Mão que cuida, mão que bate?

Setembro 11, 2016 às 1:00 pm | Publicado em O IAC na comunicação social | Deixe um comentário
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texto do http://expresso.sapo.pt/  de 14 de agosto de 2016.

O texto contém declarações do Dr. Manuel Coutinho (Secretário–Geral do Instituto de Apoio à Criança e Coordenador do  Sector SOS-Criança do Instituto de Apoio à Criança).

FOTO GONZALO MARTINEZ/EYEEM/GETYY

FOTO GONZALO MARTINEZ/EYEEM/GETYY

 

Durante décadas, a palmada fazia parte da receita de disciplina dos pais. Agora sabe-se que é contraproducente, acentuando o comportamento que pretende travar .

Luciana Leiderfarb

TEXTO

Olavo Cruz

Infografias

Quem alguma vez não recebeu uma palmada? E quem não a deu ou quis dar? Uma simples prospeção pelas respostas possíveis mostra que, sobre a palmada, existe uma enciclopédia de vários volumes ainda por escrever. Em muitos deles entraria certamente o rol interminável de argumentos que os pais esgrimem para justificar o seu uso. Noutros, as não menos relevantes razões que defendem o seu banimento total. Noutros ainda, as diferentes etapas de uma história tão velha quanto o mundo — a da criança birrenta que não faz tenções de parar ou a do adolescente desafiador que concentra nisso toda a sua energia e a dos pais confrontados com a tarefa ingrata de os limitar e corrigir. Se a história da palmada se confunde com a da disciplina, e se durante anos ambas foram consideradas elementos inseparáveis do ato corretivo, a investigação feita nas últimas décadas veio provar que a sua união é não só abusiva como contraproducente. Numa palavra, que o recurso ao castigo físico em pouco contribui para a disciplina, acentuando o tipo de comportamento que supõe travar.

A esta conclusão chegou Elizabeth Gershoff num estudo publicado em abril deste ano no “Journal of Family Psychology”, que reduz a zero as dúvidas sobre as contraindicações da vulgar palmada. A investigadora da Universidade do Texas analisou 75 estudos realizados ao longo de cinco décadas em 13 países diferentes, abrangendo mais de 160 mil crianças. Focando-se naquilo que a maioria dos pais reconhece como castigo — a palmada de mão aberta no traseiro ou nas extremidades — e não nas variantes mais violentas, Gershoff identificou que esse tipo de experiência na infância está ligado a “mais agressão, a um incremento das atitudes antissociais e a problemas cognitivos e de saúde mental”, além de acarretar o risco de abusos mais graves. “A palmada não ensina as crianças a comportar-se apropriadamente, mas a fazerem-no só quando os pais estão por perto”, diz Elizabeth Gershoff ao Expresso, salientando que a maioria dos pais continua a bater nos filhos porque eles próprios tiveram essa experiência enquanto crianças.

Nos Estados Unidos vive-se, aliás, uma situação no mínimo contraditória. Num inquérito levado a cabo em 2015 pela Child Trends DataBank, 94% dos pais de menores entre os 3 e os 4 anos admitiram ter-lhes batido ao longo do ano anterior, enquanto 76% dos pais e 65% das mães concordaram com a premissa segundo a qual, por vezes, é necessário recorrer “a uma boa palmada”. Porém, como apontou um outro inquérito da organização de educação parental Zero to Three, a maioria dos pais que dão palmadas considera igualmente que bater não é uma forma eficaz de disciplinar. “Acredito que os adultos que receberam palmadas e acabaram por dar-se bem na vida tiveram pais que também usaram outras formas de os disciplinar, como falar com eles e explicar-lhes os ‘como’ e os ‘porquês’. A maioria de nós tornou-se o que é hoje apesar dos castigos corporais e não graças a eles”, defende Gershoff, cujo estudo desmonta a crença comum que distingue a palmada do abuso físico como o dia da noite. “A linha é sempre arbitrária e depende das variáveis que rodeiam a agressão, como a frequência, o contexto, a força utilizada e a sensibilidade da criança. E a pesquisa provou que a palmada tem as mesmas consequências prejudiciais que o abuso, apenas num grau ligeiramente mais baixo.”

Prática subterrânea

Segundo a UNICEF, vivemos num mundo onde 80% dos pais batem nos filhos. E numa Europa onde, de acordo com a Organização Mundial da Saúde, essa prática permanece um bastião da herança educacional de outros tempos. Basta um relance pelo “Relatório Europeu sobre a Prevenção dos Maus-Tratos Infantis” para perceber que o problema é maior do que parece: com o homicídio infantil a não ultrapassar os 850 casos por ano, diz o documento que “as mortes são a ponta do icebergue” — por cada morte estima-se que existam entre 150 e 2400 casos de abuso físico. “Os maus-tratos infantis são, em geral, uma forma escondida de violência que podem não ser detetados por cuidadores e profissionais durante anos”, lê-se logo no início. E mesmo os países com melhores sistemas de deteção deixam “90% das crianças maltratadas de fora”. Entre os 40 países europeus considerados, Portugal está nos de menor incidência de homicídio de crianças com menos de 15 anos, com 0,22 mortes em cada 100 mil. Mas a fasquia sobe quando se analisam as mortes que derivam de maus-tratos e negligência, chegando aos 0,51 e situando o país acima do meio da tabela.

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“Em Portugal, o castigo corporal é ainda muito frequente”, corrobora Manuel Coutinho. O secretário-geral do Instituto de Apoio à Criança, que é também coordenador da linha SOS Criança, reconhece que este modelo educativo está “muito enraizado” na sociedade portuguesa, sendo “aceite por uma grande parte das pessoas”. Isto apesar de o castigo físico ser ilegal desde 2007 e punido pelo Código Penal. “Há dois ditados populares ainda muito presentes: ‘Quem dá o pão dá a educação’ e ‘Um pão na mão, um pau na outra’. O seu cruzamento significa que o pai ou a mãe têm o poder de aplicar o castigo físico se assim o entenderem. E se hoje quase não o fazem em público, porque é malvisto, isso não quer dizer que não o façam de todo. É um comportamento subterrâneo”, explica o psicólogo. Em 2015, a linha SOS Criança recebeu 1857 apelos, dos quais 1349 envolveram diretamente menores. Em 903 casos, o infrator era um familiar, preponderantemente as mães, seguidas dos pais, dos padrastos e das avós.

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Também a APAV fornece dados inquietantes, como as estatísticas de 2014, em que 11,3% do total das situações de violência doméstica referenciadas incidiam sobre crianças e jovens até os 18 anos, perfazendo 823 casos. Da mesma forma, apurou-se que 979 dos perpetradores eram pai ou mãe das vítimas — e o facto de o número de perpetradores ser superior ao das situações registadas demonstra que não é raro haver mais do que um agressor por criança. “No limite, os adultos sabem que não deveriam bater. Sabem, ou têm de saber, o que um adulto de 1,70 m desorientado pode provocar numa criança de um metro”, opina Manuel Coutinho.

Parar para pensar

Mas entre pensar e fazer nem sempre há o intervalo certo. “No auge de um conflito é mais importante parar do que dar uma resposta. Até porque os miúdos, nesta fase, também não vão ouvir. Parar é uma forma de proteger a família e de os pais não se transformarem em agressores permanentes”, aconselha Sofia Nunes da Silva, acrescentando que, após a paragem, “o adulto regressa mais tranquilo e seguro de si”, mais capaz de dialogar e de dar à criança o castigo adequado. Para esta psicóloga clínica e terapeuta familiar do Hospital de Santa Maria, a tendência para repetir padrões de comportamento não esgota os motivos por que os pais continuam a punir corporalmente. “Há pais que são muito exigentes e atentos em relação às falhas dos filhos. Que olham para comportamentos naturais para a idade como formas de ludibriar a sua autoridade e como se fossem patológicos, quando na verdade não o são”, explica. E, por vezes, o conflito exacerba-se a partir de “problemas simples”, que requerem simplicidade para serem resolvidos.

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À exigência dos pais não é alheia a da sociedade em que se inserem. “Hoje em dia, as famílias têm vidas de uma exigência desumana, com existências limitadas aos horários excessivos de trabalho e às obrigações escolares excessivas dos filhos. E a disponibilidade para ouvir é escassa”, comenta Sofia Nunes da Silva. E se neste quadro há pais com índices de tolerância menores, há também crianças mais opositoras do que outras. “Não é verdade que não há crianças difíceis. Há. Mas é preciso os pais perceberem quando não conseguem lidar com elas e pedirem ajuda.” Afinal, a parentalidade aprende-se, e “os pais precisam de apoio na adoção de novas estratégias”.

Esse apoio não deve ser episódico. Tem de envolver os profissionais de saúde, que nem sempre abordam o tema da disciplina, partindo também eles do princípio de que essa é matéria exclusiva dos progenitores. “Os pediatras demitem-se de falar disto e não apostam na prevenção”, diz Ana Teresa Brito, formadora da Fundação Brazelton/Gomes-Pedro e doutorada em Estudos da Criança. Em causa está o desconhecimento dos pais perante as diferentes fases de crescimento dos filhos: “A criança precisa de se desorganizar para se organizar, por isso o adulto não pode desorganizar-se com ela. Bater-lhe não a ensina a controlar-se, porque é em si um ato de descontrolo. No fundo, estamos a dizer-lhe que aquilo nos ultrapassa, por meio de uma ação que invade o seu espaço físico e psicológico.” Sendo o objetivo último da disciplina que a criança aprenda a autodisciplinar-se, a palmada pode ter o efeito contrário ao que procura. “Às tantas, a criança também fica dependente desse estímulo negativo para parar e, como não encontra dentro de si própria os limites para o fazer, procura-os externamente, provocando os pais”, esclarece Ana Teresa Brito, que não considera a aceitação cultural da palmada um dado inultrapassável: “Não o é, senão continuaríamos a agir como nos século anteriores. Se é cultural e faz parte das rotinas, tem de ser trazido ao discurso para o ver e repensar.”

O estudo citado na notícia é o seguinte:

Spanking and child outcomes: Old controversies and new meta-analyses

 

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