As mulheres do Malawi produzem pensos higiénicos para combater o abandono escolar

Janeiro 22, 2017 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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texto do http://p3.publico.pt/ de 11 de janeiro de 2017.

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Nos países em desenvolvimento, a menstruação é um dos entraves ao acesso à educação e ao emprego. No Malawi, um kit de pensos higiénicos reutilizáveis pode ser a solução para o abandono escolar

Texto de Andreia Cunha

A menstruação pode determinar se uma menina frequenta a escola ou se uma mulher mantém o emprego. Preocupadas com os métodos de higiene improvisados, são muitas as jovens a viver em países em desenvolvimento que optam por perder dias de aulas e de trabalho para evitar o desconforto junto dos colegas. Um penso higiénico reutilizável pode ser a alternativa aos produtos íntimos pouco seguros, mas o preço apresenta-se como mais um entrave em países com elevados níveis de pobreza. Na África subsariana, um grupo de mulheres do Malawi dedica os seus dias a produzir um kit para as meninas levarem para a escola durante o período menstrual – uma solução para evitar o abandono escolar.

Além de serem escassos e difíceis de encontrar, os produtos de higiene feminina têm um preço demasiado elevado para famílias que vivem em situação de pobreza e habitam em áreas rurais isoladas. No Malawi, um dos países mais pobres do mundo, um penso higiénico custa aproximadamente o salário de um dia de trabalho, razão pela qual muitas mulheres recorrem a alternativas improvisadas como trapos, fibras de bananas, tiras de algodão ou papel higiénico durante os períodos menstruais. Estas condições são, por isso, a causa de infecções e outros problemas de saúde entre crianças e jovens.

O que Julia Gunther encontrou na sua passagem pela Green Malata Entrepreneurial Village, uma aldeia criada pelo Fundo para Crianças do Malawi, foi um grupo de meninas e mulheres que se dedicam diariamente à produção de pensos higiénicos reutilizáveis. Do “The School Girl Pack” faz parte uma peça de roupa interior e três pensos que podem ser sujeitos a diversas lavagens, destinando-se a ser reutilizados durante um longo período de tempo. Projectado e adaptado ao reduzido número de materiais, o kit completo é depois vendido às jovens locais pelo valor de 2.500 kwachas (perto de 3,25 euros).

O tabu da menstruação

Durante as três semanas e meia de estadia, Julia Gunther procurou documentar os pensos coloridos e ilustrar como “um objecto aparentemente incongruente” pode “afectar significativamente a vida de jovens mulheres”. O maior desafio que encontrou foi conseguir falar abertamente com as adolescentes da aldeia. “A menstruação é de facto um tabu”, disse a fotógrafa em declarações ao site norte-americano The Huffington Post. “Não é tanto na medida em que ninguém fala sobre isso, mas mais no sentido de que as mulheres são ridicularizadas e discriminadas quando estão com a menstruação. Como resultado disto, e o facto de que muitas não podem dar-se ao luxo de deitar fora os pensos higiénicos, elas ficam em casa sem ir à escola ou ao trabalho”.

Oferecer meios acessíveis e sustentáveis para frequentar a escola durante a menstruação é a ideia deste kit, criado também para ajudar a vencer um tabu presente em muitos países em desenvolvimento. De acordo com as estimativas mais recentes da UNESCO, referidas anteriormente no P3, uma em cada dez meninas em África falta às aulas durante o ciclo menstrual e muitas acabam mesmo por abandonar a escola. Um estudo sobre a menstruação e o absentismo escolar em Malawi sublinha que as raparigas estão significativamente mais propensas a estarem ausentes da escola nos dias em que têm o seu período menstrual em relação a outros dias de escola. O impacto global na frequência é, todavia, pouco significativo, totalizando 0,4 dias de escola perdida por menina no total dos 180 dias do ano lectivo.

Nos próprios espaços escolares, a falta de condições sanitárias e de higiene amplia o problema. Um relatório da Organização das Nações Unidas defende a necessidade de melhorar as instalações e o saneamento dentro das escolas, o que pode, em alguns contextos, ter um efeito benéfico para as raparigas. O receio de serem ridicularizadas e as preocupações com a privacidade, particularmente durante a menstruação, podem ser mais uma barreira à frequência escolar.

Desenvolver projectos centrados na educação, saúde, geração de rendimentos e formação profissional junto da população é o objectivo da aldeia em Malawi, que procura oferecer aos adolescentes locais, principalmente órfãos, treinamento em habilidades sustentáveis de forma a obterem o seu próprio rendimento. De acordo com a organização, os pensos reutilizáveis, além de permitirem que as meninas continuem a frequentar a escola e as mulheres não deixem de trabalhar, capacitam financeiramente a população feminina local que, posteriormente, pode ser apoiada na criação de pequenas empresas para fornecer o kit de higiene ao resto das mulheres.

“O que é dado por certo no Ocidente pode fazer ou quebrar o futuro de alguém num país em desenvolvimento”, explica a fotógrafa alemã. “Os pensos higiénicos reutilizáveis feitos em Green Malata, e aqueles produzidos noutras partes do mundo, são um meio importante para que as mulheres obtenham a independência que merecem, e mais importante do que isso, para que completem a sua educação”.

 

 

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