“Temos de ter atenção às crianças que sofrem em silêncio, as que ninguém vê”

Janeiro 8, 2017 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista de José Morgado ao http://www.dn.pt/ de 30 de dezembro de 2016.

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O psicólogo educacional José Morgado defende que os professores e os pais devem estar atentos aos sinais das crianças, como a agitação, desmotivação e as dificuldades de sono

Como é que a comunidade escolar e os pais podem identificar os sinais de que a criança está em sofrimento emocional acentuado?

Qualquer criança que mostre instabilidade, desmotivação, agitação, dificuldades no sono, dificuldades escolares denuncia já as consequências de um determinado mal-estar emocional.

Mas é tão difícil perceber que uma criança pode estar a acusar mal-estar a esse nível?

Esse sofrimento é menos objetivável do que os problemas sobrevalorizados na escola, nomeadamente do rendimento escolar, o bullying, a indisciplina. Por vezes a criança pode estar a sofrer em silêncio. São o que chamo de “crianças desaparecidas”, que estão à vista de todos mas ninguém as vê. São mais difíceis de captar do que as crianças que sucessivamente são reativas, que não se sentem bem em lado nenhum, que apresentam dificuldades de sono ou têm uma má relação com a escola.

Que causas se podem apontar para esses comportamentos?

A pressão para os resultados e as altas expectativas que os pais têm para o desempenho escolar, podem causar mal-estar emocional. As crianças fragilizadas na sua resiliência tendem depois a sofrer inquietação e problemas de sono. Em Portugal, o estado de sofrimento emocional das crianças não é muito valorizado. A comunidade escolar está mais atenta ao rendimento da criança, ao comportamento a nível de disciplina. E está menos atenta ao processo por detrás desse resultado, sem ir ao fundo, à origem do mal-estar.

Os professores têm um papel importante na deteção desse sofrimento emocional?

Têm e muitas vezes acabam por perceber que o comportamento de muitas crianças na sala de aula não é tanto uma questão de indisciplina mas antes um problema emocional. Devem estar muito atentos aos sinais e canalizar para o departamento de saúde escolar o caso, para os serviços de psicologia de orientação, pelo menos nas escolas onde estes existam.

Pais e professores devem unir-se nesta matéria?

Sim, eu defendo que nas reuniões de pais e professores deve haver um debate sobre estas questões. Não é fácil ser um professor ou um pai, isoladamente, a ter de resolver problemas emocionais severos de uma criança.

De que forma a carga horária na escola e a tradição dos trabalhos de casa (TPC) podem afetar as crianças?

Na minha opinião, os TPC são usados de uma forma excessiva. De facto, a qualidade de vida dos miúdos é reduzida porque eles passam tempos infinitos na escola. Por lei, uma criança de 10 anos pode estar onze horas de seguida na escola. E há miúdos que lidam bem com a pressão escolar e outros que não.

E ainda há a questão da qualidade do tempo que as crianças passam em casa…

O pouco tempo que há devia ser aproveitado pelos pais para contar histórias, brincar com os filhos ou jogar. Um estudo norte-americano recente demonstrou que as crianças se apercebem de que os pais passam o tempo que deviam aproveitar com eles nos computadores ou smarthphones.

A tentação de medicar as crianças desatentas é excessiva?

Estamos a “ritalinizar” os miúdos, como costumo dizer, a dar-lhes Ritalina em excesso (fármaco para a hiperatividade). Por vezes bastaria mudar a forma de atuar com as crianças e obrigá-las a rotinas. Se um miúdo faz birra às nove da noite porque não quer ir dormir, os pais tendem a ceder. Mas as rotinas e o saber dizer “não” são estruturadores. Sem isso, as crianças não sabem lidar com a frustração e ficam reativas.

 

 

 

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