Presos ao ecrã

Janeiro 5, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto da http://www.paisefilhos.pt/ de 23 de dezembro de 2016.

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Escrito por Paulo Oom, pediatra

A utilização maciça da multimédia, através do telemóvel, televisão e consolas tem repercussões. Ser muito social nas redes sociais pode significar um grande isolamento.

 Hoje, o tempo de estudo de uma criança é bem diferente do que era há uns tempos. Já não existe a secretária cheia de papel, borrachas e lápis ou a tradicional biblioteca ou escritório cheios de livros para consulta. Pelo contrário, a criança tem hoje ao seu dispor inúmeros recursos em qualquer computador e quase tudo o que precisa saber lhe salta para cima à distância de um clique. Um teclado e um “rato” são tudo.

Também as brincadeiras já não são o que eram. Andar de bicicleta, jogar futebol, jogar basquete, brincar à cabra-cega ou ao mata são coisas de um passado distante. Pelo contrário, nunca como antes houve à disposição das crianças e jovens tanta tecnologia para se divertirem e distraírem. São computadores, consolas, telemóveis e múltiplos comandos que as levam para aventuras nunca antes vividas e emoções nunca antes sentidas. A criança está sentada em frente a um grande ecrã onde todo o mundo passa à sua frente. Virtual, claro.

Uma velocidade impressionante

Uma das formas mais interessantes para analisarmos o impacto das novas tecnologias é analisar quanto tempo demora determinada tecnologia a atingir os 50 milhões de utilizadores. Um número impressionante, é certo, mas que reflete bem a penetração no mundo de cada novidade. Para a rádio, por exemplo, foram necessários 38 anos para atingir aquele número de ouvintes. Já o telefone, depois de inventado, precisou de “apenas” 20 anos e a televisão de uns “poucos” 13 anos para conseguirem ter 50 milhões de utilizadores regulares. Os números mais recentes, contudo, impressionam mais. Para a internet bastaram quatro anos e mais recentemente todos os recordes foram batidos com o Facebook a precisar de três anos e meio e o Twitter de apenas três anos para serem utilizados por 50 milhões de almas. No entanto, nada disto é comparável aos 88 dias conseguidos pelo Google + para se espalhar pelo mundo e atingir o mesmo número de utilizadores.

Uma utilização maciça

Um estudo americano recente, desenvolvido pela Kaiser Family Foundation, revelou que as crianças e jovens americanos com idades entre os oito e os 18 anos utilizam aparelhos multimédia durante 7h38m por dia ! E esta evolução tem sido crescente, pois ao longo dos últimos anos a sua utilização tem vindo a aumentar, ao contrário da leitura de livros tradicionais que tem vindo a diminuir progressivamente. Muitos destes jovens possuem atualmente vários dispositivos multimédia, com destaque para os iPod/Mp3 seguidos de perto pelo telemóvel e pelo computador. O telemóvel tem vindo a disseminar-se e hoje cerca de um terço das crianças com menos de dez anos possui um. Esta percentagem sobe para perto dos 90 por cento quando falamos de adolescentes entre os 15 e os 18 anos. Ainda no mesmo estudo verificamos que apesar da profusão de instrumentos multimédia ao dispor dos jovens, e das preocupações levantadas por muitos pais, apenas um terço dos pais estabelece regras em relação à sua utilização, nomeadamente em relação ao tempo durante o qual podem utilizar cada dispositivo.

Um estudo semelhante realizado em Portugal revelou que praticamente 100 por cento dos lares portugueses possuem televisão e que em cerca de 90 por cento existe um computador. Mais importante, 60 por cento das crianças portuguesas têm uma televisão e 30 por cento um computador no quarto. No total, o tempo gasto por dia em multimédia pelas crianças e jovens portugueses ultrapassa as 5h30m. Estamos no caminho certo? Não parece…

As consequências são inevitáveis

Tudo isto tem consequências. As crianças comunicam cada vez menos umas com as outras de forma presencial e o seu relacionamento é feito muitas vezes à custa de símbolos como smiles, LOL ou polegares virados para cima. Em vez de darem a mão parece estarem ligadas por wi-fi. Mesmo quando em família, começam a ser raros os momentos passados em conjunto a conversar, a rir ou a passear ao ar livre. O computador e principalmente o telemóvel tomaram gradualmente conta de todo o tempo disponível. As refeições estão cada vez mais multimédia e numa mesa, para além dos pratos, talheres, copos e guardanapos, existem sempre espalhados diversos telemóveis. Mesmo na escola e nos recreios a maior parte das brincadeiras foi substituída pelo olhar mecânico para o pequeno ecrã e o teclar constante. Chegam a estar lado a lado mas a comunicar através das teclas. Infelizmente muitas vezes o exemplo é dado pelos próprios pais. No estudo americano que já referi verificou-se que estes passam por semana mais de 33 horas vidrados no ecrã. Que lindo exemplo. Como podem depois ter autoridade para impor limites?

Uma evolução plástica em resposta ao meio ambiente

O cérebro é um órgão maravilhoso. Ele é o cerne da consciência e controla a atividade de todo o corpo. O cérebro de um recém-nascido contém cerca de 100 biliões de células. Ao longo dos primeiros anos de vida o cérebro vai aumentando em tamanho mas o número de células mantem-se aproximadamente o mesmo. O seu tamanho final depende de muitos fatores incluindo aspetos genéticos, uma boa nutrição, a estimulação fornecida pelos seus pais e as experiências vividas pela criança.

 A principal característica das células cerebrais é a sua capacidade para se conectarem umas com as outras, estabelecendo circuitos que vão ser utilizados para as mais diversas funções. Uma única célula cerebral pode ligar-se a 15.000 outras células.

Aos três anos o cérebro de uma criança possui mais de mil triliões de ligações. Mas este número começa a diminuir a partir daí, pois apenas se vão manter para o resto da vida as ligações utilizadas e vão ser reprimidas as ligações não utilizadas ou inúteis. Isto confere ao cérebro humano uma enorme plasticidade e a capacidade de se desenvolver em resposta às exigências do ambiente. Esta maturação cerebral não ocorre toda ao mesmo tempo mas ao longo da vida durante os primeiros 18 a 20 anos. E ocorre para diferentes áreas do cérebro de forma sequencial. Sabemos por isso que existem períodos da vida onde a criança e jovem estão especialmente aptos a progredir na aquisição de determinadas funções. São as suas “janelas de oportunidade”.

É o caso da visão e da audição que estão especialmente ativas na sua maturação desde o nascimento e até aos cinco anos de idade, ou da linguagem que tem uma enorme capacidade de desenvolvimento do nascimento até aos dez anos. Já a destreza motora desenvolve-se principalmente até aos 12 anos.

 Por fim, o desenvolvimento das relações sociais e os aspetos emocionais das ligações humanas podem desenvolver-se desde o nascimento até aos 18 ou 20 anos. Ao longo de todo este processo sabemos que as áreas cerebrais que forem estimuladas pela experiência desenvolvem-se gradualmente enquanto que as áreas que não forem estimuladas caem em desuso e são “descontinuadas”. É uma forma de o cérebro humano canalizar a sua energia para estabelecer as relações entre as células e as vias que interessam, em detrimento daquelas que parecem menos utilizadas (e portanto inúteis).

Uma das últimas áreas a desenvolver-se é a zona do lobo frontal, que é responsável pelo controlo emocional, planeamento, julgamento e pensamento crítico. Estas áreas amadurecem principalmente durante a adolescência e até aos vinte anos. Isto permite explicar alguns dos comportamentos de risco da adolescência e ao mesmo tempo levantar suspeita de que os jovens que não utilizam estas áreas do cérebro durante a adolescência por estarem demasiadamente ocupados num mundo virtual virão a ser seguramente adultos diferentes daquele que foram os seus pais.

Multitasking – vantagem ou prejuízo?

O fenómeno multitasking, tão em voga atualmente, é por muitos considerado como uma enorme vantagem, por permitir que o jovem execute diversas funções ao mesmo tempo. A criança já não estuda simplesmente. Estuda ao mesmo tempo que ouve música, navega na internet e fala ao telefone. Mas esta suposta “vantagem” não o é na realidade. O cérebro tem pouca capacidade para efetuar diversas funções em simultâneo. Pelo contrário quando um jovem executa diversas atividades em simultâneo o que acontece na realidade é que o seu cérebro vai alternando por períodos muito curtos entre uma e outra função. E quanto maior o número de funções maior a dispersão cerebral entre todas elas, não conseguindo nunca concentra-se numa só. Daqui resulta um conhecimento muito alargado no que diz respeito aos tópicos envolvidos, mas muito pouco profundo quando analisado cada tópico em particular. É o célebre conhecimento “mile wide and inch deep”. Muito pouco de muita coisa.

Relacionamentos sociais:

quantos mais melhor?

Analisando diferentes espécies conseguimos perceber que a percentagem do seu cérebro ocupada com os aspetos sociais varia de espécie para espécie e que isso influencia o número de relacionamentos significativos que cada indivíduo consegue ter. Indivíduos de espécies animais com um cérebro maior, conseguem relacionar-se com um maior número de indivíduos da mesma espécie. Extrapolando para o tamanho do cérebro humano seria de esperar que qualquer um de nós conseguisse lidar, na nossa vida social, com 100 a 230 relacionamentos sociais significativos, sendo o valor médio esperado para a nossa espécie de 150. No entanto, verificamos que o número médio de relacionamentos Facebook entre os jovens é de 834. Mais social será provavelmente igual a menos social pois a maioria desses relacionamentos será tão superficial que em nada se distinguirá da não-existência.

Exercício físico e violência

Não parece haver uma relação inversa entre a utilização multimédia e a prática de exercício físico. Muitas crianças com uma utilização considerada alta de multimédia praticam bastante exercício, provavelmente porque durante a prática física estão a ouvir música através de algum dispositivo eletrónico. O sedentarismo não é explicado apenas pela utilização destes dispositivos, mas alguns poderão estar mais relacionados com a obesidade, como é o caso das consolas de jogos. Da mesma forma, a utilização de multimédia não torna aparentemente as crianças mais violentas. Enquanto as vendas de jogos considerados de “conteúdo violento” aumentam, o número de crimes violentos entre os jovens tem vindo a diminuir. Parece que os jovens conseguem distinguir com alguma coerência o mundo real do virtual ou conseguem “descarregar” o seu stresse e agressividade na consola de jogos, servindo como um escape para a violência no mundo real. Cada caso é um caso e cabe aos pais irem acompanhando o adolescente que têm em casa e estabelecerem as regras adequadas.

Nota final

Estudos demonstram que a utilização multimédia não é inocente. Canaliza a energia do jovem para o desenvolvimento de certas áreas cerebrais em detrimento de outras, em períodos sensíveis do desenvolvimento, tornando mais difícil que no futuro este seja capaz de reverter a situação.

Escola e satisfação pessoal

É aqui que existem os maiores problemas. Muitos estudos realizados nesta área demonstram que existe uma relação direta entre a utilização de aparelhos multimédia e os maus resultados escolares, provavelmente pelo efeito multitasking, em que a criança estuda agarrada aos seus vários dispositivos, de que resulta um défice de atenção em relação àquilo em que devia estar concentrada. A internet é mais utilizada para gozo do que para estudo e muitas vezes simultaneamente para os dois, com maus resultados.

Mais importante parece ser a relação encontrada entre a satisfação pessoal do jovem e o grau de atualização de aparelhos multimédia. Diversos estudos chegaram à conclusão que quanto maior a utilização dos elementos multimédia menor é o grau de satisfação do jovem com a sua vida e aqueles que o rodeiam. Os jovens com utilização alta de multimédia são, em média, mais ansiosos e mais dados a depressões que os restantes.

 

 

 

 

 

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