Cyberbullying: agressão permanente

Dezembro 16, 2016 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do http://expresso.sapo.pt/ de 8 de dezembro de 2016.

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É uma violência feita à distância, mas como se se estivesse perto. Todos os dias, a todas as horas, com milhões a assistir.

Carolina Reis (texto), Alex Gozblau (ilustração)

O medo tinha hora marcada. Começava e terminava com a campainha da escola. Adriana sabia que era ali que a paralisia facial mais se notava. Durante dez anos aguentou sozinha os comentários de gozo feitos em todas as aulas, os empurrões e insultos durante os intervalos. Não lhe valeu o irmão, que assistia a tudo ali mesmo ao pé e que, também com medo, ficava em silêncio. De certa forma, ela fez o mesmo. Aguentou até ter coragem para contar à mãe o que se passava. A vida desta família alentejana já se encaminhava para rumar mais a sul, o bullying foi a gota de água.

Adriana mudou de cidade, fez terapia, cresceu, recuperou das mazelas. Sentiu-se “curada”. Mas, dez anos depois da primeira vez em que os miúdos da escola a rodearam para lhe cuspir e gritar que ela era “feia, pequena, deficiente, um verme” que não merecia viver, os insultos voltaram. Agora, não existiam círculos no recreio, nem aparecia ninguém, de repente, para lhe dar uma palmada na cabeça, nem lhe roubavam a roupa depois do treino de educação física. Os insultos e ameaças chegavam através do Facebook e do telemóvel, constantemente. Ali, sem ver a cara dos agressores, ela voltava a ser “feia, pequena, deficiente, um verme” que não merecia viver. Como se nunca tivesse saído da primeira escola onde o assédio começou.

Adriana, 15 anos, passava de vítima de bullying a vítima de cyberbullying. Ironia das ironias, porque denunciou o que sofreu em pequena. Numa manhã nublada — de um dia do qual nunca se vai esquecer —, esperou que a família saísse de casa e sentou-se em frente ao computador. Pegou numas folhas brancas e numa caneta de feltro, escreveu e ligou a câmara. Um sorriso. E, novamente em silêncio, começou a mostrar o texto escrito nas folhas brancas. “Olá, eu sou a Adriana 🙂 Tenho 15 anos, quase 16. Vim do Alentejo. Alguma vez sentiste necessidade de contar um dos teus maiores segredos? Bem, eu sinto isso há algum tempo. Só preciso de alguns minutos da tua fantástica vida de adolescente. Desde os 5 anos que sou vítima de bullying. Parece simples, não é? Era gozada por ter a boca de lado, devido a uma paralisia facial. Diziam que eu era pequena, feia, deficiente, que nunca devia ter nascido. Imaginas como me senti? Era tão fraca… Tão ingénua e inocente. No 7º ano tudo piorou, quando tive uma segunda paralisia e a minha cara ficou pior, pois é raro ter duas na minha idade. Sofri calada. Chegava a casa cheia de dores, com dores nos olhos. Sentia-me uma merda. Então, culpei-me a mim própria. Estava farta de sofrer, de ser fraca. Por isso, tentei acabar comigo. Morrer. Simplesmente morrer. Tenho marcas que por mais que tente não vão desaparecer, nem o facto de ter sofrido tanto. Pareço feliz, mas uma parte de mim ainda acha que não sou o suficiente para o mundo. Hoje estou a viver em Portimão. Já não sou vítima de bullying. Passaram 14 anos de sofrimento. Sozinha. Mesmo assim, há quem ainda tente deitar-me abaixo. Mas eu concretizei um sonho: ser forte.”

O pior de uma vida tão curta estava descrito sem voz, entre sorrisos e lágrimas, em três minutos de vídeo. E nele uma mensagem de esperança: “A vida ensina-te a ser forte da pior forma”, o título que Adriana deu ao filme. Nos primeiros dias recebeu vídeos de resposta, felicitações, viu adolescentes da mesma idade partilharem a sua história recorrendo também a folhas brancas e canetas de feltro. Iniciava-se, porém, um ciclo diferente do que estava à espera. Os agressores, que durante tantos anos a intimidaram e perseguiram, viram o vídeo e responderam com a agressividade e maldade a que a tinham habituado. Desta vez, a quilómetros de distância, mas como se estivessem muito perto. O que era para ser um momento de catarse, o de pôr um ponto final num período negro, tornava-se, afinal, no começo de outro.

O medo deixava de ter hora marcada. Em perfis falsos, diziam que a culpa era dela, que era calada e, por isso, não tinha amigos. Chamaram-lhe nomes, prometeram que não a iam deixar em paz. No anonimato e graças à desregulação da internet, Adriana sentia-se uma presa fácil. “Era como se fosse a continuação de tudo o que tinha passado. Mas não conseguia ver a pessoa cara a cara. Era humilhada perante um público maior. Pensava em quantas pessoas estavam a ver aquilo!” Post atrás de post. Todos os dias, a todas as horas. Tanta gente a ver e ninguém a podia proteger. Ninguém a podia levar dali para fora, porque a internet é omnipresente. Mesmo que saísse de todas as redes sociais, sabia que continuariam a fazer o mesmo. “Tanto o bullying como o cyberbullying são formas de assédio. O bullying é direto com a vítima. O cyberbullying é um assédio virtual que usa vários meios de comunicação (como o telemóvel e as redes sociais) de uma forma repetida. O bullying é físico, deixa mais visibilidade. O cyberbullying é uma forma continuada e repetida de vitimização. Deixa mais sequelas, dura mais tempo”, explica Daniel Cotrim, psicólogo da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV).

Adriana sentiu-se sentada no escuro, como se não conseguisse ter uma vida diferente. Maria Ana esteve três anos sentada nesse lugar escuro. Nunca foi uma miúda popular na escola, mas as regras apertadas do colégio católico em que estudava não davam espaço para ninguém pisar o risco. Um dia, chegou a casa e abriu o e-mail. Lá dentro, um link encaminhava-a para um blogue que lhe era dedicado. Uma fotografia sua, tirada à revelia, com a cintura das calças descaída a mostrar o rabo, abria o blogue. Meia dúzia de posts apontavam-lhe os ‘defeitos’. Um vídeo mostrava vários alunos populares da turma a dizer como ela era chata e detestável. “Comecei a arranjar desculpas para faltar às aulas. Deixava de dormir para estar constantemente a ver se havia atualizações no blogue. Isolei-me, por não ter a certeza de quem tinha sido a ideia. Era como se estivessem todos envolvidos. E perdi a segurança.” Enquanto na escola algum adulto a podia ver e defender, não havia ninguém a quem se queixar na blogosfera.

“Muitas vezes, em casos de bullying, há grupos onde os jovens se sentem seguros. Por exemplo, o bullying pode ocorrer na sala de aulas, mas não na equipa de futebol da escola. Aqui não há fronteiras nem de tempo nem de espaço”, sublinha Ivone Patrão, docente e psicóloga da clínica do Instituto Universitário de Ciências Psicológicas, Sociais e da Vida (ISPA). Adriana sabe bem o que é ficar sozinha — com o cyberbullying, deixou de ter um lugar seguro. Ela denunciava uma conta de Facebook e dois segundos depois aparecia outra. Ela bloqueava um ‘amigo’ e esse mesmo, mas com outro nome, voltava a pedir-lhe amizade. Ela desamigava outros amigos, mas os vídeos ameaçadores e de gozo voltavam a aparecer no seu feed. E milhares — milhões mesmo? — a ver, a partilhar. E ela a desconfiar, mas sem ter a certeza de quem estava por trás.

Humilhação universal

A visibilidade universal da internet torna-se a principal arma do agressor. Há mais gente a ver a humilhação, e ela pode acontecer onde quer que se esteja. Uma só pessoa pode criar várias contas para perseguir e insultar. “É uma questão de exposição, que ali ultrapassa os limites. A visibilidade faz com que outros problemas sejam acrescentados ao assédio, ao que seria o bullying, como o não querer ir às aulas, perturbações de sono, porque ficam até mais tarde na internet a ver o que os outros dizem sobre eles. Traz uma série de efeitos que são ampliados”, explica Luís Fernandes, psicólogo. Autor de “Cyberbullying, Um Guia para Pais e Educadores” e atualmente a preparar um plano nacional de ação contra este tipo de assédio e agressão, está habituado a visitar escolas e a falar com alunos e educadores. E não tem encontrado jovens surpreendidos com a possibilidade de ameaçarem e perseguirem na internet, através de SMS, com vídeos e imagens e sem terem de mostrar a cara. “Dez a 20% dos jovens consideram-se agressores ou vítimas. E um dos problemas é o sexting (envio de fotografias de pessoas nuas ou em poses íntimas).”

Com a internet instalaram-se novas palavras, como sextorsion, chantagem que consiste em exigir favores sexuais para não divulgar fotos íntimas. Os jovens crescem cada vez mais depressa. Têm conta de Facebook e telemóveis ainda antes de entrarem na adolescência. Da mesma forma, também começam a descobrir cedo o corpo e a sexualidade. E, como nativos digitais que são, trocam fotografias íntimas com naturalidade. Luísa, 44 anos, descobriu este ano as nudes (as tais fotografias íntimas). A filha Leonor, 11 anos, andava com um comportamento diferente. Embora ela não tivesse dado importância, percebeu que algo se passava. O filho mais velho comentou que andavam alguns colegas a gozar com Leonor no Facebook. Foi aí que decidiu entrar no mundo da adolescência em que Leonor se movimentava.

A conversa entre mãe e filha não começou de forma pacífica. Leonor não se queixava abertamente nem tinha vergonha de ter tirado as fotografias. A princípio, Luísa pensou que eram imagens provocantes. Quando entrou na conta de Facebook da filha, depois de lhe tirar as passwords de todas as redes sociais, não estava à espera nem do conteúdo nem da facilidade com que se espalhava. “Num grupo chamado chamado Leonor Má apareciam fotos e vídeos da Leonor. Os miúdos não têm consciência do que estão a fazer.” Aquele grupo era embaraçoso, mas o pior estava na caixa de mensagens. Um amigo do namorado de Leonor ameaçava publicar as imagens mais explícitas se Leonor não tivesse relações sexuais com ele.

Em países como os EUA, onde surgiram as primeiras leis anticyberbullying, no Canadá e no Reino Unido há casos de jovens que se suicidaram por causa do cyberbullying. Quase todos tinham medo de que as suas fotografias e vídeos em poses íntimas fossem parar à internet. “Em Portugal também há casos de tentativas de suicídio. O problema não é só ser agredido, é toda a gente ver. Cada pessoa que vê pode enviar para 10 ou 15, que também vão ver… E isso vai contra a imagem que o jovem andou a construir”, diz Luís Fernandes.

Nada desaparece da Internet

O caso de Leonor é um exemplo típico das queixas de pais apresentadas na Polícia Judiciária (PJ). E, contado assim, parece um crime moderno que apenas existe porque há internet e redes sociais. Jorge Duque, ex-inspetor-chefe da área de criminalidade informática da PJ, anda quase 20 anos para trás no tempo para recordar um dos casos que mais o marcou. Uma menor, da área da Grande Lisboa, foi filmada a ter relações sexuais com o namorado sem ter conhecimento disso. O rapaz partilhou o vídeo com amigos no IRC (um antigo serviço de chat), e a comunidade da zona onde ela vivia ficou a saber. A jovem começou a faltar às aulas, e a família, envergonhada, mudou de localidade. Um ano mais tarde, alguém encontrou o vídeo e partilhou-o no Hi5, uma rede social prévia ao Facebook. “Os dados na internet não são privados. Não desaparecem. Temos situações bastante graves, como tentativas de suicídio”, alerta Jorge Duque.

Na maior parte das vezes, os pais descobrem o que se passa numa altura em que a situação parece incontrolável, já os menores passaram por humilhações e chantagens. Luís agiu assim que teve noção da gravidade do problema. Mal descobriu, tratou de guardar todas as conversas e foi à APAV pedir ajuda para apresentar queixa. Queria — e quer — que o caso seja julgado e os culpados penalizados, mas, mais do que isso, gostava que o assunto fosse debatido na escola de Leonor. “Depois de guardar as provas, fui à escola, quis falar com a presidente do Conselho Diretivo e com os pais do rapaz. Mas a escola não quis saber, disse que não se tinha passado dentro de portas e que, por isso, não tinha qualquer responsabilidade. Faz-me confusão que os pais não saibam, que não tenham noção do que se passa com os filhos, mas também que as escolas não se envolvam.”

Esta apatia escolar deve-se muito ao desconhecimento do que é o cyberbullying. Uma sondagem feita pela APAV, há cerca de três anos, mostrava que a maioria sabia que existia, porém não o conseguia identificar. Se para os pais o bullying é hoje um conceito compreendido, e para o qual estão mais despertos, o cyberbullying é-lhes ainda difícil de definir. Para os educadores, que são imigrantes digitais, não é linear perceber se as fotos e posts que os filhos publicam e que são publicados sobre eles são gozo ou brincadeira. E até os mais novos, numa fase da vida em que estão em formação, ficam na dúvida entre o que é ‘rir de mim’ ou ‘rir comigo’. “Há uma fronteira ténue entre o que é cyberbullying e o que é uma opinião. A linha é ténue, porque depende de fatores externos, da vida pessoal e da estabilidade de cada um. Mas há casos em que não há dúvidas: criar contas falsas nas redes sociais só para falar mal dos colegas é um deles”, diz Ivone Patrão.

A realidade é nova, mas as próprias redes sociais — as plataformas que permitem a disseminação do medo, do ódio e da agressão — já deram por ela. Primeiro foi o Instagram a aumentar a lista das palavras ofensivas, agora é o Twitter a expandir a opção “Silenciar”, para permitir que os utilizadores bloqueiem tweets que contenham determinadas palavras ou frases.

Os pais pedem ajuda no limite. Mas não basta dar um ralhete e cortar o acesso às redes sociais aos filhos. A diferença entre a maioria e Luísa é que ela tentou compreender o que fazia Leonor partilhar imagens daquelas. “Ela sempre foi muito vaidosa, sempre gostou muito de se fotografar. Aquelas foram mais umas fotografias, que são hoje muito comuns na escola”, conta. Em vez de entrar em pânico, e apesar do medo que também sentiu, encaminhou Leonor para uma psicóloga e ponderou mudar a filha de escola. Só que, se essa medida funciona numa situação de bullying, no cyberbullying não adianta. Este tipo de assédio é um “Big Brother”. Em 24 horas, esteja-se onde se estiver, pode ser-se vítima. Foi por isso que Adriana se sentiu mais no limite. Não havia por onde fugir.

Até há cinco anos, existia uma lista de cinco medidas para prevenir o cyberbullying. Uma delas dizia que o computador devia estar na sala, para ser usado em família. Outra dava dicas sobre os filtros que se deveriam usar para controlar o que os menores fazem online. Com os smartphones, as duas tornaram-se ultrapassadas. “Este é um mundo muito complexo. As famílias devem integrar as tecnologias nas suas vidas, de uma forma positiva, quando os filhos são pequenos, para eles poderem compreender”, frisa a psicóloga do ISPA. Já Jorge Duque alerta para a prematuridade com que pessoas ainda em estado imaturo se expõem a milhares. “Valerá a pena correr o risco de deixar os jovens terem uma conta numa rede social? A reprodução dos dados na internet funciona como bola de neve.” E é difícil encontrar a fonte da origem.

O anonimato da internet pode transformar-se num refúgio, tornando as vítimas de bullying em agressores de cyberbullying. É o reverso da moeda. Protegidos pela distância física e sem terem de mostrar o rosto, é comum que jovens que sejam perseguidos e ameaçados na escola usem as redes sociais para se vingarem. “Acontece muito, e assim continua o ciclo de violência. É por isso que é importante trabalhar com o agressor. Fazê-lo perceber que ele também pode ser visto como bom se estiver a fazer bem, trazê-lo para o outro lado”, sublinha Luís Fernandes. É que, se há sempre uma vítima e um agressor, isso não quer dizer que sejam bons ou maus. Enquanto a violência existir, o medo terá sempre hora marcada.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 3 de dezembro de 2016

 

 

 

Teatro de Natal para toda a Família, 18 de Dezembro no Auditório do Jardim Zoológico

Dezembro 16, 2016 às 6:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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mais informações:

https://muzumbos.blogspot.pt/

Postais de Natal do IAC

Dezembro 16, 2016 às 2:04 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Ao celebrar a quadra natalícia ajude-nos a ajudar as nossas crianças adquirindo os postais de Natal do IAC. Assim, está a promover os Direitos das Crianças. Preço de cada postal com envelope: 0,50€. Para encomendar: iac-sede@iacrianca.pt ou Tel: 213 617 880

Visualizar todos os postais no link:

http://www.iacrianca.pt/index.php/atualidades/noticias/item/708-postais-de-natal

Todos os casais podem resolver a guarda dos filhos na conservatória

Dezembro 16, 2016 às 12:00 pm | Publicado em O IAC na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Diário de Notícias de 8 de dezembro de 2016.

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Monterrosso – Apresentação de livro com presença dos autores – CCB, 17 Dezembro, 16h00

Dezembro 16, 2016 às 11:00 am | Publicado em Livros | Deixe um comentário
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mais informações:

http://www.maquinadevoar.com/info-monterrosso.html

As 9 características que todos os pais de miúdos com sucesso têm em comum

Dezembro 16, 2016 às 6:00 am | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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texto da http://visao.sapo.pt/ de 1 de dezembro de 2016.

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Vários estudos científicos relacionam a educação com o sucesso. E há pelo menos 9 semelhanças entre os pais de filhos que se deram bem na vida

Todos os pais querem que os seus filhos não se metam em sarilhos, tenham sucesso escolar e uma vida cheia de alegrias. Não há uma receita certa, mas várias investigações têm vindo a apontar alguns caminhos e fatores que não determinam mas podem influenciar ou prever o sucesso futuro. Aqui ficam 9 coisas que pais de miúdos bem sucedidos têm em comum:

1 – Põem os miúdos a fazer tarefas

Pode não ser fácil e gerar alguma tensão familiar mas pôr as crianças a fazer algumas tarefas domésticas só lhes faz bem, além de ser uma ajudinha extra para os pais. Julie Lythcott-Haims, da Universidade de Stanford e autora do livro “Como criar um adulto“, disse numa Ted Talk: “Se os miúdos não estão a tratar da sua louça é porque alguém o está a fazer por eles. E estão a ser absolvidos não apenas do trabalho, mas também de aprenderem que o trabalho tem de ser feito e que cada pessoa deve contribuir para melhorar o que é de todos”.

Segundo a autora, as crianças que cumprem tarefas em casa tornam-se profissionais que colaboram mais com os colegas, criam mais empatia porque reconhecem o esforço necessário e são capazes de desenvolver tarefas de forma independente.

As bases desta teoria são do “Harvard Grant Study”, o mais vasto estudo longitudinal dos Estado Unidos sobre o desenvolvimento de pessoas adultas

Ao Tech Insider, Julie Lythcott-Haims explica: “Ao pô-los a fazer tarefas – pôr o lixo na rua, tratar das suas roupas – fazemos com que se apercebam de que têm de trabalhar. Devem saber que as suas vidas não se centram só neles e que pertencem a um ecossistema, a uma família ou a um local de trabalho partilhados”.

2 – Mantêm as expectativas altas

Um estudo conduzido pela Universidade da Califórnia, envolvendo 6600 crianças nascidas nos Estados Unidos em 2001 veio descobrir que as expetativas que os pais têm para os seus filhos têm um efeito considerável nas suas realizações futuras: 57% das crianças que tiveram menos sucesso tinham pais que esperassem que chegassem ao ensino superior. Mas 96% das crianças que foram bem sucedidas tiveram pais que ambicionavam que chegassem e concluíssem o ensino superior.

3 – Ensinam-lhes capacidades sociais

A simpatia e abertura para fazer amigos podem ser fundamentais para definir o sucesso dos seus filhos. Dois grupos de investigadores – da Universidade da Pensilvânia e da Universidade Duke na Carolina do Norte – avaliaram mais de 700 crianças de vários estados americanos durante o período em que frequentaram o jardim-de-infância e até aos 25 anos. O que descobriram foi uma correlação muito forte entre as capacidades sociais reveladas e praticadas no jardim-de-infância e o seu sucesso enquanto adultos duas décadas depois.

Segundo as conclusões do estudo, as crianças com mais competências sociais – que cooperam e ajudam os colegas e que parecem ter facilidade em compreender os seus sentimentos – têm uma maior probabilidade de conseguir um diploma universitário e ter um trabalho a tempo inteiro aos 25 anos do que aqueles que revelavam poucas capacidades sociais no jardim-de-infância. Os miúdos com mais limitações ao nível das capacidades sociais também revelaram uma maior probabilidade serem presos, terem problemas com álcool e de se candidatarem a habitações sociais

O que o estudo mostra é que ” ajudar as crianças a desenvolver capacidades sociais e emocionais é uma das coisas mais importantes que podemos fazer para os preparar para um futuro saudável”, diz Kristin Schubert, Diretora da publicação Robert Wood Johnson Foundation que reuniu os resultados deste estudo.

4 – Têm relações saudáveis com os filhos e parceiros

Os pais podem estar separados ou juntos mas o que importa, em nome do sucesso dos mais novos, é que mantenham relações saudáveis e positivas com eles e entre si. De acordo com um estudo da Universidade de Illinois, as crianças que vivem em ambientes de conflito, tendem a ter um futuro mais instável do que as outras.

O professor e autor do estudo, Robert Hughes, acrescenta ainda que há crianças com famílias monoparentais saudáveis que reportam muito mais sucesso no futuro do que as que têm os pais juntos mas problemas de conflito permanente entre ambos. Um ambiente calmo, de respeito e compreensão é sempre propicio a um desenvolvimento de sucesso.

Os problemas de adaptação da relação dos pais no pós-divórcio, que por vezes vem acompanhado de alguma tensão, também têm consequências negativas para as crianças, diz Robert Hughes. Um outro estudo veio concluir que o ideal será um contacto frequente entre as crianças e os pais sem a custódia, em vez da luta ou discussão pela custódia e visitas surpresa ou esporádicas. Ter cuidado com este tipo de postura facilita a adaptação das crianças ao divórcio e, depois, à vida futura.

5 – Têm um nível educacional mais elevado

As expetativas pessoais são, muitas vezes, o reflexo das expetativas e ambições dos pais. Um estudo de 2014 da psicóloga Sandra Tang, da Universidade de Michigan, veio afirmar que as mães que acabam o secundário e a faculdade têm mais probabilidade de vir a criar filhos que sigam o mesmo caminho. O estudo teve a participação de 14 mil crianças a frequentarem o jardim de infância entre 1998 e 2007 e concluiu que os filhos de mães adolescentes (de 18 anos ou mais novas) têm menor probabilidade de concluir os estudos secundários e superiores.

Ou seja, as aspirações educacionais dos pais têm influência sobre as aspirações dos filhos. Num estudo longitudinal feito em 2009 por pelo psicólogo Eric Dubow e que incluiu os testemunhos de 856 pessoas de zonas rurais veio descobrir-se que “o nível educacional dos pais quando as crianças têm 8 anos faz prever de forma significativa o seu sucesso educacional e profissional nos 40 anos de vida seguintes”.

6 – São pais menos stressados

De acordo com uma pesquisa recente, citada pelo Washington Post, o número de horas que as mães passam com os seus filhos – entre os 3 e os 11 anos – tem pouco impacto no futuro comportamento, bem-estar e sucesso dos miúdos. O que verdadeiramente pesa é a qualidade e calma dos momentos que partilham.

“O stress das mães, especialmente causado por problemas profissionais ou precisamente por não terem tempo para estar com os filhos, pode afetá-los de forma negativa”, diz Kei Nomaguchi, um dos autores desta pesquisa.

Chama-se contágio emocional e é o fenómeno psicológico pelo qual as pessoas “apanham” os sentimentos (mais ou menos como quem apanha um vírus ou uma constipação) e ajuda a explicar estes resultados. Da mesma forma que tendemos a partilhar os mesmos sentimentos com os nossos amigos quando estão felizes ou tristes, quando os apais estão exaustos, frustrados e em stresse, esse estado emocional pode ser transferido para os filhos

7 – Ensinam matemática aos filhos desde cedo

Em nome do sucesso dos seus filhos, não os poupe das contas Uma análise feita em 2007 a 35 000 crianças americanas, canadianas e inglesas a frequentar o ensino pré-escolar revelou que o desenvolvimento de capacidades matemáticas pode ser altamente vantajoso para o seu futuro

“A importância primordial das capacidades matemáticas desde cedo – concretamente de começar a escola com conhecimentos dos números, da ordem dos números e outros conceitos matemáticos simples – é uma das principais conclusões do nosso estudo”, disse o coautor Greg Duncan num comunicado de imprensa sobre o tema.

“A mestria da matemática desde cedo faz prever não apenas as capacidades matemáticas, faz também prever as futuras capacidades de leitura”, acrescentou Greg Duncan.

8 – Valorizam os esforços dos seus filhos

É importante que as crianças entendam de onde vem o sucesso: do esforço e do trabalho mais do que do talento. Há já várias décadas que a psicóloga Carol Dweck, da Universidade de Stanford, tem vido a descobrir as formas como crianças (e adultos) pensam acerca do sucesso.

As pesquisas e conclusões estão sintetizadas no livro “Mindset: The New Psychology of Success” e destacam-se duas formas fundamentais de pensar o sucesso:

1) Uma abordagem fixa que assume que o nosso caráter, inteligência e capacidade criativa não mudam de forma significativa, e que o sucesso é a afirmação da inteligência natural de cada um. Lutar pelo sucesso ou tentar evitar o insucesso a qualquer custo é uma forma de manter os níveis e expetativas de cada um.

2) Uma abordagem em crescimento que pressupõe o desafio e a superação. Quem a tem vê as falhas como uma forma de melhorar, evoluir e falhar menos. A diferença entre estas duas abordagens pode estar na educação. Se os pais reagem aos sucessos dos filhos, como as boas notas, com base na sua inteligência, vão implantar neles uma abordagem fixa relativamente ao sucesso. Se, pelo contrário, os pais estimulam nos filhos a ideia de que os seus sucessos são baseados no esforço vão impulsionar o desenvolvimento de uma abordagem em crescimento.

9 – As mães trabalham

Mais do que uma tendência em crescimento, as mulheres e mães trabalhadoras são uma banalidade dos dias de hoje. E isso parece ser positivo para o sucesso das crianças.

De acordo com uma pesquisa de Harvard há benefícios significativos no facto de as crianças crescerem com mães que trabalham. Este estudo descobriu que as filhas de mães que trabalham fora de casa estudam até mais tarde e têm maior probabilidade – mais 23% do que as filhas de mães que trabalham em casa – de vir a ter um cargo profissional de supervisão e a ganhar mais dinheiro.

No caso dos filhos (rapazes) de mães que trabalham fora de casa, o estudo também revelou que tendem a realizar mais tarefas domésticas e tarefas relacionadas com os filhos – passam mais 7h30 a tratar da casa e mais 25 minutos por semana a tratar dos filhos do que os filhos de mães que não têm empregos fora.

 

 

 


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