Como o trabalho infantil está a embaraçar as tecnológicas

Janeiro 1, 2017 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia da http://visao.sapo.pt/de 22 de dezembro de 2016.

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As multinacionais da tecnologia lançaram duas iniciativas para combater “as piores formas de trabalho infantil” e outras práticas abusivas na cadeia de fornecimento de cobalto, um elemento chave nas baterias de lítio que alimentam telemóveis, laptops e carros elétricos.

Apple, HP, Samsung SDI e Sony aderiram à Iniciativa do Cobalto responsável, liderada pela Câmara de Comércio Chinesa e apoiada pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE). O quarteto compromete-se a seguir as directrizes da OCDE para a cadeia de fornecedores, que exige que as empresas saibam como o cobalto é extraído, transportado, fabricado e vendido. A iniciativa é “um sinal muito positivo de mudança”, disse Tyler Gillard, líder do projeto da OCDE. “O envolvimento forte da indústria chinesa, em particular, é incomum neste tipo de iniciativas e por isso emocionante”. O grupo tem como objetivo promover a cooperação com o governo do Congo.

Nas minas de cobalto no Congo, origem de 60% do cobalto mundial, os trabalhadores, incluindo crianças, não têm um mínimo de condições de segurança, de acordo com uma investigação do Washington Post. Estima-se que 100 mil mineiros “artesanais” trabalham neste país sem qualquer tipo de equipamento de proteção – como capacetes –, nem industrial -– brocas ou escavadoras –, e que raramentea empresa assume a responsabilidade em caso de acidentes. As condições perigosas do setor já originaram a morte de dezenas de mineiros e inúmeras lesões, além de que os níveis elevados de metais tóxicos a que estão expostos provocam problemas de saúde e malformações infantis, como comprovam estudos científicos referidos pelo jornal, assim como problemas ambientais.

Por dia, os mineiros “artesanais” retiram pelo menos duas toneladas de cobalto e são pagos consoante o que encontram, cerca de 2 a 3 dólares num dia produtivo – mas podem também receber zero conforme as entregas. O cobalto artesanal, geralmente, é mais barato do que o das minas industriais, uma vez que as empresas não pagam salários fixos aos mineiros, nem financiam operações de uma mina em larga escala. Com a oferta deste cobalto barato no mercado, algumas empresas internacionais cancelaram os contratos com minas industriais, optando pelas artesanais.

O metal proveniente das minas congolesas segue para uma única empresa chinesa – a Congo DongFang International Mining, parte de uma das maiores empresas produtoras de cobalto do mundo, a Zhejiang Huayou Cobalt –, a qual fornece há anos alguns dos maiores fabricantes de baterias mundiais (ATL, Samsung SDI, LG Chem), que por sua vez comercializam as baterias para grandes empresas como a Apple, a Samsung, a LG e a Amazon. Cerca de 90% do colbato da China é oriundo do Congo.

No ano passado, um grupo de defesa holandês chamado Centro de Pesquisas sobre Empresas Multinacionais, conhecido como SOMO, assim como a Amnistia Internacional publicaram relatos de irregularidades, incluindo deslocamentos forçados de aldeias e poluição da água, em virtude da exploração deste metal. O relatório da Amnistia, que acusou a Congo DongFang de comprar colbato extraído por crianças, fez com que as empresas internacionais prometessem investigar as suas ligações ao cobalto. Os problemas nas minas conganesas permaneceram, no entanto, evidentes quando o Washington Post visitou as operações de mineração no Congo este verão. Em setembro, Chen Hongliang, presidente da Congo DongFang, disse ao jornal norte-americano que a sua empresa nunca questionou como o cobalto era obtido, apesar de operar no Congo há já uma década.

Segundo o Washington Post, ninguém sabe exatamente quantas crianças trabalham na indústria mineira do Congo. A UNICEF, em 2012, estimou que 40 mil crianças o fazem no sul do país. Um estudo de 2007 financiado pela Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional indicava que 4 mil crianças trabalham em minas só na cidade de Kolwezi, no Congo.

As baterias de lítio são mais leves e têm uma maior capacidade de energia, graças ao cobalto, do que as baterias convencionais de chumbo-ácido. Com uma procura crescente no mercado – que triplicou nos últimos 5 anos e prevê-se que ainda duplique até 2020 –estas baterias já definiram a tecnologia do mundo atual. O aumento deve-se sobretudo à produção de carros elétricos. Enquanto uma bateria de smartphone contém 5 a 10 gramas de cobalto refinado, uma bateria de um carro elétrico pode conter até 15 mil gramas.

Engenheiros tentaram durante anos fabricar baterias isentas deste material, mas este pigmento azul tem uma capacidade única de aumentar o desempenho da bateria. Por esta razão, é o material mais caro dentro de uma bateria de lítio-íon, tendo oscilado no ano passado entre os 20 mil e os 26 mil dólares por tonelada.

Em paralelo, o grupo Electronic Industry Citizenship Coalition anunciou a “Iniciativa de Matéria-prima Responsável”, no mês passado, à qual aderiram, entre outras empresas, a Apple, a Dell, a Foxconn e a Ford Motors. O grupo disse ao Post que as empresas precisam de expandir o escrutínio das suas cadeias de fornecedores para além dos tradicionais “minerais de conflito” – estanho, tungsténio, tântalo e ouro –, sobre os quais a legislação norte-americana prevê regras para a sua extração, com o objetivo reduzir o uso destes minerais que podem financiar organizações criminosas envolvidas em conflitos no continente africano. Bob Mitchell, vice-presidente do EICC para a responsabilidade social e ambiental, disse que um dos minerais que a iniciativa está a considerar é o cobalto do Congo.

Outras empresas, como a Tesla e a LG Chem, disseram que estão a avaliar a sua participação na Iniciativa. “Estamos a avaliar uma série de novas iniciativas internacionais para resolver os problemas da produção de cobalto e estamos a trabalhar rapidamente para determinar como a Tesla pode ser mais efetivamente envolvida”, refere, em comunicado, a empresa liderada por Elon Musk.

Em comunicado, Jay Celorie, responsável pelos programas globais da HP para Direitos Humanos, Ética e Conformidade, reconhece que para construir e monitorizar os vários atores da cadeia de fornecimento com os quais não têm um relacionamento comercial direto, a HP precisa de trabalhar com outras empresas e organizações.

Na semana passada, a Umicore, grande fabricante de peças de baterias e outros produtos de cobalto, com sede em Bruxelas, anunciou que a consultora PricewaterhouseCoopers validou as salvaguardas que tem para evitar o uso de cobalto resultante de práticas ambientais e de trabalho questionáveis. Entre outras coisas, a empresa quer rastrear as origens do cobalto presente nos seus produtos. Funcionários da empresa disseram que a validação por terceiros dos seus procedimentos deve aliviar as preocupações das empresas de consumo que são suas clientes.

Alguns críticos de longa data da cadeia de fornecedores de cobalto vêem a Iniciativa de Cobalto Responsável meramente como um bom primeiro passo. “A implementação é, obviamente, tudo”, disse Mark Dummett, da Amnistia Internacional. “Agora gostaríamos de ver as empresas a jusante como a Apple e a Samsung divulgarem os nomes das suas transformadoras de cobalto, além de divulgar os riscos que identificaram nas suas cadeias de fornecedores”.

 

 

 

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