Mãe, ou melhor amiga?

Julho 21, 2016 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto da Pais & Filhos de 23 de junho de 2016.

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Escrito por Rosa Cordeiro

A cumplicidade entre mães e filhos é natural. Mas é importante que a mãe não se esqueça do seu papel: ela é a mãe e não a melhor amiga. Por mais tentador que seja, ter uma relação de melhor amiga com os filhos não é moderno ou “cool”, é tóxico.

Enquanto a filha Sara, de 17 anos, toma duche, a mãe Alexandra coloca a roupa dela em cima da cama para ela vestir. E às vezes, quando o filho mais novo tem torneios ao fim-de-semana, que o obrigam a acordar às sete num sábado, ela levanta-se um bocadinho mais cedo e faz-lhe panquecas com mel, o seu pequeno-almoço preferido, para amenizar um pouco o golpe. “Tenho amigas que dizem que eu sou maluca, mas são apenas miminhos, pequenos gestos de amor de mãe. Curiosamente, algumas dessas amigas que me chamam maluca por causa destes gestos, são aquelas que deixam a filha de 13 anos passar a noite numa festa – ‘porque os amigos vão todos, ela nunca me perdoaria se ficasse de fora’ – e o filho de 16 e os amigos fumarem ganzas no quintal lá de casa – ‘porque ele assim sabe que pode contar comigo, que não o vou julgar, e os amigos acham-me a mãe mais cool de sempre’. Enfim…”, desabafa.

No ano passado, um estudo realizado pela agência norte-americana The Family Room LLC revelou uma nova dinâmica presente nas famílias da geração Y: pais que desejam ser os melhores amigos dos seus filhos. De acordo com esta pesquisa, 54 por cento dos pais dessa geração, que hoje têm entre 25 e 35 anos, descrevem os seus filhos como os seus “melhores amigos”. Entre os pais da geração anterior, a chamada geração X, que estão hoje na faixa etária dos 36 aos 50 anos, esse número cai para 38 por cento. Sinais dos tempos? O psicólogo Rui Guedes acha que sim: “A forma dos pais se relacionarem com os filhos está a mudar há décadas. Porque, enquanto sociedade, ainda estamos à procura do modelo mais saudável para as famílias. Passámos por uma fase de autoritarismo exacerbado dos pais, depois veio uma fase de liberdade desmedida, e agora estamos à procura do meio-termo. Tudo isto é natural, desde que os papéis não se confundam, o que nem sempre acontece.”

Cada macaco no seu galho

A cumplicidade natural entre mães e filhos (“claro que também há pais que querem ser os melhores amigos dos filhos”, afirma o psicólogo, “mas, seja pela relação mais visceral com as mães, seja porque as mães deixam de trabalhar para estar com os filhos, centrando-se completamente neles, ou porque trabalham demasiado e sentem-se culpadas por isso, seja porque em caso de divórcio os filhos ficam, normalmente, com as mães, a verdade é que os casos que nos chegam ao consultório são sobretudo entre mães e filhos”) às vezes ganha contornos pouco saudáveis, com as mães a fazerem de tudo para se tornarem nas melhores amigas dos filhos. Alexandra reconhece algumas das suas amigas e conhecidas neste papel, mas não enfia a carapuça. “Tenho alguma dificuldade em perceber essas mães que dizem com vaidade ser as melhores amigas dos filhos”, diz. “E não é por eu ser antiquada ou não ter uma mente aberta. É porque os meus filhos têm imensos amigos, e não precisam de mim para engrossar essas fileiras. Eu sou amiga dos meus filhos, mas não sou ‘amiguinha’ dos meus filhos. Procuro estabelecer com eles uma relação de confiança, respeito, companheirismo, intimidade e muito amor, mas não quero ter com eles a mesma relação que têm com os amigos da idade deles. Eu ofereço-lhes algo inestimável, que nenhum amigo, por mais leal, lhes dá: uma clara definição de limites, um amor duro a que só uma mãe se atreve. E digo ‘atreve’ no verdadeiro sentido da palavra, porque dizer ao meu intrépido adolescente que não pode ir à festa de aniversário do Carlos, onde sei que vai haver bebida a rodos e zero supervisão, ou à minha Sara que não pode sair de casa com aquele top que não deixa nada à imaginação, é um desafio! Os meus filhos são as minhas crianças, não são os meus amiguinhos. Os amigos deles não lhes lavam a roupa suja, não vão a três supermercados diferentes só para encontrar o seu iogurte preferido e não se certificam que ainda têm cuecas que lhes sirvam. E sei, até pela experiência com a minha própria mãe, que esta minha determinação em ser, efetivamente, mãe, terá recompensas na idade adulta dos meus filhos, estabelecendo laços mais fortes entre nós.”

 A importância dos limites

O que faz, então, com que tantas mães sofram desta síndrome da melhor amiga? A psicóloga Carolina Birr diz-nos que, normalmente, há sempre uma história para trás. “É uma relação simbiótica, em que há uma dissolução da hierarquia, e que, normalmente, é um padrão repetido. Ou seja, uma mãe que estabelece este tipo de relação com a filha teve uma mãe que fez isso com ela, ou então exatamente o oposto, e teve uma mãe demasiado rígida, que não deixava espaço para a intimidade.”

Rui Guedes aprofunda esta questão do oposto: “Muitas mães educam os filhos da forma que gostariam que os seus pais as tivessem educado. A ideia até parece interessante, mas não funciona, porque esta forma de educar fazendo o contrário do que nos fizeram a nós é reativa, e, como tudo o que é reativo, é pouco saudável e traz sempre consequências que não conseguimos prever.”

 Amizade responsável

Nada disto significa que mães e filhos não possam – e não devam – ser amigos. Mas as mães têm de ser “amigas responsáveis” e não BFF (Best Friends Forever). “Mães e filhos estão preparados geneticamente para se amarem e confiarem uns nos outros. Mas o papel das mães não é apenas emocional, mas também funcional, e educar faz parte das suas funções”, alerta o psicólogo. “A questão é que educar passa, entre outras coisas, por definir limites, e esse papel torna-se mais importante à medida que a criança cresce, e não permite que as mães sejam as melhores amigas dos seus filhos. Quando dizemos que queremos ser os melhores amigos dos nossos filhos, estamos a dizer que queremos ser seus confidentes e que eles sejam os nossos, e isso é um risco muito grande, porque a criança não está preparada emocional, moral e intelectualmente para esse papel. Além disso, ser o melhor amigo significa participar nas tomadas de decisões, mas mãe e filho não podem ser codecisores. Os mais novos podem participar dando a sua opinião, mas as decisões têm de ser tomadas pelo adulto.”

Quando a mãe deixa de ser cuidadora e passa a ser a melhor amiga, impõe-se a pergunta: quem está a cumprir o seu papel de mãe? E esse é um grande perigo, pois a criança e o jovem precisam de orientação e de segurança, além de alguém que apenas os ouça e os aconselhe, como um amigo faria. As mães que querem ser as melhores amigas dos filhos fazem-no para não os desapontar nem terem de lidar com o conflito. Por isso têm sérias dificuldades em dizer não e em estabelecerem limites. O que raramente fazem é pensar nas consequências imprevisíveis deste tipo de atitudes: por exemplo, uma criança que nunca ouve um “não” vai ter sérias dificuldades no futuro, esperando que o mundo inteiro e a vida lhe digam sempre “sim”. Carolina Birr explica que “esta relação simbiótica entre mãe e filho faz com que não haja uma hierarquia, um limite, um respeito pelo outro, e no futuro este filho terá dificuldades em lidar com o espaço e com os sentimentos do outro, para além de não perceber a autoridade e a hierarquia”.

Esta educação “fofinha”, de “amiguinhos”, tem muitos perigos: não permite à criança nem ao adolescente desenvolverem a autoconfiança, a independência, e, sobretudo, a responsabilidade, para poderem tornar-se adultos completos. A questão é que, para os filhos se transformarem em adultos saudáveis, os pais não devem nunca hesitar na demarcação dos limites entre eles e os filhos. “Não existe nenhum estilo de educação saudável em que os pais se demitam da sua autoridade”, afirma, categórico, o psicólogo Rui Guedes.

Amigos são, por definição, pessoas que partilham as mesmas ideias e a mesma visão de vida. Mas as crianças – e mesmo os adolescentes – não partilham das mesmas ideias e da mesma visão que a mãe, simplesmente porque não têm a mesma maturidade. E, se mais razões fossem precisas, Rui Guedes deixa uma última: “A mãe não pode ser amiga porque ela não desempenha uma função que se possa escolher, tal como se escolhem os amigos”.

Portanto, aposte numa educação democrática, baseada na dignidade e no respeito mútuos, mas lembre-se que mesmo em democracia existe a necessidade de um líder. A criança precisa de autoridade, de ser confrontada, de lhe serem negadas coisas, para desenvolver autocontrolo. E precisa desse autocontrolo para se sentir segura, confortável, saudável e capaz de enfrentar e lidar com os desafios da sua vida atual e futura, gerindo lutas e desafios, frustrações e desapontamentos. Amar a criança incondicionalmente não é a mesma coisa que fazer tudo por ela. Por isso, seja muito mais que a melhor amiga. Seja mãe.

Relações de poder

Este tipo de relação entre mãe e filho é sempre uma relação de poder, em que um seduz e o outro se deixa seduzir. “E o poder tanto pode estar na mãe como no filho”, afirma a psicóloga Carolina Birr. “O objetivo é o mesmo, o de ser a melhor amiga, de não deixar o filho ‘escapar’, tornar-se independente. Há casos em que os filhos seduzem as mães neste sentido, garantindo assim que a mãe se anula enquanto figura de autoridade, satisfazendo todos os seus caprichos. E há outros casos em que é a mãe a sedutora, dominando os filhos através dessa sedução da melhor amiga, mantendo uma relação de dependência face a si, uma relação absorvente, em que custa respirar. Isto acontece muito na pré-adolescência e na adolescência, que são as alturas por excelência da independência, da individualização. Muitas vezes as mães dizem ‘o meu filho está insuportável, porquê?’ Porque ele quer separar-se e a mãe não aceita.”

De facto, quando a criança é muito pequena, a mãe serve sobretudo como protetora, que a ajuda e ama. No entanto, à medida que a criança cresce e entra na adolescência, esta relação muda, pois o objetivo da adolescência é a individualização. Os adolescentes precisam de se separar dos adultos para terem privacidade, ganharem liberdade para poderem exercer o seu poder pessoal, a sua autonomia, examinarem novos pontos de vista e até para poderem fazer escolhas que possam resultar em erros. É importante que os pais percebam que não se trata de uma traição nem de um abandono, mas sim de algo imprescindível no seu crescimento: “É fundamental haver este corte com a figura materna, para que depois o adulto consiga funcionar”, diz Carolina Birr.

A pergunta que as mães têm de se fazer, quando acham que estão a cair neste ciclo é: estou a colocar as minhas necessidades e desejos à frente das necessidades e desejos do meu filho? Se a resposta for sim, está na hora de deixar a criança ou o jovem pensar e agir por si próprio. Lembre-se, as melhores orientações vêm das melhores perguntas, e não das melhores respostas.

 

 

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