Não há crianças difíceis. O difícil é ser criança num mundo de pessoas cansadas.

Dezembro 5, 2016 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do site http://uptokids.pt/ de 22 de novembro de 2016.

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Este é um problema tão real que, por vezes, podemos ficar preocupados pelo simples fato de uma criança ser inquieta, barulhenta, alegre, emotiva e enérgica. Há pais e profissionais que não querem crianças, querem robots.

É normal que uma criança corra, voe, grite, experimente e transforme o seu espaço num parque infantil. É normal que uma criança de tenra idade seja espontânea e genuína, e não como os adultos gostariam que fosse.

É importante entender duas coisas fundamentais:

  • A agitação não é uma doença: queremos um autocontrole tal que, nem a natureza, nem a sociedade fomenta.
  • Fazemos um favor às crianças se as deixarmos ficar aborrecidas e evitarmos o excesso de estímulos

Doenças? Medicação para as crianças? Por quê?

Apesar de ser um diagnóstico crescente tanto no  setor da saúde como no escolar, a verdadeira existência do Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) (da forma como está concebido e a ser diagnosticado) é muito questionável.

Atualmente considera-se que este transtorno é o “diagnóstico refúgio” de alguns especialistas para casos diversos, que vão desde problemas neurológicos até problemas de comportamento ou de falta de recursos e habilidades para encarar o dia-a-dia.

As estatísticas são esmagadoras. Segundo dados do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais IV- TR (DSM-IV TR), a prevalência do TDAH nas crianças é de 3 a 7 casos por cada 100 meninos e meninas. O que preocupa é que a hipótese biológica subjacente a isto é simplesmente isso, uma hipótese que é comprovada por ensaio e erro com raciocínios que começam por “Aparentemente isto ocorre porque…“.

Entretanto estamos a medicar as nossas crianças porque demonstram comportamentos perturbadores, porque estão desatentas e aparentemente não pensam enquanto realizam as suas tarefas. É um tema delicado, por isso temos que ser devidamente cautelosos e responsáveis, consultando bons psiquiatras e psicólogos infantis.

Partindo desta base, devemos destacar que não existe um exame clínico nem psicológico que determine de forma objetiva a existência do TDAH. Sem dúvida os exames são realizados com base em impressões e realização de testes distintos. O diagnóstico é determinado com base no resultado subjetivo destes testes, ou seja, com base no momento em que a criança realizou o teste. Inquietante, não é?

Não nos podemos esquecer que estamos a medicar as crianças com anfetaminas, antipsicóticos e ansiolíticos, medicamentos estes que podem causar consequências nefastas no seu desenvolvimento neurológico. Não sabemos qual vai ser a repercussão destes medicamentos no futuro do indivíduo e muito menos o resultado do uso excessivo do mesmo. Falamos de um medicamento que apenas vai reduzir a sintomatologia, mas que não reverte de forma alguma o problema.

Então porque se continuam a medicar as crianças se tudo isto parece tão assustador? Provavelmente um dos motivos é o financeiro, pois a indústria farmacêutica move bilhões graças ao tratamento farmacológico administrado às crianças. Por outro lado está a filosofia do “ele fica mais calmo e mais atento com os medicamentos”. O “enterrar a cabeça na areia” da pílula da felicidade é um fator comum em muitas patologias.

Rótulos e diagnósticos à parte, devemos por travões e ter consciência de que muitas vezes os “doentes” são os adultos e que o principal sintoma é a má gestão das políticas educativas e das escolas.

Cada vez mais especialistas estão conscientes destes factos e procuram impor restrições a pais e a profissionais que sentem a necessidade de colocar o rótulo de TDAH em problemas que, muitas vezes, provêm principalmente do meio familiar e da falta de oportunidades dadas à criança para desenvolver as suas capacidades.

Como afirma Marino Pérez Álvarez, especialista em Psicologia Clínica e professor de Psicopatologia e Técnicas de Intervenção na Universidade de Oviedo, o TDAH nada mais é que um rótulo para comportamentos problemáticos de crianças que não têm uma base científica neurológica sólida como é regularmente apresentada. Existe como um rótulo infeliz que engloba problemas ou aspetos incómodos que efetivamente estão dentro da normalidade.

“Não existe. O TDAH é um diagnóstico que carece de identidade clínica e a medicação, longe de ser propriamente um tratamento, é na realidade dopping”, afirma Marino Pérez Álvarez.

Generalizou-se a ideia de que o desequilíbrio neurológico é a causa de vários problemas, mas na verdade não há estudos que comprovem se o desiquilibrio neurológico seja causa ou consequência. Isto é, os desequilíbrios neuroquímicos também podem ser gerados na relação com o que rodeia a criança.

A pergunta que se impõem é a seguinte: o TDAH é ciência ou ideologia? 

Convém sermos críticos e olharmos para um mundo que fomenta o cerebrocentrismo e que procura as causas materiais de tudo sem parar para pensar sobre o que é a causa e o que é a consequência. Quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha? Partindo desta base, deveríamos pensar em quais são as necessidades e quais são os pontos fortes de cada criança e de cada adulto susceptível a ser diagnosticado.

Abordar isto de forma individual proporcionará mais saúde e bem-estar, tanto dos pequenos como da sociedade em geral. Então, a primeira coisa que devemos fazer é uma análise crítica de nós mesmos.

Texto original de A mente é maravilhosa

 

 

 

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