Conversa “Libertem as Crianças” disponível na íntegra

Agosto 3, 2016 às 8:00 pm | Publicado em Vídeos | Deixe um comentário
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texto e vídeo do http://observador.pt/ de 12 de julho de 2016.

A Conversa do Observador “Libertem as Crianças” aconteceu no passado dia 5 de julho, no Jardim da Estrela. Foram quase duas horas de conversa que pode ver aqui na íntegra.

observador

 

 

Pais abandonam criança para jogar Pokémon Go

Agosto 3, 2016 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do http://www.jn.pt/ de 2 de agosto de 2016.

EPA

Um casal foi detido na última quinta-feira em San Tan Vale, Arizona, depois de ter deixado o filho de dois anos sozinho em casa.

Brent Darley e Brianne Daley foram acusados de abuso e negligência infantil por ter terem abandonado o seu filho, durante uma hora e meia em casa, sem água e num ambiente de 35 graus, enquanto foram jogar Pokémon Go.

Segundo as autoridades locais, o alerta foi foi dado por um vizinho, por volta das 22 horas locais, quando este ligou para o 911 (número de emergência) a avisar a polícia que tinha encontrado uma criança a chorar com sinais de abandono.

“Apenas não consigo imaginar isto. Não deixo os meus filhos em casa sozinhos por um segundo nem por qualquer motivo”, realçou a vizinha do casal detido, Kate Young.

Quando as autoridades chegaram à residência verificaram que o menino estava fechado. “Tinha apenas uma fralda e uma t-shirt e estava angustiado”, conta uma fonte de uma associação de proteção de menores que acompanhou o caso.

Quando regressaram a casa, os pais argumentaram que tinham deixado o filho a dormir, enquanto foram abastecer a viatura.

Mas, mais tarde, Brent Darley e Brianne Daley acabaram por confessar às autoridades que tinham deixado a criança sozinha em casa enquanto foram jogar Pokémon Go nos bairros e nos parques próximos da sua casa.

 

 

 

“Não há tolerância para crianças irrequietas”: descubra porquê e que problemas está a criar

Agosto 3, 2016 às 12:00 pm | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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texto da http://activa.sapo.pt/ de 20 de março de 2016.

activa

Cada vez se prescrevem mais medicamentos para a Perturbação de Hiperatividade com Défice de Atenção. Mas será que o número de crianças com este problema aumentou assim tanto? Um pedopsiquiatra e uma especialista em sono infantil acreditam que o estilo de vida a que os nossos miúdos estão sujeitos não está a ajudar.

Por Cristina Tavares Correia

O novo fantasma dos pais: ter um filho ‘hiperativo’, que não para quieto um segundo, não está atento na escola, irritável, com problemas de comportamento. A Perturbação de Hiperatividade com Défice de Atenção (PHDA) só costuma ser diagnosticada depois dos 5 ou 6 anos, mas há pais que se queixam disso cada vez mais cedo. Filipa Sommerfeldt Fernandes, autora de ‘10 dias para ensinar o seu filho a dormir’ (Esfera dos Livros), dá palestras, workshops e consultas de aconselhamento sobre como regular o sono infantil e é testemunha do desespero deles. “Há pais de bebés de 9 meses que me mandam mensagens a dizer que o filho deve ser hiperativo porque não dorme. Hiperativo, com 9 meses?…”

O certo é que o recurso a medicamentos para tratar a PHDA mostra uma “tendência de crescimento”, segundo um relatório do Infarmed, publicado em novembro passado. Em 2014 dispensaram-se 276.029 embalagens de metilfenidato, o princípio ativo do medicamento psicoestimulante mais frequentemente receitado para a PHDA. O aumento foi de 30% relativamente a 2013, informou o Diário de Notícias. Os tratamentos para esta perturbação também custaram mais de 8 milhões de euros, 5 milhões dos quais suportados pelos utentes, outro “crescimento significativo”. Estão a ser mais prescritos em hospitais ou clínicas privadas (39%), seguidos dos hospitais públicos (37%) e cuidados de saúde primários (22%). Viana do Castelo e Viseu são os distritos onde é mais usado.

E se não for hiperatividade?

“É um aumento relativamente significativo”, comenta o pedopsiquiatra Pedro Caldeira da Silva, da Unidade da Primeira Infância do Hospital D. Estefânia. “São sobretudo prescritos por pediatras, neuropediatras e pedopsiquiatras, que penso terem sido os últimos a entrarem neste comboio da prescrição, e tiveram que o fazer por uma questão de mercado. É verdade que estes medicamentos são eficazes e que ajudam crianças. Mas, provavelmente, há uma utilização um pouco excessiva e algum facilitismo na prescrição, porque o medicamento dá resultado – põe as crianças sossegadas e ajuda-as nos estudos. Mas um tipo de intervenção mais psicológica demora mais tempo.

As consequências já estão à vista. “Há crianças que estão a ser medicadas e não deviam, outras estão a ser medicadas porque têm alguns sintomas e beneficiam com a medicação, mas é como se fosse dopping, é batota. E até há adultos e jovens estudantes universitários que usam o metilfenidato porque é uma substância que melhora o desempenho.”

O uso da medicação numa criança que nem precisaria de a tomar pode nem provocar efeitos secundários, diz o pedopsiquiatra. “Nada, além da ideia perniciosa de que tudo se resolve rapidamente e com pastilhas. Mas há crianças que os apresentam: o principal e mais frequente é perda de apetite, que pode levar ao emagrecimento. Algumas crianças reportam que não se sentem elas próprias. Não leva a uma perturbação de personalidade mas pode levar à alteração da perceção de si próprio. Prescrevo a medicação a crianças que precisam, sim, mas dá-la indiscriminadamente é uma má prática.”

O mais importante é que se faça um diagnóstico criterioso, até porque muitas vezes o problema nem é a hiperatividade e sim “depressão ou início de perturbações bipolares, que podem ser confundidos com hiperatividade. Na criança, a depressão pode ter este aspeto de comportamento ruidoso, irritabilidade, ansiedade. E há medicamentos que mascaram estes sintomas – o metilfenidato pode ser um deles.”

“O sistema escolar está feito para meninas”

Estão mesmo a nascer mais crianças hiperativas, ou é o estilo de vida atual, a forma como os estamos a educar, que os está a deixar assim? “Podemos perguntar se as crianças são mesmo hiperativas, como muita gente diz. Podem ter perturbação de défice de atenção e hiperatividade, mas isso também não define a criança”, diz o pedopsiquiatra.

Segundo o Infarmed, estima-se que esta condição afete entre 5 e 7% das crianças e jovens. “É possível que as condições de vida atual façam com que haja crianças com mais necessidade de se expressarem de forma mais ruidosa, turbulenta e irrequieta em certas alturas do dia. E essas condições podem passar pelo excesso de estimulação com o uso de gadgets e tablets, aliado à pouca oportunidade que têm de estar entretidas e ao excesso de tempo que passam em situações estruturadas (o inglês, o piano, as aulas…) em que têm de se portar bem. Não é de certeza bom para uma criança ter 10 horas de trabalho por dia, mas quotidianamente têm-no nas creches. O tempo livre é cada vez menos para brincarem sem grande supervisão, imaginarem, inventarem e resolverem conflitos entre si. Esse tempo é muito desvalorizado. As escolas e os pais estão a trocar recreios por aulas de apoio, cursos, castigos. As crianças têm que estar sempre vigiadas senão acontece uma desgraça qualquer, são proibidas de ir brincar para a rua porque é perigoso. Sobretudo, há falta de tempo para ela se poder aborrecer e inventar qualquer coisa para fazer. O efeito que vejo é estarmos a criar uma geração de pessoas obedientes, o que é ótimo do ponto de vista da vida profissional futura.”

Quando fala em obediência, não é com o significado positivo que a nossa cultura geralmente dá ao termo. Até porque ser muito obediente, não questionar nada, não é necessariamente bom para ninguém, nem para uma criança.

“Outra coisa muito importante é a falta de tolerância para lidar com a irrequietude das crianças. As escolas têm uma grande responsabilidade nisso; parece que só querem formar meninas. Os rapazes são vistos como meninas com defeito. O sistema escolar está feito para as meninas – sossegadas, contemplativas, a pensar nas emoções. Não sabemos (nem queremos) lidar com a ação, a assertividade, a agressividade. A escolaridade obrigatória aumentou, fez com que muitas crianças estivessem na escola sem nenhuma motivação; as armas que os professores têm para manter a disciplina mudaram, mas isto devia vir a par com o aumento da competência para motivar os alunos e permitir também alguma atividade e turbulência. Por isso, as queixas surgem mais facilmente quando se sabe que há comprimidos que resolvem estas coisas de forma quase milagrosa. Há quase um sistema de pressão das escolas que se queixam aos pais para procurarem uma solução para os filhos. Os professores também são pressionados a apresentar resultados.”

Terapia de choque

Mas há outro fator de que nos esquecemos: poucas horas de sono, ou um sono de má qualidade, “podem ter sintomas que se assemelham aos da hiperatividade, difíceis de distinguir”, como confirma Pedro Caldeira da Silva. E as crianças portuguesas dormem menos do que deviam. “Fizemos um inquérito às crianças que vêm à consulta na Unidade da Primeira Infância e percebemos que dormiam, em média, menos duas horas do que o recomendado. São resultados equivalentes aos dos estudos epidemiológicos que se fazem.” Quais as consequências disto para o desenvolvimento infantil? “Espero que não sejam catastróficas”, desdramatiza o médico. “Mas podem ser a nível da organização da memória e da regulação do humor.”

Filipa Sommerfeldt Fernandes começou por ser jornalista, mas foi o nascimento do filho que a fez interessar-se pelo estudo do sono. Fez cursos especializados, como o ‘Sleep Trainning’, num centro ligado à Universidade de Reading, no Reino Unido. “A má qualidade de sono tem consequências a nível de desenvolvimento e comportamento social muito parecidas com aquelas que são descritas na hiperatividade. Deixa os bebés pequenos mais rabugentos, choram muito, e comem pouco porque estão cansados. Em crianças mais crescidas, deixa-as como se estivessem sempre ligadas à ficha, são mais irritadiças, com pouca tolerância à frustração (o que lhes pode trazer problemas de relacionamento), precisam constantemente de atenção e de estar sempre distraídas – quando param, começam a ficar zangadas porque estão cansadas.”

As novas tecnologias não estão a ajudar. “Há imensos estudos que apontam que a utilização de eletrónica provoca sintomas como a dessincronização do nosso relógio biológico, fazendo as crianças dormir pior e ficarem mais agitadas”, observa Filipa. O nosso corpo é regulado por ‘relógios internos’; a melatonina, a hormona que produzimos naturalmente e que regula o nosso sono, é induzida pela luz do dia. “Por isso é que usar muitos gadgets à noite faz com que exista uma luz constante que atrasa a libertação de melatonina. Desrespeitamos completamente o nosso ritmo natural, um produto das nossas vidas numa sociedade que mudou.”

Uma das primeiras soluções que Filipa recomenda a pais desesperados com as noites mal dormidas dos filhos costuma ser o terror. Mas funciona. “Antes de medicar miúdos que mostram sintomas de hiperatividade, tenta-se retirar tudo o que é gadget e eletrónica de casa durante um mês. É horrível na primeira semana e parece que estão todos em ressaca, mas, se o conseguirem ultrapassar, costuma compensar. Faz-se mais exercício lá fora, eles mexem-se e brincam mais, ganhamos tempo de relacionamento e isso influencia muito a qualidade do sono.”

E deixa o alerta: “É importante que pediatras e pedopsiquiatras estejam atentos à questão do sono. Muitos pais que me procuram trazem queixas de que o pediatra não deu a devida importância a esse fator e disseram que era uma fase que ia passar. O problema é quando eles têm três anos e nunca dormiram bem.”

Há quem dê anti-histamínicos para as crianças adormecerem

Ter um filho que não dorme e se torna irritável e irrequieto leva muitos pais às consultas do sono de Filipa S. Fernandes. “Há coisas que me fazem muita confusão, como gente que tenta dar anti-histamínicos a bebés para que durmam. De forma mais ligeira, mas também frequente, medica-se com melatonina sintética durante meses. Não tem efeitos secundários nem contraindicações mas há poucos estudos sobre os seus efeitos, quando tomada prolongadamente. Quando tomamos algo sintético que o corpo já produz, como a melatonina, ele fica preguiçoso para fabricá-la. A dose normal de melatonina para uma criança são quatro gotas (1 miligrama) e há quem esteja a dar 20 para eles adormecerem rápido.”

Muito estímulo, cedo demais

Será que, na tentativa de que os nossos filhos não fiquem para trás no comboio do desenvolvimento, que sejam espertos e curiosos e criativos, não estaremos a sobreestimulá-los e a deixá-los mais ‘hiperativos’? Filipa Sommerfeldt acredita que sim. “Estamos a dar-lhes demasiadas coisas, cedo demais. Parece-nos que se não estivermos de volta deles, a estimulá-los com diferentes coisas, como livros, rocas, o mobile em cima da cama, música de Beethoven, vamos tornar os nossos filhos burros. Ficamos orgulhosas se os nossos bebés souberem fazer as coisas antes do tempo estipulado nas metas de desenvolvimento.”

A juntar a tudo isto vem a falta de tempo e acumulação de tarefas, quando chegamos a casa. “Isso faz com que muitas vezes lhe demos um tablet para as mãos. Os nossos filhos ficam viciados nestes aparelhos eletrónicos. E quanto mais viciantes se tornam, mais precisam daquilo para continuarem tranquilos. Estarem demasiado tempo concentrados em cores, movimento, som, provoca-lhes uma espécie de overdose de estímulos num cérebro ainda em desenvolvimento.”

Jogos e aplicações pedagógicas “não são um mal para as crianças, por si”, reflete Pedro Caldeira. “Uma coisa que sei que deveria ser proibida e faz muito mal é a Baby TV. Não há nada de positivo que possa resultar de pôr um bebé em frente a um ecrã a ver bolas a mexer, a não ser isolamento e captação rápida de consumidores. Não há nenhum argumento de pseudo-estimulação ou pseudo-informação que possa vir da Baby TV. É tempo de privação de interação. Temos casos de alguns meninos que ficaram com atrasos de desenvolvimento porque ficaram em frente à televisão.”

Os tablets e smartphones tornaram-se na nova ama eletrónica, “uma invenção fabulosa para poder ir jantar fora”, como diz o pedopsiquiatra, que concorda com a recomendação da Sociedade Norte-Americana de Pediatria, que não recomenda que crianças abaixo dos 2 anos tenham sequer acesso a eles – ou a qualquer tipo de tempo de ecrã. “Essa fronteira etária é aleatória, poderia situar-se nos 2, 3 ou 5 anos. Não é só dar tempo de ecrã cedo demais, mas darmos em exclusivo ou em grande quantidade. Hoje, vemos que os meninos já sabem letras, alguns até ler, aos 4 anos. Parabéns. Não são estas tecnologias que vão tornar as crianças mais espertas. É muito importante que elas possam construir com as suas mãos, deitar abaixo, trepar, resolver problemas, planear ações, e isso não se consegue nos tablets. É viciante, sim – tudo quanto é jogo age no centro de recompensa do cérebro – mas é mais um mecanismo que surge porque queremos que elas não chateiem e sejam boas de aturar.”

 

 

Perda gestacional: “estes pais existem” e pode haver um dia dedicado a eles

Agosto 3, 2016 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do https://www.publico.pt/ de 5 de julho de 2016.

Rui gaudencio

Margarida David Cardoso

Petição que pede a criação do Dia Nacional para a Sensibilização da Perda Gestacional é debatida nesta quarta-feira no Parlamento. Em causa está o “desrespeito por pais que perderam os filhos”.

“Quando um filho morre — com cinco, seis ou sete anos —, a morte é respeitada por toda a gente e tem um impacto emocional grande na sociedade. Contudo, quando se fala na perda gestacional existe ainda muita dificuldade das pessoas perceberem que também é um filho que se perde.”

Em 2007, Sandra Cunha era vice-presidente e psicóloga da Associação Projecto Artemis (A-PA), que ajudou a fundar em 2005 e dá apoio a pais e mães que passaram por uma perda gestacional. A questão não lhe era pessoal, até ao dia em que se tornou também ela uma das mães que a associação passou a acompanhar. Em 2007, perdeu o filho às dez semanas de gestação.

“Em Portugal, ao contrário daquilo que a sociedade imagina, perdem-se imensos bebés durante a gravidez”, diz ao PÚBLICO a agora presidente da Artemis. “É um assunto de que não se fala” e a informação e o apoio dado os pais é escassa. O luto é feito em silêncio, normalmente dentro de casa, porque “estas pessoas sentem que não são compreendidas”, explica.

Sandra destaca que o seu caso foi diferente, porque “já estava no lugar certo”. “Na altura, já estava inserida na associação e o apoio veio de lá sem que tivesse que o procurar, como os outros pais são obrigados a fazer.”

Com o objectivo de desconstruir “o tabu que cresce com a ignorância e o desconhecimento” e permitir “que o apoio não seja apenas dado por pessoas que passaram por uma experiência semelhante”, a associação lançou uma petição pública para a criação do Dia Nacional para a Sensibilização da Perda Gestacional, a 15 de Outubro, e reuniu as 4000 assinaturas necessárias para que esta seja discutida na Assembleia da República. A decisão está agora nas mãos da Comissão Parlamentar de Saúde, que nesta quarta-feira vota a petição.

“Como associação, achamos que é possível ajudar, não a minimizar a dor, mas a sensibilizar a sociedade para a existência destes pais.” Todos os anos, neste dia, a associação espera poder fazer acções de sensibilização “que tenham impacto diferente nas pessoas”. Sandra Cunha diz que os casos mais “desvalorizados” são as perdas no primeiro semestre de gestação, “em que a sociedade e mesmo os profissionais de saúde desrespeitam os pais que perderam os seus filhos”.

“Discriminação no SNS”               

No seguimento de uma reunião com os deputados Marisabel Moutela (PS) e Carlos Matias (BE), em Maio, a A-PA elaborou um memorando de recomendações, onde a discriminação de que estes pais se dizem alvo por parte do Serviço Nacional de Saúde (SNS) é uma questão central.

“A formação dos profissionais de saúde, principalmente nas maternidades, é uma formação para a vida e também eles têm dificuldade em lidar com estes insucessos”, destaca Sandra Cunha.

A psicóloga soma a isto a estrutura do próprio SNS, que diz ter “imensas lacunas”: em vários hospitais, a associação notou que estas mães são internadas juntamente com mães em parto normal, onde “são confrontadas com bebés recém-nascidos durante todo o seu internamento”, pode ler-se no memorando.

Também a forma como a notícia é dada aos pais “é muitas vezes feita de forma desrespeitosa, porque não há preocupação com as palavras nem com o contexto”, explica Sandra Cunha. A psicóloga descreve casos em que o técnico informa os pais durante “uma ecografia, quando vê que o bebé está morto, sem tentarem um ambiente mais propício, com uma equipa disponível para que estes pais tenham apoio”. Apoio esse que chega, “quando chega”, cinco ou seis meses depois da perda. “Não se espera ouvir numa ecografia, quando se pensa que estava tudo bem, que o nosso filho está morto dentro de nós”, descreve Sandra.

À falta de psicólogos nos hospitais junta-se a “questão de mentalidade”, que levou as unidades de saúde contactadas pela associação a recusarem o serviço de psicologia que disponibilizaram de forma voluntária, conta Sandra Cunha: “Dizem-nos que estes serviços não são necessários.”

Quantas mulheres terão passado pelo mesmo, em Portugal, é difícil de saber. A associação denuncia que as estatísticas sobre as perdas gestacionais após as 22 semanas de gestação “são dúbias”. As últimas referem-se a 2015 e indicam que houve 489 perdas gestacionais, um número que Sandra Cunha considera “ser muito afastado da realidade”, uma vez que “o próprio relatório da Direcção-Geral da Saúde indica que nem todos os hospitais responderam quando lhes foram solicitados esses números”, lê-se no memorando.

Também os dados sobre as perdas até às 22 semanas — clinicamente consideradas como abortos espontâneos — estão inseridos no Relatório Anual das Complicações das Interrupções da Gravidez. Facto que Sandra considera ser fruto de uma percepção errada sobre questão, em virtude de uma “mentalidade que minimiza as perdas gestacionais”.

O mesmo acontece relativamente à dispensa do certificado médico em caso de morte fetal, norma esta que está inserida na legislação sobre a interrupção voluntária da gravidez. “Mais uma vez, a perda gestacional está incluída no local errado”, salienta.

https://www.facebook.com/associacaoartemis/

 


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