Adolescentes americanas têm relações sexuais em troca de comida

Setembro 23, 2016 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do http://expresso.sapo.pt/ de 12 de setembro de 2016.

Descarregar o documento citado na notícia no link:

http://apps.urban.org/features/food-insecurity/

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Os rapazes dedicam-se ao crime, elas prostituem-se. São as impressionantes conclusões de “Impossible choices” (“Escolhas impossíveis”), um estudo levado a cabo por um instituto de Washington em parceria com o banco alimentar Feeding America. E a previsão é que a situação virá a piorar.

Um estudo do Urban Institute, nos Estados Unidos, revelou casos de adolescentes na América que estão a vender o seu corpo em troca de dinheiro para comprarem comida, devido à fome que está a assolar um dos países mais ricos do mundo. No caso dos rapazes, estes dedicam-se ao crime, roubando em lojas ou vendendo estupefacientes.

O estudo liderado por Susan Popkin focou grupos de jovens de 10 comunidades pobres espalhadas pelos EUA. No total, foram entrevistadas 193 pessoas, com idades entre os 13 e os 18 anos, divididas por dois grupos, com base no género. Para Popkin, as conclusões do estudo são “chocantes”, porque mostram que o nível de desespero é muito grande. Acrescenta ainda que a “situação vai piorar com o tempo”.

“Ouvimos a mesma história em todo o lado, um quadro realmente perturbador sobre a fome que afeta o bem-estar de alguns jovens mais vulneráveis. O facto de termos ouvido as mesmas queixas contadas da mesma forma por várias crianças em áreas geográficas diferentes diz-nos que há um problema ao qual devíamos prestar atenção”, garantiu Popkin. Os testemunhos destes jovens revelam que não há uma política focada nesta faixa etária, o que os obriga a fazer alguns sacrifícios, a saltar refeições e a passar fome, com consequências preocupantes a longo prazo.

Susan Popkin revela ainda as estratégias usadas pelos adolescentes para se alimentarem, que incluem tentar comer em casa dos amigos, passar fome para que os irmãos mais novos possam comer e guardar o almoço da escola para comerem à noite e, dessa forma, poderem dormir. Todos os jovens sabiam também quais os locais onde podiam comprar comida mais barata.

Em cada comunidade foram reportados casos de exploração sexual. De acordo com os investigadores, uma rapariga de Portland, Oregon, disse que era “como se se estivesse a vender, mas que faria o que fosse preciso para ganhar dinheiro ou para comer”. Um rapaz da Carolina do Norte explicou que “as raparigas preferem fazer sexo em troca do jantar do que receber dinheiro, para não serem apelidadas de prostitutas”. Uma rapariga de Chicago revelou ainda ter conhecimento de uma rapariga de 11 anos ter deixado a escola para trabalhar no mercado do sexo. Em Los Angeles, as raparigas põe anúncios em locais públicos, anunciando os seus serviços.

Nas comunidades mais pobres, tanto raparigas como rapazes admitiram roubar comida e outros produtos de necessidade básica de lojas locais, para si ou para a sua família. Algumas crianças começaram a roubar muito cedo. Mas vender drogas é também muito comum. Os jovens justificam-se dizendo que fazem o que é preciso.

Outra das conclusões do estudo, citado pelo “The Guardian”, dá conta que muitos dos adolescentes sentem vergonha por passarem fome e tentam esconder o facto. Muitos recusam aceitar comida em público ou ajuda vinda de pessoas de fora da família ou do seu círculo de amigos.

 

 

 

Crimes sexuais contra menores triplicaram nos primeiros seis meses de 2015

Setembro 23, 2016 às 2:11 pm | Publicado em Relatório | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.publico.pt/ de 22 de setembro de 2016.

o relatório mencionado na notícia é o seguinte:

Memorando Semestral 1.º Semestre 2016 Ação do Ministério Público no Distrito Judicial de Lisboa (Área Penal)

Lusa

Relatório semestral da Procuradoria-Geral Distrital de Lisboa dá conta da abertura de 496 inquéritos por crimes sexuais contra menores.

Os inquéritos de crimes sexuais contra menores mais do que triplicaram no primeiro semestre do ano, face a igual período de 2015, na área da Procuradoria-Geral Distrital de Lisboa (PGDL), segundo aquele organismo do Ministério Público.

Nos primeiros seis meses do ano, registou-se igualmente um significativo aumento dos processos entrados por negligência na prestação de cuidados de saúde, que duplicaram em relação ao mesmo período de 2015, e crimes fiscais, que aumentaram 41 por cento.

O memorando semestral, assinado pela procuradora-geral Maria José Morgado, refere que foram instaurados, entre Janeiro e Junho, 496 inquéritos por crimes sexuais contra menores na área da PGDL, enquanto nos mesmos meses de 2015 tinham dado entrada 128 processos.

Nos primeiros seis meses do ano, a área da PGDL registou 43 processos por negligência na prestação de cuidados de saúde, contra os 21 casos verificados no mesmo período de 2015.

O documento, que faz um balanço da actividade do Ministério Público (MP) na área da PGDL, adianta que foram instaurados 1383 inquéritos por crimes fiscais, mais 41 por cento do que no mesmo período de 2015. Verificou-se também um aumento dos inquéritos entrados por violência por agente de autoridade (mais 36%), contra agente de autoridade (mais 10%) e por violência doméstica (mais 8%), indica a PGDL.

De acordo com o mesmo documento, a violência doméstica continua a ser o crime com mais processos instaurados na área da PGDL, tendo-se registado um total de 5578 inquéritos.

Menos processos por corrupção

Por sua vez, os crimes que registaram uma descida, nos primeiros seis meses do ano, foram contra profissionais de saúde (menos 54%), contra pessoas vulneráveis (menos 18%) e a violência em comunidade escolar (menos 5%).

Também os processos entrados no distrito judicial de Lisboa por crimes de corrupção e afins sofreram uma ligeira diminuição (menos 4%), tendo dado entrada 194 inquéritos entre Janeiro e Junho, contra os 203 do mesmo período do ano passado. No entanto, o documento destaca que se verificou, no primeiro semestre, um “acentuado aumento dos valores monetários envolvidos” nos crimes económicos contra o Estado e corrupção e afins. O valor monetário dos inquéritos analisados totalizaram quase 50 milhões, nos primeiros seis meses do ano, enquanto, no período homólogo de 2015, o montava ultrapassava os 38 milhões.

No total, no primeiro semestre do ano, deram entrada na PGDL 79.694 inquéritos, menos 13.164 inquéritos que no período homólogo de 2015. No balanço adianta-se também que, no final do primeiro semestre, existiam menos 5863 processos pendentes comparativamente com a data homóloga de 2015.

A PGDL refere que a redução nas pendências se deve “unicamente à diminuição nas entradas de processos, sem a qual se verificaria um saldo negativo”. “A não se verificar esta diminuição nas entradas, as pendências teriam aumentado no distrito de Lisboa, o que se ficaria a dever à manifesta escassez de magistrados e funcionários”, sublinha ainda aquele organismo do Ministério Público (MP).

Fazem parte da PGDL as comarcas de Lisboa, Lisboa Norte, Lisboa Oeste, Madeira e Açores.

 

 

 

Quatro em cada dez jovens começam a beber aos 13 anos

Setembro 23, 2016 às 1:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do http://ionline.sapo.pt/de 21 de setembro de 2016.

O estudo citado na notícia é o seguinte:

ESPAD Report 2015 Results from the European School Survey Project on Alcohol and Other Drugs

Dados Portugal

http://www.espad.org/report/country-summaries#portugal

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Marta F. Reis

Inquérito conclui que há menos jovens a fumar e a beber em Portugal, mas muitos ainda começam cedo demais. 16% admitem ter problemas.

As notícias são mais boas do que más: nos últimos 20 anos tem diminuído a percentagem de jovens que fumam e bebem álcool e há mesmo uma fatia sem precedentes de adolescentes que nunca tiveram consumos problemáticos: no ano passado, 23% dos adolescentes com 16 anos garantia nunca ter tocado em tabaco, álcool ou drogas ilícitas. Resultados do inquérito internacional ESPAD, que desde 1995 tira o pulso à juventude em 35 países europeus, revelam, porém, que ainda são muitos os jovens que começam a explorar os limites numa idade precoce e há comportamentos de risco significativos. Mais de quatro em cada dez adolescentes portugueses admitem que aos 13 anos, ou antes, já tinham experimentado álcool e 5% já tinham apanhado uma bebedeira. Em relação ao tabaco, um quarto (24%) também já tinham fumado os primeiros cigarros e 5% começaram nesta idade a fumar diariamente.

Geração de 1999 O inquérito ESPAD (sigla inglesa para European School Survey Project on Alcohol and Other Drugs) abrangeu, em 2015, 96 042 jovens, incluindo 3456 rapazes e raparigas portugueses. A metodologia do projeto consiste em avaliar regularmente os comportamentos de risco aos 16 anos, pelo que nesta ronda de dados está em causa a geração nascida em 1999.

Se tem filhos nesta idade, eis alguns resultados que importa ter em conta, até se quiser ter uma intervenção proativa. Aos 16 anos, mesmo sendo proibido legalmente, 42% dos jovens portugueses dizem beber regularmente e 20% declaram ter tido pelo menos um episódio em que beberam mais do que a conta nos 30 dias anteriores ao inquérito – conceito de “consumo intenso” definido como ter ingerido cinco bebidas ou mais numa única ocasião.

Se os comportamentos a nível nacional surgem quase sempre dentro da média ou mesmo um pouco menos problemáticos do que noutros países, há um dado singular. Portugal é o segundo país, depois de Malta, onde as preferências dos adolescentes em matéria de álcool recaem sobre as chamadas bebidas brancas, como o vodca ou o absinto que alimentam os shots. Não obstante a tradição vitivinícola do país, é na Ucrânia ou na Moldávia que os jovens preferem o vinho, enquanto na Albânia ou na Bélgica a cerveja lidera.

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Em relação às bebidas, há ainda outro aspeto a destacar. Um terço dos jovens inquiridos a nível europeu admitem ter tido algum incidente enquanto estavam sob o efeito de álcool. Em Portugal, apenas 16% dos jovens admitem problemas, mas os dados põem a nu os riscos: 9% dizem ter perdido algum pertence, 4% envolveram-se em discussões e 3% em confrontos físicos. Sendo percentagens menores, é ainda possível perceber que 2% dos adolescentes portugueses reconhecem ter tido relações sexuais desprotegidas associadas ao álcool. Na mesma percentagem, dizem terem-se magoado a si próprios e terem tido comportamentos perigosos como nadar em zonas sem pé.

Raparigas começam a fumar mais No que diz respeito ao tabaco, aos 16 anos 9% fumam diariamente e 19% regularmente (declaram ter fumado no mês anterior ao inquérito). Se durante muito tempo os rapazes fumavam mais do que as raparigas, a situação tem estado a inverter-se e Portugal não foge à regra: entre a geração de 1999, a percentagem de raparigas que fumam ocasionalmente (21%) já supera a dos rapazes (18%).

O consumo de drogas ilícitas surge igualmente dentro da média internacional. Aos 16 anos, 16% dos jovens já experimentaram, a maioria canábis. O Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD), estrutura do Ministério da Saúde responsável pela área das dependências que promove o estudo em Portugal, destacou como um dos elementos positivos o facto de haver um consumo residual das chamadas das novas substâncias psicoativas. Recorde-se que, em Portugal, o fenómeno das smartshops, que vendiam drogas quimicamente parecidas com medicamentos controlados ou drogas ilegais mas sem estarem reguladas como substâncias ilícitas, foi travado em 2013, proibindo-se a venda de substâncias psicoativas à medida que estas eram do conhecimento das autoridades, o que levou ao encerramento de muitos estabelecimentos. Na altura começava a haver registo de jovens nas urgências com psicoses relacionadas com o consumo. O alerta mantém-se, porém, para a canábis, cujo consumo também pode desencadear crises e não tem diminuído.

Cuidado com os ansiolíticos

Porque os medicamentos são drogas e têm riscos, sobretudo quando tomados sem vigilância, o inquérito ESPAD apresenta também dados sobre o consumo de alguma medicação sem receita médica por parte dos jovens. Em Portugal não se verificam consumos de opioides, mas 5% dos jovens admitem tomar sedativos e tranquilizantes sem indicação de um médico – percentagem abaixo da média europeia, mas em que existe ainda assim uma chamada de atenção: este consumo sem supervisão parece ter uma incidência quatro vezes maior entre as raparigas. O SICAD destacou ainda que no país há um consumo deste tipo de medicamentos, mesmo com receita, acima do que acontece nos outros países, com 13% dos jovens portugueses medicados com ansiolíticos contra uma média de 8%. Estes dados não foram trabalhados no relatório internacional, mas o SICAD considera que é nesta vertente que os indicadores nacionais se afastam de forma mais negativa. Uma última matéria em que os comportamentos dos adolescentes portugueses não geram, por agora, particular preocupação é o vício dos jogos e da internet. Um quinto dos jovens dizem passar o tempo na net a jogar e 2% admitem apostas a dinheiro, percentagens ligeiramente abaixo da média europeia.

10% acham fácil arranjar coca

Não há consumo sem acesso e os resultados sugerem que ainda há muito a fazer. Quase 80% consideram ser fácil ou muito fácil ter acesso a álcool e 60% dizem o mesmo em relação ao tabaco, apesar de a legislação proibir a compra antes dos 18 anos. A perceção dos jovens sobre a facilidade com que conseguem arranjar droga é, contudo, mais surpreendente. Três em cada dez admitem ser fácil ter acesso a canábis e 10% têm a mesma ideia sobre arranjar ecstasy ou cocaína, drogas que, ainda assim, 2% dizem já ter consumido aos 16 anos.

Perguntas&Respostas

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Mário Cordeiro – Pediatra

“As escolas deviam estar mais empenhadas na promoção da saúde”

Passam-lhe pelo consultório casos de adolescentes a tomar sedativos e tranquilizantes? Quais são os motivos?

Não muitos. Creio que temos de olhar para estes dados com algum espírito crítico, não apenas para uma análise da amostra e sua significância e representatividade, mas para os possíveis vieses das respostas e a própria definição de caso. O que é “tomar um ansiolítico”? Todos os dias? Antes dos testes? De vez em quando? Receitados? Homeopáticos de venda livre? Se admitirmos que sim, que tomam mais do que antes, pode ter a ver com a informação, acesso, venda através da net, moda, e também necessidade face ao stresse. O mais importante é saber se os que tomam são os que necessitam e se os que necessitam são os que tomam.

Que tipo de intervenção seria necessária?

Informação, mas transformada em conhecimento, ou seja, dada por pais, professores, profissionais de saúde, e não nas redes sociais. É preciso falar verdade, explicar o que são drogas e medicamentos, e ser-se sério, rigoroso e científico na abordagem da questão quando se fala com um adolescente. No livro que publicarei em outubro, intitulado “Os Nossos Adolescentes e as Drogas – Realidades, Mitos e Verdades”, abordo este assunto, dirigido a um público juvenil, mas também aos educadores em geral. As escolas deviam estar mais empenhadas nesta promoção da saúde, mais do que em sobrecarregar os alunos de matéria exclusivamente académica. Aliás, é uma matéria que poderia ser dada transversalmente, em Língua Portuguesa, Matemática, História, Ciências, tal e qual a sexualidade deveria ser.

Os dados revelam que, não obstante tendências positivas, aos 13 anos, 24% dos jovens já fumaram e 41% já beberam. A esmagadora maioria acha fácil ter acesso a álcool e tabaco, e 10% a ecstasy ou cocaína. Os pais estão atentos ou são apanhados de surpresa por consumos, mesmo ocasionais?

As drogas já cá estão há muito tempo, vieram para ficar e ficarão. É por isso que, “deste lado”, há um grande trabalho a fazer de modo a que uma pessoa que sempre terá droga à sua disposição (incluindo tabaco, álcool e medicamentos legais, já sem falar nas ilegais) possa não a querer, recusá-la e dela não necessitar, porque tem uma boa autoestima, autoconceito, um percurso de vida de que gosta e objetivos de vida, para lá de amigos, família e uma rede social (que não as virtuais) de qualidade afetiva.

Que estratégias recomenda em termos de prevenção aos pais que fiquem preocupados?

A melhor prevenção é a informação, mas transformando-a em conhecimento e em sabedoria. Criar resiliência através de prática desportiva, cultural, artes, sentido ético, viver com frugalidade, e não estar sempre a vitimizar-se e a sentir-se com péssima vida, valorizar o que se tem em termos de círculo humano e também de bens materiais. Tudo isto leva a que a droga passe a ser dispensável e até um obstáculo à felicidade, mesmo que esteja ao virar da esquina. É nisto que temos de investir e, mais uma vez, creio que a escola deveria ter um programa transversal que tocasse em todas as disciplinas.

Perante que sinais devem procurar ajuda especializada? 

Se um adolescente começa a desinvestir na escola, nos amigos, nas relações pessoais, se se isola demasiadamente, perde a noção do mundo, está deprimido e tenta reagir enganando-se com curtos momentos de prazer e de esquecimento da realidade, se se torna violento, rouba, só pensa nisso, é urgente dar-lhe ajuda. Como me disse um inspetor da polícia em Oxford, “se encontrarem um papel de prata no quarto do vosso filho. não é certo que tenha sido para fumar heroína… pode ter estado apenas a comer uma tablete de chocolate…”. Mas há que estar atento e apoiar, mesmo que as coisas aconteçam e a situação seja dura. Os toxicodependentes são doentes e não estão nessa situação “por gozo” – chegaram lá por um percurso de vida de falta de objetivos, de luta, de fuga à realidade. Compete-nos, enquanto sociedade organizada, ser solidários com eles e tentar fazê-los sair desse estado de degradação humana, sejam drogas ilegais, seja o álcool ou o tabaco, que ainda são as drogas mais usadas em Portugal.

 

 

 

7 perguntas para o pediatra Daniel Becker: “Seu filho deve aprender que não é o centro do mundo”

Setembro 23, 2016 às 12:00 pm | Publicado em Vídeos | Deixe um comentário
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Entrevista do site http://www.revistapazes.com/ a Daniel Becker no dia 24 de julho de 2016.

pazes

Por Fabiana Santos

O pediatra Daniel Becker é o criador da Pediatria Integral: um conceito de que a criança precisa ser vista de forma mais abrangente. Não é apenas tratar e prevenir doenças, mas cuidar do bem estar emocional, social e até espiritual da criança e da família. São 20 anos de experiência de consultório no Rio de Janeiro. Formado pela UFRJ, ele é especialista em Homeopatia e mestre em Saúde Pública. Médico do Instituto de Pediatria da UFRJ, ele foi pediatra da Médicos sem Fronteira em campos de refugiados na Ásia e fundador de uma ONG, o CEDAPS, Centro de Promoção da Saúde, com atuação em comunidades carentes.

Becker é um apaixonado pela profissão e conta que ao olhar sua trajetória se diz satisfeito pelas escolhas que fez. Ele é separado, pai de dois filhos, um menino de 17 anos, roqueiro, e uma menina de 20 anos, psicóloga. “Eles são muito bacanas. Tenho muito orgulho deles”, diz o médico. Com tantos compromissos, entre palestras e consultas, ele abriu gentilmente um espaço na agenda para responder às minhas perguntas.

1.Na sua palestra no Ted, você diz que um dos pecados contra a infância é a “entronização”. O que isso significa? Estamos colocando nossas crianças em um trono?

A gente vive em tempos de hipervalorização da infância tanto pela mídia quanto pretensamente pela família e pela sociedade. Mas na verdade a infância é desvalorizada naquilo que ela tem de real, na sua essência. Um dos fatores que explica esse paradoxo é a falta de intimidade e de convivência entre pais e filhos por causa das questões da vida moderna. E quando estão juntos, os pais não conhecem essas crianças, não sabem lidar com elas. Estão estressados com os seus trabalhos, estão viciados nos seus telefones e não querem também se submeter à desaprovação social de uma criança que chora ou se comporta mal. Acaba que essa criança não tem direito de se manifestar de forma negativa, que faz parte do comportamento infantil. Ela não pode fazer uma birra, dizer “não”, chorar, explorar seus limites de atuação no mundo. Como os pais não sabem lidar com essas situações, a criança acaba tendo todos os seus desejos realizados, não lhe colocam limites, não lhe dizem que ela tem que lidar com a frustração. A gente quer calar a qualquer custo o mal estar. Então para parar com o chilique, a gente acaba cedendo. Ao invés de aprender as regras de convivência, a criança passa a ser uma rainha que dita as normas, os programas, os horários.

2.E o pecado que você chama de “superproteção da infância”?

A superproteção é impedir que as crianças tenham suas próprias experiências. A gente está presente o tempo todo, aquilo que os americanos chamam de “helicopter parent”, pais que ficam flutuando em torno das crianças fazendo com que elas não tenham a experiência do mundo, justamente porque os pais se interpõem entre o mundo e a criança. Elas ficam impedidas de lidar com o risco, com a aventura, com as relações interpessoais, com os problemas da escola, com a dor, com os machucados. Se a criança tem um problema com uma outra criança, os pais se interpõem para resolver a questão, no playground não deixam ela se arriscar a subir mais alto no trepa-trepa. É claro que ninguém quer que o filho quebre um dedo ou receba um ponto, mas são experiências da infância. A criança tem que ter a experiência do risco, do machucadinho e da frustração. Outra coisa muito grave é que para evitar os perigos do mundo, as famílias ficam muito em casa, se expõem pouco à natureza, as praças e as praias. Os riscos desses lugares existem e temos que lidar com eles, pois fazem parte da vida.

  1. Qual o prejuízo real para crianças que não sabem ouvir a palavra “não”? O que vai ser (ou já está sendo) dessa geração sem limites?

Eu já vi criança dormindo às duas da manhã, já vi criança de dois anos que comanda o que tem na geladeira e no armário da despensa. Outras que determinam o programa da família nos fins de semana, se elas não querem sair, ninguém sai. Pais que deixam a criança de 3 anos ficar horas na televisão porque não sabem desligar o aparelho e deixar ela ficar frustrada. Criança que come o biscoito ao invés da comida, que ganha o presente depois de ter se jogado no chão do shopping. Isso tudo causa um prejuízo enorme, tanto na qualidade de vida dessa família, quanto na psiquê, na emocionalidade dessa criança. Ela precisa saber que a sua vida tem limites, que a sua influencia tem limites, que o mundo não gira em função do seu umbigo. Muitos meninos e meninas dessa geração vão levar isso para a vida adulta e não só terão dificuldades de convívio como vão quebrar a cara nos seus ambientes de trabalho e em relacionamentos interpessoais. Porque nem sempre a vida vai acolher esse tipo de onipotência que é resultado de uma educação cheia de falhas nesse sentido.

  1. A culpa que os pais carregam é a grande vilã nessa história?

Eu tenho muito medo da gente restringir a questão à responsabilidade da família. A família é responsável sim, tem que saber lidar com a frustração, o choro, as emoções negativas da criança, tem que saber mostrar a ela que esses momentos passam, que estas situações vão deixar ensinamentos importantes. Os pais sentem culpa porque não estão presentes na vida dela e quando estão juntos querem dar coisas demais. A gente briga com essa história de dar presente, ao invés de dar presença. Muitas vezes o tal “deficit de atenção” é deficit de atenção de pai e mãe que a criança sofre. Mas a gente tem que justamente tomar muito cuidado para não piorar isso dizendo que os pais são os culpados porque o que leva a tudo isso é a vida moderna, é a perda de referências, é a falta de capacidade de aprender com as gerações anteriores, com a experiência dos outros, é a invasão do tempo de trabalho e do tempo de entretenimento no tempo em família, é o vício do smartphones. Tudo isso tem que ser pesado na compreensão desse fenômeno da entronização e da superproteção da infância, a gente não pode restringir a responsabilidade e nem as soluções apenas a nível familiar.

5.A justificativa sincera de muitos pais é de que eles fazem o melhor que podem, trabalham o dia todo, batalham para dar conforto aos filhos, chegam exaustos em casa. É até mesmo controverso: as pessoas querem ter filhos mas não conseguem ter tempo de conviver com eles. Como resolver este impasse?

As pessoas querem ter filhos e imaginam que tudo vai ser um mar de rosas. Elas têm que ter consciência de que vão ter filhos neste mundo em que vivem: nas grandes cidades, muitas vezes com a falta de presença de familiares, com trabalhos que demandam excessivamente, com transporte que fazem elas chegarem tarde em casa, isso tudo tem que ser incorporado por um casal quando eles planejam filhos. Planejar ter filho é ver o futuro. Claro que a maioria das pessoas não faz isso, a gente quer ter filho, a gente quer reproduzir a nossa própria genética, isso faz parte de um mandato biológico. Mas hoje em dia a gente tem que pensar nas condições de vida que essa criança vai nascer e como nós vamos dedicar o nosso tempo a ela. Isso faz parte da responsabilidade de um casal. É preciso planejar a carreira, o local de trabalho para que a convivência familiar seja maximizada, para que a criança cresça com a presença dos pais, dos avós, tios, primos. Escolher um lugar para morar com natureza por perto. De novo a gente não pode reduzir a solução deste impasse a nível da família, a gente tem que tentar pensar na sociedade como um todo. A sociedade brasileira é insegura, desigual e cheia de problemas e isso influencia nas condições de vida das famílias.

6.O video americano “Childhood is not a mental disorder” já deu o que falar sobre o uso exagerado de remédios em crianças para controlar “doenças do comportamento”? Você concorda que é preciso ter muito cuidado com os diagnósticos?

Eu gosto muito desse vídeo e ele traz mesmo uma dimensão terrível do que a sociedade está fazendo com a infância. O mercado pressiona a família por soluções fáceis, todo mundo quer resolver os problemas imediatamente. A energia da criança está sendo reprimida. É claro que o comportamento dela vai ser muito afetado por todas as questões que eu já citei, podendo se rebelar, ter insônia, desatenção, brigar na escola, ser impulsiva. Em vez da gente repensar como oferecer a estas crianças uma infância melhor, mais saudável, mais verdadeira, o que o mercado propõe é que elas sejam medicalizadas. A indústria de diagnósticos e de remédios é monstruosa e crescente. No Brasil, a Ritalina é o principal remédio usado para criança. Em 10 anos a venda de Ritalina subiu de 75 mil caixas para 2 milhões de caixas. O Ministério da Saúde agora está estabelecendo uma regulação para a venda do remédio. A gente não pode negar que essas doenças existem, o TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade) é uma doença grave, mas ela atinge um pequeno número de crianças. A grande maioria desses diagnósticos está sendo feita de forma arbitrária, sem critério suficiente, eu diria até perversa. É preciso mudar o comportamento da família ou ir para psicoterapia, terapia ocupacional, fisioterapia, fonoaudiologia, que são benéficas para este tipo de problemas e poderiam ser tentadas antes e de forma mais eficaz. Porque o remédio vai ter efeitos colaterais, vai rotular esta criança, como o video expõe muito bem, vai colocar na cabecinha dela que ela é apenas um transtorno e não uma criança que tem potencialidades múltiplas e possibilidades infinitas para o seu futuro. Tem a historia de uma mãe que levou a filha ao pediatra porque achava que ela tinha problemas e o pediatra deixou a criança com uma música e saiu da sala por alguns minutos com a mãe. Eles ficaram observando a criança do lado de fora, enquanto ela dançava o tempo todo. E o pediatra disse: “Sua filha não tem um problema, sua filha é uma bailarina, leve-a para uma aula de ballet e vão ser felizes”. Gillian Barbara Pyrke, a menina da historia, se tornou uma famosa coreógrafa da Broadway. Quantos gênios, artistas, cientistas nós não estamos perdendo medicando e rotulando essas crianças?

7.Quais as suas dicas para criarmos “crianças como crianças”?

Acolher as crianças nas suas emoções. Especialmente as crianças pequenas têm uma racionalidade limitada e uma emocionalidade muito grande. Se ela está com raiva, você pode dizer pra ela “você está com muita raiva”. E mostrar de forma teatral o que está acontecendo com ela, fazê-la entender o sentimento que ela está tendo e dar permissão para ela sentir essas emoções, tanto negativas quanto positivas. Acolher também os desejos: “você quer esse brinquedo, eu sei que você quer muito ele, eu te entendo, mas a mamãe não pode comprar ele agora”. Isso quebra um pouco esse mecanismo da birra. Ter convivência com os nossos filhos, oferecer a eles oportunidades de conversa, de refeições em família, de sair na rua juntos, brincar nos parques, subir no trepa-trepa, ralar o joelho no chão, cair do skate (com capacete!), subir numa árvore, levar um zero, aprender com a frustração. Tudo isso é importante para formar uma criança mais feliz e um adulto mais íntegro, preparado para conviver com o outro. Pra saber respeitar o outro a primeira coisa que a criança tem que entender é que ela não é o centro do mundo. Ela é um membro da família e ter relações igualitárias com os outros membros da família vai fazê-la entender que ela vive numa sociedade. Esse é o nosso papel como pais.

 

Sabe porque não deve bater no seu filho?

Setembro 23, 2016 às 6:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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texto do site http://www.maemequer.pt/ de 11 de setembro de 2016.

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Existem muitas formas de disciplinar (ou de ensinar) o seu filho. Bater-lhe, acredite, não é uma opção. E não resulta. A ciência explica-lhe porquê.

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Sabe porque não deve bater no seu filho?

Disciplinar é sinónimo de ensinar e as crianças aprendem melhor quando sentem que são valorizadas e alvo de atenção.

Como é que disciplina o seu filho? Castiga-o, privando-o temporariamente de algo de que ele gosta muito? Passa-lhe um “sermão e missa cantada”? Estabelece em conjunto as regras? Berra-lhe? Adverte-o? Não faz nada? Conversa com ele? Sente que não sabe como agir? Ou… bate-lhe?

Nas últimas décadas têm sido realizados diversos estudos sobre os efeitos associados a bater nas crianças.

As conclusões destes trabalhos foram, de uma forma geral, as seguintes:

  • As crianças cujos pais lhes batem são emocionalmente menos saudáveis do que as crianças que não sofrem castigos corporais.
  • As crianças cujos pais lhes batem apresentam uma maior propensão para desenvolverem depressão, ansiedade, se tornarem agressivas e virem a consumir estupefacientes.
  • Apesar de surtirem um efeito imediato, os castigos corporais conduzem a uma menor cooperação por parte da criança a longo-termo, produzindo nela um pior comportamento com o passar do tempo.
  • A punição corporal na criança foi associada várias vezes a um maior índice de problemas mentais, delinquência, agressividade e problemas de relacionamento com os pais.
  • Quanto mais se bate numa criança maior possibilidade se cria para esta bater em outrém como nos irmãos e amigos e, mais tarde, no parceiro.
  • Quanto mais os pais batem numa criança por comportamento antissocial, mais antissocial se torna o comportamento da mesma.
  • Bater numa criança constitui um forte indicador de comportamento violento na mesma.
  • Bater pode produzir medo na criança e fazer com que esta esconda as suas ações com medo de ser castigada quando se porta mal.
  • As crianças que sofreram castigos corporais mais intensos demonstraram menos massa cinzenta no córtex frontal e amígdalas hipervigilantes.
  • Bater numa criança ensina-a que a violência é aceitável.

Em suma, bater numa criança irá produzir um pior um comportamento na mesma, ou seja, acabará por surtir o efeito contrário do pretendido. E o medo que poderá produzir na criança não constitui, de forma alguma, o alicerce para construir uma relação saudável com a mesma.

Torna-se necessário, portanto, empregar métodos que ensinem a criança a autogerir-se. Os pontos abaixo poderão servir de referência para disciplinar, sem bater.

  • Procure fomentar uma boa relação com o seu filho, em que não haja lugar para ameaças e castigos. As crianças com uma boa relação com os pais querem-lhes agradar.
  • Estabeleça limites e reforce as suas expectativas sempre que necessário.
  • Se a criança não aceita as suas indicações é sinal que a vossa relação não é suficientemente forte. Repense as suas ações de forma a fortalecer a vossa relação.
  • Não se esqueça que a criança imita o que faz e não o que diz.
  • Avalie tudo o que ensina à criança tendo em consideração se o ensinamento fortalecerá os laços com a mesma.
  • Corrija a criança mas reafirme primeiro os laços com ela. As crianças portam-se mal quando se sentem mal com elas próprias e desligadas dos pais.

 

 


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