Défice de atenção e perturbações do comportamento na escola e em casa: medicar ou não medicar?

Fevereiro 4, 2017 às 7:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.publico.pt/ de 22 de janeiro de 2017.

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É uma questão tão difícil de responder como a da pertinência de um antibiótico numa infecção. Há toda uma série de perguntas que precisam de ser respondidas primeiro.

Pedro Cabral

Uma questão recorrentemente levantada por educadores, professores, pais, familiares e técnicos tem que ver com o uso de medicação em casos de “hiperactividade”, quebra de rendimento escolar, modificações de humor e alterações do comportamento.

Toda a gente foi construindo alguma opinião a este respeito, informada por familiares, técnicos e, sobretudo, pela Internet. O ruído à volta deste tipo de questão pode ser particularmente alto, importando dados que muitas vezes não foram comprovados ou que já há muito foram desmentidos.

E não são só os leigos nestas matérias que podem ter opiniões baseadas em factos erróneos. Há cerca de um ano, quando a questão do excesso destas medicações dispensadas no nosso país foi levantada, alguém com responsabilidades nesta área descreveu o efeito “calmante” como o objectivo procurado pela medicação… estimulante!

Uma situação assim complexa não pode ser abordada de forma simples, e não se pode confundir sintomas, conjuntos de sintomas, perturbações e patologias.

O erro de medicar pelas consequências, ignorando as causas

Uma criança que não pára quieta na sala de aula pode ter tudo e não ter nada. Se se mexe mais do que o esperado para a sua idade, pode ser que nunca tenha tido ninguém que lhe chamasse a atenção, pode sentir que não consegue acompanhar os conteúdos, pode estar preocupada com questões mais urgentes para ela, reais ou imaginadas (ser vítima de bullying no recreio, reconhecer risco de doença ou de separação dos pais, por exemplo). Ou pode simplesmente estar distraída, “ausente”, mas sossegada… A importância dos factores genéticos veio claramente a ser reconhecida. Portanto, num contexto de predisposição “hereditária”, que por si só pode perfeitamente não constituir um entrave ao aproveitamento/comportamento académico, um imenso conjunto de circunstâncias, em casa e na escola, pode fazer “emergir” o comportamento desatento, irrequieto, com o seu cortejo de consequências…

Nestas alturas pode pôr-se o problema de medicar ou não medicar, conforme sugestão de familiares ou professores… É uma questão tão difícil de responder como a da pertinência de um antibiótico numa infecção. Há toda uma série de perguntas que precisam de ser respondidas primeiro (se é viral, se é bacteriana, se o organismo consegue vencê-la por si, se há risco de se eternizar, de alergia, etc., etc.). Com a desatenção é o mesmo. Que tendência “distráctil” existe e há quanto tempo, que factores recentes podem tê-la feito aparecer agora, que relação com as suas capacidades escolares numa ou noutra área (por exemplo, a dificuldade de concentração pode ser muito mais difícil na leitura do que no cálculo).

Uma situação que aparece muito na consulta, sobretudo no início da escolaridade obrigatória, é a da criança que não consegue ficar quieta na sala de aula, que interrompe a professora, que se levanta e que se recusa a fazer os trabalhos na sala. Que amua ou se afasta das outras no recreio quando não fazem as coisas como ela gosta. Isto apesar da sua simpatia e das suas reconhecidas capacidades para aprender. Também na natação, ou em casa dos avós, pode haver este tipo de queixas. Um olhar para este conjunto de manifestações será fundamental para perceber se se inscreve nos critérios habituais da chamada “PHDA” (…) ou se, pelo contrário, se trata de um padrão enraizado de comportamento em casa e de interacção com os adultos e os pares. Crianças que interrompem os adultos constantemente, que se habituaram desde sempre a só fazer as coisas com repetidos pedidos e explicações dos pais, que só após “negociação” é que cumprem as tarefas de todos os dias estão na primeira linha para exibirem estas dificuldades comportamentais, de serem rotuladas de hiperactivas e de serem medicadas em consulta.

As consequências de medicar, ignorando as causas

E ficam todos contentes, os professores, porque gostam deles sossegados; os pais, porque acabam as queixas; os médicos, porque a medicação resulta. Até talvez as crianças, porque reconhecem que precisam das “vitaminas” para terem boas notas. Ficam duas questões por esclarecer. A primeira é que, mesmo podendo haver uma tendência significativa na sua dificuldade de concentração, na sua facilidade em se distrair, passível de ser melhorada pela medicação, deixam de ser pensados e prevenidos todos os outros factores que podem estar na base da actual dificuldade ou estar a agravar esta sua tendência genética. Portanto, inquietações, alterações do sono, depressão, desadequação por dificuldades específicas de aprendizagem, reconhecimento de regras, etc., tudo é varrido para debaixo do tapete. A segunda tem que ver com o facto de se poder manter um padrão de irresponsabilidade do próprio, no respeito pelos outros e na necessidade de lutar pelos seus objectivos, os escolares sobretudo. A prazo, a medicação, só por si, não vai ajudar a resolver esta dependência de terceiros. A imaturidade veio para ficar.

A medicação não é uma droga, não provoca habituação, dependência ou tolerância, e os seus efeitos secundários, tão falados na Net, são de facto menores quando comparados com a sua capacidade, que é real, de ajudar a concentrar. Podemos é estar a enganarmo-nos todos, pais, professores e técnicos, quando o objectivo é “tratar” a chamada “hiperactividade” em vez da desatenção. Enganamo-nos todos sobretudo quando são ignorados ou esquecidos os tais factores que podem estar na base, ou contribuir para agravar a desadequação escolar.

Porque neste ignorar das causas, que a medicação pode permitir, corremos o risco sério de adiar a construção da responsabilidade, pelo próprio, na gestão das suas tarefas e objectivos. Quando a tal hiperactividade tiver desaparecido, com o tempo, podemos encontrar um jovem “imaturo” porque desatento, incapaz de trabalhar sozinho ou sem ser pressionado, indiferente aos resultados, esperando que as coisas se resolvam com o tempo. Medicar ou não? A questão não pode ser essa.

(*) Neurologista pediátrico. CADIn – neurodesenvolvimento e inclusão

 

 

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Crianças correm grandes riscos na internet

Fevereiro 4, 2017 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do site http://jcrs.uol.com.br/ de 24 de janeiro de 2017.

Patricia Knebel

O computador, o tablet e o smartphone se tornaram um objeto de desejo de 10 entre 10 crianças e adolescentes. Por esses gadgets eles choram, batem pé e acabam convencendo os pais a ajudá-los a entrar, muitas vezes cedo demais, no mundo da tecnologia.

Mas você já parou para pensar que os simples hábito de jogar no computador pode estar expondo o seu filho a riscos seríssimos, como o dele achar que está trocando informações sobre táticas do game com um menino da sua idade quando, na verdade, está conversando com um pedófilo? Ou que, ingenuamente, a sua filha está enviando fotos íntimas pelo Facebook na intenção de conhecer um ídolo?

Foi isso que aconteceu recentemente, quando a tia de uma menina de 10 anos estranhou quando ela pediu uma short de dormir emprestado e foi averiguar. Descobriu que um perfil falso no Facebook do fã-clube da cantora Larissa Manoela estava tentando convencer a menina, e muitas outras, a enviar fotos com roupas curtas sob o pretexto de ter a chance de conhecer a artista.

Golpes como esses acontecem todos os dias. Eles tiram dinheiro, inocência e paz das crianças e dos seus pais. Conter isso é uma responsabilidade de todos que as cercam, alerta Daniel Diniz, membro do Conselho Consultivo do (ISC)2 para a América Latina, que reúne 120 mil profissionais de segurança cibernética, e do Conselho Administrativo do Center for Cyber Safety and Education.

Jornal do Comércio – Qual o tamanho dos riscos aos quais as crianças estão expostas hoje em dia com a internet?

Daniel Diniz – As crianças correm riscos do tamanho de prédios arranha-céus, ou seja, são muitos, muito altos e podem trazer consequências trágicas em alguns casos se os pais, professores e a sociedade como um todo não assumirem seu papel ativo em protegê-las. Os cibercriminosos estão em uma busca permanente pelos dados dos cidadãos para obter alguma vantagem financeira ilícita. Os alvos preferenciais desses criminosos são as crianças e os idosos, geralmente vulneráveis a golpes conhecidos como engenharia social, em que o golpista procura enganar a vítima fazendo-a revelar informações sensíveis. As redes sociais geralmente são usadas no Brasil e em outros países da América Latina por crianças que ainda não possuem idade apropriada para entender os riscos. Os pais cedem à pressão dos filhos que, muitas vezes, convivem com amigos na escola que também já utilizam essas plataformas antes do tempo. Os criminosos usam essas redes para obter informações de suas vítimas. As crianças também costumam jogar games que possuem capacidade de comunicação e interação com outras pessoas que fingem ser da mesma idade. Existem vários casos de pedófilos utilizando esses meios para cometer seus crimes contra as crianças.

JC – É muito comum hoje em dia vermos as crianças com tablets e smartphones. Que riscos que chegam por meio desses dispositivos?

Diniz – Realmente é muito comum os pais presentearem a criança pequena com um celular ou tablet, e um dos riscos é deixar a capacidade de instalação de novos aplicativos sob o controle dela. Muitos aplicativos podem conter o que chamamos software malicioso, os malwares. Este tipo de app malicioso rouba os dados do celular ou tablet, ou pode ligar câmera e microfone sem o conhecimento do usuário a fim de monitorar seus passos. Pensando que nossos filhos possam estar sujeitos a este tipo de ameaça, devemos acordar para o problema e assumir nossa parte na proteção deles.

JC – Os pais parecem perdidos sobre como agir em relação à tecnologia e às crianças. Qual o conselho que você daria para eles tentarem aumentar a proteção?

Diniz – Também tenho a mesma sensação. Não só os pais estão perdidos, mas todas as pessoas com as quais as crianças interagem regularmente, como professores, avós, tios, primos e outros familiares. Isso tem uma explicação: a tecnologia evolui de forma rápida demais, e o mesmo acontece com as ameaças ao seu uso. As crianças geralmente são ávidas por tecnologia porque estão em processo de mudança, de aprendizado. Elas se identificam facilmente com as transformações e as assimilam muito rapidamente. Os adultos não conseguem acompanhar esse círculo frenético. O uso consciente e seguro da tecnologia pela sociedade, especialmente pelas crianças, consideradas altos utilizadores (heavy users), é um grande desafio que estamos enfrentando no século XXI.

É um problema que deve ser combatido todos os dias pela sociedade, sobretudo com muita informação e debates sobre os riscos que estamos correndo de forma a embasar a tomada de boas decisões. No caso das crianças, é fundamental que elas conheçam estes riscos e sejam acompanhadas por pais, professores e familiares. O principal conselho é: acorde imediatamente para esse assunto. Seu filho já está correndo riscos que ele e você desconhecem. Alguns podem trazer consequências amargas pelo resto da vida, muitas vezes por negligência nossa, pais e/ou responsáveis. Busque informar-se, leia a respeito do tema e procure aconselhamento com as pessoas em quem você confia.

JC – Como os pais podem buscar criar um instinto de navegação segura?

Diniz – Criar a cultura de segurança no uso da tecnologia pelas crianças, adultos e toda a sociedade é adicionar estes hábitos seguros ao dia a dia delas. À medida que elas incorporam esses hábitos, não importa qual é tecnologia ou dispositivo usarão, pois já terão o hábito de usar a tecnologia em seu benefício para aprender, se divertir, se comunicar com a família, mas sem se expor. Esses hábitos seguros significam para o uso da tecnologia o mesmo que a higiene para a saúde humana: prevenção. Prevenir-se contra riscos, usando a tecnologia para o que ela foi realmente criada: melhorar nossas vidas.

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Perfil falso do fã-clube de Larissa Manoela era armadilha para meninas REPRODUÇÃO/FACEBOOK/

 

10 cuidados que os pais devem ter com as crianças no mundo digital:

  1. Altere a senha de fábrica dos dispositivos que possuem tecnologia bluetooth e Wi-Fi. A maior parte desses itens utiliza uma senha padrão que facilita a invasão de hackers.
  2. Desabilite a geolocalização automática em todos os aparelhos das crianças: pessoas mal-intencionadas podem utilizar códigos escondidos desse recurso para rastrear a localização das crianças por meio das fotos, vídeos e conteúdos publicados nas redes sociais.
  3. Verifique a classificação indicativa e as capacidades de conexão dos jogos. Tenha em mente que alguns jogos permitem a interação on-line com outras pessoas sem restrição de idade.
  4. Instale jogos e aplicativos educacionais antes de presentear as crianças com os dispositivos: existem muitas opções de apps que oferecem aprendizado e entretenimento. Ajude as crianças a escolhê-los.
  5. Organize uma área para carregar a bateria dos dispositivos em sua casa durante a noite de forma que as crianças não os levem para o quarto.
  6. Mude a senha de fábrica do seu roteador Wi-Fi e o configure para o nível de controle necessário em sua casa, como horário de acesso e bloqueio de sites por categoria.
  7. Antes de entregar os aparelhos para as crianças, crie usuários não administradores. Dessa forma, eles não podem mudar as configurações ou baixar e instalar aplicativos sem permissão.
  8. Oriente as crianças a não compartilharem informações pessoais, como endereço, número de telefone e e-mail.
  9. Instrua seus filhos a reportarem qualquer incidente de bullying e a tratarem os outros como gostariam de ser tratados.
  10. Certifique-se de que as crianças saibam que só devem se conectar a redes Wi-Fi confiáveis.

 


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