ASAE aperta controlo ao consumo de álcool por menores

Julho 10, 2016 às 4:58 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do http://www.dn.pt/ de 6 de julho de 2016.

Ao fim de um ano de lei do álcool, ASAE instaurou mil processos, em alguns casos por venda de bebidas a crianças de 13 anos

Um ano depois da entrada em vigor da nova lei do álcool, a Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE) continua a apanhar todas as semanas jovens com menos de 18 anos a beber. Desde julho do ano passado, foram levantados pelas autoridades mais de mil processos de contraordenação associados às novas regras, 150 dos quais relacionados com a venda de bebidas alcoólicas a menores, em alguns casos crianças com 13 anos. Um problema que se agrava no verão e que vai levar ao reforço da fiscalização nos principais festivais de música. Para os promotores, a solução é usar pulseiras para identificar os festivaleiros com mais de 18 anos.

Em época de férias, a ASAE promete reforçar a vigilância nos “festivais de verão ou outros eventos, bem como zonas com maior afluência de público”, procurando “ajustar as suas equipas de inspetores tendo em consideração os recursos existentes, bem como a totalidade de matérias a fiscalizar”. Neste fim de semana arranca o NOS Alive, seguindo-se o Super Bock Super Rock de 14 a 16 deste mês.

Segundo dados fornecidos ao DN pela ASAE, foram “identificados, desde a entrada em vigor da lei do álcool [a 1 de julho de 2015] 114 menores com idades compreendidas entre os 13 e os 17 anos”, o que equivale a dizer que, em média, há dois casos apanhados pela ASAE todas as semanas. Mas este número corresponde apenas a 75 processos. A estes acrescem, ainda, os menores identificados pela GNR e PSP. Só a GNR efetuou 2083 ações de fiscalização no referido período, tendo elaborado 77 processos de contraordenação.

Esta é uma situação que preocupa o Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD).”Mais do que a fiscalização, tem de haver uma maior consciencialização dos operadores, pais e jovens”, defende Manuel Cardoso, subdiretor-geral do SICAD. Além da falta de recursos humanos, o responsável lembra que a fiscalização é “muito complicada”. “A questão não é encontrar um menor a beber, mas sim provar que alguém lhe vendeu ou ofereceu a bebida.”

Sistema de pulseiras mais usado

Só no Rock in Rio, em maio, foram instaurados 22 processos de contraordenação por venda e/ou disponibilização de bebidas alcoólicas a menores e um processo-crime por uso de documentação de identificação alheia para acesso a bebidas alcoólicas, tendo sido identificados 27 jovens com idades entre os 14 e os 17 anos. Ao DN, fonte da organização do festival explicou que foi feita uma parceria com “a Divisão de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências para a sensibilização de jovens para o consumo de álcool e outros temas”. Em caso de dúvida na idade, os maiores de 18 anos recebiam uma pulseira 18+. “Esta ação era reforçada por sinalética que informava sobre a proibição de venda e disponibilização de álcool a menores de 18 anos mas também para a colocação da pulseira.”

No Super Bock Super Rock e no MEO Sudoeste, o sistema será semelhante. “Ou colocam a pulseira ou têm de mostrar a identificação cada vez que querem consumir”, explica Paula Ferreira, da Música no Coração, assegurando que a produtora “cumpre a lei”.

Reconhecendo que “nas festas há uma maior tendência para o consumo de álcool”, Manuel Cardoso diz que “tem havido preocupação por parte dos promotores para que não haja venda de bebidas alcoólicas a menores. Apesar de ainda ser prematuro tirar conclusões quanto ao impacto da nova lei, o subdiretor do SICAD diz que “os indicadores que temos não são para desanimar. Há a perceção de que há alguma redução nos consumos”.

Segundo a ASAE, as principais infrações estão relacionadas com “a falta de afixação de aviso de forma visível com a menção de proibição de disponibilização de bebidas alcoólicas a menores e a falta de cumprimento dos requisitos relativos ao aviso”. A nova lei proíbe a disponibilização, venda e consumo de qualquer bebida alcoólica a todos os menores de 18 anos. De acordo com o diploma, o consumo tem “consequências diretas a nível do sistema nervoso central, com défices cognitivos e de memória, limitações a nível da aprendizagem e, bem assim, ao nível do desempenho escolar e profissional”.

 

 

Crianças que se sujam a brincar são mais felizes

Julho 10, 2016 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do Observador de 24 de junho de 2016.

observador

OBS Lab

Se os seus filhos costumam sujar-se quando brincam, não os repreenda. Significa que estão a fazer o que é suposto, explorando o ambiente que os rodeia. E como resultado, são muito mais felizes.

Quase sempre, o rosto da criança que chega a casa com a roupa suja e os joelhos arranhados depois de brincar traz um sorriso. Já reparou? A explicação é simples: brincar ao ar livre é das melhores coisas que há. E é também, segundo diversos estudos, um promotor da felicidade.

Para perceber melhor esta ligação falámos com Helena Águeda Marujo, professora no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas e uma das principais investigadoras em Portugal na área da Psicologia Positiva. Nas suas palavras, “a importância da brincadeira ao ar livre para o desenvolvimento de crianças felizes é extrema, até mesmo vital”.

Brincar é fundamental para a saúde física, cognitiva, afetiva e relacional das crianças, sendo que estes benefícios tendem a fazer-se sentir ao longo da vida. Segundo a docente, as mais-valias da brincadeira “têm sido documentadas por inúmeras investigações científicas ao longo de décadas”, de tal maneira que “parece estranho estarmos a caminhar para sociedades que limitam o brincar ao mínimo”. Contrariando a tendência que se vive atualmente, reforça que “a escola é apenas uma parcela da vida, e cada vez com menos peso se não for entendida de forma holística, global, integradora, formadora do caráter e das virtudes, ensinando até a felicidade”.

Sujidade é descontração

Brincar ao ar livre tem quase sempre como consequência roupas e mãos encardidas. Mas quando se diz que uma criança suja é uma criança feliz, não se está a usar apenas uma forma de expressão. Trata-se de algo concreto em termos biológicos.

De acordo com a professora, que é igualmente presidente da Associação Portuguesa de Estudos e Intervenção em psicologia positiva, a brincadeira no exterior, nomeadamente em contacto com a natureza, tem implicações ao nível de neurotransmissores como a serotonina. “As emoções positivas que advêm de brincar nestas condições estimulam até o sistema imunitário, em vez de o enfraquecer como muitos pensam”, afirma, explicando que “a serotonina está associada a este brincar no exterior, sujar e desorganizar a arrumação da vida certinha e limpinha”.

Para a especialista, “o prazer que uma criança tem ao enfiar os pés nas poças, sujar-se na terra, moldar bolos de areia ou a fazer carreiros de água alimenta um lado do desenvolvimento que não se pode perder”.

Paralelamente, algumas investigações vieram reforçar a convicção de que brincar na natureza tem efeitos benéficos ao nível da serotonina. Uma dessas pesquisas foi levada a cabo na Universidade de Bristol, no Reino Unido, tendo concluído que uma bactéria presente na terra (a Mycobacterium vaccae) ajuda a ativar aquela substância, contribuindo para a regulação do humor, sono e apetite.

Felicidade a brincar

O que não falta são motivos que atestam a importância da brincadeira no desenvolvimento de criança felizes. De acordo com a também coordenadora da Plataforma para a Felicidade Pública, da Universidade de Lisboa, “a felicidade está fortemente associada a tempo passado com amigos, atividade física e tempo lúdico e de lazer”. Entre as várias razões, destaca os benefícios do sol, que estimula a produção de vitamina D, essencial ao desenvolvimento dos ossos e dentes, mas que também ajuda na melhoria do humor e consequente diminuição da depressão.

Por outro lado, recorda que “a beleza da natureza e o ar não poluído têm aparecido na investigação científica como associados ao bem-estar”. “A nível físico até a visão melhora, por permitir um constante movimento e adaptação dos músculos oculares a diferentes distâncias, o que não acontece quando se está a olhar para um computador ou outro tipo de ecrã durante horas”, frisa.

Sabe-se ainda que a capacidade de foco das crianças que brincam no exterior é maior, o que acaba por beneficiar o seu desempenho escolar. Helena Águeda Marujo justifica a relação: “Fora de paredes os comportamentos podem ser mais ruidosos e expansivos, mais divertidos e menos estruturados. Tudo isto é fundamental para termos crianças felizes e saudáveis e, por isso, sociedades felizes e saudáveis.”

Dar autonomia aos mais novos

Acima de tudo, é importante “normalizar o sair de casa”, diz a professora de psicologia, referindo o facto de Portugal ter sido considerado o quarto país mais seguro do mundo. Acredita que “o medo e a desconfiança em deixar brincar fora de casa é muitas vezes uma justificação simples para razões mais complexas, impedindo a experimentação e a autonomização dos mais novos”.

Dito de outra forma, “temos receio de dar autonomia aos nossos filhos”. “É uma forma de poder como qualquer outra, e é mais fácil limitar e impedir essa autonomização do que a apoiar e guiar em passos pequenos para ir sendo gerida da melhor forma pelas crianças e jovens”, constata. Para ajudar as famílias a encontrar tempo para as saídas, deixa um desafio, que passa pela “hierarquização do essencial”: “Será preferível ter a casa toda arrumada ou sair meia hora até ao parque com os filhos?”

Mas nem tudo é mau e a sociedade parece estar a tomar consciência da situação em que se vive atualmente. Na perspetiva de Helena Águeda Marujo, está a assistir-se a um “investimento recente em muitas áreas geográficas, mesmo nas grandes cidades, em espaços de lazer comum e que permitam atividades ao ar livre”.

A também autora de diversos estudos e obras sobre psicologia positiva acredita que esta aposta “deverá minimizar a queixa de muitos pais de que não têm fácil acesso a zonas de natureza”. Tal é mesmo importante. Afinal, como escreve Mia Couto em Pensageiro Frequente, “ser menino é estar cheio de céu por cima”.

Este artigo foi desenvolvido ao abrigo da parceria entre o Observador e a SKIP.

10 Aspetos que melhoram em crianças que brincam

1 – Socialização e criatividade. Estar sentado e inativo é um problema sério na atualidade. Segundo Helena Águeda Marujo, “estamos a potenciar uma geração não sociável, inativa e até não imaginativa”. Mas a brincadeira em espaços abertos e na natureza “traz recursos imprevistos e estimula formas de brincadeira desestruturada, essencial para desenvolver a imaginação e a criatividade”.

2 – Desenvolvimento de competências físicas. Coordenação, musculação, estiramento e equilíbrio são alguns dos aspetos essenciais para a saúde motora que acabam por ser desenvolvidos com a brincadeira. “Crianças que brincam menos ao ar livre têm mais propensão para ter problemas de excesso de peso”, acrescenta.

3 – Menos problemas de comportamento. Resultados de estudos recentes evidenciam o “impacto interessante de atividades na natureza na melhoria do comportamento de crianças ditas hiperativas e desconcentradas”.

4 – Maior autoconhecimento. “A exploração e os comportamentos com algum risco controlado, como subir pedras, saltar pequenos ribeiros ou subir árvores permitem a aprendizagem e o autoconhecimento de forças e limitações a melhorar”, sustenta a especialista.

5 – Autodeterminação estimulada. O contexto das brincadeiras permite mais oportunidade para as crianças “guiarem as suas próprias ações, fazerem escolhas e terem consciência espacial e corporal”.

6 – Consciência ecológica apurada. “As crianças com tempo e oportunidade para brincar fora de paredes tendem também a evidenciar um maior apreço pela natureza e pelos animais, aspeto essencial numa sociedade que precisa de voltar a cuidar de forma determinada da sustentabilidade e da ecologia.”

7 – Mais experiência de amor. Brincar em espaços confinados ou através de plataformas virtuais “faz perder alguns dos mais essenciais fenómenos psicológicos”, nomeadamente o contacto ocular, o toque ou o rir em conjunto que são “essenciais até para a experiência de amor”, diz, citando a autora norte-americana Barbara Fredrickson.

8 – Capacidade de empatia desenvolvida. Brincar com outras crianças ajuda também no desenvolvimento moral através da perceção de modelos, aprendizagem de regras sociais e até promoção da empatia.

9 – Melhores perspetivas de futuro. Até as perspetivas de futuro revelam-se diferentes para melhor em crianças com brincadeira de exterior nas suas vidas.

10 – Mais competências linguísticas. A investigação tem vindo a mostrar que além de estarem em melhor forma física, as crianças que brincam no exterior têm também melhores competências linguísticas

 


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