“Se os pais fazem várias coisas ao mesmo tempo, os filhos aprendem a fazer o mesmo”

Outubro 4, 2016 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto da http://visao.sapo.pt/ de 12 de setembro de 2016.

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Clara Soares

Jornalista e Psicóloga

No arranque de mais um ano letivo, a VISÃO foi ao encontro da mãe e psicóloga de desenvolvimento Ana Manta, que acaba de lançar o livro Filho, Presta Atenção! (Clube do Autor, 170 págs., €12,50), com dicas e propostas de atividades para fazer em família. A ideia consiste em divertir e treinar competências desde cedo, com uma finalidade simples: concentrar-se com gosto é possível e está ao alcance de todos.

Há década e meia que Ana Manta trabalha numa equipa de intervenção precoce, no centro de saúde de Valongo, onde acompanha crianças com necessidades especiais e miúdos com atrasos de desenvolvimento e problemas de comportamento, como impulsividade e dificuldades em focar-se. Por guardar boas recordações do seu regresso às aulas, ela quis transmitir esse gosto aos três filhos, com quatro, dez e doze anos, admitindo que se inspirou no mais novo para criar exercícios que promovam o treino da atenção, no contexto das rotinas familiares.

Pais e educadores queixam-se dos problemas de atenção das crianças. A ser um problema real, como se resolve?

Esta geração de adultos foi-se afastando-se dos jogos lúdicos que antigamente se cultivavam entre pais e filhos. Esse lugar passou a ser ocupado pelas tecnologias e manifesta-se, depois, nos tais problemas de concentração. Tenho a sensação de que os pais que acompanho se sentem um pouco perdidos, já que os gadgets ganham terreno, empobrecendo a relação. Em nossa casa estabelecemos pelo menos meia hora por dia para estarmos juntos sem tecnologia.

É por isso que investiu tempo a construir exercícios e jogos “à moda antiga”?

Sim, a maior parte dos exercícios que fiz para o livro tem por meta aproximar pais e filhos. A relação é a base do sucesso educativo. Os pais querem que os miúdos sejam bons alunos mas para isso é preciso investir primeiro numa relação de qualidade, que os torne seguros e confiantes e sem medo de arriscar.

O que é, e para que serve, o método Sebastião?

É um conjunto de jogos que tem por meta integrar emoções e sensações e treinar a concentração através dos cinco sentidos. A ideia é usá-los antes do primeiro ciclo, mas os mais velhos também gostam e participam ativamente. Integro isto nas rotinas deles, a seguir aos trabalhos de casa por exemplo, quase como uma recompensa. Sugiro que os pais façam isto duas vezes por semana ou ao fim-de-semana.

Fala da atenção seletiva e dividida ou multitasking. Como se treina a primeira?

As crianças aprendem por imitação. Se os pais fazem várias coisas ao mesmo tempo, os filhos aprendem a fazer o mesmo. Não é necessariamente mau, mas é importante que seja treinada a atenção seletiva, sobretudo as turmas são grandes e convidam à dispersão.

Qual a diferença entre dispersão da atenção e hiperatividade?

A hiperatividade é um diagnóstico clínico muito específico. Em caso de dúvida, os pais devem procurar uma avaliação objetiva, já que muitas crianças que têm o rótulo de hiperativas não o são. O que é frequente é fazerem como vêem os pais fazer. Eu mesma, dei por mim a parar e a pensar: “Calma, eles estão de olho em ti 24 horas por dia!” E comecei a modelar os meus comportamentos, a olhar para as tarefas e a geri-las por tentativa e erro, a experimentar. Parar, focar, refletir.

Por exemplo, os filhos viam-na a escrever o livro. O que lhes dizia?

Eles percebiam e respeitavam. Sabiam também que depois de eles irem dormir eu ficava a fazer o meu trabalho de casa! É importante eles saberem como organizamos o nosso tempo. Mostro-lhes a agenda, com as notas escritas, é um modelo de organização para eles.

Refere que durante as atividades que faz, a criança não deve sentir que está só. Isso acontece muito?

Sem conversar não se pode interpretar o mundo. Se a criança ficar entregue a baby sitters virtuais, seja o Baby TV, o iPad, o que for, não podemos esperar que consigam manter uma socialização saudável com adultos e outras crianças. Não pretendo por culpas em cima dos pais, antes lançar um alerta: parem e pensem no que estão a fazer, pois podem com isso estar a formar seres com dificuldades no relacionamento interpessoal. É preciso aprender a ouvir e a retirar o mais importante do que se ouviu.Noto que há muitas casas onde as pessoas quase não falam, está tudo na sua bolha e não se ouvem.

O que gostaria de recomendar aos pais no arranque deste ano letivo?

A partir do terceiro ou quarto ano do primeiro ciclo, invistam na planificação, percebam o que eles podem e querem atingir. Organizem metas por disciplinas e notas. Nas minhas consultas, chego a dizer aos pais que o objetivo pode não ser ter muito bom a tudo, haver uma disciplina em que o suficiente chega para um filho se sentir bem.

O que faz mais falta às crianças?

Elas precisam de limites e regras bem definidas e também do respeito dos pais. Eles devem apostar numa relação segura, de confiança e proximidade, que é a base de todas as outras que os filhos levam para a vida.

 

 

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