Restrições alimentares. Explicar às crianças e não dramatizar

Dezembro 1, 2016 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do http://www.dn.pt/de 14 de novembro de 2016.

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Joana Capucho

Para ajudar um jovem com excesso de peso a emagrecer a família deve adotar o mesmo tipo de comida. Se há uma intolerância alimentar, só a criança beneficia das restrições

Quando Bárbara fez 6 anos, Cristina Santos descobriu que a filha era doente celíaca. “No início, foi complicado.” A lista do que não podia comer era assustadora. O preço dos alimentos também. E existia, ainda, o risco de contaminação. Retirar o glúten da alimentação do resto da família – tem dois irmãos – nunca foi uma opção. Passaram sete anos. Apenas Bárbara come alimentos sem glúten, mas raramente as suas refeições são diferentes. “Tentamos que a comida seja o mais semelhante possível à nossa.” Por exemplo, se os dois irmãos comem douradinhos, Bárbara também, mas os seus são diferentes. “Se for açorda, fazemos uma base em conjunto e depois separamos a parte dela.” E é assim com quase tudo.

As alergias e intolerâncias alimentares, bem como o excesso de peso, obrigam as famílias a ajustar os seus hábitos. Deve o resto da família seguir padrões mais restritivos porque um dos membros não pode comer determinado alimento? Não. Dizem os especialistas em nutrição que cada família deve fazer o que for mais cómodo para si, mas não há nenhuma recomendação para que siga a mesma dieta. No entanto, há algumas dicas para que a criança não se sinta excluída. Já se o problema for excesso de peso, é benéfico que todos adotem o mesmo regime. Em qualquer caso, dizem os psicólogos, é importante não dramatizar, porque as crianças têm capacidade de se adaptar.

Imagine uma família em que o pai é uma pessoa ativa, a mãe é mais sedentária, há um filho adolescente e um outro mais novo com excesso de peso. Cada um tem necessidades diferentes. “O primeiro passo é criar uma base, que pode ser comum a todos: verduras, uma fonte de proteínas, hidratos de carbono. As quantidades serão depois ajustadas às necessidades de cada um. Não é preciso fazer refeições diferentes”, diz Rodrigo Abreu, responsável pela consulta de nutrição infantil na CUF Belém. Se um dos filhos tiver de controlar o peso, a família deve ser solidária. “Deixar de beber sumo à refeição, por exemplo, ou de comer um chocolate por dia. Se o empenho for de toda a família, todos ganham”, frisa. Se a criança for a única a mudar a alimentação em função do peso, “pode sentir que é um castigo ou uma penalização”.

Nuno Borges, da direção da Associação Portuguesa de Nutricionistas, também defende que, nestes casos, “o que é bom para a criança mais frágil não fará mal aos outros, até os torna mais saudáveis”. “Há vantagens que todos sigam a mesma alimentação”, reforça. Já a psicóloga Inês Afonso Marques, responsável pela área infantojuvenil na Oficina de Psicologia, considera que o facto de a família seguir um padrão mais saudável ajuda a motivar a criança. “A família funciona como modelo. Para a criança, será difícil aderir a um padrão mais restritivo, se o resto das pessoas não o fizer. Vai sentir-se injustiçada”, explica.

Fazer uma base comum

Rodrigo Abreu diz que, se uma criança tiver alergia à proteína de leite de vaca, por exemplo, não deve comer nada que a contenha, “mas não significa que o resto da família tenha de seguir” essa restrição. “Tem é de existir cuidados com as contaminações.” É o caso de Beatriz, de 8 anos, alérgica às proteínas do leite de vaca desde bebé. Há cerca de um ano, os médicos começaram a fazer uma introdução ao leite, pelo que agora já não há o perigo de encontrar vestígios na comida. “Até chegar a esta fase, tinha de ver sempre se os alimentos tinham vestígios de leite”, explica a mãe, Tânia. Em casa, os pais tentam sempre que as refeições sejam iguais para todos. Se for empadão, há uma parte que é feita com leite de vaca, outra com leite de soja. “Se é um prato que leva queijo ou natas, fazemos à parte para ela. Mas a ideia é tentar sempre que haja uma base comum.”

No caso das intolerâncias, Nuno Borges concorda que “se a criança não pode comer um determinado alimento, os outros não têm de o eliminar. No entanto, para algumas famílias pode ser mais prático fazer só aquele prato. Não acho é que isso seja universal para todos”. Dá como exemplo a fenilcetonúria, uma doença em que é necessário eliminar as proteínas da alimentação. “Quando as crianças são pequenas, a restrição é absoluta. Estes doentes fazem uma dieta completamente isolada dos pais e irmãos. Não faz sentido nenhum que os outros tenham de comer as mesmas coisas.”

O risco de a criança se sentir discriminada dependerá da abordagem que é feita pelos adultos. “Se não fizerem drama, o filho também não vai fazer. Pode sentir-se diferente, mas não vai sentir-se inferior”, destaca a psicóloga Inês Afonso Marques. As crianças “adaptam-se, ajustam-se” e é importante que aquela característica seja tornada especial. Como? “A criança pode sentir-se especial porque o leite dela é diferente, os cereais são diferentes, sente-se integrada nas compras.”

Ambas as mães contactadas pelo DN dizem que mais difícil do que gerir as alergias e intolerâncias das crianças dentro de casa, é quando não estão com os pais. Cristina Santos recorda que, no primeiro ciclo, levava massa, salsichas e outros alimentos para a escola da filha. “Víamos a lista das refeições e tentávamos adequar o mais possível à dos colegas, para a Bárbara não se sentir diferente”, explica. Nas festas de aniversário, geralmente levavam de casa aquilo que as filhas podiam comer. “A Beatriz agora já sabe o que pode comer, mas, quando era mais nova, normalmente levava lancheira”, conta Tânia. Nos restaurantes, o problema é, na maior parte das vezes, o risco de contaminação.

 

 

 

Lista de pedófilos condenados com 5.739 registos no primeiro ano de vigência

Dezembro 1, 2016 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do http://diariodigital.sapo.pt/ de 16 de novembro de 2016.

Um total de 5.739 nomes constam do Registo de Identificação Criminal de Condenados por Crimes Sexuais contra a Autodeterminação Sexual e a Liberdade Sexual de Menor, que completa um ano de vigência a 22 de novembro.

“O número atual de registos integrados no Registo de Identificação Criminal de Condenados por Crimes Sexuais contra a Autodeterminação Sexual e a Liberdade Sexual de Menor é de 5.739”, indicou à agência Lusa o Ministério da Justiça (MJ).

Conforme precisa o MJ, o registo foi criado pelo artigo 4.º da Lei 103/2015, de 24 de agosto, começando a produzir efeitos 90 dias após a publicação da lei, pelo que completará um ano de vigência a 22 de novembro próximo.

De acordo com a lei, fazem parte deste registo todos os condenados pela prática de crimes sexuais em que a vítima seja menor, até ao máximo de 20 anos sobre a extinção da pena, principal ou de substituição, ou da medida de segurança, e desde que entretanto não tenha ocorrido nova condenação por crime contra a autodeterminação sexual e a liberdade sexual de menor, ou quando verificada a morte do agente.

“Ou seja, também fazem parte deste registo pessoas que tenham sido condenadas antes da entrada em vigor da lei e cujo crime conste do seu registo criminal, o que acontece durante um período de 20 anos para os crimes considerados mais graves”, explica o MJ.

Diário Digital com Lusa

 

Casas de acolhimento demasiado grandes e segregadoras

Dezembro 1, 2016 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.publico.pt/ de 16 de novembro de 2016.

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Ana Cristina Pereira

Primeiro estudo nacional sobre a qualidade do acolhimento residencial de crianças e jovens retiradas às famílias detecta falhas: irmãos separados, formação por vezes insuficiente dos técnicos, meninos a mais na mesma casa.

É o primeiro estudo de âmbito nacional destinado a aferir a qualidade do acolhimento residencial de crianças e jovens órfãos, abandonados ou retirados a famílias que põem em perigo a sua segurança, saúde ou educação. O grupo de investigação e intervenção em acolhimento e adopção, da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação, da Universidade do Porto, ainda vai a um terço do trabalho, mas já detectou sinais de “insuficiente respeito pelos direitos da criança”.

Sónia Rodrigues, cujo projecto de doutoramento está na origem deste estudo, aponta vários exemplos de “insuficiente respeito” pelo direito à participação da criança nas decisões que a ela dizem respeito, o direito a informação sobre o seu processo, o direito a que seja trabalhada a sua autonomia e estimulado o seu desenvolvimento, o direito ao afecto, o direito a ter família.

A equipa – orientada por Maria Barbosa-Ducharne e coordenada por Sónia Rodrigues e Joana Campos – seleccionou 90 casas situadas em várias partes do país, de forma aleatória, de modo a obter uma amostra representativa. Além das seis do estudo-piloto, já avaliou 30 da amostra, o que implicou ter cinco investigadores a fazer uma visita a cada uma delas, com entrevistas ao director técnico, a elementos da equipa técnica e educativa e a outros colaboradores, mas também às crianças (a partir dos 6 anos) e aos jovens acolhidos. Tudo combinado com questionários e provas psicológicas e interacção, incluindo almoçar e jantar com as crianças e jovens.

Concluíram, para já, que as casas de acolhimento continuam a ser demasiado grandes, explica Sónia Rodrigues. “Temos casas com 30, 60, 90 crianças com menos de seis anos. Temos cuidadores com imenso espírito de missão, mas ainda é normal ouvir dizer: ‘Está cá há um mês e ainda chora. Ainda não se habituou.’ Qualquer psicólogo sabe que bebé que deixa de chorar é desânimo aprendido – já nem vale a pena chorar.”

Irmãos separados

Não é só a dimensão. “Ainda há 46% de casas segregadoras. Os irmãos vão para uma casa e as irmãs para outra. E a maioria das casas opta por ter uma população mais ou menos homogénea. Uma casa tem crianças até seis anos, por exemplo. Quando fazem seis, as crianças têm de mudar para outra.”

Ocorre-lhe o exemplo de “uma menina de sete anos que foi fechada no quarto o dia inteiro por ter passado a noite a chorar com saudades da irmã”. E o de “bebés que dormem num berçário e as cuidadoras de serviço à noite passam a ferro no edifício ao lado e vão lá de 15 em 15 minutos”. “Isto são coisas que não acontecem sem o conhecimento das pessoas responsáveis pelas instituições”, sublinha.

O objectivo é melhorar o serviço. Os investigadores oferecem a cada uma das casas que o desejar um relatório de qualidade. Nele indicam “pistas”.

Para Sónia Rodrigues, é fundamental pensar em casas de menor dimensão (até 12 crianças), casas com crianças e jovens de diferentes idades e géneros, casas com oferta de acolhimento especializado – há crianças com problemas de saúde mental, com problemas comportamentais graves, com dependências de drogas. E em cada momento ajustar rácio cuidador/cuidado.

A equipa de que faz parte detectou carências de formação específica e de base contínua e horários de trabalho que nem sempre salvaguardam as “passagens de turno”. Defende formação; supervisão externa; responsabilização das equipas técnicas; participação das crianças. “Todo o acolhimento deve ser terapêutico”, sustenta. “Deve promover a autonomia desde o início.”

“É preciso que haja directivas firmes sobre o funcionamento destas casas”, defende. “Há muitas crianças que nunca entraram numa loja, num supermercado. Não sabem como fazer as tarefas mínimas. Não tiveram carinho que lhes permita estabelecer relações duradouras. Não têm escolaridade que lhes permita arranjar emprego e mantê-lo. Quando fazem 18 anos, é muitas vezes para a família que não tinha condições para as ter que voltam. E muitos precipitam-se para uma nova família, têm filhos muito jovens, que depois lhes vão ser retirados, alimentando esta grande máquina que é o sistema de acolhimento nacional”.

473 crianças ouvidas

Para já, os investigadores ouviram 473 crianças e jovens, 46 cuidadores sobre crianças com menos de 6 anos, 36 directores técnicos, 308 cuidadores e 35 técnicos de articulação nas tutelas. E, aos maiores de 12, aplicaram testes capazes de “avaliar a saúde mental, o ajustamento psicológico, o bem-estar, a satisfação com a vida”.

Em Portugal “uma em cada 250 crianças está em acolhimento residencial”, sublinha Sónia Rodrigues. As 433 instituições existentes no país acolhiam 8297 crianças e jovens no final do ano passado, de acordo com o relatório de Caracterização Anual da Situação de Acolhimento das Crianças e Jovens 2015. “Temos muito que fazer com as famílias antes de recorrer a esta medida, mas, de forma quase chocante, essa é muitas vezes a primeira medida.”

Não se pense que o país tem “um número exagerado” de crianças retiradas às famílias. Não tem. O que tem, sublinha, é “um desequilíbrio muito grande entre acolhimento familiar e acolhimento residencial”. “Temos 96% das crianças retiradas às famílias em acolhimento residencial”, esclarece aquela investigadora. E muito poucas em famílias de acolhimento.

O modelo de financiamento não será alheio a este retrato. “Funciona por cabeça”, critica. “Não é a qualidade do trabalho que é feito com estas crianças, não é a atenção que lhes é dada, é o número que importa. Paga-se a uma casa com 60 bebés o mesmo que se paga a uma casa com 60 adolescentes com problemas de comportamento, o que faz com que as casas prefiram ter bebés”, esclarece.

Parece-lhe importante encaminhar as crianças com menos de seis anos para acolhimento familiar. Essa é, de resto, uma das orientações da revisão que em 2015 se fez da Lei de Protecção de Crianças e Jovens em Perigo. “Está provado que os bebés em acolhimento residencial ficam com danos neurológicos permanentes”, diz. “Os bebés querem colo, precisam de vinculação.”

 

 


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