de 2017.

Rachid continua a ter dentro de si o sonho de entrar no ensino superior RUI GAUDÊNCIO

No Parlamento, pais e jovens com necessidades educativas especiais contaram do que é feito o seu mundo a propósito da escola que deveria ser inclusiva, mas que, dizem, continua a excluir os que são diferentes.

Clara Viana

“Bem-vinda ao inferno!” Foi assim que Maria Manuel se sentiu quando o seu filho de 16 anos ingressou no ensino secundário e todas as portas se começaram a fechar. “As escolas secundárias não têm capacidade para acolher deficientes profundos”, como é o caso do seu filho, disse num dos muitos testemunhos de pais e jovens com necessidades educativas especiais (NEE) que foram apresentados nesta quarta-feira na Assembleia da República, numa iniciativa promovida pelo grupo de trabalho da educação especial da comissão parlamentar de Educação.

Durante quase cinco horas sucederam-se relatos sobre a exclusão destes jovens, sobre as lutas permanentes que eles e os pais têm de travar, sobre a incompreensão dos professores e dos outros estudantes face à diferença. É o caso de Inês, que tem 13 anos e que desde há muito chega a casa a chorar: “Fico todos os recreios sem brincar”, conta. E na aula o que fazes? Pergunta-lhe a mãe: “Fico a olhar para o professor.”

São consideradas necessidades educativas especiais um “conjunto de limitações significativas, ao nível da actividade e da participação em um ou vários domínios de vida, que decorrem de alterações funcionais e estruturais de carácter permanente e resultam em dificuldades continuadas em comunicação, aprendizagem, mobilidade, autonomia, relacionamento interpessoal e participação social”. É esta a definição que consta dos documentos oficiais.

Neste ano lectivo estão sinalizados como tendo NEE cerca de 82 mil alunos, mais 5% do que no ano passado. O maior aumento registou-se no ensino secundário devido ao alargamento da escolaridade obrigatória até aos 18 anos. Antes, muitos destes jovens desapareciam do sistema de ensino no final do ensino básico.

Por via do decreto-lei n.º 3 de 2008, as crianças e jovens com NEE devem estar integradas em escolas do ensino regular, embora beneficiando de apoios específicos propiciados por professores de educação especial e outros técnicos. Este diploma “foi uma tábua de salvação para os pais, mas as escolas não têm meios para intervir”, contou no Parlamento Eduarda Melo, mãe de um filho com dislexia. Muitos outros dirão que existe um “fosso enorme” entre o que a lei determina e aquilo que na prática acontece nas escolas.

Eduarda Melo lamenta que o conceito e protecção das crianças e jovens com NEE só abranjam a escolaridade obrigatória. “Parte-se do princípio que os nossos filhos nunca chegarão à universidade”, afirmou, para revelar que o seu filho conseguiu ultrapassar esta barreira.

O mesmo não aconteceu a João: “Concluí o secundário com um currículo específico individual. Gostava de ter ido para a faculdade, mas não me foi permitido o acesso. Não consigo arranjar emprego. Não posso utilizar os conhecimentos que tenho em nada. Sinto-me excluído de tudo.”

O currículo específico individual é aplicado aos casos mais severos de NEE e consiste na adequação dos currículos às características do aluno. Estes alunos podem concluir a escolaridade obrigatória sem realizarem exames, porque as suas limitações os impedem de fazer estas provas, mas esta possibilidade faz com que fiquem excluídos logo à partida do ensino superior.

Rachid, 23 anos, outros dos participantes na audição pública, dirá ao PÚBLICO que dentro dele continua a ter o sonho de ingressar na faculdade, mas que esse sonho vai encolhendo porque a realidade em nada tem ajudado. À semelhança de João, concluiu o secundário, mas não pôde prosseguir estudos. Agora está a fazer uma formação profissional na Associação Portuguesa de Paralisia Cerebral.

E depois da escola?

“As escolas não fazem acontecer as coisas. É como se estas crianças e jovens fossem transparentes”, lamenta Sílvia Paula, mãe da Inês. “Todos os anos tenho de reclamar porque as medidas previstas na lei não são aplicadas pela escola”, conta Helena Gonçalves, mãe de quatro filhos, dois com o espectro do autismo. O filho de Cristina Isabel sofre do mesmo e devido aos problemas de comportamento associados ao autismo foi alvo de quatro procedimentos disciplinares.

A certa altura, Gonçalo apresenta-se à audiência. “Tenho 15 anos, sou autista. A minha vida escolar tem sido fácil e difícil. Fácil porque gosto de estar na escola e de aprender. Difícil porque é difícil fazer amigos. Também gostava que os meus professores compreendessem que preciso de ajuda.”

Para a representante da Federação Nacional da Educação, todos estes testemunhos mostram que “a escola exclui mais do que incluiu”. Mas há outras preocupações. Luísa Beltrão, mãe de sete filhos, uma das quais com uma deficiência profunda, é a primeira a dar conta do que vários outros dirão também de seguida. E depois da escolaridade obrigatória o que acontece a estes jovens? Ficam em casa? “A escola não está a preparar estes jovens para a vida activa e face a isso a angústia dos pais é terrível.”

Mas também há desfechos positivos. O de Ana Rita é um deles. Conta que tem paralisia cerebral, mas que devido aos apoios que sempre teve nas escolas por onde passou conseguiu concluir o ensino secundário nas vias profissionalizantes. Foi para aí que a escola a encaminhou. Por já ter 18 anos também teve de fazer o 12.º ano à noite. Ultrapassou tudo e agora tem um emprego.

 

 

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De que é que as crianças têm medo?

Maio 13, 2017 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do http://www.noticiasmagazine.pt/ de 2 de maio de 2017.

Medo do escuro, do lobo mau, de monstros no armário. Das trovoadas, de ficarem sozinhas, da morte. Os medos variam consoante a idade e a personalidade das crianças mas, apesar de lhes poderem causar sofrimento, são tão comuns quanto necessários para crescerem. Cabe aos pais ajudarem os filhos a descobrir que nada é, afinal, tão assustador como pensavam, explica a psicóloga Leonor Baeta Neves, especialista em desenvolvimento infantil. E dar-lhes a confiança de que precisam para se irem tornando independentes. Isso sim, dá um medo danado. A eles e a nós.

Texto de Ana Pago | Fotos da Shutterstock

Quais são os principais medos das crianças, de um modo geral?

São no fundo os medos ancestrais, aqueles que o homem pré-histórico decerto teria e lhe salvavam a vida. Primeiro, o medo do escuro, porque nesses tempos andar no escuro, sem ver, era potencialmente mortal: podia cair num precipício, encontrar um animal feroz, afogar-se num rio. Segundo, o medo de animais, já que não tinham defesas contra os grandes, que eram predadores, ou os muito pequenos (insetos, por exemplo), que podiam trazer doenças. Terceiro, o medo da solidão, de ser abandonado, que até um animal sente. São tudo medos antigos e muito profundos.

E o maior medo de todos? Separar-se da mãe?

O medo da separação também é um medo defensivo, mas é mais do que isso. É de facto o medo maior, o mais compreensível e correto. Um ser humano dificilmente sobrevive sozinho: quanto mais pequeno, maior o risco. A ligação à mãe é um verdadeiro instinto que qualquer animal tem e uma criança sabe, sente, que necessita não apenas dos cuidados físicos, uma vez que nasce incompleta, mas também da relação de afeto, tão importante para a sua saúde como os cuidados materiais. O chamado segundo organizador da personalidade, que é a conhecida angústia do oitavo mês, funciona em relação à mãe pelo pânico que a criança sente quando se separa, quando a mãe desaparece. Esse é um facto conhecido e importante.

Maior que o medo da morte?

A noção da morte, de uma separação para sempre, surge muito mais tarde e é um medo associado ao da separação. Afinal, o sentimento da criança é: «Se eu perco quem me assegura a vida, o que vai ser de mim?»

Por muito irracionais que estes medos pareçam aos pais, eles são reais. Mesmo não tendo uma relação direta com a realidade e sim o sentido que a criança lhes atribui em cada etapa do desenvolvimento…

São reais, sim. Importa reconhecê-los como tal e ajudar os nossos filhos a enfrentá-los com confiança, de modo a evitar que evoluam para fobias. E isto sem nunca ridicularizar a criança ou os seus medos. A realidade é secundária quando se trata de sentimentos.

Ter medo é saudável? Até na medida em que pode evitar que corram riscos desnecessários?

Ter medo é importantíssimo. Ouvimos alguns pais dizerem em tom divertido «Ah, o meu filho não tem medo de nada», mas isto não tem graça. Devia ter medo. E não, os pais não precisam de o assustar para lhe incutir o sentimento de cuidado com muita coisa, nomeadamente esses medos primitivos do escuro, ou de animais, ou do fogo, ou das alturas – afinal, ao andar num escuro total pode magoar-se; se agarrar num bicho que não conhece pode ficar ferido; se se debruçar de um sítio alto pode cair e morrer… Ensinar a ter cuidado é justamente ensinar a não ter medo, ou seja, a utilizar a cautela de forma adequada e eficiente. O que se deve é ensinar a criança a servir-se das ferramentas de que dispõe: pode mexer e usar tudo, ou quase tudo, mas antes deve treinar muito bem essa utilização.

Quando é que um medo aparentemente normal se transforma em motivo para alarme?

Quando se torna obsessivo. Quando prejudica o dia-a-dia e impede o natural funcionamento do quotidiano. Quando se percebe que incomoda a criança e os que lidam com ela. Por outro lado, também existem medos individuais que convém perceber como surgiram. Os pequenos podem ter medo de uma gravura, uma cantiga, uma pessoa, e aí devemos perceber a razão por que isso acontece. Que memórias são evocadas e as associações que fazem.

O que podem os pais fazer concretamente para mostrar às crianças que respeitam os seus medos?

Como para quase tudo na vida, o primeiro passo (e o mais importante) é conversar. Deixar que a criança diga o que receia sem se sentir censurada. Pôr-se no seu lugar, voltar à infância e tentar sentir o mesmo que lhe é descrito. Acima de tudo, nunca forçá-la: uma pessoa pode enfrentar qualquer medo se se sentir acompanhada, mas nunca quando é empurrada. A brincadeira é outra aliada poderosa nesta luta contra os medos: podem fazer jogos de role playing juntos, brincar um pouco com aquilo que assusta o seu filho sem troçar dele. E é bom confidenciar-lhe medos que também tenha tido e como os ultrapassou.

Desvalorizar nunca é solução?

Nunca. Nem gozar ou menosprezar a situação – apenas fará com que a criança deixe de falar nisso por vergonha, enquanto sente reforçar-se o seu sentimento de angústia. Ainda que aos olhos do adulto possa parecer engraçado, o medo tem de ser levado a sério, porque é sério. Para a criança não tem graça nenhuma. É uma ofensa ser ridicularizada.

Falamos em medos infantis, embora na verdade se prolonguem pela adolescência com o receio de não pertencer a um grupo, não ser popular e outros do género…

Os medos infantis mais famosos são os que chamei de ancestrais, por serem antiquíssimos, básicos e inclusive comuns a alguns animais. Depois, quando a criança se socializa, quando vai para a escola, aparecem os medos sociais como a vergonha, que é uma emoção bem forte apesar de um animal não ser capaz de senti-la. Também estes medos sociais são importantíssimos, não apenas na adolescência, mas sobretudo nessa etapa.

Qual é a melhor abordagem a ter nessas idades, em que os jovens julgam saber tudo e já estão menos dispostos a ouvir os pais?

A adolescência de um filho deve começar a preparar-se ainda durante a infância, quando aprende a sentir-se seguro e amado. É importante nunca deixar gerar-se um vazio grande de comunicação na família: o jovem deve sentir que pode confiar nos pais, mesmo que se oponha a eles, e é bom haver essa oposição para crescer. Por mim, a melhor aposta é o diálogo, por muito difícil que seja. Se possível, conheça o maior amigo do seu filho e nunca o hostilize. Estabelecer uma ponte também pode ajudar: conte-lhe coisas da sua própria adolescência, os disparates que fez, a relação com os avós, como se sentia então. Não havendo uma receita infalível para todos os casos, os pais terão de ir por tentativa e erro.

E o que fazer quando os medos das crianças mexem com memórias dolorosas ou com os medos dos próprios pais?

Aceitar isso e enfrentar, afinal de contas é um ponto de proximidade importante. Se os medos forem demasiado dolorosos para que o adulto consiga debater com o filho essa angústia em comum, fale com um técnico ou leia qualquer coisa que o ajude a ver mais claro. Preparar-se para ajudar as crianças tem tudo para ajudar também os pais.

mais fotos no link:

http://www.noticiasmagazine.pt/2017/sao-estes-os-medos-das-criancas/

 

 


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