Nunca vi os meus filhos

Novembro 11, 2016 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Reportagem da http://visao.sapo.pt/ de 22 de outubro de 2016.

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Quando Marta e Márcia ficam muito caladas, Helena já sabe que as filhas estão com o telemóvel ou a ver televisão sem som Marcos Borga

Rosa Ruela e Marcos Borga

Ter pais que não veem é estranho para quem não passa por isso. De início, as perguntas não se fazem esperar, acabando todas por ir parar à mesma dúvida: “Como é que os vossos pais fazem as coisas?” A resposta não podia ser mais simples “fazem como faríamos de olhos fechados.” Mas claro que tem mais que se lhe diga.

A jardineira está quase pronta e a mesa para o jantar posta quando Marta e Márcia começam a contar o que ouviram ao chegarem à nova escola. Nos primeiros dias, os colegas disparavam perguntas: Quem é que cozinha lá em casa? A mãe consegue comer sozinha, pentear-se, escolher a roupa? E o pai trabalha em quê? “De início, estranham muito”, conta Marta, a mais espevitada das gémeas, de 12 anos. “É sempre: ‘Como é que os vossos pais fazem as coisas?’ Numa das vezes, respondi: ‘Experimenta passar o dia todo de olhos fechados e já sabes’.” Na cozinha do apartamento na Pontinha, nos arredores de Lisboa, para onde Helena Cristina e José Manuel foram ao casar, em 1999, sente-se um cheiro delicioso agora que a carne de vaca ficou tenra depois de a panela de pressão se engasgar. Os silvos tinham acompanhado os últimos minutos dos trabalhos de casa, feitos na sala, sem nunca se sobreporem à voz pausada de José Manuel. Marta treinava a pronúncia em Francês e Márcia despachava exercícios de Matemática com a ajuda do pai. “Dois vezes três ao quadrado é doze, filha? Pensa melhor…” Márcia, de grinalda na cabeça assumidamente para a fotografia, poderia seguir uma carreira na moda mas já se decidiu pela Medicina.

Embora vá fazendo figuração em telenovelas tal como a irmã, que sonha ser atriz, agarra-se aos estudos para gozo de José Manuel, que venceu umas Olimpíadas de Matemática no 12.º ano e hoje dá formação na área, na Acapo (Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal).

VER A TELENOVELA A QUATRO

Os estudos são uma prioridade nesta casa, conclui-se ao ouvir Helena e o marido contarem à vez que terminaram cursos superiores com grande sacrifício, ela de Gestão de Recursos Humanos e Organização Estratégica, ele de Psicologia. Das filhas não esperam menos do que licenciaturas porque sabem que não lhes falta cabeça e eles cá estão para lhes criar as oportunidades. “Mesmo para seres atriz, Marta”, lembra Helena, quando se sentam os quatro a ver Amor Maior, a novela da SIC em que as miúdas hão de aparecer, “vais estudar muito.” [Helena e José Manuel gostam de televisão. Distinguem as vozes, imaginam as cenas, e só pedem ajuda às filhas quando há um momento mais silencioso.] Helena sempre acreditou que é importante ter um diploma. Ao fim de vários anos a tentar engravidar, pensou na adoção mas, antes de avançar, quis ir para a universidade.

“Achava que dificilmente me deixariam adotar e que seria menos problemático se fosse licenciada.” Nascera com apenas 10% de visão, por causa de uma retinose pigmentar (degeneração progressiva da retina) e agora já só vê contrastes e vultos. Conhecendo a sociedade portuguesa, haveria poucas hipóteses de a considerarem elegível. E não ajudava o facto de o marido ser também ele cego.

Quando decidiram ser pais, os dois fizeram testes genéticos que não foram conclusivos. Mas, mesmo que a criança nascesse sem problemas de visão, o facto de ambos não verem quase nada era suficiente para ouvirem repetidamente a frase “É melhor não terem filhos.” Só quando Helena ficou grávida de gémeas, no final do 1.º ano do curso, tudo mudou. “Face ao facto consumado, as pessoas apoiaram a nossa decisão; se não desisti da faculdade foi porque os meus colegas me incentivaram.” Doze anos depois, Marta e Márcia provam que os medos eram injustificados. As duas pré-adolescentes oferecem-se para ajudar nas tarefas domésticas e não deixam nada desarrumado para que os pais não tropecem em alguma coi- sa, mas, de resto, são iguais a tantas outras, com as vaidades, inseguranças e manhas típicas da idade.

“Por enquanto, ainda têm muito que aprender para me enganarem”, ri-se Helena, depois de contar que sabe logo o que andam a fazer as filhas quando ficam caladas. “Estão no telemóvel ou a ver televisão sem som, há sempre algo que as denuncia.” Não servirá este artigo para se concluir que tanto faz os pais verem ou não, mas a maioria das vezes conseguir levar a bom termo a dupla tarefa de criar e educar é sobretudo uma questão de adaptação. Nunca o dito popular “A necessidade faz o engenho” se aplicou tão bem, pensámos quando Helena, José Manuel, Sara, Lurdes, Isabel e Paulo partilharam alguns dos truques a que recorrem no dia a dia.

Pedir para alguém fazer marcas com cortes nas seringas para evitar enganos nas dosagens dos medicamentos foi um dos que surgiu logo no início das entrevistas. Pelo caminho aprendemos também que existem balanças de cozinha falantes ou aparelhos que identificam as cores. E que a memória ainda é a grande aliada de quem não vê uns laços nas mangas de uma camisa e, bingo!, na loja alguém disse que esta é branca.

VENHAM DAÍ OS CARROS DA GOOGLE

Sempre que tem dúvidas, Sara Tadeu usa o seu Colorino para confirmar a cor da roupa que vai vestir a Luana, 1 ano acabado de fazer.

“Gosto que ela ande sempre arranjadinha”, diz. O aparelho, que parece um pequeno comando de televisão e diz em voz alta as cores, também é útil quando hesita na cor de uma sombra de olhos. Nasceu com a visão muito limitada porque a mãe contraiu rubéola durante a gravidez, mas ainda viu cores e sombras até aos 23 anos e hoje continua a adorar maquilhar-se.

Antes de enfiar a filha num canguru para ir com ela até um jardim perto de casa, na Azambuja, Sara demora-se ao espelho a aplicar contorno do rosto e iluminador. Escolheu uma saia e uma blusa bege, “discretas, para a fotografia”, e há de sair de bengala branca aberta e saltos altos. Faz tudo como sempre fez quando via alguma coisa; só precisa de ajuda para ir e vir do trabalho (dá apoio psicológico aos trabalhadores da Jerónimo Martins), por falta de transportes.

Quando pensou que estava na hora de ela e o marido, Hadiley, que é amblíope, serem pais, sabia ser um ato de coragem. Não se lembrou de que moravam num 2.º andar e que iriam ter de manter as janelas apenas entreabertas e tapar as tomadas do apartamento, mas assustou-a a falta de autonomia porque não têm familiares na vizinhança e nenhum pode conduzir.

Hadiley trabalha longe, na CUF Descobertas, e é federado do Sporting (pratica goalball, uma modalidade criada para cegos). Entre o trabalho e o desporto passa muitas horas fora de casa. Sempre que está sozinha com a filha, Sara não se aventura mais longe do que a loja de congelados da esquina; para ganhar alguma independência, já decidiu que, mal Luana comece a andar, vai comprar “uma daquelas trelas que os estrangeiros usam”. A locomoção é uma dor de cabeça para a maioria destes pais. Helena e José Manuel, outra vez eles, compraram um carro em segunda mão e pediram a uma vizinha para levar e trazer as gémeas da escola.

Mas todos os outros entrevistados viram-se obrigados a adaptar as rotinas depois de terem filhos, quase sempre incluindo mais horas de transportes públicos.

Lurdes Dias, Lu, chegou ao cúmulo de escolher o colégio da filha pela proximidade ao seu local de trabalho. O substantivo é nosso porque, para esta telefonista quase licenciada em Ciências da Comunicação, nada mais natural do que a prioridade ser a localização, à boca de uma estação de metro. “Defendo a escola pública, mas tive de optar pelo privado por causa da minha dificuldade de locomoção”, há de confessar, de olhos azuis muito abertos, numa esplanada de um café no centro de Lisboa.

Aos 13 anos, Alexandra já seria capaz de ir sozinha para casa, mas Lu gosta de lhe fazer companhia e aproveitar a viagem para conversar com a filha. Apanham o metro até ao interface do Campo Grande e, daí, uma camioneta que as leva até à zona de Camarate e isto todos os dias da semana, a não ser que Manuel, que não tem qualquer deficiência visual, lhes possa dar boleia.

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OS OUTROS E O MEDO DE FALHAR

Lurdes e Manuel conheceram-se quando eram adolescentes, numa colónia de férias. Aos 18, começaram a namorar e, entre o início do namoro e o casamento, ela começou a perceber que ia ficar cega.

Manuel sabia ao que ia. Sabia que Lu nascera com glaucoma congénito e só fizera uma vida escolar normal até ao 9.º ano. Daí para a frente, tudo se complicou, mas ainda conseguiu entrar na universidade. Só que há vinte e tal anos a tecnologia estava muito atrasada ainda não se encontravam disseminados programas de computador de voz, por exemplo.

Manuel também sabia que a futura mulher não tinha vontade de ser mãe pelo medo de pôr no mundo uma criança que pudesse vir a sofrer o que ela sofrera. “Não queria que um filho meu travasse as lutas que eu travei e travo”, justifica Lurdes. Mas ele queria tanto ser pai que avançaram depois de os testes genéticos concluírem que tinham as mesmas hipóteses de um casal sem qualquer deficiência.

Lu nunca chegou a ver a cara de Alexandra porque estava completamente cega (“já nem via luz”) quando ela nasceu. Aceitou isso bem, mas sentiu “a insegurança habitual de uma mãe de primeira viagem” aumentada pelos comentários de quem a rodeava. “As pessoas perguntavam-me muito como é que eu ia ser capaz, e só por causa dessa pergunta fiquei com medo de falhar”, recorda.

Se de início ganhou fobia às fraldas com cocó porque receava não limpar bem a filha, a primeira vez que lhe deu papa foi épica. “Com uma mão tentava ver onde estava a boca e com a outra fazia pontaria com a colher. O processo está fotografado: vê-se papa por todo o lado menos na boca dela”, ri-se, hoje. E quando Alexandra começou a andar, arranjou um truque para perceber rapidamente onde estava: “Prendia um pequeno guizo à fralda, como os gatinhos!”, goza. “Agora, parece ridículo, mas na altura deu-me muito jeito.” Entretanto, foi treinando o ouvido e ficando mais atenta às traquinices da filha, a quem lembrava constantemente que não via. Comer bolachas às escondidas era mato Lurdes já disfarçava a vontade de rir mas a miúda quase morreu de espanto um dia em que estavam a acampar, entrou calçada na tenda e a mãe ralhou porque sentira areia no chão. “Mas tu não és cega?!” Sim, Lurdes é cega e faz questão de andar sempre de bengala aberta e de ser ela a conduzir a filha, embora nos últimos anos já lhe peça informações. “Ensinei-lhe a solidariedade e o espírito de entreajuda porque, tal como eu, há muitas outras pessoas condicionadas.” Uns dias antes, ao vermos Rui chegar ao campo de futebol relvado do Grupo Sportivo de Loures, onde treina três vezes por semana, tínhamos fixado a maneira segura com que encaminhara os pais para a bancada, um de cada lado. “Comecei cedo a tentar fazer o melhor para que não batessem em coisas e para os ajudar”, conta.

AJUDAR O PAI A ESTUDAR

Rui era muito pequeno quando teve a noção demarcos-borga4 que Isabel e Paulo eram cegos. Com um ano e pouco, já apanhava a chupeta do chão se os via à procura, e pegava-lhes na mão para mostrar alguma coisa que queria.

Agora, aos 12 anos, sabe todos os caminhos e habituou-se a descrever aos pais o que acontece à sua volta.

Como passam a melhor parte do dia longe os pais trabalham em Lisboa, ela na Fundação Portugal Telecom, na área da responsabilidade social, e ele nas Finanças, como inspetor tributário, valoriza os tempos a três. Gosta que assistam aos treinos e ao jogo de futebol semanal, e, em casa, oferece-se para dividir tarefas. Nos últimos tempos, dá-lhe gozo recortar e colar notícias da época em que o pai era atleta paralímpico (correu os mil e os 5 mil metros pela última vez em Atenas, em 2004). Quando Paulo leva trabalho para casa, ajuda a conferir a papelada, e, se o pai tem de estudar, pergunta-lhe a matéria. Ter filhos fazia parte do projeto de vida de casados de Isabel e Paulo. Como ela tem retinose pigmentar e ele glaucoma, duas doenças hereditárias, fizeram testes genéticos. O resultado 50/50 levou-os a avançar. “Se nos dissessem que era muito provável um filho nosso vir a sofrer de alguma das nossas doenças, se calhar não arriscávamos”, admite Isabel. “Mas felizmente tivemos sorte, o Rui saiu bem.” Quando entrou na escola, os professores estranharam de início mas foi só porque já sabia ler quase corretamente. Tinha-se posto a copiar para o computador os nomes dos jogadores dos cromos de futebol e o software de voz fez o resto. Ser filho de cegos não é obrigatoriamente uma desvantagem.

(Artigo publicado na VISÃO 1232, de 13 de outubro)

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http://visao.sapo.pt/actualidade/sociedade/2016-10-22-Nunca-vi-os-meus-filhos

 

 

 

 

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