As crianças e a mentira

Fevereiro 9, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , ,

mentira

 

Este artigo, publicado hoje no site Up to Kids, foi escrito pela Drª  Maria João Cosme, técnica do serviço SOS-Criança do Instituto de Apoio à Criança.

“A mentira é o acto de mentir, é uma ilusão, um embuste, um erro, uma vaidade, uma peta, uma falsidade, um engano propositado e é uma afirmação contrária à verdade com intenção de enganar.” (Dicionário de Língua Portuguesa).

Mas e no caso das crianças? Porque mentem as crianças?

O recurso à mentira ou a tendência para esconder a verdade é algo que assusta pais e cuidadores. Porque tudo o que não controlamos, assusta!..

Podemos referir vários motivos pelos quais se pode mentir:
Medo da Punição; Imaginação/Fantasia; Para proveito próprio; Agradar aos outros; Ser aceite socialmente; Imitação; Chamar a atenção; Negar responsabilidades; Melhorar autoestima.

Pode ainda existir outra situação que leve a criança a mentir, mas não intencionalmente, quando por exemplo ela não entende a pergunta dos pais. A mentira por mal-entendido. Por vezes as crianças não têm ainda adquiridas algumas noções, como a do tempo por exemplo, e os adultos terão que ter esse entendimento e utilizar uma linguagem mais adequada e adaptada à idade.

 

Será que a mentira também cresce com a idade?
A partir dos 3 anos
Por esta altura, a criança ainda não consegue estabelecer uma barreira entre a realidade e a fantasia. “A criança faz uso da mentira porque acredita que o que está a relatar aconteceu mesmo” (Ramalho, 2006).

A imaginação faz parte do desenvolvimento normal e emocional de uma criança.

A partir dos 7 anos
É por volta dos 7 anos que a criança começa a distinguir a verdade da mentira. Nesta idade, a criança acaba por usar a mentira para obter aprovação ou para fugir as consequências de um erro que cometeu, ou seja, já mente de uma forma intencional, o que não acontecia antes.

Adolescência
Na adolescência, “começam a usufruir cada vez mais da mentira quando descobrem que esta pode ser aceite em certas ocasiões e até ilibá-los de responsabilidade e ajudar a sua aceitação pelos colegas” (Carreteiro, 2004).

A mentira nesta altura pode surgir como uma atitude de revolta, ou devido à rigidez das regras impostas pelos pais, ou até mesmo para serem aceites socialmente. Nesta fase, existe intenção de enganar o outro e também de melhorar a sua autoestima e isto pode levar ao afastamento para com os progenitores.

 

O que se deve fazer?
É importante não ignorar, nem achar piada à atitude que a criança teve, pois a criança pode encarar a mentira como algo normal, algo aceite socialmente, mas também é importante não entrar em pânico, porque apesar de tudo, a mentira é utilizada com bastante frequência no quotidiano de toda a gente.

Diálogo: É importante que os pais tenham uma conversa calma com as crianças, para lhes explicar a importância da verdade no quotidiano, as vantagens que a mesma tem e até mesmo as desvantagens da mentira.

Confiança: Uma criança, de qualquer idade, vai sentir-se mais feliz e importante se os pais lhe demonstrarem frequentemente que confiam nela. Se a criança for apanhada a dizer uma mentira, os pais terão de lhe dizer que isso não irá fazer com que eles deixem de confiar nela, mas têm de lhe fazer ver que, se continuar a mentir, vai acabar por fazer com que ninguém acredite nela.

Segurança: A criança tem de se sentir segura para dizer a verdade, sem ameaças e sem receios. As mentiras nem sempre são fáceis de descobrir, pelo que os pais devem certificar-se sempre de que existiu mesmo uma mentira e se realmente a criança mentiu. A necessidade de saber o que realmente aconteceu é justificável. Só assim os adultos conseguem ajudar a criança a regular e corrigir comportamentos e assegurar a sua segurança e bem-estar.

 

A verdade na mentira
A verdadeira mentira implica alguma intencionalidade e está normalmente associada sobretudo a dois aspetos: evitar castigos ou desiludir o outro, ou conseguir algo que deseja muito. Assim, podemos ver alguma legitimidade no recurso à mentira, no sentido em que é uma tentativa de não desiludir ou evitar um problema maior. No entanto é importante não reforçar o comportamento de forma negativa.
A mentira frequente constitui um padrão de comportamento desadequado. Muitas vezes as mentiras são um recurso usado quando a verdade é demasiado dolorosa ou humilhante, ou como chamada de atenção.

É sempre importante estar atento aos sinais.

 

Alguns conselhos:

– Evitar rótulos. Dizer mentiras é diferente de ser mentiroso.

– Dar o exemplo.

– Clarifique que existem opções que não implicam mentir, por exemplo, ao receber um presente de que não gostou, pode simplesmente agradecer.

– Quando a criança mente, o assunto deve ser abordado com calma, sem ameaças de castigos ou de ressentimentos para com ela, para não reforçar pela negativa.

– Evitar dar oportunidade à mentira. Se já sabe que a criança não fez os trabalhos de casa, porquê perguntar se estão feitos?

– Elogiar o comportamento positivo e não recorrer à punição/castigo. Dizer que agimos mal ou que falhámos de alguma forma é difícil, especialmente quando o temos de fazer perante as pessoas mais importantes para nós. Elogie e reconheça a coragem da criança em fazê-lo. Promova a reparação do dano causado em vez do castigo.

Em jeito de conclusão, deve-se procurar reforçar a relação de confiança, assegurando à criança que por muito mau que tenha sido o comportamento, o importante é que ela seja capaz de o partilhar com os adultos próximos para que estes possam ajudá-la.

Advertisements

TrackBack URI


Entries e comentários feeds.

%d bloggers like this: