Exercícios simples não chegam para aprender Matemática

Julho 12, 2016 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , ,

texto do site Educare de 23 de junho de 2016.

descarregar o relatório citado na notícia no link:

Equations and Inequalities : Making Mathematics Accessible to All

pisa

Andreia Lobo

OCDE diz que a literacia matemática é fundamental no trabalho e na vida dos alunos. E alerta: os exercícios rotineiros dados aos alunos na sala de aula não são suficientes para melhorar os resultados.

É inegável a importância da Matemática na formação dos jovens. Dominar conceitos matemáticos, pensar quantitativa e analiticamente e comunicar usando a matemática “são competências fundamentais para enfrentar os problemas que surgem no trabalho e na vida para além da sala de aula”, lembra a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE).

Um novo relatório elaborado com base nos resultados do PISA 2012 analisa a forma como os currículos de Matemática, os professores e as escolas podem ajudar os alunos, especialmente os mais desfavorecidos, a melhorarem os seus resultados.

Uma das conclusões dessa análise mostra que “na realidade muitos alunos não estão familiarizados com os conceitos básicos de matemática”. Exemplo: menos de 30% dos alunos de 15 anos que realizaram os testes de Matemática do PISA 2012 mostraram saber o que é uma média aritmética.

Os investigadores perceberam ainda que, “na escola, a prática de exercícios simples, por si só, não é suficiente para que os alunos melhorem a sua capacidade de pensar quantitativamente e resolver problemas complexos, na vida real”.

Como inverter este cenário?  A OCDE responde que é preciso assegurar que todos os estudantes estejam mais tempo “envolvidos” na aprendizagem dos conceitos-base e a resolver exercícios ou problemas desafiadores.

A criação de oportunidades de aprendizagem da Matemática – seja pelo tempo que os alunos passam a aprender tópicos ou a fazer exercícios na escola – constitui um bom indicador do nível de literacia nesta área.  A forte exposição dos alunos a conteúdos matemáticos complexos é uma antevisão de bons desempenhos no PISA.

Por outro lado, “as diferenças na familiaridade dos alunos com os conceitos matemáticos explicam uma parte substancial das disparidades de desempenho no PISA entre estudantes socioeconomicamente favorecidos e desfavorecidos”, refere a OCDE. Reduzir estas desigualdades na educação e na sociedade em geral passaria, segundo a organização internacional, pelo alargamento do acesso a conteúdos de matemática, como forma de elevar os níveis médios de desempenho.

Minoria domina conceitos básicos
Apesar do reconhecimento da importância crescente das competências em literacia matemática no local de trabalho, os resultados do PISA 2012 mostram que apenas uma minoria dos alunos de 15 anos na maioria dos países é capaz de apreender e trabalhar com conceitos fundamentais de matemática.

Em média, menos de 30% dos estudantes nos países da OCDE entendem o conceito de uma média aritmética, enquanto que menos de 50% estão aptos a trabalhar com o conceito de um polígono.

Ao mesmo tempo, nota a OCDE, tem aumentado a carga horária à disciplina. Assim, em 2012, um aluno médio de 15 anos num país da OCDE passava cerca de três horas e 32 minutos, por semana, em aulas de Matemática regulares na escola; 13 minutos mais por semana do que em 2003.

O relatório “Equações e inequações: Tornar a Matemática acessível a todos” mostra que os alunos socioeconomicamente desfavorecidos passam quase o mesmo tempo em aulas de Matemática na escola que os seus pares favorecidos. No entanto, na escola, estão muito menos expostos a tarefas puras e a conceitos matemáticos (envolvendo equações ou funções, por exemplo), que tendem a estar mais associados a melhores resultados de aprendizagem.

Como resultado desta falta de exposição, muitos estudantes desfavorecidos têm apenas um pequeno conhecimento sobre os conceitos fundamentais de álgebra e geometria. Cerca de 65% dos alunos favorecidos dos países da OCDE dizem conhecer bem, ou ter ouvido falar muitas vezes, no conceito de função quadrática; apenas 43% dos seus pares mais desfavorecidos dizem o mesmo.

A diferença entre o desempenho dos alunos favorecidos e desfavorecidos, que relataram conhecer bem ou ter ouvido falar muitas vezes sobre o conceito de função quadrática, é superior a 30 pontos percentuais na Austrália, Áustria, Bélgica, França, Nova Zelândia, Portugal, República Eslovaca, do Reino Unido e Uruguai.

Outros dados mostram que os 20% de estudantes mais expostos a tarefas de matemática pura, como as equações, pontuam no teste de Matemática do PISA quase o equivalente a mais dois anos de escola do que os 20% de alunos menos expostos.

Em média, 19% da diferença encontrada nos resultados dos desempenhos entre alunos socioeconomicamente favorecidos e desfavorecidos podem ser atribuídas a diferenças na familiaridade com os conceitos de Matemática.

Na Áustria e na Coreia, mais de 30% das diferenças de desempenho entre estes dois grupos de estudantes estão relacionadas com as diferenças na familiaridade com a Matemática. Isto significa, garante a OCDE, que “há indicações claras de que os alunos desfavorecidos sistematicamente recebem uma instrução ao nível da Matemática de qualidade inferior à recebida pelos alunos favorecidos”.

O modo como os sistemas educativos estão estruturados, refere a OCDE, determina a diferença socioeconómica relativamente à exposição à Matemática. Nos países da OCDE, cerca de 54% das diferenças no impacto do estatuto socioeconómico na familiaridade dos alunos com a Matemática são explicadas pelas diferenças inerentes aos sistemas educativos no que concerne à idade em que os alunos são direcionados para cursos de ensino e formação profissional ou académica.

Além disso, acrescenta a OCDE, mais de 70% dos alunos frequentam escolas cujos diretores reportam aos investigadores que os estudantes são agrupados em classes em função das suas capacidades a Matemática.

No entanto, alertam os investigadores, este tipo de agrupamento (ou separação de alunos) por capacidade pode reduzir as oportunidades de aprendizagem dos alunos desfavorecidos tanto quanto a segregação entre escolas.

A OCDE termina dando algumas pistas sobre como os países podem atuar face às questões levantadas por este relatório. A resposta à desigualdade está num currículo mais focado e coerente. Mas também na redução das práticas de agrupamento por capacidades. Os alunos com maiores dificuldades devem receber mais apoio individual. Do mesmo modo, as escolas devem arranjar formas de prestar maior auxílio aos professores que dão aulas a alunos com capacidades diferentes.

 

 

 

TrackBack URI


Entries e comentários feeds.

%d bloggers like this: