A diferença entre a imaginação e a mentira

Maio 12, 2017 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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texto do http://uptokids.pt/ de 29 de abril de 2017.

 

ENTRE A IMAGINAÇÃO E A MENTIRA EXISTE UMA SEPARAÇÃO DE FAIXA ETÁRIA. ENTENDA QUAL É E APRENDA A LIDAR DA MELHOR FORMA COM ELA.

As crianças usam constantemente histórias quando estão a brincar, a contar algo ou até explicar o que uitas vezes é difícil para elas. Imaginar, fantasiar e contar faz parte do repertório da infância. É um recurso das crianças que é muito bem-estruturado para essa fase da vida. “A criança mais nova não mente: transforma e constrói uma realidade própria, o que é muito importante, pois a fantasia e a imaginação conduzem ao desenvolvimento de capacidades criativas”, afirma a psicóloga Maria de Lourdes Carvalho de Sousa Silveira, mãe de Leandro, Lucas e Larissa, terapeuta de casal e família do Instituto Persona de Passos, em Minas Gerais.

O problema é quando a criança começa a crescer e usa o mesmo recurso para mentir. As histórias continuam a ser para explicar acontecimentos, mas agora explicam por que não fez os trabalhos de casa, por que não chegou a tempo à aula de natação ou por que razão foi castigado na escola. As crianças encontram formas de se esquivar das consequências do que sabem que fizeram errado.

Aqui entram os pais e as diferentes formas de lidar com este recurso. Apontar o dedo e dizer a uma criança que está a mentir, não funciona!

No fundo não sabemos muito bem lidar com uma criança quer quando está no mundo da fantasia ou quer quando está realmente a mentir. Há que saber distinguir: – tanto para conseguir dialogar com a criança, como para orientá-la a não mentir e a lidar com os problemas e erros sem medo de enfrentá-los e assumi-los.

Mentira X Fantasia

Mentir faz parte da nossa espécie: a negação e o direito ao segredo são constitutivos na formação da subjetividade humana.  O psicanalista brasileiro Fábio Herrmann diz que a “mentira original é o início da humanização do ser” – já alguém viu um cão a mentir?

A mentira pode encobrir problemas graves por isso nós, como pais, queremos “cortar o mal pela raiz”. No entanto, é importante distinguir a mentira da fantasia pois desrespeitar ou cortar a criatividade numa fase de desenvolvimento em que a criança precisa de usar esse recurso, pode ter o efeito contrário.

Mas afinal, qual a diferença?

“Acho que, com a fantasia, brinca-se. Já a mentira é uma narrativa, uma forma da criança explorar o campo da oralidade. Na cabeça de uma criança pequena não existe diferença entre um e outro – são apenas meios e formas de lidar com os fatos.

É que os adultos atribuem nomes distintos “fantasia” e “mentira”, a algo que para uma criança é a mesma coisa. A criança vive, o adulto é que distingue os conceitos”, afirma o educador, Marcelo Cunha Bueno.

O que chamamos de fantasia é a transgressão da criança para um mundo paralelo – a forma como esta encara a realidade. Assim, vestindo-se de super-herói ou a contar uma história sobre um amigo imaginário, concebe um recurso para lidar com a realidade. A fantasia fornece instrumentos para a criança conseguir dar sentido e sensações, desejos e vontades às situações. É a fantasia que constitui repertório de como a criança vê o mundo.

Já a mentira, no sentido de aldrabar, disfarçar, negar é realizada por crianças um pouco mais velhas, a partir de 7 anos — quando  interiorizam as regras sociais, aprendem os binarismos (bom vs mau / justo vs injusto) e têm acesso a mais recursos linguísticos e poder de argumentação. Nesta idade, a criança poderá contar histórias para ganhar vantagem – ou seja, mentir.

O mais interessante é pensar  que a mentira é também a capacidade da criança se diferenciar da mãe, do pai ou da avó. Ou seja, a história criada é uma possibilidade de criar/manter um mundo próprio, que ninguém vê (interno, criativo), diferente da vida real, dos fatos.

Pinóquio, não!

Saber agir perante a mentira infantil é fundamental. Quando a mentira acontece, os adultos devem saber olhar com paciência e conversar com a criança: primeiro confronta-la dizendo que não está a contar a verdade e, segundo, facultando recursos e tempo para que a criança consiga refazer a situação, mas apenas com base nos facto reais.

O acolhimento é importante, já que muitas vezes as crianças mentem por medo. Então, se não contarem a verdade, procuram  um recurso de defesa contra o receio de ser castigada, julgada ou perder o amor dos pais.  O pior que podemos fazer é agir de forma repressiva, gritando, batendo ou rotulando a criança de “Pinóquio”.

“A Violência não acaba com as mentiras, aliás, antes pelo contrário, aumentam o medo de se ser descoberto, fazendo com que a criança minta mais.

Não importa quais são as desculpas que uma criança usa para não fazer os TPCs, por exemplo. Em vez de ficarem zangados, os pais devem explicar que é importante que cumpra suas obrigações, dando-lhe o tempo necessário para o fazer, não deixando que a criança comece outra atividade enquanto não tiver cumprido a sua obrigação”, explica o médico psiquiatra e escritor de livros sobre educação familiar Içami Tiba.

Outra motivação muito comum para a mentira da criança é a necessidade de chamar a atenção (mas, convenhamos, nós fazemos isso direto também!). Como quando se queixa de dores de barriga ou cabeça. “Inicialmente, é preciso dar o devido crédito e levá-la ao médico se for necessário”, diz o pediatra e consultor da Pais&Filhos, Claudio Len, pai de Fernando, Beatriz e Sílvia. Para ele, a criança pode mentir para não stressar a mãe e o pai. “A questão da mentira não é sempre uma tragédia. As crianças são muito sinceras, esta sim é a característica marcante da infância. São mais verdadeiras que adultos, especialmente as mais pequenas. É muito mais frequente os pais mentirem aos filhos do que o contrário”, afirma.

E o educador Marcelo Bueno concorda. Questionado se existe uma idade em que as crianças mentem mais, não hesita: “quando se tornam adultos”. Portanto, relaxe. A mentira está presente na vida de todos nós – e cabe ao adulto direcionar a criança para a verdade, sempre. Mas uma mentirinha ou outra que não prejudica a integridade de ninguém pode passar sem muito stresse.”

Era uma vez…

Ah! O mundo da fantasia… O extraordinário lugar onde tudo é possível, as situações têm solução e os personagens possuem personalidade bem delineada: o Lobo Mau é mau. O Príncipe é bom. O super-herói é forte. O lugar cheio de imaginação que é criado na cabeça das crianças a partir dos 2 anos, em média, é um mundo onde esta tem um certo domínio sobre o mesmo. E a fantasia existe porque o mundo real, o dos adultos, é muito complexo para a criança e difícil de ser assimilado e aceite. Assim, as crianças utilizam a fantasia para criar o seu próprio universo onde tudo é possível e as situações possuem solução – geralmente com um final feliz.

É entre os 2 e 7 anos, principalmente, que a fase de desenvolvimento acontece através da imaginação.

Além disso, é a fantasia que primeiramente mostra o lado bom e o mau dos fatos das nossas vidas: com os contos de fada, por exemplo, as crianças conseguem projetar-se nos personagens e entender basicamente o que é o correto e o errado, o justo e o injusto e assim por diante. Daí a importância tão grande dos contos dos Irmãos Grimm.

“As crianças aprendem e desenvolvem-se através do uso da fantasia. Pois é assim que vão entender o que se passa ao seu redor, contribuindo também para a formação da sua personalidade. A criança expressa as suas preocupações através dos personagens que escolhe e das histórias que cria. Por exemplo: uma criança pode fantasiar ser médico quando deseja cuidar de alguém de quem gosta e que esteve ou está doente. Ela pode fantasiar ser um super-herói procurando compensar a fragilidade que sente”, explica Mirian Chaves Carneiro (mãe de Conrado, Lígia e Estevão) psicóloga e professora do projeto Mala de Leitura da UFMG, idealizadora e coordenadora voluntária da Biblioteca Comunitária Etelvininha Lima, no bairro Pompeia, em Belo Horizonte.

É com a fantasia, também, que a criança expressa suas emoções e sentimentos.

Um urso está zangado com a mãe porque esta lhe ralhou. Exemplos fáceis de serem compreendidos e que têm mensagens bem subliminares.

Portanto, se o seu filho está no mundo da fantasia a única coisa a fazer é entrar na brincadeira. Estabeleça um diálogo com os personagens. Quanto mais brincadeira e fantasia, melhor. Então, deixe seu filho fingir que é super-herói e ter amigos imaginários. Faz bem! Agora, a criança não pode afastar-se de sua identidade constantemente. Isso significa que, em alguns momentos, é necessário que a criança viva a situação de forma completa, estando realmente presente.

O educador Marcelo Bueno dá um exemplo: na escola, durante uma atividade em grupo em que a criança é questionada sobre a sua opinião, esta deve responder como pessoa, e não como um super-herói.

O conto Serena, de Luís Fernando Veríssimo relata bem esta situação: uma menina tinha uns pais que discutiam muito. Um dia, discutem à mesa de jantar. Depois de comer, Serena sai da mesa e vai brincar às casinhas – pais e filha comem e os adultos discutem, então vem um gigante e manda os pais sossegarem. Na história, a fantasia esta menina a ajudou a lidar com a dificuldade, mas na verdade, não fez nada para ser o Gigante no momento da discussão. Ela foi o Gigante após viver a situação real, inventando com sua imaginação um novo final”, conta Marcelo.

À medida que a criança substitui a simbolização pela linguagem elaborada, saberá distinguir a fantasia da realidade e poderá utilizar a fantasia de forma criativa sem perder a noção do real. Naturalmente, usa menos a fantasia para se expressar, porque tem mais consciência sobre a realidade, noção de lógica, domínio de regras sociais etc. Por isso, os pais não precisam se preocupar em ser “politicamente corretos” em relação à fantasia da criança: ou seja, não é preciso – e nem bom! – que os pais derrubem as crenças dos filhos ou neguem a existência de alguns personagens como o Pai Natal ou Princesas.

Confie, a criança vai assimilando a realidade gradualmente e sem traumas, ao contrário do que muitos temem.

Como trabalhar a mentira de forma positiva

  1. Nunca chamar a criança de mentirosa mas sim escutá-la com atenção para poder ajudar-la
  2. Explicar as consequências de uma mentira com exemplos práticos, sempre tentando manter um canal de comunicação aberto entre pais e filhos
  3. Não gritar e nem pressioná-la com interrogatórios. O seu filho irá sentir-se acusado e o medo poderá fazê-lo mentir outra vez
  4. Estimular a criança a colocar-se no lugar dos outros
  5. Tentar compreender o significado implícito na mentira
  6. Na escola, os professores nunca devem expor crianças que mentem na frente dos colegas

Por Pais e Filhos Brasil, adaptado por Up To Kids®

 

 

 

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