“Um professor mais motivado será mais dedicado”

Agosto 22, 2016 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista do site http://www.educare.pt/ a Afonso Mendonça Reis no dia 1 de agosto de 2016.

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Afonso Mendonça Reis criou a campanha “Inspira o teu Professor”. Uma iniciativa que anda pelas escolas para que os alunos percebam a importância de quem ensina.

Sara R. Oliveira

Este ano, Afonso Mendonça Reis, fundador das Mentes Empreendedoras e professor na Universidade Nova de Lisboa, esteve em Davos, na Suíça, a representar Portugal no Fórum Económico Mundial. O economista e empreendedor social teve oportunidade de divulgar a campanha “Inspira o teu Professor”, a iniciativa que ajuda alunos a perceber que os professores são importantes nas suas vidas. Com pequenos vídeos, cartas, pósteres, e mensagens inspiradoras.

“O que é preciso é criar as oportunidades para os alunos refletirem, desenvolverem e verbalizarem a sua opinião sincera”, diz ao EDUCARE.PT. Na sua opinião, é necessário, antes de tudo, sensibilizar alunos, pais, toda a comunidade, para que o papel dos docentes seja efetivamente valorizado. “Através de palavras inspiradoras e gestos simples de agradecimento iniciados pelos alunos e que se estendem posteriormente a toda a comunidade, acreditamos que estamos na direção certa para ajudar a reforçar a missão do professor.”

Criou as Mentes Empreendedoras que escuta ideias dos alunos. Algumas já estão no terreno. Bruna combate o bullying com ações de educação pela paz numa escola primária de Guimarães. Numa escola do Barreiro, um grupo de raparigas criou um centro de voluntariado que está perto da comunidade local. Em Faro, o Gonçalo recicla monitores, paletes e outros materiais, para abrigar gatos vadios que dormem na rua. “Temos testado com sucesso, ao longo dos anos, diferentes formas de integrar o nosso ciclo Mentes Empreendedoras no currículo do ensino oficial”, refere Afonso Mendonça Reis.

EDUCARE.PT: Como se inspiram professores? É mais simples do que parece?

Afonso Mendonça Reis (AMR): Existem princípios da liderança positiva que nos aconselham a dar três elogios por cada reparo. Quando o fazemos, as pessoas sentem-se reconhecidas, mais motivadas e têm um melhor desempenho. Ter uma atitude mais positiva e inspiradora para com as pessoas com quem vivemos e trabalhamos é muito importante e deve ser reforçada regularmente.

A motivação e a inspiração podem vir de gestos tão simples como dizer “obrigado”, reconhecer o trabalho que o outro faz, incentivá-lo para que faça ainda melhor, celebrar as pequenas vitórias. E tem ainda mais valor quando isto é feito pelos nossos pares ou para quem nós trabalhamos. Por isso, através da campanha “Inspira o teu Professor”, queremos fazer os alunos refletir sobre a importância do papel que os professores têm nas suas vidas, em termos profissionais e pessoais, e a agradecer-lhes e inspirá-los de formas simples e concretas, através de pequenos vídeos, cartas e pósteres com mensagens inspiradoras.

E: Quem ensina tem noção da sua importância social?

AMR: Na minha experiência, enquanto docente, percebo a importância de os alunos desenvolverem competências transversais e de concretizarem o seu potencial e trabalho todos os dias com esse objetivo em mente. Os professores com quem temos trabalhado nas escolas têm consciência da importância do seu trabalho no desenvolvimento pessoal e profissional dos seus alunos – o facto de abraçarem projetos como o nosso reflete a compreensão que têm do valor que o mesmo cria para os alunos.

Contudo, desde 2013, e até pelos desafios socioeconómicos que o nosso país tem atravessado, temos assistido a uma crescente desmotivação e descontentamento na classe dos professores, o que de certa forma pode distorcer de forma negativa a noção que têm da sua importância social. Por vermos professores dedicados perderem a sua motivação, criámos a campanha “Inspira o teu Professor” – para reforçar a importância de valorizar o papel dos professores junto dos alunos e da comunidade em geral.

E: E quem aprende sabe valorizar o papel de quem ensina?

AMR: A nossa experiência nos workshops “Inspira o teu Professor” reflete isso mesmo. Costumamos dizer entre nós, nas Mentes Empreendedoras, que os alunos “dizem o que não pensam e pensam o que não dizem”. É típico dos alunos do Básico e Secundário criticarem os professores, protestarem com as aulas e com as notas. A verdade é que estudar exige esforço e nem sempre conseguimos ver os frutos ou a importância que esse esforço terá no futuro. Mas também é verdade que quando os alunos pensam mais profundamente sobre quem lhes ensinou a ler e escrever, a fazer contas, quem está todos os dias com eles, quem é exigente para que eles se tornem cada vez melhores, chegam à conclusão de que os professores são verdadeiramente essenciais no caminho que percorrem.

A título de exemplo, durante a campanha, houve vários alunos que, no final dos workshops feitos nas escolas, disseram que aquela era a primeira vez que estavam a refletir a fundo no papel dos seus professores e em toda a dedicação e esforço que fazem para os ensinar e educar; mencionaram também o quão importante era ter mais momentos em que fossem incentivados a pensar neste tema para poderem ver os professores de uma outra perspetiva, mais positiva e inspiradora. Concluindo: o que é preciso é criar as oportunidades para os alunos refletirem, desenvolverem e verbalizarem a sua opinião sincera.

E: Criou o projeto “Inspira o teu Professor”. O que se faz? O que se pretende com esta iniciativa?

AMR: A campanha “Inspira o teu Professor” tem como objetivo valorizar a missão social dos professores, motivando-os a fazer mais e cada vez melhor. Fazemo-lo de duas formas: através de workshops nas escolas e de uma grande campanha de comunicação nacional.

Os workshops são destinados a alunos do Secundário, de qualquer curso, e são orientados pelos mentores e amigos das Mentes Empreendedoras, em colaboração com os professores das respetivas escolas. Nestes workshops, ajudamos os alunos a refletirem sobre o impacto que os professores têm na sua vida e desafiamo-los a agradecer e inspirar professores com mensagens cativantes materializadas em vídeos, cartas, testemunhos, desenhos e qualquer outra forma de comunicação criativa.

A campanha visa chegar a todos os membros da sociedade: professores, alunos, pais, sociedade. Neste sentido, os materiais de comunicação produzidos têm cobertura nacional. Tendo em conta a importância de haver diferentes pontos de vista, pretende-se que haja um reconhecimento universal do impacto dos professores na sociedade: primeiro no desempenho escolar dos alunos e depois na mobilidade social dos mesmos.

Este ano, realizámos a primeira edição da campanha no final de janeiro: 51 workshops em escolas de norte a sul do país, em que participaram cerca de 1300 alunos e através dos quais foram inspirados mais de 100 professores. Foram produzidos pelos alunos centenas de vídeos, cartas e pósteres, alguns dos quais poderão ser encontrados na nossa página de facebook: http://www.facebook.com/inspireyourteacher. Atualmente, estamos a definir a estratégia para o próximo ano letivo, em que pretendemos alargar a mais escolas em todo o país e chegar a mais alunos, inspirar mais professores e sensibilizar cada vez mais a sociedade. Estamos também a falar com parceiros de forma a estender a campanha a nível internacional.

E: Acredita que é o professor o fator que mais impacto tem na aprendizagem dos alunos?

AMR: Existe evidência estatística, segundo estudos PISA da OCDE, que prova que, depois da família e do contexto socioeconómico, os professores são de facto quem mais influencia o desempenho escolar dos alunos.

E: O reconhecimento do professor está pouco trabalhado no nosso país? O que deveria ser feito?

AMR: A questão do reconhecimento da missão do professor está pouco trabalhada em Portugal e foi por isso que criámos esta campanha, para reforçar a importância dos professores na sociedade. Adicionalmente, à medida que fomos participando em fóruns internacionais, fomos encontrando várias pessoas que se identificaram com o problema e que queriam tornar-se embaixadores das Mentes e levar a campanha para o seu país.

É necessário, em primeiro lugar, sensibilizar os vários agentes da comunidade – alunos, pais, membros da sociedade em geral – para que se possa aumentar o reconhecimento dos professores, levando a uma mudança de atitude. Através de palavras inspiradoras e gestos simples de agradecimento iniciados pelos alunos e que se estendem posteriormente a toda a comunidade, acreditamos que estamos na direção certa para ajudar a reforçar a missão do professor.

E: Criou Mentes Empreendedoras e vai às escolas ouvir as ideias dos alunos. Tem escutado boas ideias?

AMR: Não só temos ouvido boas ideias, como temos presenciado e participado no desenvolvimento e implementação das mesmas.

Exemplos: O projeto Arco-Íris, implementado pela aluna Bruna, em Guimarães, combate o bullying através de dinâmicas de grupo de educação pela paz e cooperação numa escola primária. O feedback das crianças e educadoras é positivo e a sessão final resultou num compromisso das crianças em nunca mais ser “bully” e ser ativo no combate ao bullying. Este projeto inspirou mais jovens e já foi replicado por mais dois clubes Mentes Empreendedoras.

Numa escola do Barreiro, um grupo de raparigas que sempre se interessaram por voluntariado, sentiu que havia pouca informação e oportunidades locais para as pessoas poderem colaborar como voluntárias. Assim, criaram o projecto “Ponte – Centro de Voluntariado” que liga o voluntariado à comunidade local e suas verdadeiras necessidades: http://www.facebook.com/pontecentrodevoluntariado, uma página no facebook que serve como plataforma de encontro entre associações no Barreiro que precisam de ajuda para realizar os seus projetos e pessoas interessadas em colaborar como voluntárias.

Em Faro, o Gonçalo criou condições para os gatos vadios poderem viver na rua. Através da reciclagem de monitores, paletes e outros materiais, foram criadas casa de abrigo do frio, calor e chuva. Este ano, o Gonçalo tornou-se mentor e é ele agora quem ajuda outros alunos a desenvolverem as suas ideias.

E: O que é ser bom professor? O que é ser bom aluno?

AMR: No mundo de hoje, dizer o que é bom ou mau é um exercício bastante desafiante. A missão do aluno na escola é aprender e a do professor é ajudar o aluno a aprender. Criámos a campanha porque acreditamos que um professor mais motivado será mais dedicado e terá um melhor desempenho em prol dos seus alunos do que um professor pouco reconhecido e motivado. Acreditamos no reforço positivo e que uma colaboração e reconhecimento efetivo de todas as partes, alunos, pais e professores ajuda os professores a serem melhores a ajudar os alunos a aprender.

E: Os alunos deviam ter mais autonomia? De que forma?

AMR: Desenvolver autonomia é algo que, em si mesmo, é positivo. O trabalho que as Mentes Empreendedoras fazem na escola pretende ser um complemento ao trabalho já desempenhado pela comunidade escolar e sempre em colaboração com os professores. Temos testado com sucesso, ao longo dos anos, diferentes formas de integrar o nosso ciclo Mentes Empreendedoras no currículo do ensino oficial.

O ciclo Mentes Empreendedoras é um processo de desenvolvimento de autonomia, de liderança e de talento nos jovens do Ensino Secundário. Despertamos os jovens para a ação e apoiamo-los na implementação das suas ideias e na sua aprendizagem ao longo do processo. Pretendemos com isto gerar um “ciclo virtuoso” que ativa o potencial impacto social dos jovens, tornando-os referências inspiradoras na sua comunidade.

Os alunos são desafiados a identificar um problema na sua escola ou comunidade e, consequentemente, a resolver ou mitigar esse mesmo problema. A aprendizagem surge quando as experiências, orientadas para um objetivo concreto, são consolidadas e ajudam os alunos a serem cada vez mais eficazes na prossecução do seu projeto ou outros desafios da sua vida.

E: Quais são, na sua perspetiva, os principais problemas do atual sistema de ensino?

AMR: Acreditamos que um debate alargado interpartidário, envolvendo a sociedade civil, poderia gerar consensos que permitiriam ir edificando e revendo um sistema de ensino que cumpra todas as ambições que dele pretendemos perante as naturais restrições de recursos que existem.

 

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