“Os pais e a sociedade devem responsabilizar estes jovens pelos seus atos em Torremolinos” Entrevista de Daniel Sampaio

Abril 11, 2017 às 1:00 pm | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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Entrevista de Daniel Sampaio ao http://leitor.expresso.pt no dia 10 de abril de 2017.

O psiquiatra Daniel Sampaio considera que atualmente os jovens têm muito poucos limites, devido a um défice de autoridade por parte dos pais Foto Tiago Miranda

 

Especialista em Psiquiatria da Adolescência, Daniel Sampaio critica a desculpabilização que diz estar a ser feita dos estudantes portugueses que causaram estragos avultados num hotel no Sul de Espanha durante uma viagem de finalistas do ensino secundário. “É completamente errado do ponto de vista educativo”, salienta o psiquiatra. O “pai” da Terapia Familiar em Portugal defende que estes jovens devem ser castigados, mas duvida que a maioria dos pais ainda tenha autoridade para o fazer.

Entrevista Joana Pereira Bastos

Os estragos causados pelos jovens portugueses num Hotel em Torremolinos refletem uma crise de valores em casa e na escola ou são apenas o resultado previsível de uma viagem que junta no mesmo espaço 1000 adolescentes, com muito álcool à mistura?

As regras não foram bem definidas à partida e o resultado era completamente previsível. Quando se junta um grande número de jovens, o regime nunca deveria ser de bar aberto, porque isso evidentemente leva a um consumo exagerado de álcool. Isto são fenómenos de grupo que vêm acontecendo há muitos anos, em vários sítios.

Todos os anos há relatos de problemas neste tipo de viagens. Faz sentido continuar a promover estes programas?

Não podemos impedir que os jovens se organizem para ir, até porque muitos deles já são maiores de idade. Mas pelo menos as viagens que envolvem jovens abaixo dos 18 anos devem ter algumas limitações em termos de organização. Deve-se limitar o consumo de álcool e ter regras muito bem definidas sobre o que podem ou não fazer. Essas regras não podem ser só programadas pelo agente de viagens e pelo hotel. Têm de ser discutidas com os próprios adolescentes, no dia da chegada. Os proprietários dos hotéis devem reunir-se com eles e definir as horas em que podem consumir álcool, o que é que se pode passar nos quartos, tanto quanto é possível prever, etc. Estabelecer este tipo de regras não vai fazer ultrapassar em definitivo os problemas, mas pode minorar, tanto quanto possível, as consequências desta situação.

O que é que os pais destes jovens lhes devem dizer?

É evidente que estes comportamentos devem ser fortemente censurados. Não há qualquer justificação, mesmo sob o efeito do álcool, para que os jovens tenham danificado o material e causado estragos no hotel. Se os pais tiverem autoridade para os castigar, é bom que o façam. O problema é que, muito provavelmente, os pais de quase todos eles não têm autoridade porque não a conquistaram durante a adolescência, o que faz com que agora tenham muito pouca margem de manobra para poderem impor um castigo. Nós assistimos claramente a um défice de autoridade dos pais. Há uma cultura de lazer e de diversão ao máximo por parte dosadolescentes e os pais têm muita dificuldade de impor limites.

Daquilo que tem visto, acha que tem havido uma certa desculpabilização destes jovens por parte dos pais?

Completamente e isso faz-me imensa confusão. Tem havido uma desresponsabilização dos jovens, atribuindo-se culpas ao hotel ou ao agente de viagens, o que é completamente errado do ponto de vista educativo. Primeiro os pais e depois a sociedade devem responsabilizar os adolescentes pelos seus atos em Torremolinos.

Se fosse pai de um destes adolescentes e o seu filho chegasse a casa a dizer que não tinha feito nada, que tinham sido outros a fazer, o que lhe diria?

Eu nunca aceito esse tipo de argumentação. Num grupo todos somos responsáveis. É evidente que há sempre forças positivas e forças negativas. Nós temos que apelar para as forças positivas, mas devemos censurar o comportamento do grupo. Eu penso que não se deve sequer procurar ver quem foi o mais ativo e quem é que bebeu mais. É preciso é ver o que é que se passou com as forças positivas, que não conseguiram controlar o processo.

Que tipo de castigos acha que se deveriam aplicar?

O castigo só se pode aplicar se os pais o conseguirem levar a cabo. É muito importante passar essa mensagem porque há muitos castigos que os pais enunciam mas que depois não conseguem fazer cumprir, o que ainda é pior. Para mim, fazia todo o sentido que no próximo fim de semana estes jovens tivessem de ficar em casa e não pudessem sair à noite. O problema é que em muitas famílias com que eu lido todos os dias esses castigos são enunciados e depois o adolescente abre a porta e vai-se embora e volta às horas que quiser, porque a família perdeu autoridade sobre o adolescente. Os jovens hoje em dia têm muito poucos limites; desde que tenham boas notas os pais deixam fazer tudo.

Mas faz parte da adolescência uma certa transgressão e um quebrar de regras. Onde se deve traçar a fronteira?

Claro que faz parte, mas com limites. As fronteiras têm a ver com a liberdade dos outros. É perfeitamente admissível que possam fazer algum barulho, que possam beber um pouco a mais ou ter uma aventura sexual. Tudo isso está perfeitamente dentro do que é habitual nos grupos juvenis. Mas obviamente não pode ser permitido que destruam material e que façam roubos, como por vezes fazem.

Dantes as viagens de finalistas ocorriam no final da faculdade, depois passaram a realizar-se também no final do ensino secundário e agora até já se organizam no 4º ano. Faz sentido?

Para jovens tão novos acho que não. Para mim pode fazer algum sentido na adolescência, a partir dos 15 anos, no 9º ano, quando se muda de escola. Mas já se organizam também no 4º e no 6º ano de escolaridade, o que não faz sentido. É um excessivo protagonismo da liberdade juvenil, que acho que não é bom.

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