40% do alunos que terminam o ensino secundário não prosseguem estudos

Setembro 24, 2016 às 5:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do http://observador.pt/ de 11 de setembro de 2016.

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Marlene Carriço

São os alunos que concluem o 12.º pela via profissional que mais ficam pelo caminho. Governo está a estudar maneiras de “evoluir no ingresso no ensino superior”. Cursos técnicos superiores são aposta.

Mais de 25 mil estudantes que terminaram o ensino secundário no ano 2013/14, não prosseguiram com os estudos. Feitas as contas, isso representa 40% dos 62.923 que concluíram o 12.º ano, de acordo com o estudo “Transição entre o secundário e o superior”, divulgado este domingo pela Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC).

Os números preocupam a equipa de Manuel Heitor, ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, que, num encontro com jornalistas, na passada sexta-feira, afirmou que “o pior que pode acontecer é não estarmos a educar mais jovens com 18 anos”.

Cerca de 20 mil jovens que terminam o ensino secundário não estão a ingressar no ensino superior. No público adulto, entre os 25 e os 30 anos, de acordo com a DGEEC, há 200.000 pessoas com o 12.º ano que nunca tiveram oportunidade de ingressar no ensino superior”, declarou.

E olhando mais a fundo, percebe-se que o grande problema está nos alunos que concluem o ensino secundário pela via profissional. É neste segmento que se observa uma maior taxa de jovens que pararam de estudar: 82% dos 22.845 jovens que concluíram o 12.º ano em 2013/14 não foram encontrados a estudar em nenhuma via de ensino no ano seguinte. Esta taxa compara com os apenas 16% de estudantes da via científico-humanística que terminaram o seu percurso de estudos no 12.º ano, como pode observar no gráfico que se segue. Passando o ponteiro por cima da imagem poderá verificar quais as percentagens de alunos que prosseguiram uma ou outra via.

E muitos fatores podem explicar esta realidade, como o próprio estudo elenca. Desde logo, os alunos que enveredam pelo profissional no secundário têm, em regra, um histórico de notas mais baixas ou até chumbos. Depois, o concurso nacional de acesso ao ensino superior usa critérios de seleção adaptados à formação dos alunos que frequentam a via científico-humanística no ensino secundário, ou seja, as provas de ingresso coincidem com os exames nacional que avaliam conteúdos específicos destes cursos e não dos cursos profissionais. E a juntar a tudo isto, o ensino superior tem estado “muito afastado do ensino profissional”.

Precisamente para corrigir alguns destes pontos, o Governo está a estudar “alterações ao regime de acesso ao ensino superior, designadamente as que se referem às condições de ingresso dos estudantes com um curso secundário profissional ou artístico especializado nos cursos de licenciatura e integrados de mestrado”.

O ministro esclareceu, porém, que não existe “nenhum compromisso em alterar o regime geral de acesso”, até porque é “algo que só deve ser tocado com grande consenso da sociedade portuguesa”. Por isso mesmo o relatório que resultar deste grupo de trabalho, até ao final de setembro, será posto à discussão e “só depois tomaremos decisões”.

Além disso, este Ministério vai apostar nos cursos técnicos superiores, criados pelo anterior Governo, que são formações de nível superior de dois anos, que não conferem grau.

“O que sabemos é que as formações curtas podem ser uma via facilitada para estimular os jovens que optaram por vias profissionalizantes a ingressarem no ensino superior. E por isso criámos um grupo de trabalho para estudar formas de evoluir no ingresso no ensino superior. No ideal queremos um ensino superior aberto e diversificado, que estimule a mobilidade social. As formações curtas são uma vida, mas não a única para estes estudantes”, afirmou o ministro Manuel Heitor.

Neste ano letivo que agora vai iniciar vão abrir 580 cursos diferentes, com uma capacidade para receber 18.193 alunos em 98 localidades distintas. As instituições superiores públicas (institutos politécnicos e unidades de ensino politécnico dentro de universidades) estimam vir a receber 7.409 novos alunos por esta via.

Habilitações da mãe são mais determinantes do que nível de rendimentos da família

Estes dados revelam assim que a modalidade de ensino secundário que é escolhida pelos alunos influencia muito o prosseguimento de estudos e ainda mais do que o fator socioeconómico porque filhos de mães com habilitações superiores que escolham a via profissional no secundário têm menos probabilidade de aceder ao ensino superior do que filhos de mães sem habilitações que escolham cursos científico-humanísticos.

De facto, todo os grupos de alunos provenientes dos cursos científico-humanísticos (mesmo os grupos com indicadores de contexto mais desfavoráveis) têm, em média, taxas de prosseguimento de estudos acima das taxas dos grupos provenientes dos cursos profissionais (mesmo os alunos dos profissionais com indicadores de contexto mais favoráveis) “, lê-se no estudo apresentado pela Direção Geral de Estatísticas da Educação e Ciência.

Mas nem por isso o fator socioeconómico deixa de pesar nesta transição. É mais do que certo e sabido, por vários estudos que vão sendo publicados e até pelo senso comum, que alunos vindos de famílias com um contexto socioeconómico favorável têm à partida maior sucesso escolar e estudam mais anos.

Neste estudo, os investigadores desagregaram duas variáveis desse contexto — o escalão do apoio social escolar e as habilitações da mãe. E chegaram à conclusão que, “embora elas estejam correlacionadas entre si, a habilitação da mãe parece ter um efeito maior nas taxas de prosseguimento de estudos do que o escalão do apoio da ação social escolar”. É que “quando as famílias têm habilitações elevadas mais dificilmente aceitam que os seus filhos deem por terminados os estudos no final do secundário”, além de que incutem uma cultura de maior valorização do estudo e dão mais apoio escolar.

Ser público ou privado, ser rapaz ou rapariga pouco conta

Mais surpreendente pode ser o facto de não ter muita influência no prosseguimento de estudos a escola de onde se veio. Ou seja, ser ensino público ou privado pesa pouco na hora de o aluno optar por continuar a estudar no ensino superior ou não. Para os alunos diplomados em 2013/14 pela via científico-humanística, a taxa de prosseguimento de estudos em 2014/15 era de 84%, independentemente de terem frequentado colégios privados ou escolas públicas.

Assim como também tem “relativamente pouca influência” ser homem ou mulher. Isto é: olhando para os alunos que saem do ensino secundário, sem fazer distinções de vias de estudos, há mais mulheres a prosseguirem estudos superiores, mas isso é porque as mulheres estão sobre representadas nos cursos científico-humanísticos. Se isolarmos os alunos da via científico-humanística e da via profissional, “a probabilidade de prosseguimento de estudos é praticamente igual para mulheres e homens, até com ligeira vantagem para os homens no caso dos profissionais”, lê-se no estudo agora apresentado.

É em Coimbra que mais alunos prosseguem estudos

Fazendo um raio-X ao país, esta análise permite perceber que a maior percentagem de alunos que prosseguem os estudos depois de concluir o ensino secundário, na modalidade de científico-humanísticas, regista-se no distrito de Coimbra – 93% dos alunos estava a estudar um ano depois de ter terminado o 12.º ano. No canto oposto, está Faro onde a percentagem não ia, em 2014/15, além dos 78%, muito abaixo de Coimbra e bem abaixo da média de Portugal Continental (84%).

Desviando o olhar para os alunos que concluem o 12.º pela via profissional, “as assimetrias regionais são ainda mais marcadas”. Bragança destaca-se como o distrito em que mais alunos, vindos desta via, prosseguem estudos – 34%, o triplo dos estudantes que seguem esse caminho em Beja (apenas 10%). A média nacional ronda os 18%.

 

 

Regresso às aulas: como lidar com a ansiedade das crianças?

Setembro 24, 2016 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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texto do http://www.noticiasmagazine.pt/ de 11 de setembro de 2016.

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Por: Isaltina Padrão

Para algumas crianças, regressar à escola pode ser um pesadelo.

O seu filho já anda impaciente? E a dormir mal? Com a aproximação do início do ano letivo vem a ansiedade de quem passou três meses com a família, longe de colegas e professores. Se na maioria dos casos as crianças apresentam uma inquietação normal por regressarem à escola e mostrarem a roupa nova e os materiais acabados de comprar, outras chegam a ficar «doentes» só de pensarem em voltar à rotina.

Muito ativo e desorganizado, com uma forte imaginação, não foi nada fácil para Carlos, de 6 anos, ingressar no 1º ano. Todas as manhãs pedia aos pais para não o levarem à escola. Ia, tinha de ir. Mas, uma vez lá, desestabilizava a turma com constantes brincadeiras. Após várias repreensões, foi colocado na última fila para não perturbar tanto. Foi ficando sozinho e era dado como um mau exemplo de aluno. No recreio tornou-se agressivo e era permanentemente gozado. «Nunca vou ser bom em nada» passou a ser uma frase constante. E ia entristecendo.

Este é um de vários casos – felizmente, são a minoria – em que a escola não é apelativa para a criança. Professores, psicólogos e outros especialistas são de opinião de que um trabalho conjunto entre a escola e a família ajuda a superar esta aversão que, geralmente, se dissipa por si mesma com a habituação à nova realidade. «Todas as mudanças implicam ansiedade, devido ao medo do desconhecido subjacente a cada transição», diz Teresa Andrade, psicóloga e professora no Instituto Superior de Saúde Egas Moniz.

«Na transição para o 1º ciclo, são várias as mudanças e ainda mais as expetativas. Transitar de um lugar maioritariamente de brincadeira – a creche ou o convívio com os avós – para um de maior trabalho estruturado pode criar dificuldades e desafios, dependendo da personalidade, da maturidade e de caraterísticas específicas de cada criança.»

Assim, crianças mais calmas, com níveis mais elevados de atenção e concentração, obedientes e organizadas, com um desenvolvimento cognitivo e emocional saudáveis, são, na opinião dos especialistas, as que acabam por se adaptar mais facilmente a esta e a qualquer outra etapa da vida.

No entanto, Susana Algarvio, psicoterapeuta e professora no Instituto Superior de Psicologia Aplicada, sublinha o facto de a ansiedade do início do ano letivo ser normal, «independentemente dos resultados escolares». «Há bons alunos que se sentem ansiosos perante um novo desafio, assim como há alunos com histórias de insucesso escolar que sentem o mesmo tipo de ansiedade.» Mas a ansiedade excessiva pode gerar «comportamentos de evitamento, que podem, em casos extremos, conduzir a fobias». E é isso que deve ser evitado a todo o custo, para o bem-estar da criança.

Conheça os sintomas da ansiedade pré-escolar.

«No meu tempo é que era.» Não diga isso ao seu filho

Irritabilidade, pesadelos, perturbações do sono e alimentares, como perda de apetite ou comer em excesso, ou ainda o medo de não se lembrar das aprendizagens escolares, são alguns dos sintomas inerentes à mudança e reações frequentes perante marcos importantes como a entrada para o 1º ciclo do ensino básico – um alicerce que poderá ser determinante no adulto em que a criança se tornará. Caso os sintomas persistam, os pais devem procurar ajuda especializada. Em primeiro lugar, o problema deve ser exposto aos professores, que deverão conduzir a família para uma consulta de psicologia de forma a identificar o problema e tentar resolvê-lo.

Em alguns casos, a adaptação torna-se um processo mais difícil, que se prende fundamentalmente com o tipo de relação estabelecida entre cuidador e criança e que acaba por fragilizar esse mesmo processo. É aqui que, segundo Susana Algarvio, «os pais são uma peça-chave na adaptação da criança». Para esta psicoterapeuta, os sintomas são, regra geral, passageiros se os pais apresentarem a escola como uma etapa positiva na vida dos filhos. O que nem sempre acontece.

«Os pais podem reforçar negativamente a ansiedade das crianças ao apresentarem a escola como algo repressivo e castigador, dizendo coisas como “quando fores para a escola já não vais poder fazer isto ou aquilo”, esperando que a instituição e o professor os substituam na educação dos seus filhos, mostrando-se demasiado ansiosos relativamente à relação com as outras crianças, ou fazendo comparações com outros filhos ou outras crianças membros da família.»

Outro erro frequente é a comparação com outros tempos. Afinal, estes problemas de adaptação ao meio escolar são exclusivos da vida moderna? São, pelo menos, mais acentuados. E a razão é simples, defende Ana (nome fictício), professora da Escola EB1 Padre Andrade (agrupamento de escolas Frei Gonçalo de Azevedo), em São Domingos de Rana, Cascais. «Hoje os pais não têm tempo de qualidade para os filhos e estes acabam por ficar demasiado tempo na escola e pouco em casa. Sente-se que não existem relações/ligações familiares profundas e consistentes. Não há tempo de “rua” para brincar, as novas tecnologias também acabam por isolar e afastar não só as crianças entre si, mas também da própria família. Todos estes e outros fatores conjugados acabam por transformar as crianças em seres mais carentes emocional e afetivamente, o que irá ter impacto na sua forma de estar na escola.»

Pedir ajuda quando for necessário

Cada indivíduo tem caraterísticas únicas. A experiência de 21 anos com alunos do ensino básico diz a Ana que «cada educador da escola age e reage perante determinada situação em função da personalidade, da maturidade e da experiência ou criança. Mas há um esforço conjunto para entender e ajudar essas crianças, independentemente de ser ou não o professor titular do aluno.» Para facilitar a integração (dos alunos mas também dos pais) neste novo mundo que se abre, é imprescindível a interação da comunidade educativa – professores, pais, psicólogos e alunos. Todos têm uma palavra a dizer ou dão sinais daquilo que sentem. No caso das crianças, muitas vezes é necessário descodificar as suas atitudes em relação à escola. Susana Algarvio defende que «as crianças devem ser informadas sobre aquilo que as espera: um professor com quem irão aprender, a quem deverão respeitar, que esclarecerá as suas dúvidas e que as ajudará a ultrapassar as suas dificuldades ». No fundo, falar previamente sobre aquela pessoa e que é alguém em quem podem confiar.

Tão ou mais importante do que dizer «vais aprender a ler e a escrever» é explicar aos filhos que a escola é um lugar seguro, onde irá fazer desenhos e encontrar novos amigos com quem brincar. E como esta é uma fase em que os pais também estão a aprender, as suas preocupações devem ser sempre tomadas em consideração por aqueles que são mais experientes em arranques de anos letivos. As preocupações, dúvidas ou reservas dos encarregados de educação, segundo Susana Algarvio, «nunca devem ser desvalorizadas pelos professores ou por outros técnicos. Os pais devem ser sempre esclarecidos sobre as questões que põem porque a sua adaptação a esta nova etapa dos filhos condicionará a adaptação destes, sobretudo nos primeiros níveis de ensino».

Também os professores, por mais experientes que sejam, têm dúvidas e dificuldades em lidar com algumas situações. Os psicólogos em ambiente escolar (e não só) podem ajudar nessa tarefa de procurar entender os porquês de crianças e pais, no sentido de lhes fornecer ferramentas para entrar com o pé direito no novo ano letivo.

A ESCOLA TAMBÉM TEM DE SE ADAPTAR

As crianças não são todas iguais, defende Teresa Andrade. Para esta psicóloga, algumas, como Carlos (ver texto), não se encaixam no padrão de ensino vigente e há que ajudá-las na integração escolar de uma forma apelativa. Estamos perante alunos que «só a muito custo suportam as horas que lhes pedem que estejam sentados, calados e sossegados».

Infelizmente, muitos pais tendem a pensar que os seus filhos têm algo de errado «porque não conseguem ser iguais às outras crianças». Nada disso. Os meninos são todos diferentes e cada um requer uma maneira de ensinar diferente. Aqui entram os encarregados de educação, no papel de educadores. «Os pais podem complementar o ensino com outras atividades de aprendizagem que agradem mais à sua criança», diz a psicóloga, dando exemplos de como cativar a atenção dos filhos para as matérias escolares. Tal pode ser feito através «de jogos, passeios, aprender com os mais velhos a fazer coisas estimulantes, aprender matemática com a natureza ou a ler e escrever fazendo a criança inventar uma história que ela própria vai escrevendo».

 


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