“O sistema educativo português faz mal às crianças?”

Setembro 2, 2016 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , ,

Teto do site http://www.educare.pt de 26 de agosto de 2016.

educare

As crianças mudaram, os pais também. O mundo não é o que era dantes. Mas a escola continua quase igual. E não é só em Portugal.

Andreia Lobo

Com o ano letivo prestes a começar, uma família residente no Luxemburgo decide voltar a Portugal a tempo de matricular o filho no primeiro ano do ensino básico. Na bagagem trazem alguns receios. “É verdade que o sistema educativo português faz mal às crianças?” A pergunta é dirigida ao psicólogo Eduardo Sá: “Não, mas tomaria eu que fosse só o português que fizesse mal, significaria que todas as outras crianças da Europa viviam num paraíso.”

As crianças mudaram. Os pais mudaram. O mundo mudou. Mas “em Portugal ainda estamos a funcionar em função do passado”, critica Eduardo Sá. “A formação de professores continua mais ou menos igual e ainda não percebemos que as escolas não servem para construir jovens tecnocratas de sucesso, mas para construir pessoas melhores.”

Ainda assim, tranquiliza o psicólogo, “há cada vez mais escolas que percebem que os professores têm de ser escolhidos a dedo, que os projetos educativos têm de ser construídos em função dos professores e não em função de ideias absurdas”.

O professor da Universidade de Coimbra, acredita que é tempo de parar de “funcionar como se de repente ainda estivéssemos a escolarizar em massa”. Um olhar sobre o modo como os últimos ministérios da educação foram conduzindo algumas políticas leva a uma conclusão obvia: “Ainda não perceberam que a ideia não é entrar num clima de “ó tempo volta para trás””, ironiza.

Com o início do ano letivo é tempo de olhar para a frente. E pensar “como vamos construir um futuro melhor, com os professores e as escolas que temos, nutrindo uma ideia do que temos de criar para a educação”.   Desde logo, importa criar “de facto” escolas inclusivas e plurais começa por dizer Eduardo Sá. Quanto mais não seja, “porque a vida é o que há mais de inclusivo no mundo.” Educar para a inclusão, é um dos grandes desafios que se coloca à educação.

“Se criarmos nas crianças a ideia de que o exclusivo é bom e tudo o resto é atentatório não há sistema educativo por mais sensato que seja que salve as crianças.”

Por outro lado, antes da escola estão os pais, lembra o psicólogo. “Quando os pais fazem escolhas como deve ser, por mais que os sistemas educativos estejam constipadíssimos, as crianças crescem saudáveis.” Assim, aos receios da família que retorna agora do Luxemburgo, Eduardo Sá responde: “Não é por vir para Portugal que vai estragar o seu filho. Mas vai ter de ter um juízo imenso ao escolher o professor a quem os vai entregar. E uma sensatez fora do vulgar ao perceber que uma escola tem de ser um sítio aberto e plural.”

Menos mal

O que foi considerado um dos males do sistema educativo português está definitivamente afastado. Acabaram os exames nacionais do 4.º e do 6.º ano. Apesar de contarem 30% para a nota final, nunca houve consenso na comunidade educativa quanto à sua importância. E todos os anos, a sua realização enfrentava a oposição de pais e professores. Até que foram considerados “prejudiciais” para os alunos e extintos pelo atual Ministério da Educação.

O novo modelo de avaliação externo continua, no entanto, a dividir opiniões. Há quem receie que as provas de aferição façam diminuir o grau de exigência colocado pelos anteriores exames.

Contudo, os dois modelos de avaliação têm um denominador comum. Servem, basicamente, para perceber o que se passa num número significativo de crianças em relação aos seus conhecimentos. A apreciação do que os alunos sabem ou não continua com a realização das provas de aferição. A diferença? Não contam para nota. E realizam-se não no final do ciclo, mas a meio. Ou seja, testam os conhecimentos dos alunos do 2.º, 5.º e 8.º ano. O ano letivo de 2016/2017 inaugura em todas as escolas esta nova etapa.

Polémicas à parte, Eduardo Sá prefere desdramatizar. “Gosto que as crianças fiquem com dores de barriga antes de cada exame, porque à medida que eles vão a jogo é como se deixassem de estar sempre a jogar em casa e passassem a jogar fora. E, com isso, inevitavelmente crescem.”

No entanto, o psicólogo insiste em lembrar que a própria vida é feita de exames. Daqueles que não são forçosamente realizados com papel e caneta. “Às vezes tenho medo que se dê mais importância aos exames escolares que aos de todos os dias. E que as crianças se tornem muito habilitadas para aqueles exames e depois nos outros todos fiquem com carências graves.”

Perguntamos a Eduardo Sá o que não gostava nos antigos exames nacionais? “Não gostava dos professores que a partir de fevereiro infernizavam a vida das crianças por causa dos exames. Das direções de escola que infernizavam a vida dos professores por causa dos exames. E dos pais que empanturravam as crianças de explicações e as privavam de sábados e domingos, antes dos exames.”

Seja na avaliação ou na aferição de conhecimentos, para Eduardo Sá, professores e direções das escolas não podem ignorar as qualidades, nem as dificuldades das crianças e dos jovens que ensinam. “Os alunos são como as colheitas dos vinhos, nem sempre são como desejaríamos.”

 

 

 

TrackBack URI

site na WordPress.com.
Entries e comentários feeds.

%d bloggers like this: