Brincar é a forma mais natural de aprender

Agosto 5, 2016 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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texto do http://www.educare.pt/ de 8 de julho de 2016.

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As crianças passam pouco tempo no recreio da escola. Brincar é um momento que perde fôlego à medida que os anos avançam no sistema de ensino. Mas as brincadeiras são importantes. Testam limites, confirmam capacidades, desenvolvem a autoconfiança e a autoestima. E ajudam a combater o insucesso escolar.

Sara R. Oliveira

Brincar. Brincar. Brincar. Dentro e fora da sala? Apenas nos primeiros níveis de ensino? Brincar para aprender? Brincar na escola? Brincar em casa? Brincar para conhecer os outros? Brincar para perceber-se a si? Brincar tem prazo de validade? Brincar tem tempo contado? Aida Figueiredo, investigadora do Departamento de Educação da Universidade de Aveiro, autora do primeiro estudo nacional sobre a interação das crianças com os espaços exteriores das creches e jardins de infância, analisou atentamente o assunto e concluiu que os mais pequenos passam 10,8% do tempo no recreio. E pouco desse tempo é dedicado ao jogo livre. “Quando falamos com educadores, professores e pais, eles afirmam e reiteram a importância do brincar como estratégia de aprendizagem e desenvolvimento das crianças. Contudo, as suas práticas, na maioria das situações, não vão ao encontro destes testemunhos”, adianta ao EDUCARE.PT.

Há, portanto, um longo caminho a percorrer. À medida que os anos passam, brincar perde estatuto no sistema de ensino. “As pressões para o sucesso académico, independentemente da faixa etária, são de mais evidentes. Nas idades mais precoces, pré-escolar e até mesmo na creche, há uma tendência para a escolarização, sendo frequente a manifestação de intenções para a aprendizagem precoce de conteúdos académicos e alguma ansiedade por parte dos pais para uma entrada precoce na escola, tendo por base a ideia ‘quanto mais cedo melhor’”, observa a investigadora. Depois do pré-escolar, os programas extensos e o ensino expositivo, sublinha, “não facilitam a integração do brincar como estratégia de aprendizagem e desenvolvimento, sendo este remetido para o espaço/tempo de recreio com características muito limitadas, ou seja, espaços estéreis e duração de aproximadamente 30 minutos”.

Brincar implica interação da criança com o espaço e com o tempo. E permissão de um adulto que pode dizer sim ou não. Aida Figueiredo defende que o tempo dedicado ao brincar e o espaço e a atitude do adulto devem promover diferentes oportunidades como correr, saltar, trepar, escorregar, balancear. A possibilidade de explorar, de construir e reconstruir o espaço mediante os interesses da criança, “de brincar ao faz-de-conta, de ter espaços de intimidade e de poder escolher com quem brincar, sozinho ou em grupo, são igualmente importantes”. Até porque brincar é um alicerce essencial da cultura humana. É dar liberdade à criança para exprimir o que lhe vai na alma. É testar limites, confirmar capacidades, desenvolver a autoconfiança e a autoestima. “Contudo, atualmente, a ocupação do tempo livre da criança é, na maioria das vezes, regulada por atividades organizadas (não livres) e estruturadas pelo adulto, claramente com finalidades pedagógicas e de desenvolvimento de competências académicas”. “Os responsáveis pela ocupação do tempo/espaço da criança esquecem-se que o brincar é a melhor forma, e a mais natural, de as crianças aprenderem”, afirma.

Brincar traz benefícios imediatos em diferentes domínios. “Considerando o aspeto socioemocional, a criança quando brinca expressa sentimentos e emoções como afeto, medo e agressividade e, em muitas situações, aprende a lidar com a frustração. Quando brinca com os pares, a partilha, a negociação, o estar em grupo, a liderança e a resolução de conflitos são uma realidade constante”. No domínio cognitivo, os benefícios são igualmente diversificados na autonomia, livre iniciativa, criatividade, imaginação e resolução de problemas. “Já no domínio motor e na saúde, o brincar pode promover o aumento da mobilidade, do movimento e da atividade física, contrariando a tendência para a obesidade e outras doenças associadas”, refere a investigadora, que acrescenta que o brincar permite “o desenvolvimento holístico das crianças com níveis elevados de bem-estar emocional”.

Brincar também é desafio e risco. É experimentar novas emoções. É aprender para a vida. “Estas vivências experienciadas durante o brincar permitem, ao longo da vida, uma maior flexibilidade para lidar com situações mais complexas e desafiantes, ficando menos vulneráveis a problemas de ansiedade.” Quando o assunto é brincar, Aida Figueiredo avisa que é preciso parar para pensar. Pensar no que se pretende para os mais novos. “Temos de permitir que as crianças sejam crianças. Penso que é inevitável um questionamento, individual e coletivo, por parte dos agentes educativos – pais, educadores, professores, escolas superiores de educação, universidades e responsáveis políticos pela educação -, sobre que cidadão se pretende para o futuro – reprodutor ou crítico e empreendedor – e se o que estamos a fazer atualmente permite alcançar o que desejamos”.

“O recreio é um direito”

Há uma frase que se perpetua. Que entra na cabeça e que não sai. “A sala de aula não é para brincadeiras.” Brincar é no recreio. “No entanto, a atividade lúdica como metodologia de trabalho, em sala de aula, é muito valorizada. Não são os professores que não entendem”, refere ao EDUCARE.PT Maria José Araújo, doutorada em Ciências da Educação, professora na Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico do Porto. E não é por estar ou não na escola que os mais pequenos precisam de tempo para brincar. “A criança precisa de tempo para brincar porque é criança.” Há tempo para tudo. Tempo para estudar. Tempo para atividades escolares. Tempo livre. Tempo para brincar. E todos os tempos devem ser respeitados.

“Os adultos só têm que respeitar os direitos das crianças e criar condições para que elas possam exercer esse direito.” “Aliás, é obrigatório criar condições para que a criança vá à escola e é igualmente obrigatório criar condições para que as crianças brinquem. Está bem explícito na Declaração dos Direitos da Criança”, lembra. A questão é que as crianças passam muito tempo na escola e quando acabam as aulas ficam a fazer atividades ou a estudar. Ficam no mesmo ambiente, quase sempre espaços fechados. “De uma maneira geral, fazem atividades que são, maioritariamente, programadas numa lógica escolar: mesma metodologia, mesma intenção, mesmo objetivo, não deixando muito espaço de intervenção e exploração para a criança.”

É essencial respeitar as brincadeiras no recreio da escola. Há professores que castigam as crianças que não fazem os deveres, impedem-nas de ir ao recreio porque sabem que elas valorizam esse momento. Castigam para obrigar a fazer os trabalhos de casa. “Mas, na verdade, isso é perverso e é um erro, pois é castigar as crianças com o conhecimento que elas deviam valorizar. E é injusto porque são quase sempre os mesmos a serem castigados”, afirma Maria José Araújo. Um castigo contraproducente, na sua opinião, que merecia um estudo aprofundado.

“É importante que se explique que o recreio é um direito e é uma necessidade. É um espaço de sociabilidade fundamental para as crianças e os jovens.” Os adultos sabem o significado de um intervalo para café. Sabem que não é só para descansar. “Para as crianças e jovens é fundamental porque, de uma maneira geral, é no recreio da escola que eles conversam, brincam e criam novas brincadeiras e amizades. Cantam, fazem jogos, dançam, trocam informações, aprendem a cooperar e a estar uns com os outros, etc. Esta forma de se divertirem no recreio é fundamental para consolidar e recriar as suas culturas. É ainda fundamental para desenvolver a criatividade.” Não se trata de ir ao recreio recuperar energia. É mais do que isso. “É fundamental para cooperar com o seu grupo de pares, estabelecer redes e contactos, brincar e criar novos jogos e assim aprender. Na verdade, as crianças, enquanto atores sociais, sabem bem o significado do recreio e das brincadeiras de recreio. Basta perguntar-lhes.”

As crianças querem brincar, mas são os adultos que gerem os tempos. “A intensa atividade que se esconde por detrás do brincar não é percetível para muitos adultos. E como são os adultos que organizam a vida das crianças, fazem-no em função das suas lógicas de adulto.” O que fazer? Cumprir os direitos da criança. Acabar com as desculpas. Criar condições de prazer e de bem-estar. Maria José Araújo garante que brincar é fundamental para aprender a cooperar, a concentrar, e é o primeiro passo para combater o insucesso escolar. “As crianças que brincam têm mais sucesso escolar e está comprovado cientificamente.”

Amizade e tolerância
Para Adelina Pereira, professora reformada, distinguida com o Prémio de Mérito Liderança do Ministério da Educação em 2011, o pré-escolar valoriza e incentiva a brincadeira através de atividades que despertam para o quotidiano e desenvolvem a imaginação. “No 1.º ciclo, o ensino não privilegia o brincar nas aulas, mas há uma preocupação que a aprendizagem dos conteúdos seja realizada de uma forma mais lúdica, sendo mais atrativa para os alunos com o apoio de jogos relacionados com as diferentes temáticas, bem como a utilização de computadores e quadros interativos na execução das várias tarefas”, refere.

O tempo de brincar é importante. As brincadeiras despertam descobertas, a escola promove a socialização, facilita o encontro e a descoberta do outro. Brincar é um caminho para a partilha de valores. “Brincar deve ser um estímulo à criatividade e à imaginação com o uso de novas linguagens que ajudam as crianças a pensar. Uma vez que o mundo infantil está, de certa forma, entre a fantasia e a realidade, as brincadeiras permitem-lhes ‘fantasiar a realidade’ de uma forma criativa. É a brincar e a jogar que a criança aprende a comunicar, a relacionar-se com os outros e a adquirir um sentimento de pertença em relação ao grupo de amigos”, diz. O brincar deve ser, sempre que possível, em grupo, na sala ou no recreio, com atividades de lazer. E a escola pode oferecer equipamentos que ajudem a realizar tarefas divertidas.

“O brincar deve promover relações de convívio, de amizade e de tolerância. Deve incentivar a aceitação do outro como um ser diferente mas igual na sua realização pessoal.” Os atores educativos sabem que brincar é importante. No pré-escolar, há tempo para isso. Depois, o cenário altera-se. É preciso cumprir programas, ter bons resultados, a vertente lúdica acaba por ficar em último plano. “Os pais, atentos, querem que os seus filhos sejam os melhores e numa perspetiva de lhes dar uma educação mais abrangente, arranjam-lhes atividades que lhes ocupam o pouco tempo que lhes resta da escola e dos trabalhos de casa. Assim, os alunos do 1.º ciclo e seguintes aproveitam, por vezes, a sala de aula para brincar, demonstrando alguma dificuldade em se concentrarem nas temáticas propostas”, repara.

Adelina Pereira defende que a brincadeira deve ser estimulada dentro e fora da sala no pré-escolar. Atividades ao ar livre, em contacto com a natureza, deixar que os mais pequenos criem as suas próprias brincadeiras. “Passado este nível de descoberta, de adaptação, de socialização e de muita brincadeira, as crianças deviam entrar no 1.º ano com alguma maturidade para poderem compreender o mecanismo da escrita, da leitura e da matemática. Para isso, era necessário que as nossas crianças entrassem neste nível de ensino com 7 anos. Assim, a transição seria mais serena e haveria, sem dúvida, tempo para uma aprendizagem mais lúdica e aprazível”. “Uma criança com 6 anos e, às vezes, 5 a fazer 6, dali a três meses, não está ainda preparada para perceber os conceitos abstratos da leitura e da matemática. Começa aí o insucesso e o desinteresse pela escola e esta não vai largar a criança, dando-lhe mais aulas de recuperação, mais trabalhos de casa e lá se vai o tempo da brincadeira”, conclui.

 

 

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