Nascidos para ler

Janeiro 10, 2017 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto da http://www.paisefilhos.pt/ de 2 de janeiro de 2017.

pais-filhos

Escrito por Ana Sofia Rodrigues

Quando, em junho de 2014, a Academia Americana de Pediatria recomendou a leitura para bebés desde o nascimento, não foram poucos os que ficaram surpreendidos. A pediatra Pamela C. High, autora da nova conduta, revelava que “fortes evidências mostram que o facto de o pediatra, durante a consulta, recomendar a leitura em casa, pode fazer a diferença na vida das crianças e das suas famílias”. Uma confirmação científica que se baseou em inúmeros estudos que comprovam que ler para um bebé, desde o nascimento, estimula o cérebro de uma forma única e reforça o vínculo entre pais e filhos. Os efeitos desta “terapêutica” são unânimes: desenvolve a atenção, a concentração, o vocabulário, a memória e o raciocínio; estimula a curiosidade, a imaginação e a criatividade; ajuda a criança a perceber e a lidar com os sentimentos e as emoções; possibilita conhecer mais sobre o mundo e as pessoas; auxilia no desenvolvimento da capacidade de empatia; estimula o desenvolvimento da linguagem oral… além de criarem-se as fundações de um prazer incomparável para a vida.

Leituras intrauterinas
Antes desta recomendação, as práticas de promoção da leitura junto de pré-leitores (crianças entre os zero e os seis anos) eram já uma realidade consolidada em diversos países, integrando mesmo políticas oficiais. Desde os anos 90 do século passado, a escritora brasileira Alessanda Roscoe desenvolve inclusivamente programas de leitura ainda em útero, com grupos de grávidas que convocam a sua família para ler para o bebé, ainda na barriga da mãe. “Aletramento Fraterno” é a sua proposta mais recente, defendendo que os livros são o leite da alma e que estimular o hábito da leitura numa criança é uma tarefa que pode envolver toda a família. De facto, estudos mostram que o bebé, ainda em útero, já é capaz de captar as vibrações emitidas pela voz da mãe e consegue identificar a emoção das suas palavras. Após o nascimento, a missão é continuar. E apesar de a criança ainda não compreender o significado das palavras, elas servem como estímulo para o seu desenvolvimento.

Rimas de encantar
Infelizmente, ainda é comum a ideia de que se o bebé não percebe o que lhe estamos a ler, então não vale a pena fazê-lo. Muitos pais não compreendem a utilidade de um hábito tão precoce e também não sabem como pô-lo em prática. Dora Batalim, doutoranda de Literatura Infantil na Universidade Autónoma de Barcelona e coordenadora da Pós-Graduação em Livro Infantil da Universidade Católica, surpreende ao defender que “a primeira grande literatura, importantíssima para os bebés, são as lengalengas, as canções de embalar, as rimas infantis, os jogos de mãos e de corpo. É um mundo genial. Se não tivéssemos livros para bebés, este universo chegaria”. Tão balalão, cabeça de cão, orelhas de gato, não tem coração… Janela, janelinha, porta, campainha. Trrrimmm… Mão morta, mão morta, vai bater àquela porta… “Antigamente, as avós não tinham cursos de contadores de histórias, nem de mediação de leitura, nem liam blogues a explicar como se deve fazer… e faziam tudo”, reforça com graça. Estes textos que se repetem ao longo do dia, ditos por caras conhecidas, dão uma segurança e um vínculo ao bebé que ele adora. “Eles gostam e acalmam-se porque a maioria destas toadas está relacionada com os ritmos do bater do coração e da circulação sanguínea, que eles escutavam na barriga da mãe”, explica Dora Batalim. No entanto, muitos pais atuais já não as ouviram e não dominam esse reportório. Para eles, pedimos a esta especialista que indicasse algumas obras a que pudessem recorrer. “Já há bons livros que reúnem canções e rimas tradicionais, inclusivamente musicadas com CD a acompanhar. Por exemplo: ‘Rimas e Jogos Infantis’ (Raiz Editora/Lisboa Editora), ‘Cantar Juntos 1’ (Estúdio Didático/A PAR) e ‘Sementes de Música’ (Caminho)”. Ficam as sugestões.

Dieta variada
Depois deste “banho” de tradição oral, por que livros se pode então começar? Lamentavelmente, a publicação de autoria portuguesa dirigida a bebés é praticamente inexistente, mas algumas editoras já incluem nos seus catálogos várias traduções muito interessantes. Dora Batalim fica encantada com as potencialidades dos livros para a faixa etária dos zero aos dois anos. “A literatura para bebés é como se fosse um microcosmo: o que funciona ali é verdade para o resto”. Ao contrário do que se poderia pensar, a escolha do que comprar para os mais novos deveria ser muito exigente. “Normalmente, as pessoas reduzem a equação livros para bebés a livros muitíssimo básicos, mais ligados a jogo do que a fruição estética. E os pais esperam que sejam livros que ensinem coisas. Precocemente, há uma grande necessidade de injetar logo conhecimento científico! São as cores, as formas, os opostos…”, descreve Dora Batalim. Além disso, “há uma perseguição muito grande do texto verbal, pois o adulto não tem uma relação muito clara com a imagem. Não sabe lê-la, não está habituado e acha que as imagens estão ali ou para enfeitar ou para explicar melhor as palavras”. Pelo contrário, nos livros infantis mais atuais, as imagens formam textos autónomos, complementares, até divergentes do texto verbal e isso é uma riqueza a explorar.

A escolha dos livros para bebés deveria ser “uma dieta muito variada, ao nível das tipologias e das funções que desempenham, mas também ao nível das representações”. No início, Dora sugere começar com ofertas muito tranquilas, com uma progressão na intensidade das emoções. Com representações gráficas “muito limpas”, mas não necessariamente “abebezadas”. Com funções diversas: uns que ajudem o bebé a entender o mundo e a si próprio, outros puramente estéticos, uns com narrativas para cultivar as emoções, outros ainda para explorarem sozinhos com todos os sentidos. “Para que os livros sirvam de mapa seguro de começo no mundo”.
Não é difícil identificá-los. São livros com poucas páginas, pois o tempo de concentração dos bebés é muito curto, muitos são cartonados com pontas arredondadas, as imagens apresentam-se em grandes dimensões, as temáticas são familiares ao universo do bebé (alimentação, meios de transporte, animais, vestuário…), apelam ao contacto físico, o discurso verbal é simples, muitas vezes rimado e interpelativo e os textos recorrem a repetições, refrões, onomatopeias, jogos de sons e palavras.

Pontes literárias
Não há dúvida que os pais devem funcionar como exemplos e modelos de leitores e a leitura deve surgir habitualmente em casa, associada a momentos de prazer, encontro e afetividade. E quando os pais não são leitores? “Um filho é uma desculpa para fazermos o que nunca fizemos. Em nome dele, transformamo-nos”, defende Dora Batalim. Mas, sem prática, essa iniciação pode ser difícil. É precisamente na criação de pontes entre as famílias e os livros, que as bibliotecas representam um papel muito importante. Como? Criando programas, espaços e contextos específicos para a promoção precoce da leitura. Joaquim Mestre foi um dos impulsionadores do novo conceito de biblioteca, no início dos anos 90, em Beja. Referindo-se às “bebetecas”, costumava defini-las de uma forma inspiradora: “A bebeteca funciona como um imenso útero materno, com vários cordões umbilicais ligados ao bebé, aos pais e aos livros, como se fossem um complexo sistema de vasos comunicantes”. Susana Silvestre, atual responsável pelas bibliotecas municipais da Câmara de Lisboa, dedica-se à importância de partilhar livros com bebés há cerca de 16 anos. Primeiro, na Biblioteca de Odivelas e, agora, em Lisboa, promove programas continuados de promoção de literacia emergente. Ao longo de seis meses, de 15 em 15 dias, “tentamos fazer pais leitores, que consigam dominar as ferramentas para eles próprios serem mediadores de leitura em casa. E não fazemos em mais locais, pois os promotores de leitura ainda não se sentem à vontade com estas idades”, reconhece. As listas de espera são imensas, mostrando a necessidade de formação que muitos adultos sentem nesta área. “Verificámos, por exemplo, que os pais não se sentem à vontade com os álbuns de imagens ou com livros com poucas palavras”, destaca Susana Silvestre. Com um trabalho personalizado, são dadas ferramentas aos pais, apostando no prazer da leitura partilhada. “Os pais não devem ler para os bebés só porque é bom para eles aprenderem a ler mais depressa. Sou contra aos pais estarem a contar uma história sem prazer. Têm que se criar momentos de alta qualidade, mesmo que sejam menos do que a ‘literatura’ manda…” Para tal, a escolha dos livros pode representar um papel muito importante. “Os livros escolhidos devem ser objetos de prazer para pais e filhos”. Para tal, Susana Silvestre aconselha a que os adultos “não fiquem presos à indicação etária habitualmente presente na contracapa” e experimentem livros inusitados.
Também no caminho da leitura, os pais são chamados a um papel fundamental, transformando-a num hábito relevante. Leva tempo e exige afeto, dedicação, partilha, prazer, encanto e cumplicidade. Mas vale muito a pena.

São poucas, mas as lojas de literatura infantil são pequenos oásis, para pais e filhos.

Essenciais, segundo Dora Batalim

– “Eu Vejo”, “Eu Ouço”, “Já Sei” e “Eu Sinto”, de Helen Oxenbury (Gatafunho)
– “Primeiros Livros”
(Coleção de mini-livros),
de Stella Baggot (Edicare)
– “A Primeira Biblioteca do Bebé”,
de Madeleine Deny e Marianne Dubuc (Edicare)
– “As Roupinhas do Martim”,
de Xavier Deneux (Edicare)
– “Será… Um Caracol?”, “Será… Um Rato?”, “Será… Um Gato?”, “Será… Uma Rã?”, de Guido Van Genechten (Gatafunho)
– “Aí Vou Eu” e “Pequeno
Ou Grande”, de Hervé Tullet (Gatafunho)
– “Miffy” (vários títulos), de Dick Bruna (ASA)
– “As Estações”  e “O Balãozinho Vermelho”, de Iela Mari (Kalandraka)
– “Todos no Sofá”, de Luísa Ducla Soares e Pedro Leitão (Livros Horizonte)
– “Boa viagem bebé!”, de Beatrice Alemagna (Orfeu Mini)
– “A Lagartinha Muito Comilona”,
de Eric Carle (Kalandraka)
– “Tanto, Tanto!”, de Trish Cooke (Gatafunho)

Casas de livros

Aqui há Gato
Rua Dr. Mendes Pedroso, 21 – Santarém

Cabeçudos
Rua António Lopes Ribeiro, 7A – Lisboa

Gigões & Anantes
Rua Dr Nascimento Leitão, 30 – Aveiro
http://www.facebook.com/gigoeseanantes

Hipopótamos na Lua
Rua Gomes de Amorim, 12-14 – Sintra

Livro Voador

Av. Menéres, 536 – Matosinhos

Mercado Azul

Rua Calouste Gulbenkian, 419, R/C – Guimarães

O Bichinho do Conto

Estrada dos Casais Brancos, 60 – Óbidos

Salta Folhinhas

Rua António Patrício, 50 – Porto

 

 

 

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