Notas sobem nos testes PISA, alunos estão mais responsáveis

Novembro 18, 2016 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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texto do site http://www.educare.pt/ de 28 de outubro de 2016.

Projeto de investigação demonstra que chumbar não é uma segunda oportunidade para aprender, que frequentar o pré-escolar faz diferença, que os pais estão mais escolarizados e que os professores assumem as suas responsabilidades. E que há cada vez mais alunos com bons desempenhos em escolas inseridas em meios socioeconómicos desfavorecidos.

Sara R. Oliveira

Os alunos portugueses sabem mais. Entre 2000 e 2012, os resultados médios a Matemática melhoraram cerca de 8%, subiram de 450 para 490 pontos, nos testes PISA. As notas, nos cinco ciclos PISA relativos a esse período, foram melhorando gradualmente a Matemática, Leitura e Ciências. A partir do ciclo de 2009, os resultados aproximaram-se da média da OCDE. No nosso país, há menos alunos muito fracos e mais alunos de excelência. Entre 2000 e 2012, por exemplo, a percentagem de alunos muito fracos a Matemática caiu de 30% para 21% e a percentagem de alunos de excelência subiu de 1% para 7% – tendência observada em apenas outros dois dos países considerados nesta avaliação, Polónia e Luxemburgo.

Portugal está, aliás, na lista dos três países, a par com o Luxemburgo e a Polónia, com os crescimentos mais relevantes nos resultados PISA. Apesar de ter sido o país mais afetado pela recessão económica, e sem qualquer aumento do PIB per capita nos últimos anos, destaca-se pela melhoria das notas nos testes PISA. Em contrapartida, Suécia, Finlândia, Holanda, França e Dinamarca obtiveram, em 2012, desempenhos mais baixos do que os alcançados em 2000, apesar dos aumentos do PIB per capita verificados nesses países.

“Afinal, porque melhoraram os resultados?”. Esta é a pergunta lançada por mais um Fórum aQeduto e que esta sexta-feira é analisada e debatida na Torre do Tombo, em Lisboa, das 18h00 às 20h00, com a presença do subdiretor-geral da Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência, João Baptista. Mais uma iniciativa do aQeduto: Avaliação, Qualidade e Equidade em Educação, projeto de investigação que constrói um corpo de referenciais sobre educação desde o início deste século, assente, por um lado, nos testes do PISA – Programme for International Student Assessment – que avaliam a literacia de jovens de 15 anos, que frequentem pelo menos o 7.º ano, de 65 países; e, por outro, no estudo internacional TALIS – Teaching and Learning International Survey, da OCDE, que aplica questionários a professores do 9.º ano de 35 países para perceber métodos de ensino, opiniões sobre a escola e sistema educativo, e como se sentem na profissão. O aQeduto resulta de uma parceria entre o Conselho Nacional de Educação (CNE) e a Fundação Francisco Manuel dos Santos.

Há várias respostas para a pergunta lançada. Os resultados melhoram por uma conjugação de fatores. Entre 2003 e 2012, Portugal melhorou em 5% os resultados a Matemática devido a múltiplos contributos, com destaque para o efeito positivo do trabalho feito nas escolas. Há uma maior percentagem de escolas inseridas em meios socioeconómicos desfavorecidos que conseguem ter mais alunos com bons desempenhos. Portugal passou a ter mais 79% de escolas com resultados “acima do esperado”. Um sucesso que poderá estar relacionado com a formação e a motivação dos docentes, o alargamento da educação pré-escolar, a melhoria dos recursos pedagógicos e uma maior autonomia das escolas. Do lado dos problemas, os diretores continuam a mostrar a sua insatisfação com as instalações das escolas e o aumento do número de alunos que chegam aos 15 anos com pelo menos um chumbo no percurso.

Em 2003, cerca de 16% das escolas estavam inseridas em meios socioeconómicos favoráveis, um número que aumentou para 20% em 2012. Nesse ano, e nessas escolas, apenas 3% tiveram resultados abaixo dos 500 nos testes PISA, ainda assim muito próximos deste valor. Se o meio socioeconómico e cultural é favorecido, a probabilidade de obter resultados elevados é muito grande.

Nem irresponsáveis, nem mal-agradecidos

Os alunos são irresponsáveis e mal-agradecidos? Não. A maior parte dos alunos consideram que o sucesso escolar depende essencialmente do seu próprio esforço e garante que os professores ajudam bastante. Em Portugal, mais de 50% dos estudantes, independentemente da origem social, consideram o seu esforço muito importante – apenas os alunos suecos apresentam uma percentagem superior. E é em Portugal que os professores são mais bem vistos pelos alunos e é uma opinião que, na verdade, tem vindo a crescer desde 2003. “Os alunos portugueses consideram que recebem bastante apoio, são bem orientados e avaliados formativamente e que têm um bom relacionamento com os professores. Este tipo de opinião favorável em todas as dimensões não acontece em mais nenhum dos outros países considerados”, lê-se no estudo que se debruça sobre 11 países. “É surpreendente verificar que em países com resultados PISA muito elevados os professores não são bem vistos pelos seus alunos”, acrescenta-se.

As retenções voltam a ser contestadas. Chumbar é uma segunda oportunidade para aprender? A resposta é não. “Esta prática não contribui para que os alunos que chumbam alcancem o mesmo nível de aprendizagem que os colegas que frequentam o 9.º ano, mas que nunca chumbaram.” Os resultados demonstram que assim é. Os alunos do 9.º ano que nunca chumbaram conseguem melhores notas do que os colegas que já ficaram retidos pelo menos uma vez. “Esta diferença chega a ultrapassar os 60 pontos em Portugal e na Finlândia, significando que os alunos que já repetiram pelo menos um ano permanecem com um grande atraso na aprendizagem”, lê-se no documento.

Chumbar surge associado ao estatuto socioeconómico e cultural das famílias. Em Portugal, 87% dos alunos que chumbam são de famílias de estratos sociais económicos e culturais abaixo da média da OCDE. De igual modo, os alunos que chumbaram obtiveram, maioritariamente, classificações inferiores à média de referência no teste de Matemática PISA de 2012.

A escola está parada no tempo? Mais uma questão lançada pelo aQeduto. A resposta é não. A percentagem de escolas que, apesar de inseridas em meios desfavorecidos, conseguem resultados médios a Matemática superiores a 500 pontos aumentou de 19% para 34%. As escolas que fazem um trabalho acima do que seria expectável, uma vez que estão inseridas em meios desfavorecidos e conseguem resultados de excelência, aumentaram consideravelmente, passando de 19% para 34% entre 2003 e 2012. Segundo o aQeduto, estas são escolas que fazem a diferença e, por isso, seria importante tentar compreender as práticas que desenvolvem.

Na análise dos resultados, verifica-se que há uma tendência para as raparigas serem melhores a Leitura e os rapazes melhores a Matemática. Em Portugal, essa diferença é clara. A média dos rapazes a Leitura é muito baixa (468 pontos), registando-se apenas piores desempenhos a Leitura nos rapazes suecos. Já no que respeita a Matemática, há uma ligeira tendência para que os scores médios sejam favoráveis aos rapazes, mas esta tendência não se alastra a todos os países. Em Ciências, o panorama é mais equilibrado, ou seja, na maior parte dos países há uma igualdade de desempenhos entre sexos.

Pré-escolar faz a diferença

O ambiente escolar está difícil? Sim e não. Portugal é um dos países onde os alunos revelam um maior nível de felicidade e onde o relacionamento com os professores parece ser muito favorável. Verifica-se uma associação entre bom relacionamento com os docentes e a felicidade dos alunos na escola. Em 2012, os alunos portugueses foram os que mais consideraram ter um bom relacionamento com os professores (86%) e cerca de 25% sentiam-se muito felizes. A indisciplina e a falta de respeito nas salas de aula são, segundo os diretores, os problemas que mais afetam o aproveitamento dos alunos e o normal funcionamento da escola. “Estes problemas assumem grande dimensão em escolas inseridas em meios socioeconómicos mais desfavorecidos, embora não estejam circunscritos a este tipo de escola. Por outro lado, o consumo de drogas, a agressividade entre alunos e o mau relacionamento com professores são considerados apenas por uma percentagem muito baixa de diretores, mesmo em escolas que poderiam ser, à partida, mais problemáticas”, sublinha-se.

Os professores não descartam responsabilidades. Sentem-se satisfeitos e respeitados quando consideram que ajudam a aprender, conseguem estabelecer uma boa relação com os alunos, e mantêm a disciplina. A satisfação com a profissão e o respeito que sentem por parte da sociedade são, porém, pontos críticos. Portugal é o país com a maior percentagem de professores insatisfeitos com a profissão, embora a maioria continue satisfeita ou mesmo muito satisfeita. O sentimento de respeito por parte da comunidade é mais reduzido: 48% sentem-se desrespeitados ou muito desrespeitados e apenas 5% sentem-se bastante respeitados.

Andar no pré-escolar faz diferença. Os alunos que frequentaram o ensino pré-escolar obtêm, em média, um desempenho PISA a Matemática mais elevado e têm uma menor probabilidade de chumbar. Em 2003, pouco mais de 70% dos jovens de 15 anos tinham frequentado o pré-escolar pelo menos um ano. Em 2012, esse número já era de 85%. “No entanto, o que é absolutamente surpreendente é o facto de dez anos depois ainda se notar o efeito deste nível de ensino, dado que os alunos que frequentaram o pré-escolar têm em média mais 40 a 50 pontos”, lê-se no estudo.

Pais mais escolarizados

Os pais estão mais escolarizados. O nível de escolaridade das mães aumentou sobretudo nos níveis mais baixos. Contudo, o impacto da escolaridade nos resultados é mais evidente quando combinado com o estatuto profissional. Portugal destaca-se neste ponto. Apenas no nosso país se verificou um aumento simultâneo das qualificações mais baixas das mães e uma melhoria nos scores PISA. As mães portuguesas estão, em 2012, mais qualificadas do que no início do século, embora continuem a ser as menos escolarizadas entre os países considerados no estudo. Em Espanha, também se verificou uma acentuada redução da percentagem de mães com o 9º ano ou menos, embora sem reflexos nos resultados PISA. Em 2012, a maioria dos restantes países tem menos de 10% de mães com tão baixa qualificação.

A profissão dos pais, a educação e os recursos educativos são alguns dos aspetos que mais influenciam a aprendizagem dos filhos. A análise conclui que o facto de a mãe ser muito jovem e viver num agregado familiar alargado conduz a um aumento da probabilidade de o aluno obter desempenhos mais fracos. No entanto, o peso das variáveis relativas à família representa pouco mais de 20% da variabilidade dos resultados, o que significa que a família não é condição determinante para o sucesso na aprendizagem.

As escolas públicas e as escolas privadas servem populações diferentes. E Portugal é o país onde a escola pública serve uma maior heterogeneidade de classes sociais. No nosso país, as crianças de classes sociais muito favorecidas não frequentam escolas públicas, nem escolas privadas dependentes do Estado. É o país onde esta separação é mais visível. A escola privada é só para alunos de classes sociais elevadas e, no nosso país, no Luxemburgo e na Polónia, 95% dos alunos são de estratos sociais acima da média da OCDE. Por outro lado, em Espanha, Dinamarca e República Checa, as escolas privadas servem populações de estratos sociais mais próximos das que frequentam a escola pública.

mais informações no link:

http://www.oecd.org/pisa/keyfindings/pisa-2012-results.htm

 

 

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