António Luís Valente Alerta pais e educadores para as virtudes e defeitos das novas tecnologias

Dezembro 5, 2016 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista do site http://www.educare.pt/ a António Luís Valente no dia 21 de novembro de 2016.

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Em entrevista ao EDUCARE.PT, António Luís Valente alerta pais e educadores para as virtudes e defeitos das novas tecnologias. E confessa que se não tivesse sido professor teria sido engenheiro. “Tive sempre uma pré-disposição para pegar nas máquinas e usá-las para potenciar as minhas competências e obrigações profissionais.”

Andreia Lobo

Integrou as equipas de vários projetos europeus ligados à “sociedade da informação”, como o ZAP, eSchola, ValNet, CONET e SeguraNet. António Luís Valente é, desde 1997, investigador no Centro de Competência TIC, da Universidade do Minho. A entidade que liderou a primeira sondagem feita em Portugal sobre comportamentos seguros na Internet. Foi professor do 1.º ciclo e não esquece a surpresa que causou ao levar “tecnologia” para a sala de aula. “Comecei a usar computador – o meu próprio computador – com os alunos em 1990 e era visto como um ser extraterrestre. Foi isso que me levou a procurar sempre mais formação nesta área.” Fez pós-graduações, mestrado e doutoramento, sempre ligados às Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC).
Em entrevista ao EDUCARE.PT, António Luís Valente alerta pais e educadores para as virtudes e defeitos das novas tecnologias. E confessa que se não tivesse sido professor teria sido engenheiro. “Tive sempre uma pré-disposição para pegar nas máquinas e usá-las para potenciar as minhas competências e obrigações profissionais.”

EDUCARE.PT (E): O que ainda precisamos de mudar na forma como utilizamos a Internet?

As pessoas têm medo do que é estranho. Mas não conhecendo nada sobre Internet não têm receios, nem cautelas. É preciso perceber que a Internet não é diferente do resto da sociedade. Não é um mundo à parte. E, por ser menos conhecido, não é mais protegido. Há a sensação que somos todos peritos na Internet. E assim se negligenciam aspetos básicos de segurança.

A Internet é uma vertente do mundo em que nós vivemos. As virtudes e os defeitos são rigorosamente os mesmos e, em alguns casos, são ampliados pelo facto de as pessoas pensarem que estão a coberto do anonimato.

Mas não é fácil as pessoas perceberem que não sendo capazes de colocar o seu nome completo na porta da casa, colocam todos os dados na Internet. As pessoas têm de ter na Internet todos os cuidados que têm fora dela. Claro que há alguns cuidados acrescidos. Até porque existem muitas coisas na Internet que não existem na vida real, nomeadamente a rapidez.

E: É isso que temos de ensinar às crianças?
ALV:
Os adultos ensinam às crianças defesas pessoais preventivas. Por exemplo, a não falarem com estranhos, a não aceitarem gratuitamente qualquer coisa. Se sobre a Internet não ensinamos nada, eles acabam por investigar – a curiosidade é boa e deve ser incentivada – mas é preciso dar-lhes algumas pistas sobre o que pode ser arriscado ou não. Ensinar a criança a andar na Internet é como ensiná-la a andar na rua.

Há pais que não deixam os adolescentes saírem à noite. Ou se deixam marcam hora para o regresso a casa. Impõem regras porque consideram que andar na rua depois de uma determinada hora é perigoso. Mas na Internet não colocam esse tipo de balizas. Não ensinamos as crianças a distinguir os amigos dos conhecidos. No entanto, em nossa casa dizemos este é amigo, aquele é vizinho…

Muitas vezes, os pais argumentam que os filhos aprendem por si próprios e, por isso, não há problema. Mas se a criança chegar a casa com a cara esmurrada, vão ver o que aconteceu. Se a criança for agredida de qualquer forma num site, ou levada para sites que não são próprios para a sua idade, não há evidência visível que leve os educadores a aproximarem-se dela.

E: E aos adultos?
ALV: Há coisas que todos nós fazemos quando utilizamos a Internet que são uma completa negligência em termos de segurança pessoal. Subscrevemos serviços gratuitos e colocamos lá informação pessoal, com a maior das facilidades em troca de podermos ter uma caixa de correio eletrónica. Depois, colocamos lá toda a nossa informação, fotografias, vídeos pessoais, familiares e damos outros contactos para o caso de perdermos a password
e precisarmos de a recuperar. Expomo-nos na Internet como não fazemos na vida real. Hoje em dia quem é que preencheria um formulário completo, num hipermercado, com morada e contactos e gostos pessoais, com fotografia sua e da família?

As pessoas colocam a informação online com a maior das confianças e pior, muitas vezes, não sabendo onde ela está armazenada. Ou então pensam que sabem, dizem está “na nuvem”. Não saber onde alguma coisa está, do ponto de vista físico, é preocupante. Se nos esquecemos do local onde estacionamos o carro, mesmo tendo connosco a chave ficamos em pânico. No entanto, colocamos na “nuvem” documentos pessoais, trabalhos, teses.

Há dias uma pessoa contou-me que ia pondo automaticamente tudo na Internet e as passwords estavam gravadas no computador que avariou. A pessoa não sabia as passwords. É uma noção falsa de segurança pensar no computador como o fiel depositário das nossas informações. O conhecimento de como funciona a tecnologia, de quais são os riscos e como nos podemos precaver é fundamental.

Brinca com o telemóvel!

E: Qual é o problema de os pais colocarem, desde cedo, tablets e smartphones nas mãos das crianças?
ALV:
Há imensos trabalhos de investigação acerca dos efeitos da utilização de superfícies tácteis sobre o desenvolvimento neuronal. Ou seja, aquilo que nos permite perceber que uma fotografia não é um objeto, mas sim uma representação de um objeto. O mecanismo neuronal que produz essa identificação parece que é afetado pela utilização precoce de superfícies tácteis porque as crianças acham que estão a mexer num objeto tridimensional e não estão.

Por outro lado, os dispositivos eletrónicos não estão suficientemente testados, em alguns casos nada testados, do ponto de vista ergonómico e sobre as influências que terão. Sabe-se que a luz dos ecrãs tem influência sobre as pessoas epiléticas. Mas a aproximação à realidade do táctil e à eficácia do movimento não está estudada. O mesmo se aplica ao efeito das radiações: todos os
tablets ou telemóveis hoje em dia têm wi-fi, a maioria também tem bluetooth
.

Estamos apenas a falar da parte física que pode melhorar muito e rapidamente. Mas há outra parte do problema, que não se melhora assim tão rapidamente e diz respeito aos conteúdos. Ou seja, à utilização educativa ou para a aprendizagem do que está dentro desses dispositivos. Muitas vezes os conteúdos são de pouca ou nenhuma qualidade, resultam apenas da transposição do analógico para o digital, pura e simples.

E: O uso de tecnologias garante a aquisição das tão “proclamadas” competências digitais?
ALV:
A sociedade confunde as competências para o século XXI – para a era digital – com competências digitais. As competências do século XXI continuam a ser as do século anterior apenas se acrescentou a digital, que consiste na capacidade de vivermos, entendermos e comunicarmos neste mundo utilizando as tecnologias digitais. Mas para viver e comunicar neste mundo, precisamos antes de mais de saber comunicar e isso não tem a ver com as tecnologias.

Há estudos sobre níveis de literacia absolutamente denegridores. As competências sociais são importantes. A questão de saber como funcionam as amizades, como criamos amigos e nos defendemos dos falsos amigos. A competência de procurar emprego continua a ser necessária. Posso ser um informático com capacidade para usar qualquer dispositivo e ser uma pessoa inapta em termos de comunicação face a face.

E: Então, é errado pensar que ao dar tablets e smartphones às crianças estamos a ajudá-las a desenvolver essas competências?
ALV: Pensar que a exposição é equivalente ao desenvolvimento de competência digital é errado. Não é pelo facto de andar muitas vezes de carro que eu aprendo a conduzir. Claro, há um conjunto de familiaridades e de aprendizagens, ligadas à interação com as interfaces, que quanto mais cedo forem adquiridas mais se desenvolvem. Mas não passa disso. Se pensarmos que isso é suficiente ou essencial é errado, até pelo facto de essas interações mudarem. Recorde-se que no surgimento dos teclados algumas pessoas que sabiam datilografia não conseguiam teclar…

E: Ou seja, o que as crianças estão a aprender agora pode mudar?
ALV:
Muda de certeza absoluta. Hoje as interfaces são quase todas parecidas, independentemente dos sistemas operativos que utilizam. Mas as crianças estão a usar interfaces que vão mudar muito no futuro. Imagine que mudam fisicamente os ecrãs? Estamos habituados a ecrãs rígidos, mas se eles se tornarem enroláveis – tecnicamente já existe – há de haver alguma coisa diferente. Estou convencido que vamos ter ecrãs em materiais diferentes e isto vai implicar a alteração das interfaces. Dar a uma criança na primeira infância uma interface com o objetivo de ela se familiarizar é uma perda de tempo. E um desperdiçar de outras aprendizagens, como a de riscar, sentir as texturas, que ela precisava agora. No ecrã a textura é toda igual.

E: Há pais que caem no extremo de impedir que os filhos utilizem as tecnologias…
ALV: Os pais e os educadores precisam de estar informados e de refletir mais sobre estas questões. De uma maneira geral – e coloco-me neste plural – somos tentados pelas soluções mais rápidas. É mais fácil dar o telemóvel à criança e pô-la a ver o Ruca do que pegar nos blocos de construção e brincar um bocadinho. Os bebés e as crianças gostam dos objetos analógicos. Mas se nós não lhes dermos como é que os vão apreciar? Com os computadores e as tecnologias, damos pouca oportunidade aos objetos manipuláveis. Mas há muitos jogos com objetos físicos tridimensionais reais que os miúdos gostam de fazer. É preferível dar-lhes um boneco desmontável do que pôr-lhes um tablet
à frente.

Tecnologias e aprendizagem

E: Como se ensina melhor as crianças? Através do multimédia ou de um registo mais tradicional?
ALV:
A maioria dos professores de 1.º ciclo não utiliza quase nada de multimédia nas aulas. Mas entre os que utilizam, ainda não consegui ver nada que fosse redondamente convincente que os tornasse melhores professores do que os outros. O fundamental é um equilíbrio entre a competência profissional e os recursos à disposição. Se o aluno não se entusiasmar ou se não se interessar, não vai ter vontade de aprender. Se a vontade estiver apenas em quem quer ensinar não há hipótese de aprendizagem.

Conheço bem a realidade dos professores portugueses no 1.º ciclo. Têm bons resultados e continuam a ter uma utilização residual das tecnologias. Porquê? Por não estarem à vontade com as tecnologias e, muitas vezes, por não terem esses recursos. Por isso, valorizam os outros. Se tivessem algum acompanhamento para utilizar tecnologicamente os recursos disponíveis na sociedade, seriam ainda melhores professores. Garanto que sim! Aliás, é essa a minha luta.

E: Mas ao usar a tecnologia na sala de aula, o entusiasmo é garantido…
ALV:
Claro que, se lhes dermos essa hipótese, as crianças em idade escolar – sejam do 1.º ciclo ou mais tarde um bocado – vão escolher usar as tecnologias. Mas se pensarmos bem, o livro também é uma tecnologia!

Em termos de utilização pedagógica, no sentido de valorizar ou melhorar a aprendizagem, não sou exclusivamente defensor das novas tecnologias. As novas tecnologias utilizadas por um professor competente na sua utilização são mais eficazes que as outras tecnologias. Se o meu objetivo é desinquietar o aluno e motivá-lo, tenho muitos mais pontos por onde o “atacar” usando essas novas tecnologias. Se o professor for incompetente com as tecnologias mais vale estar quieto. Vejo professores a fazerem aulas com PowerPoint e passagens de vídeos e não vale a pena. É perder tempo.

E: Porquê?
ALV: É perder tempo porque se gera o efeito contrário. Os alunos podem desmotivar e criar um sentimento de aversão à tecnologia. Na Universidade, ouvimos muitas vezes os alunos perguntarem com fastio assim que nos veem ligar o computador: “Vai passar um PowerPoint?” Porque estão fartos. A nossa capacidade de ser críticos perante o que utilizamos como recurso educativo é muito importante. Se não for competente do ponto de vista tecnológico não vou conseguir ser crítico com as tecnologias que vou usar. De uma maneira geral, os professores precisam de conhecer melhor as suas potencialidades e fragilidades. Precisam de ter consciência que as tecnologias não facilitam a vida do professor, antes a complicam.

 

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Não há crianças difíceis. O difícil é ser criança num mundo de pessoas cansadas.

Dezembro 5, 2016 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do site http://uptokids.pt/ de 22 de novembro de 2016.

up

Este é um problema tão real que, por vezes, podemos ficar preocupados pelo simples fato de uma criança ser inquieta, barulhenta, alegre, emotiva e enérgica. Há pais e profissionais que não querem crianças, querem robots.

É normal que uma criança corra, voe, grite, experimente e transforme o seu espaço num parque infantil. É normal que uma criança de tenra idade seja espontânea e genuína, e não como os adultos gostariam que fosse.

É importante entender duas coisas fundamentais:

  • A agitação não é uma doença: queremos um autocontrole tal que, nem a natureza, nem a sociedade fomenta.
  • Fazemos um favor às crianças se as deixarmos ficar aborrecidas e evitarmos o excesso de estímulos

Doenças? Medicação para as crianças? Por quê?

Apesar de ser um diagnóstico crescente tanto no  setor da saúde como no escolar, a verdadeira existência do Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) (da forma como está concebido e a ser diagnosticado) é muito questionável.

Atualmente considera-se que este transtorno é o “diagnóstico refúgio” de alguns especialistas para casos diversos, que vão desde problemas neurológicos até problemas de comportamento ou de falta de recursos e habilidades para encarar o dia-a-dia.

As estatísticas são esmagadoras. Segundo dados do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais IV- TR (DSM-IV TR), a prevalência do TDAH nas crianças é de 3 a 7 casos por cada 100 meninos e meninas. O que preocupa é que a hipótese biológica subjacente a isto é simplesmente isso, uma hipótese que é comprovada por ensaio e erro com raciocínios que começam por “Aparentemente isto ocorre porque…“.

Entretanto estamos a medicar as nossas crianças porque demonstram comportamentos perturbadores, porque estão desatentas e aparentemente não pensam enquanto realizam as suas tarefas. É um tema delicado, por isso temos que ser devidamente cautelosos e responsáveis, consultando bons psiquiatras e psicólogos infantis.

Partindo desta base, devemos destacar que não existe um exame clínico nem psicológico que determine de forma objetiva a existência do TDAH. Sem dúvida os exames são realizados com base em impressões e realização de testes distintos. O diagnóstico é determinado com base no resultado subjetivo destes testes, ou seja, com base no momento em que a criança realizou o teste. Inquietante, não é?

Não nos podemos esquecer que estamos a medicar as crianças com anfetaminas, antipsicóticos e ansiolíticos, medicamentos estes que podem causar consequências nefastas no seu desenvolvimento neurológico. Não sabemos qual vai ser a repercussão destes medicamentos no futuro do indivíduo e muito menos o resultado do uso excessivo do mesmo. Falamos de um medicamento que apenas vai reduzir a sintomatologia, mas que não reverte de forma alguma o problema.

Então porque se continuam a medicar as crianças se tudo isto parece tão assustador? Provavelmente um dos motivos é o financeiro, pois a indústria farmacêutica move bilhões graças ao tratamento farmacológico administrado às crianças. Por outro lado está a filosofia do “ele fica mais calmo e mais atento com os medicamentos”. O “enterrar a cabeça na areia” da pílula da felicidade é um fator comum em muitas patologias.

Rótulos e diagnósticos à parte, devemos por travões e ter consciência de que muitas vezes os “doentes” são os adultos e que o principal sintoma é a má gestão das políticas educativas e das escolas.

Cada vez mais especialistas estão conscientes destes factos e procuram impor restrições a pais e a profissionais que sentem a necessidade de colocar o rótulo de TDAH em problemas que, muitas vezes, provêm principalmente do meio familiar e da falta de oportunidades dadas à criança para desenvolver as suas capacidades.

Como afirma Marino Pérez Álvarez, especialista em Psicologia Clínica e professor de Psicopatologia e Técnicas de Intervenção na Universidade de Oviedo, o TDAH nada mais é que um rótulo para comportamentos problemáticos de crianças que não têm uma base científica neurológica sólida como é regularmente apresentada. Existe como um rótulo infeliz que engloba problemas ou aspetos incómodos que efetivamente estão dentro da normalidade.

“Não existe. O TDAH é um diagnóstico que carece de identidade clínica e a medicação, longe de ser propriamente um tratamento, é na realidade dopping”, afirma Marino Pérez Álvarez.

Generalizou-se a ideia de que o desequilíbrio neurológico é a causa de vários problemas, mas na verdade não há estudos que comprovem se o desiquilibrio neurológico seja causa ou consequência. Isto é, os desequilíbrios neuroquímicos também podem ser gerados na relação com o que rodeia a criança.

A pergunta que se impõem é a seguinte: o TDAH é ciência ou ideologia? 

Convém sermos críticos e olharmos para um mundo que fomenta o cerebrocentrismo e que procura as causas materiais de tudo sem parar para pensar sobre o que é a causa e o que é a consequência. Quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha? Partindo desta base, deveríamos pensar em quais são as necessidades e quais são os pontos fortes de cada criança e de cada adulto susceptível a ser diagnosticado.

Abordar isto de forma individual proporcionará mais saúde e bem-estar, tanto dos pequenos como da sociedade em geral. Então, a primeira coisa que devemos fazer é uma análise crítica de nós mesmos.

Texto original de A mente é maravilhosa

 

 

 

Ação de Formação – Estimular a Inteligência Emocional em crianças do 1ºCiclo do Ensino Básico no Porto

Dezembro 5, 2016 às 6:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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mdc

Data limite de inscrição: 08-12-2016

mais informações:

http://www.mdcpsicologia.pt/formacao/catalogo/action-detail/estimular-a-inteligencia-emocional-em-criancas-do-1ociclo-do-ensino-basico-724/

 


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