“Nós, pais, somos os melhores brinquedos dos nossos bebés” Mário Cordeiro

Setembro 30, 2016 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista de Mário Cordeiro ao site http://www.novemeses.pt/pt/

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Escrito por: Iolanda Veríssimo

Com os depoimentos e revisão de: Mário Cordeiro, Pediatra.

Em entrevista à Nove Meses, o pediatra Mário Cordeiro lembra porque devem os pais brincar com os filhos.

O que é brincar?

Brincar é uma coisa que deveríamos fazer a vida toda. Trata-se de uma mistura de entretenimento, prazer lúdico, jogo com regras e organização, interação com os outros, mas com leveza, sem segundos sentidos, sem outros objetivos menos bons que não o descobrir potencialidades, talentos, áreas de interesse e que, na vida, se podem encontrar momentos endorfínicos e de prazer, e não apenas atividade sôfrega e sofrimento.

Quando é que um bebé começa a brincar?

Desde sempre. Um bebé brinca com a mãe, designadamente quando mama, brinca com as mãos, entretém-se. Aliás, há especialistas que demonstraram que um bebé brinca ainda dentro da barriga da mãe, ou seja, faz gestos e movimentos pensados e coordenados apenas pelo prazer de os fazer. Não digo que os pontapés que a mulher grávida sente correspondam a um jogo de futebol, mas sabe-se, por registos ecográficos e outros estudos, que o bebé se entretém, brinca e utiliza o seu próprio corpo para isso. Sabemos também que ouve, ouve os sons da mãe, ouve os batimentos cardíacos, a voz do pai e as vozes das outras pessoas. Brincar acompanha o ser humano desde sempre.

Porque devem os pais brincar com os filhos?

Porque os pais, sendo os modelos e exemplos, são as pessoas melhor colocadas para ajudar os filhos a crescer, não apenas em autonomia e responsabilidade, mas também no que toca ao saber brincar e jogar. Ensinando organização, metodologia, estruturação progressiva, de jogo em jogo, de momento em momento, de brincadeira em brincadeira, podemos ensinar aos nossos filhos a necessidade de uma atitude assertiva e responsável perante a vida, mas ao mesmo tempo uma descontração que é uma das maiores qualidades do ser humano e que nos ajuda, em muito, a enfrentar o quotidiano e a angústia existencial. O humor desconstrói muita da ansiedade e do drama, por vezes exagerado, que introduzimos nas nossas vidas.

Como é que o podem fazer?

Tendo (leia-se, arranjando) tempo, não sobrecarregando os momentos com excesso de regras e de espartilhos, e pensando que, mais importante do que estar novamente a ver as mesmas notícias na televisão ou agarrado obsessivamente ao facebook, talvez não seja disparatado reganhar o prazer de estar com outras pessoas, designadamente os filhos. Ter filhos não é só produzi-los ou “geri-los”…

Qual é o papel dos pais nas brincadeiras dos filhos?

Muito grande. Embora considere indispensável que, desde cedo (desde bebé), uma criança aprenda a brincar sozinha, o que é um excelente fator protetor para a vida futura porque nos ajuda a ter um mundo interior mais rico, o que serve de airbag quando a vida nos traz momentos maus e de desamparo ou abandono, as crianças precisam dos pais como companheiros de brincadeiras, mantendo o seu estatuto de pais (não andamos todos no mesmo infantário!) mas com cumplicidade e amizade. Aliás, o que estou a referir não é apenas para crianças pequenas, mas aplica-se a adolescentes também, e porventura durante toda a vida, mesmo quando os filhos já são adultos.

Há diferenças entre brincar com a mãe e brincar com o pai?

Sim. Diferenças naturais porque desempenham funções complementares, mesmo em casais do mesmo sexo. Os homens foram, durante milénios, os promotores da brincadeira exterior, especialmente com os rapazes, os grandes desafiadores dos espaços lúdicos exteriores e dos jogos, quando não estavam a caçar ou a fazer a guerra. Atualmente, contudo, pais e mães brincam, embora a brincadeira seja, ainda, um atributo natural e espontâneo dos pais, em geral. Dou um exemplo: uma mãe terá a tendência em contar uma história, como a dos Três Porquinhos, lendo o livro. Um pai fará uma dramatização, inventará vozes, desfiará o enredo, gozará com as situações… O registo é diferente.

Diz-nos num dos seus livros que “os pais são, ainda, o brinquedo favorito do bebé”. Porquê?

São. Os bebés descobrem a vida a partir dos pais e estes são muito melhores do que qualquer brinquedo que exista numa loja de brinquedos. Têm cheiro, toque, falam, ouvem… Vêm equipados com muitas funções e até têm pilhas que duram eternidades… A sério: nós, pais, somos os melhores brinquedos dos nossos bebés.

Porque é que é bom para a criança brincar?

Brincar não é uma atividade feita de gestos gratuitos e sem nexo, como muitas vezes a desconsideramos, porque o que a criança faz é supostamente «coisa de criança». Não! Brincar é uma das atividades mais elaboradas porque, para além de indispensável, desenvolve a criatividade, o imaginário, a imaginação, a alternância, o sentido figurativo e representativo, e a organização dos gestos, das falas e dos cenários. Não há outra atividade tão completa como o brincar. Dizia o Professor Robert Debré, um grande pediatra, fundador da Unicef, que até as amibas brincam: após uma fase em que agitam os seus prolongamentos em busca de comida, continuam a fazê-lo, nem que seja para tocar em outras amibas – se não é para recolher alimentos, então fazem-no provavelmente para brincar.

Que erros devem os pais evitar neste contexto?

Não basta pegar nuns quantos brinquedos e bonecos e dar a uma criança para que esta se sinta feliz. Pelo contrário, vai sentir-se, em determinados momentos, muito frustrada e infeliz. Os bebés precisam de aprender a brincar sozinhos, e fazem-no enquanto o brinquedo permite exploração e descoberta, mas logo esgotam as suas possibilidades individuais e precisam de quem lhes aponte mais soluções para o objeto ou para o jogo. É por isso que brincar com uma criança é estar com essa criança. Estar disponível, estar ao nível dela (no chão, olhos nos olhos), ter tempo e não dar ao bebé a sensação de que se está sempre com pressa e a despachá-lo. Não se trata de sermos escravos dos nossos filhos, mas de estarmos disponíveis e tentar encontrar esse tempo que é escasso mas que pode ser arranjado. Às vezes entramos num registo um bocado bizarro: queixamo-nos do pouco tempo que temos para estar com os nossos filhos e estragamos esse tempo com palermices que não valem nada, com regras e regrinhas, a que acresce uma enorme falta de paciência e de disponibilidade. E as crianças sentem isso, pode crer.

Brincar com um irmão mais velho pode colmatar o facto de a criança não brincar com os pais?

Todas as crianças brincam e não precisam de brinquedos, embora quando a brincadeira passa a jogo, é sempre bom ter alguém com quem brincar. A ausência de um outro pode levar ao isolamento e ao refúgio em ecrãs, sejam os do telemóvel, sejam a televisão ou computadores. Os bebés, por exemplo, servem-se do próprio corpo, que é um excelente brinquedo, e brincam com as mãos, com os pés. Brincar de esconde-esconde, bater palminhas, conhecer a própria cara, cantar músicas. Os mais velhos agarram em dois ou três objetos e fazem deles o que querem, inventam histórias e ações. As crianças brincam onde quer que estejam, porque também consideram brinquedos todos os objetos e utensílios que manuseiam. Quantas vezes nos irritamos quando queremos que eles se despachem a comer ou a vestir, de manhã, quando faltam cinco minutos para o autocarro ou para o trânsito, ou para isto ou para aquilo, e eles já estão a utilizar os talheres ou as roupas para inventar histórias. E nós dizemos: «Mas come!» e eles já estão noutra. E nós então dizemos: «Mas não sejas criança!» e não há ninguém por perto que nos faça ver o ridículo da nossa atitude, porque brincar é um processo do desenvolvimento e os processos de desenvolvimento são processos muito importantes, acima de qualquer poder de adulto, um processo contínuo, desde que se nasce até que se morre.

Porque é que brincar é um direito da criança?

A resposta é simples: porque viver, ser feliz, ter momentos humanos de simplicidade, imaginação, criatividade, alegria e prazer fazem parte da nossa existência terrena. Não é só no Céu que se deve procurar a felicidade. A nossa velha Terra pode proporcionar-nos momentos de plenitude e reconforto. Brincar é um deles, para lá do que se aprende com o brincar. Em qualquer altura da vida. Pelo menos, falo pela minha experiência pessoal. Gosto de brincar e não tenho vergonha de o dizer. E sinto-me mais humano, uma pessoa melhor e mais rico, quando brinco. Com a devida proporcionalidade e com o sentido de adequação, mas sem deixar de o fazer. Acho que, numa sociedade que tende para ser cinzenta e baça, preocupada em formar «cavalos de corrida para a retoma económica», o brincar seja cada vez mais reduzido… Será uma perda irreparável para a Humanidade e para as pessoas, em particular.

Perfil de Mário Cordeiro

É um dos pediatras mais reconhecidos em Portugal. Pai de cinco filhos, escreveu várias obras dedicadas aos pais e educadores, aliando a sua formação como médico pediatra aos vastos conhecimentos que tem nas áreas da Psicologia, Sociologia e Antropologia. Entre os seus livros mais conhecidos estão O Grande Livro do Bebé, Dormir Tranquilo e 1333 Perguntas para Fazer ao Seu Pediatra. Doutorado em Pediatria, foi professor de Saúde Pública na Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa e é membro da Sociedade Portuguesa de Pediatria e da British Association for Community Child Health.

 

 

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