A “sorte madrasta” pode ser a sorte grande… Mário Cordeiro

Novembro 5, 2016 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto de Mário Cordeiro publicado no site http://www.paisefilhos.pt/ a 28 de setembro de 2016.

As famílias são unidades dinâmicas, pelo que é uma asneira científica, social e antropológica pensar que existe uma “família tradicional”: há vários tipos de família e, por exemplo, o número elevado de separações leva a que muitas crianças vivam em família “dupla”, com o pai e com a mãe em diferentes casas.

Como o casamento ou a união de facto não estão em crise, muitos pais separados reconstroem a vida, em novos caminhos para a felicidade. Porém, as crianças das anteriores ligações terão de viver com uma (ou duas) “outras pessoas”, sendo estas mais do que “amigos do pai ou da mãe”. Estas situações podem amedrontar os intervenientes ou causar embaraços, se não forem antecipadas e bem geridas.

As palavras padrasto e madrasta estão mentalmente associadas a situações de incompatibilidade; recordamo-nos das histórias de infância, de padrastos a zurzir nos enteados, ou madrastas que, como na Cinderela, humilhavam e punham em segundo lugar os filhos “herdados”, face aos seus. “Sorte madrasta!” – diz-se. À luz da evolução social e dos novos paradigmas, temos de rever estes conceitos: os padrastos não andam de chicote em punho, nem as madrastas são velhas com dentes salientes e caras de bruxa.

Todavia, podem surgir ciúmes ou mau entendimento do que se está a passar, levando a competição entre a criança e o padrasto ou madrasta. As crianças, sendo manipuladoras, podem tentar aproveitar alguma coisa com a “indefinição” da situação, explorando a eventual fragilidade dos que agora começam a “jogar o jogo”. É então que dizem algo como “não sabes nada disso porque não vivias connosco”, “não és o meu pai” ou “é natural que não te lembres porque isso aconteceu ainda não eras para aqui chamada”.

Da parte dos padrastos e madrastas pode haver dúvidas quanto ao investimento a fazer, quer afetivo, quer temporal e económico, para lá de alguns casos de competição com os pais biológicos do mesmo sexo: se um filho é um projeto a dois, um enteado é um projeto adotado, depois de concebido e realizado por outros. Todavia, nada nos diz que não possamos amar e gostar tanto desse “projeto”, para lá do fortíssimo elo de ligação que é o progenitor biológico com quem se vive.

Enteados e padrastos/madrastas não têm de se adorar… mas essa relação positiva surge na esmagadora maioria dos casos. Com o tempo, uns e outros abrem o coração e aprendem a amar-se, e a saber entender o papel do outro. O que não é admissível são, de qualquer das partes, faltas ao respeito, intrigas, chantagens, espiar, invadir a intimidade ou diminuir perante terceiros.

Os padrastos e madrastas dão muito e não podem ter medo de educar mesmo não sendo os progenitores. Esse “karma” não os pode inferiorizar.

Finalmente, sublinho que estou plenamente de acordo com a legislação que dá aos padrastos e madrastas o poder de, caso seja sua vontade e o outro progenitor ou o tribunal aceitem, continuarem a viver com os enteados no caso de morte ou incapacidade do progenitor com quem vivem. Afastar pessoas que, muitas vezes, vivem com as crianças quase desde que estas nasceram e com as quais desenvolveram, reciprocamente, laços de afeto e educativos, será, na minha opinião, uma agressão e um maltrato à criança… e uma indecência para esses adultos que tanto deram e podem dar a essa criança.

 

 

 

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