Beatrix Potter: A rebelde obediente que mudou a literatura infantil

Agosto 25, 2016 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do https://www.publico.pt/ de 22 de agosto de 2016.

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Beatrix Potter Cortesia da PIM

Maria João Monteiro

A escritora e ilustradora britânica nasceu em 1866. Para assinalar os seus 150 anos, são editados pela primeira vez em Portugal os Contos Completos.

“Era uma vez quatro coelhinhos, e os seus nomes eram Florinda, Melinda, Rabinho-de-Algodão e Pedro”. Assim começa Pedro Coelho, um dos mais celebrados contos infantis de todos os tempos, com 45 milhões de cópias vendidas em todo o mundo e traduzido em mais de 36 línguas. No ano em que se celebram os 150 anos do nascimento de Beatrix Potter, foram emitidos dez novos selos pelo Royal Mail, no Reino Unido, com algumas das suas personagens mais emblemáticas, como o próprio Pedro Coelho, o Esquilo Trinca-Nozes e a Senhora Pica-Pisca. Que passaram, também, a ter um nome em português, já que a efeméride proporcionou, finalmente, a edição em Portugal do primeiro dos quatro volumes de Contos Completos que reúnem a totalidade do seu trabalho literário.

“São histórias fáceis de se gostar pelo aprumo estético que atrai as crianças e pelos piscares de olhos que fazem à inteligência dos pais”, diz o coordenador editorial Vladimiro Nunes, da editora PIM, uma nova chancela criada em parceria entre a Ponto de Fuga e a Europress. A publicação dá-se ao mesmo tempo que o Canal Panda está a transmitir A História do Pedrito Coelho. Carlos Vintém, da PIM, refere que é importante levar os grandes autores do passado às novas gerações, assoberbadas pela tecnologia. “Queremos que estes contos criem hábitos de leitura”, afirma o editor.

Pedro Coelho, o coelhinho de casaco azul que desobedece à mãe e vai comer as hortaliças do quintal do Sr. Gregório, Trinca-Nozes, o impertinente esquilo vermelho que tenta escapar à fúria do Senhor Pena-Parda, e a Senhora Pica-Pisca, a ouriço-cacheiro que leva roupa lavada aos animais com a ajuda de Lúcia, são algumas das criações mais marcantes de Beatrix Potter. E é um legado que continua bem vivo na sua antiga casa em Hill Top, no condado verdejante da Cúmbria, que pouco mudou desde que morreu em 1943.

Propriedade do National Trust, a casa de Beatrix Potter recebe todos os anos mais de dois mil visitantes de todo o globo ansiosos por explorar os locais que inspiraram as famosas ilustrações dos seus livros. Uma das nacionalidades que mais visita a casa é o Japão, porque é comum no país usar Pedro Coelho para ensinar inglês. “Todos os japoneses gostam muito da natureza e, quando li o conto, quis vivenciar um cenário tão bonito”, disse uma das visitantes japonesas à BBC News.

Filha de um casal da alta burguesia e a mais velha de dois irmãos, Beatrix Potter teve uma infância solitária e foi educada em casa por preceptoras, de acordo com os princípios da era vitoriana. Aprendeu Pintura e História Natural, sem descurar o gosto por contos de fadas, rimas e lengalengas. E começou, então, a explorar o exterior de caderno e máquina fotográfica na mão, rabiscando plantas e animais como ratos, coelhos e ouriços-cacheiros. “Encontrava um escape na criatividade e na observação da Natureza. Não há escape melhor do que a imaginação”, reconhece Vladimiro Nunes.

Foram os Verões passados em Dalguise, na Escócia, e no Lake District, em Inglaterra, que deram a Beatrix um refúgio face às obrigações familiares e às restrições de género em vigor na sua época. Entre 1881 e 1897, manteve um diário ilustrado com um código por si inventado que apenas foi desvendado em 1958, após a sua morte, aos 77 anos. Linda J. Lear, historiadora e autora do livro Beatrix Potter: A Life in Nature, explica ao PÚBLICO, por e-mail, que “não era um diário em que escondia os seus pensamentos e actividades, era mais uma forma de ter alguma coisa interessante para fazer todos os dias a nível intelectual e criativo”.

Durante este período, a escritora começou a escrever cartas ilustradas destinadas aos filhos dos seus amigos e cartões para vender de forma a poder ganhar algum dinheiro. Em 1883, conhecera Annie Carter, a sua nova preceptora, uma jovem culta e viajada. As duas ficaram amigas quando Annie se despediu para casar com Edwin Moore. Beatrix frequentava a casa dos Moore e enviava regularmente histórias ilustradas aos seus oito filhos.

A primeira referência a Pedro Coelho aparece aliás numa carta de 1893 dirigida a Noel Moore, o filho de cinco anos de Annie, que começava assim: “Meu querido Noel, não sei o que te escrever, por isso vou-te contar a história de quatro coelhinhos cujos nomes eram Florinda, Melinda, Rabinho-de-Algodão e Pedro.” Baseado no dócil coelho de estimação de Beatrix, Peter Piper, Pedro Coelho foi rejeitado por seis editoras. Determinada, a escritora publicou o conto de forma independente em 1901, ano em que saíram 250 exemplares distribuídos entre família e amigos. O sucesso não tardou e até Arthur Conan Doyle, autor das aventuras de Sherlock Holmes, comprou um para os filhos. Mais 200 cópias saíram até ao final desse ano.

A Frederick Warne & Co, que tinha rejeitado anteriormente a proposta, não ficou indiferente e pediu a Beatrix que refizesse a cor as ilustrações, originalmente a caneta preta. O conto foi republicado em 1902 e vendeu 50 mil exemplares no espaço de um ano, alcançando a sexta edição. “Todas as histórias [de Beatrix] começaram como cartas ilustradas, mas quando ela percebeu que havia mercado passou a fazer os desenhos a cor”, diz Linda J. Lear.

Aguarelas e palavras adultas

Foi a estreia da escritora de então 35 anos, que até ao final da sua vida viria a publicar 23 contos ilustrados. O equilíbrio entre o texto de fácil compreensão e o detalhe das aguarelas que retratam o campo, o interior das quintas e as tocas dos animais explica o êxito de Beatrix. “Ela respeitava o sentido de humor e a imaginação das crianças e não se coibia de usar palavras adultas como ‘soporífico’ e ‘afrontado’ nas suas histórias”, acrescenta a investigadora.

O trabalho de Beatrix Potter mudou para sempre a literatura infantil. A simplicidade das suas histórias e a riqueza das suas ilustrações atravessam gerações e diluem as fronteiras do mundo anglo-saxónico. Mark Brown, de 31 anos, é do País de Gales e lembra-se de passar serões no aconchego da sua cama a ler as histórias com os pais. “Tínhamos sempre os livros lá em casa e eu podia olhar para as imagens antes de saber ler bem”, diz ao PÚBLICO. Mark destaca as personagens “carismáticas e ternurentas” dos livros de Beatrix.

Jane Flanagan, de 43 anos, é da Nova Zelândia e recorda a colecção completa dos contos que havia em casa da avó. Começou a folhear as histórias antes mesmo de saber juntar as letras. “Ou alguém me lia A História do Pedro Coelho, ou eu sentava-me sozinha a ver as imagens”, conta.

A neozelandesa admite que foram as ilustrações que chamaram a sua atenção em primeiro lugar. “Através destes contos, aprendi a ler e encontrei prazer na leitura”, diz Jane, que ainda hoje convive com as histórias de Beatrix Potter. Agora é a sua mãe que tem os contos completos e, da última vez que a visitou com as sobrinhas, leu-lhes o conto de Pedro Coelho. “Foi um momento de nostalgia pela minha infância e de partilha da delas”, conta.

A inglesa Heather Nettleship, de 22 anos, também se lembra de ser apresentada ao mundo de Beatrix Potter quando era pequena. “A minha mãe costumava mostrar-me os livrinhos dela”, recorda. Segundo Heather, as ilustrações “delicadas e bonitas”, assim como as “histórias adoráveis” tornam os desenhos de Potter “intemporais”.

Isso explica que em 1980, quase quatro décadas após a sua morte, tenha surgido em York a Beatrix Potter Society (BPS), uma associação de profissionais envolvidos na curadoria do material da escritora. Linda J. Lear, membro da BPS, refere que “o objectivo é promover o estudo e a apreciação da vida e obra de Potter que, além de ter escrito 23 contos, era uma artista ligada à paisagem e à história natural, agricultora e conservacionista”.

O grupo tem cerca de 650 membros em todo o mundo, do Reino Unido aos EUA e do Japão à Austrália, que recebem trimestralmente um diário ilustrado e uma newsletter com informações sobre os eventos organizados. Uma das actividades mais importantes é o programa Reading Beatrix Potter, que incentiva a leitura das histórias da escritora nas escolas e bibliotecas locais. A iniciativa, que começou em 1998 no Reino Unido e em 2001 nos EUA, já chegou a países como França, Austrália e Canadá.

Antes de Walt Disney

Beatrix Potter era uma mulher à frente do seu tempo e a familiaridade dos pais com os negócios dotou-a de uma visão empreendedora. Assim que publicou o primeiro livro, registou a patente para um boneco de Pedro Coelho, pois achava que o merchandising seria uma boa estratégia para dar a conhecer os seus contos. “Foi um dos primeiros fenómenos da cultura popular e abriu caminho, por exemplo, a Walt Disney”, diz Vladimiro Nunes. Aos peluches, seguiram-se livros de colorir, puzzles e jogos de tabuleiro; aos poucos, a escritora construiu a sua independência financeira.

Sem nunca desobedecer à austeridade moral da época nem desrespeitar o compromisso de tomar conta dos pais, começou a investir os seus lucros numa propriedade rural do Lake District. A morte prematura de Norman Warne, de quem estava noiva, levou a que encontrasse no campo a cura para a tristeza, vindo a casar com William Heelis aos 47 anos, em 1913. Inspirada pela criação do National Trust for Places of Historic Interest or Natural Beauty, Beatrix comprou grandes terrenos para poder protegê-los do desenvolvimento da área.

Tida como uma “revolucionária alinhada”, Beatrix manifestava a sua rebeldia na forma como via o mundo, na relação afirmativa que mantinha com os seus editores – e através das suas personagens. Vladimiro Nunes dá o exemplo de Pedro Coelho, que é “medroso, mal comportado, pateta, um herói muito pouco vitoriano”.

Apesar de ser sobretudo conhecida por ter enriquecido a infância de milhares de crianças, Beatrix Potter era também uma talentosa cientista natural, com um particular interesse por arqueologia, entomologia e micologia, e que pintava também aguarelas de fósseis e fungos. Nos anos 1890, a sua habilidade para gerar esporos de uma determinada classe de fungos chamou a atenção do tio, o químico Henry Roscoe, que apresentou o trabalho de Beatrix nos Royal Botanical Gardens de Kew, arredores de Londres, e na Linnean Society, o mais antigo grupo britânico dedicado ao estudo da zoologia, da botânica e da biologia.

O seu trabalho, On the Germination of the Spores of Agaricineae, não recebeu muita atenção por ser assinado por uma mulher. No entanto, algumas das suas ilustrações ficaram no Armitt Museum and Library, em Ambleside, e ajudaram os micologistas a identificar alguns fungos. Em 1997, a Linnean Society emitiu um pedido de desculpas póstumo pelo sexismo com que tratou a sua pesquisa.

Os últimos anos da vida de Beatrix foram dedicados à conservação do património do Lake District e à melhoria de condições de vida no campo. Em 1930, começou a trabalhar directamente com o National Trust e ficou encarregue de algumas quintas, de hectares de floresta e de vários rebanhos. Decidiu que as quintas deveriam ser geridas por locais e ter obrigatoriamente rebanhos de ovelhas Herdwick, originárias da região. A conservação desta espécie em muito se deve à escritora.

A escrita continuou a ser parte da sua vida, mas a visão reduzida e o entusiasmo pela exploração pecuária determinaram que The Tale of Little Pig Robinson, publicado em 1930, fosse o seu último conto. Em 1926, tinha publicado nos Estados Unidos um livro mais longo, The Fairy Caravan, que achou demasiado autobiográfico para ser vendido em Inglaterra, o que só aconteceu nove anos após a sua morte. Entretanto, em 2014, foi descoberto o conto The Tale of Kitty-in-Boots, para o qual Beatrix só deixara, cem anos antes, uma ilustração pronta. A nova edição terá ilustrações do cartoonista inglês Quentin Blake e será publicada em Setembro.

Durante a Segunda Guerra Mundial, Beatrix Potter contribuiria para o esforço de guerra assegurando comida e lã. Acabou por morrer de pneumonia e problemas cardíacos ainda antes do fim do conflito, a 22 de Dezembro de 1943, deixando 14 quintas com mais de quatro mil hectares ao National Trust.

Mais de 70 anos depois, os leitores portugueses podem finalmente folhear os seus Contos Completos. Os próximos três volumes, que contêm algumas das histórias ainda inéditas em língua portuguesa, serão publicados em Setembro, Outubro e Novembro.

Texto editado por Inês Nadais

 

 

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