Jovens mais confiantes e competentes têm menos valores e consciência social

Dezembro 29, 2016 às 12:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.publico.pt/ de 19 de dezembro de 2016.

adrianomiranda

Adriano Miranda

Inquérito feito a 2700 alunos portugueses revela que, à medida que crescem, jovens vão perdendo a auto-estima e confiança em si mesmos. As raparigas, por outro lado, parecem ver o seu desempenho prejudicado por terem maior consciência social. E quanto mais ricos, menos preocupações com os outros.

Natália Faria

Até que ponto a consciência social e os valores pessoais podem funcionar como travão ao sucesso de um jovem, em termos académicos mas também de saúde e bem-estar? A capacidade que um jovem possa ter para criar empatia com os outros e com os problemas à volta actua no sentido contrário ao do bem-estar? Estas são duas das perguntas que ficaram a pairar na cabeça da psicóloga Margarida Gaspar de Matos, coordenadora portuguesa de um estudo que, após um inquérito a 2700 jovens portugueses entre os 16 e os 29 anos, chegou a conclusões aparentemente pouco animadoras: por um lado, as raparigas demonstram ter uma consciência social mais apurada do que os rapazes, mas depois aparecem como menos optimistas e propensas a sentimentos de mal-estar físico e psicológico; por outro lado, os jovens com um estatuto sócio-económico mais elevado são os que menos valores e consciência social parecem ostentar mas também os mais confiantes e optimistas e os que mais facilmente se percepcionam como bons alunos.

“Fica-se com a sensação que um jovem ou é competentíssimo e confiante mas muito pouco preocupado com os outros e com a realidade – portanto, autocentrado e egoísta, ou cria empatia com o que o rodeia e sofre por causa disso e torna-se menos bem-sucedido”, cogita Margarida Gaspar de Matos. Mas estas são elaborações para fazer no futuro. Por enquanto o que o estudo “Be Positive” que é apresentado esta segunda-feira, na Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa, faz é o “raio x” da situação em termos de saúde pública dos jovens, segundo a teoria dos 5’C’s do norte-americano Richard Lerner, segundo o qual há características básicas nos jovens – Confiança, Competência, Conexão, Cuidados e Carácter – que são determinantes nos seus comportamentos, em termos académicos, de saúde, bem-estar e qualidade de vida, entre outros aspectos.

“É como se estes 5 C’s fossem um software, uma maneira de agir na vida”, ajuda a compreender Margarida Gaspar de Matos. Coordenadora desde há muitos anos do projecto Aventura Social, que se dedica à promoção da saúde dos jovens, e membro da equipa do Health Behaviour in School-aged Children, da Organização Mundial de Saúde, a psicóloga foi convidada a integrar a rede do Desenvolvimento Positivo dos Jovens (Positive Youth Development, conhecido internacionalmente pela sigla PYD) que se propôs fazer a validação à escala mundial dos 5 C’s, enquanto instrumento aferidor do comportamento dos jovens. O estudo, liderado pela Universidade de Bergen, na Noruega, decorreu simultaneamente em mais de 20 países, nesta primeira fase em que Portugal também participou (outros países se juntaram entretanto). E, numa altura em que ainda não é possível comparar os resultados entre países nem chegar aos porquês, os inquéritos feitos online aos 2700 jovens, levantam desde já várias interrogações.

Quanto mais velhos, mais tristes e menos saudáveis

Desde logo, os níveis de confiança, que remetem para a questão da auto-estima e para a existência de uma identidade positiva e sensação de bem-estar, parecem diminuir à medida que os jovens crescem. “Podia-se pensar que quanto mais velhos mais competências destas têm, mas é o contrário: quando mais velhos pior. Quando andam, por exemplo, no 10º ano, os miúdos têm muito mais boa impressão sobre si e sobre as suas competências e, à medida que vão ficando mais velhos, vão ficando não sei se mais realistas se mais pessimistas”, admirou-se Margarida Gaspar de Matos, para quem se trata de “um dado preocupante, do ponto de vista da saúde do bem-estar dos jovens”, e que levanta a questão de saber “o que é que a sociedade em geral, mas também a escola e a universidade, podem fazer para ajudar os jovens a crescer sem terem que sucumbir e ficar mais tristes e menos saudáveis”.

Se esta mudança é exclusiva da sociedade portuguesa ou decorre do amadurecimento dos jovens, e de uma maior noção que estes possam ganhar das dificuldades que os esperam na vida adulta, é cedo para concluir. “Daqui para a frente vamos discutir com os jovens para perceber como é que eles interpretam isto. Em segundo lugar, vamos comparar os resultados a nível internacional, mas isso só poderá ser feito daqui por um ano, o mais tardar”, explica a psicóloga para quem esta conclusão terá também de se relacionar com o que já se sabe quanto à adopção em idades mais avançadas de comportamentos de risco como a ingestão de álcool e o tabaco e as relações sexuais desprotegidas.

Raparigas sentem mais “o peso” do outro

Habituada a estudos sobre a saúde dos jovens que tradicionalmente caracterizam os rapazes como sendo mais propensos a comportamentos de risco e as raparigas a estados de mal-estar físico e psicológico, o “Be Positive” surpreendeu Margarida Gaspar de Matos porque não mostrou grandes diferenças entre homens e mulheres nestas cinco competências. “É dos primeiros estudos que tenho em mãos em que não há diferenças de género, a não ser na questão da consciência social que se inscreve no C do carácter. As raparigas parecem ter mais consciência social, mas depois sabemos, pelos outros estudos que conhecemos sobre a saúde dos jovens, que os rapazes são mais optimistas e conseguem fazer muito melhor, ou seja, o potencial e os processos são idênticos entre rapazes e raparigas, mas, em termos de output, daquilo que é possível concretizar, eles saem-se melhor. É uma nova maneira de ver as diferenças de género e que levanta a questão de perceber a que ponto a consciência social, a capacidade de cada um se preocupar com os outros, conseguem empatar o bem-estar e a descontracção de quem possui estas características”, explica a psicóloga, a quem interessa agora perceber até onde é que “nas raparigas o peso dos outros é um factor negativo”. Dito de outro modo, “se esta consciência social faz com que elas fiquem penalizadas no seu desempenho”. E, por outro lado, se este efeito decorre de elas estarem mais alertas para os problemas mas incapazes de actuar e produzir mudanças.

Os 5 C’s ao pormenor

O propósito da validação da teoria dos 5 C’s é perceber a que ponto a reunião destas cinco características num jovem funciona como indicador de que ele será bem-sucedido. A confiança remete para a questão da auto-estima, a competência refere-se ao desempenho académico mas também em termos sociais e de saúde, a conexão mede a relação com a escola, família, amigos, vizinhança e comunidade em geral, o cuidado que apela ao sentimento de compaixão e justiça social e para a noção de pluralidade e inclusão e, por ultimo, o carácter que é, em ultima instância, que leva cada um a procurar fazer o que está certo.

 

 

 

 

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