Afonso, Alexandre e João são “meninos especiais” com histórias em papel

Novembro 16, 2016 às 8:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Texto do http://p3.publico.pt/ de 24 de outubro de 2016.

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Cada livro da colecção “Meninos Especiais” conta a história de uma criança com necessidades especiais. O Afonso tem um atraso global de desenvolvimento. O Alexandre tem síndrome de X frágil. O João ainda não tem diagnóstico. Escritores e ilustradores foram desafiados a conhecer estes meninos e a entrar nos seus mundos reais

Texto de Andreia Cunha

Afonso tinha um ano quando foi vítima de uma meningite. Durante três meses lutou contra a morte numa cama de hospital e finalmente voltou para casa. Livrou-se da meningite, mas esta doença levou consigo muitas competências — sentar-se, andar, falar ou agarrar um objecto já não estava ao seu alcance. O Afonso tem um atraso global de desenvolvimento. O que pouca gente sabe é que este menino tem uma espada mágica e adora pintar. Todos os dias trazem novas aprendizagens. E são estes momentos que Isabel Stilwell conta no livro “Afonso e a Espada Mágica”.

Madalena Braga aceitou sem hesitar o desafio de ilustrar uma realidade que não conhecia. No entanto, foi fácil inspirar-se e trazer para o papel uma dimensão especial do dia-a-dia do Afonso. O baloiço onde se sente seguro, as mãos todas as sujas de bolo de chocolate e Filipe (pai adoptivo) montado num cavalo, um animal que Afonso adora, são alguns dos momentos que a ilustradora polvilhou no livro. “O que mais me cativou a representar o Afonso foi a expressão daquele olhar, bastante intenso e feliz, e um sorriso que acompanhou o encontro que tivemos quando o fomos visitar a casa”, diz a ilustradora.

Este encontro resultou numa “relação mágica com o Afonso através da ilustração”. “Quando conheci o Afonso lembro-me que a imagem que melhor registei na minha cabeça foi quando ele veio ter comigo com um brilho nos olhos e um sorriso enorme. Essa foi a maior fonte de inspiração para poder ilustrar a vida do Afonso e tentar exaltá-lo como se fosse o herói da história”, explica ao P3.

Contar as histórias de três meninos reais foi o desafio lançado por Luísa Beltrão, presidente da associação Pais em Rede, a seis escritores e ilustradores. “Como escritora comecei a pensar que seria excelente fazer pequenos livros com bons escritores da nossa praça que pudessem ir conhecer crianças com determinado problema, conhecer cada uma na sua casa e criar uma história que pudesse fazer outras crianças entrar no mundo desse colega diferente”.

Ana Zanatti teve oportunidade de conhecer Alexandre, um menino simpático e irrequieto que adora comer gelados na praia e tocar bateria enquanto a mãe toca piano. O Alexandre tem síndrome de X frágil, uma doença genética causada pela mutação de um único gene. Apesar de demorar um pouco mais a aprender do que os colegas da escola, Madalena Bastos, ilustradora, conseguiu captar o Alexandre e alguns momentos de descoberta e de alegria junto dos familiares e amigos.

Já a vida do João é uma caça ao tesouro e, todos os dias, em casa deste menino descobre-se a música antes de encontrar os peluches cheios de dentadas. O livro de Afonso Reis Cabral é “um testemunho” da realidade em que vive o João, uma criança que tem grandes impedimentos em qualquer aprendizagem. Um almoço e uma tarde juntos foram o suficiente para o romancista descrever o mundo do João e “transmitir esse ambiente aos leitores”. O João não fala, quase não anda, não come sozinho, mas não é isso que se vê nos desenhos de Carla Isidro. A ilustradora mostra o quarto onde o João guarda tudo o que gosta, o jardim com o baloiço e a relva onde passeia e a sala onde encontra a irmã pequena antes de lhe dar um abraço.

Estes meninos são agora protagonistas de livros que têm como objectivo a inclusão social de crianças e jovens com deficiência. Luísa Beltrão é também mãe de uma mulher com deficiência e acredita que “esta colecção dos Meninos Especiais é, de certa maneira, o melhor expoente do que é o espírito dos Pais em Rede”, uma associação que nasceu em 2008 pela mão de um grupo de pais preocupados com o futuro dos filhos.

Mas os principais destinatários destes livros não são as crianças com necessidades especiais. As histórias podem ser lidas pelos pais e familiares de crianças com as mesmas patologias, pelos pais de crianças que não tiveram qualquer contacto com estes problemas, pelos professores e educadores nas escolas e até pelos próprios alunos. “Estes livros são dirigidos a todas as crianças e a todos os adultos”, salienta Edite Vasconcelos, coordenadora do projecto “Meninos Especiais”.

Histórias que são difíceis de compreender

O projecto já vai no quarto ano e, doze livros depois, o objectivo mantém-se. Em 2012, a primeira colecção mostrava síndromes mais conhecidas como autismo e trissomia 21. Depois, foram dando a conhecer outras histórias que ainda hoje são difíceis de compreender como é o caso do João. “Há muitas crianças que não têm diagnóstico, têm uma série de deficiências mas estas não se enquadram em nenhuma patologia descoberta. Fizemos este livro porque representa uma fatia grande das crianças e jovens com deficiência deste país e de todo o mundo”, explica Edite Vasconcelos.

Os livros da colecção “Meninos Especiais” não estão à venda nas livrarias, apenas podem ser adquiridos por encomenda através de correio electrónico. Além destas edições, há ainda livros inclusivos com textos a negro e em braille para garantir que o objectivo da inclusão seja cumprido. Depois de terem sido vendidos mais de 18 mil exemplares em quatro anos, Luísa Beltrão não deixa de sublinhar o “sucesso retumbante” destes livros infantis trabalhados gratuitamente por escritores, ilustradores, paginadores e editores, contando ainda com o apoio de várias instituições. Cada livro custa cinco euros e a receita reverte na totalidade para os projectos da associação.

A quarta colecção é apresentada a 24 de Outubro, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa. Mas Luísa Beltrão garante que estas histórias não terminam aqui: “Para ano há outra colecção e já há vários escritores que estão interessados em escrever mais livros”.

Livros que trouxeram um novo olhar sobre as deficiências, modificaram a experiência dos escritores, ajudaram os pais destas crianças a “desdramatizar” os problemas dos filhos e todas as crianças a compreender as suas necessidades e os comportamentos dos outros. Estes livros, refere Luísa Beltrão, “são fruto de uma rede de boa vontade” e uma forma de permitir que estas crianças sejam incluídas na sociedade onde vivem.

http://paisemrede.pt/

 

 

 

 

Dia Europeu para a Proteção das Crianças Contra a exploração Sexual e o Abuso Sexual – 18 novembro na Assembleia da República

Novembro 16, 2016 às 2:45 pm | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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Inscrições até 16 de novembro

mais informações:

http://www.cnpcjr.pt/default.asp

Serviços britânicos vigiaram mais de cem mil crianças num ano

Novembro 16, 2016 às 12:55 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do http://www.dn.pt/ de 12 de novembro de 2016.

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Rui Oliveira Global Imagens

O Presidente da República visita Londres para a semana e os casos de filhos retirados a portugueses estão sobre a mesa. Inglaterra é o país europeu com mais menores adotados

Os serviços sociais britânicos acompanharam 100 810 crianças entre abril de 2015 e março de 2016; 70 440 tinham medidas de acolhimento. Números que têm crescido e que motivam protestos, o que levou a Comissão Europeia a intervir. Em 71% dos casos são britânicos mas sobe o número de crianças de outras comunidades. A Embaixada Portuguesa conhece 154 casos, sem dizer quantos destes menores foram retirados aos pais. Serão pelo menos 57, outros 30 foram devolvidos e 20 adotados.

“Stop with forced adoption” “Punishment without crime” “Pound pup legacy” e McKenzie Friends são algumas das plataformas de ajuda às famílias a quem são retiradas os filhos, além de políticos como o ex-deputado liberal democrata John Hemming. Em Portugal, a plataforma de Advogados Portugueses Contra as Adoções Forçadas em Inglaterra, que conta com 300 juristas, critica o sistema britânico e o governo português. “As famílias portuguesas não têm o apoio jurídico que deveriam. O sistema de acolhimento e de adoção do Reino Unido envolve grandes interesses”, denuncia Pedro Proença, que lidera o movimento. Pediram audiência ás autoridades, tendo sido recebidos no Parlamento e na Presidência da República, no final da semana foram contactados pela secretaria de Estado das Comunidades.

Uma família de acolhimento em Inglaterra pode ter quatro crianças a seu cargo, a quem o Estado paga cerca de 700 euros por semana. Valores alterados em 2000, quando o executivo de Tony Blair criou incentivos para a guarda destas crianças, evitando que fossem institucionalizadas. As associações não governamentais culpam esta medida pelo facto de tantas crianças serem retiradas aos pais. Outro fator que poderá ter influenciado uma maior vigilância prende-se com o caso “Baby P”, o bebé de 17 meses que morreu que era acompanhado pelos serviços sociais e morreu em 2007 por maus tratos. A lei britânica Children Act, de 1989, agilizou os mecanismos de proteção, nomeadamente as adoções forçadas. Cabe ao departamento de Educação acompanhar as situações das crianças em risco, contabilidade que é feita anualmente entre abril e março.

4 690 mil crianças adotadas

No período de 2015/2016 foram adotadas 4690 crianças – só 40 consentidas pelos pais -, 5 330 no ano anterior e 5 030 em 2013/2014, segundo o Departamento de Educação do Reino este ano que serve de análise ao Comité das Petições do Parlamento Europeu (PETI), “Adoção sem consentimento”, em que analisa o sistema da Inglaterra e o País de Gales. Estas nações têm o maior número de adoções na Europa e a alguma distância do segundo, a Alemanha, com 3293.

O PETI recomenda uma maior fiscalização dos procedimentos dos serviços sociais, incluindo a elaboração de um guia de boas práticas em colaboração com todos os Estados membros da UE. Refere, também, os protestos da Eslováquia, Letónia e Lituânia, contra as práticas com os seus emigrantes. Pedro Proença foi convidado pelo parlamento da Letónia a expor o caso das crianças portugueses e pela Estónia, para manifestação de protesto que realizam no dia 25 deste mês. O relatório de 2016 inglês indica que aumentou o número de crianças acolhidas, o que explicam pelo aumento de refugiados menores, 1470 atualmente. Entre as 70 440 com medidas de proteção 2 940 (menos do que em 2014/2015 ) foram para adoção e 3 810 (mais) devolvidas aos pais, ficando as restantes em tipos de guarda variados. E 4 690 foram adotadas, o que significa que grande parte destes menores estão em instituições ou com famílias de acolhimento.

Visita oficial a Londres

Esta semana, a plataforma de advogados anunciou as primeiras vitórias, através da advogada Margarida Vicente, que apoia estas famílias no Reino Unido (RU). Duas crianças e uma adolescente foram devolvidas às respetivas famílias.

Marcelo Rebelo de Sousa visita Londres dias 16 e 17 acompanhando do secretário de Estado das Comunidades, José Luís Carneiro, estando previstos contactos com a embaixada e comunidade portuguesas. O Presidente da República tem acompanhado estes casos, nomeadamente o de Iolanda Menino, a quem foi retirado o filho nascido em fevereiro e espera-se que abordem o assunto, já que tanto José Luís Carneiro como a cônsul em Londres, Joana Gaspar, se tem recusado a fazê-lo.

As autoridades portuguesas entendem que há motivos graves para as crianças serem retiradas das famílias e acompanhadas pelos serviços sociais, sublinhando que a lei está a ser respeitada. Em resposta ao DN, a assessoria do Ministério dos Negócios Estrangeiros, sublinha que pediu à Embaixadora do Reino Unido para “avaliar, com as autoridades britânicas, se os fundamentos legais relativos à proteção de menores estão a ser integralmente respeitados”. Concluirão que “não existe um movimento concertado para retirarem crianças, em particular, a famílias portuguesas residentes no RU”.

 

 

Chamo-me Nojood: tenho 10 anos, sou divorciada

Novembro 16, 2016 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social, Vídeos | Deixe um comentário
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Texto do http://expresso.sapo.pt/ de 21 de outubro de 2016.

Paula Cosme Pinto

Nujood Ali tinha 9 anos quando foi entregue a um homem adulto em troca de um dote. Não passava de uma criança quando se viu na condição de casada, entregue a um leito matrimonial onde deveria cumprir os seus deveres de esposa. Foi abusada sexualmente e espancada repetidamente. Numa primeira visita à sua família, contou à mãe o que se passava dentro das quatro paredes onde agora vivia, e a resposta que obteve foi um abraço, seguido de um singelo: “Filha, ele tem direito a fazer isso tudo.”

Encurralada numa realidade de sofrimento, NuJood fugiu. E sem saber que no país que a vira nascer o casamento infantil não era penalizado, dirigiu-se a um juiz e pediu o divórcio. Foi a primeira vez que tal coisa aconteceu no Iémen e a sua história real, de luta pela dignidade e liberdade, tornou-se não só num símbolo contra o casamento infantil, mas também da revolução das mulheres daquele país quanto às tradições que continuam a subjugar a figura feminina e a reduzi-la à categoria de uma simples mercadoria que pode ser trocada e vendida, sem direito ao livre-arbítrio. Em troca de cerca de cem euros, o divórcio foi-lhe concedido e hoje a pequena é uma adolescente livre do marido. Mas ainda presa à figura paterna.

Em 2008, a incrível história de NuJood inspirou um livro, intitulado “Nojood: 10 anos, divorciada”. Nesse mesmo ano, a menina e a advogada que a defendeu ao longo do processo foram agraciadas com o prémio Glamour Women of the Year, em Nova Iorque. A história encantou o mundo e puxou a atenção para o drama do casamento infantil. O livro – que se tornou num best-seller – inspirou depois um filme com o mesmo nome, que acaba de ser indicado para candidato aos Óscares 2017, na categoria de Melhor Filme Língua Estrangeira.

A cada minuto que passa há 28 meninas forçadas a casar

Avança hoje a Al-Jazeera que este é um momento histórico, uma vez que é a primeira vez que o Iémen faz uma candidatura do género à Academia. Para mim, é também altamente simbólico no que diz respeito aos pequeníssimos passos que o país tentar dar no que toca à igualdade de género, seja pela exposição do tema em causa – que continua a ser um problema grave no Iémen – como pelo facto de a realização do filme ser feita precisamente por uma mulher (algo raro no país). Ambas formas pouco diretas, mas certamente representativas, da assunção deste país quanto à necessidade de mudança de mentalidades. Incluindo a do próprio pai de Nujood, que mesmo depois de ter assistido à odisseia da filha mais velha, voltou a cometer o mesmo erro com a mais nova.

Khadija al-Salami, a realizadora, é conhecida pelo seu trabalho documental e o filme “Nojood: 10 anos, divorciada” foi a sua primeira incursão neste género de cinema. Inspirou-se não só em Nujood, mas também na sua própria história de vida que passa por um casamento forçado aos onze anos, uma tentativa de suicídio e um divórcio. Filmado antes da guerra civil que assola o país, o filme passa uma mensagem clara: a crueldade inerente ao casamento forçado de uma criança, a contínua desvalorização da figura feminina no Iémen, a tradicional subjugação da mulher ao homem, a agressão consentida e inquestionável, a violação dos direitos humanos com base no género. E, é claro, a eterna lacuna da lei no que toca a tudo isto.

É verdade que tanto meninos como meninas estão sujeitos à realidade do casamento infantil, mas o sexo feminino é de longe o mais afetado. Uma boa parte destas miúdas são casadas à força, sujeitas a abusos sexuais, violência doméstica e acabam encurraladas numa vida de dependência total que, simplesmente, não escolheram ter. Não basta prenderem os pais destas crianças para que esta realidade mude, é preciso reeducar populações inteiras, incluindo as mulheres, que têm de ter consciência de que a vida não tem de ser assim, por mais que séculos de tradições assim o ditem como verdade absoluta.

Dados da UNICEF revelam que atualmente existem mais de 700 milhões de mulheres vivas em todo o mundo que foram forçadas a casar na infância. Uma em cada três destas mulheres fizeram-no com menos de 15 anos. No que diz respeito à realidade dos dias de hoje, o resultado da pesquisa conjunta das 400 organizações que trabalham para o Girls Not Brides revela números que me tiram o fôlego sempre que penso neles: 15 milhões de meninas são casadas anualmente, ou seja, a cada minuto que passa há 28 meninas a serem forçadas a casar. Até quando isto vai continuar a acontecer?

 

Clubes e crianças – Artigo de opinião de Mário Cordeiro

Novembro 16, 2016 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Mário Cordeiro de 27 de setembro de 2016 publicado no http://assinatura.ionline.pt/

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As pessoas mudam de religião, de partido político, de cônjuge, de amante e de vida. De profissão e de cidade. Até de sexo. Mas depois dos dez anos, não mudam de clube.

A propósito do início de mais uma temporada futebolística e motivado por uma conversa com os pais de um recém-nascido, surgiu a ideia de abordar este assunto: inscrição de bebés em clubes de futebol pelos pais ou pelos avós e tios, sem a anuência dos pais.

Os clubes de futebol são (sempre foram) grupos de pertença com muita força e uma irracionalidade que desafia qualquer lógica ou tentativa de explicação do fenómeno – basta ver como o jogador A, que era um dos “nossos”, fantástico e amado, passa a ser um “traidor”, ignóbil e odiado no momento em que decide vestir as cores do adversário.

Embora estes fenómenos tenham flutuações, vive-se agora uma fase “em alta”, talvez porque restem poucos sinais aglutinadores de um povo – pertencer ou ser adepto de um determinado clube gera uma teia de cumplicidade e de irmandade com os do mesmo clube e, quase que diria, ódio relativamente aos rivais. Muita gente tem como objetivo prioritário para o seu clube ficar à frente do outro clube, mais do que ganhar (e muito menos assistir a um bom espetáculo de futebol), desejando que, independentemente das “nossas” vitórias, existam muitas e pesadas derrotas para “os outros”. Nos jogos que não têm a ver com qualquer campeonato comum torce-se pelos estrangeiros ou por quaisquer outros, desde que seja contra o nosso rival – assumo isso, para os leitores não pensarem que sou um santo, e isto apesar de ter filhos de clubes diferentes! Coitado do barão de Coubertin quando, tão ingenuamente, dizia que o principal era participar e não vencer. Talvez devesse ter dito que o principal era vencer mas, porventura nos dias de hoje, que “o principal é que os outros clubes percam, não que o meu clube ganhe” – o interessantíssimo (e assustador) fenómeno sociológico e antropológico que são as claques de futebol (e todas as suas liturgias, slogans, hinos, gritos de guerra e modos de atuar) é um exemplo que valeria a pena ser estudado profundamente, para lá das limitações que deveriam ser impostas aos seus frequentes atos violentos e intimidatórios.

Assim, e tendo em conta que o futebol divide amigos e famílias, afasta as pessoas, gera discussões e atiça raivas, inscrever uma criança num clube de futebol sem os pais saberem ou contra a sua vontade, muito especialmente quando não é o clube dos pais, é, quanto a mim, uma manobra absolutamente suja e indecente. É provocar uma divisão e criar conflitos graves entre pais e filhos. Para gáudio dos avós e dos tios, acredito, que são dessa equipa, mas não deixa de ser uma manobra manhosa. Os meninos, esses ficam divididos entre a fidelidade aos tios e avós (e ao peso de ser “sócio” e de já lhe terem oferecido um equipamento do clube X) e a ligação aos pais, que são do clube Y.

Defendo que as crianças possam ter um clube (mas o clube que querem, sem pressões, mesmo que não seja o nosso) e que sejam adeptos convictamente, nas derrotas e nas vitórias, nos bons e nos maus momentos, com uma dose razoável de subjetividade na apreciação dos factos e de irracionalidade na discussão, mas não perdendo nunca o respeito pelos outros e por si próprias e sabendo “engolir” a realidade quando, por exemplo, as imagens televisivas mostram à saciedade que os factos não foram exatamente aquilo que desejávamos – deturpar a verdade é, no fim de contas, alinhar em mentiras. 

É saudável ter um clube, mas não esquecer a liberdade que nos faz tolerar os outros e precisar deles, mesmo com uma gama de opções diametralmente oposta. Todavia, pressionar até ao limite antes de as crianças saberem sequer falar, quando isso é contra a vontade dos pais e joga contra aquilo em que estes acreditam (sim, para todos os efeitos, o futebol é uma religião, uma paixão, uma coisa que não se explica…), não me parece correto, nem entendo como é que os clubes aceitam inscrições de pessoas menores sem o consentimento informado de ambos os pais. As pessoas mudam de religião, de partido político, de cônjuge, de amante e de vida. Mudam de nome e de sexo. Mudam de profissão. Mas não mudam de clube, pelo menos depois dos dez anos de idade. A inscrição num clube deveria sempre sem feita por maiores de idade ou, no caso de menores, com o consentimento escrito e informado de ambos os pais ou tutores. É pena que o legislador nunca tenha pensado nisso. Mas podem estar certos de que os litígios e os conflitos provocados pelo futebol são muito maiores do que os de qualquer outra área, mesmo as filosóficas, religiosas e dogmáticas. 

Creio que valerá a pena refletir um pouco sobre este assunto, num país que tem mais de quatro décadas de democracia e ainda tantas coisas para resolver…

P.S. A propósito do artigo da semana passada sobre as vantagens de ter um animal de companhia, designadamente um cão, e os cuidados a ter antes de o arranjar, o espaço não deu para falar dos donos dos cães que são porcalhões – eles, os donos, não os canídeos.

Infelizmente, quando passeamos pelas ruas das nossas cidades e vilas, somos confrontados com constantes armadilhas que são os cocós de cães espalhados pelo passeio. Se em termos de sujidade e ecológicos não há sequer questão, em termos de saúde, como é? 

Um estudo feito no Reino Unido estimou em cerca de 250 mil toneladas o cocó que os cães fazem por ano. Em Portugal temos seis vezes menos habitantes mas, como temos proporcionalmente mais cães, se calhar poderemos admitir um valor de um terço. Fiquem, portanto, com os números redondos: 80 mil toneladas de cocó de cão em cada ano que passa, ou seja, nove por hora ou 150 kg por minuto. O cocó de cão não só é nojento e malcheiroso – isso só já bastaria para os donos dos cães (eles, sim, são os verdadeiros “porcalhões”) terem mais cuidado – como pode também contaminar–nos com diversos parasitas que, nos infantários, escolas e lares, passam de pessoa para pessoa, dos sapatos e pés para as mãos, daí para a boca e para as fezes das pessoas, num ciclo muito difícil de interromper. Em certas cidades há casas de banho na rua para cães. Mas mesmo sem estes requintes, não custava nada aos donos dos cães levarem uns sacos de plástico para apanhar o cocó dos seus animais. Compram-se nas lojas “baratas” por um euro e meio, com um dispositivo preso à trela. Há papeleiras e caixotes por todo o lado.

Para quando uma maior censura social, pelo menos quando a lei (que existe) não é ainda aplicada? Não são os cães que são porcalhões – são os donos!

 

 


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