Como a Guerra Fria deu origem à ritalina, a droga da ‘concentração infantil’

Junho 27, 2016 às 9:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Durante a década de 1960, era comum, nos Estados Unidos, que crianças hiperativas recebessem um medicamento para ajudá-las a se concentrar nas aulas.
A chamada “pílula da matemática”, a ritalina, continua sendo um dos tratamentos mais usados em vários países para tratar o transtorno de déficit de atenção com hiperatividade (TDAH).

Seu principal componente, o metilfenidato, da família das anfetaminas, tem a propriedade de estimular a concentração e reduzir a impulsividade.

Essas qualidades eram consideradas necessárias dentro da transformação, durante a década de 1960, do sistema escolar dos EUA, que queria competir com a União Soviética no contexto da Guerra Fria, de acordo com o historiador Matthew Smith, da Universidade de Strathclyde (Escócia) e autor do livro Hyperactive: The Controversial History of ADHD (“Hiperativos: a controversa história do TDAH”, em tradução livre).

“Havia uma corrida científica e espacial com a União Soviética, e por isso o novo sistema educativo exigia que as crianças permanecessem sentadas em suas carteiras fazendo tarefas”, disse.

Quando a droga foi sintetizada, em 1944, pelo químico italiano Leandro Panizzon, não estava previsto que crianças pudessem tomá-la.

Então como ela acabou virando a solução predileta dos pais e psiquiatras para os pequenos hiperativos?

 
Fármacos no pós-guerra
Existe uma lenda de que Panizzon batizou o medicamento de “ritalina” em homenagem a sua mulher, Margarida, que chamava pelo apelido carinhoso de Rita.

“Ela tomava o comprimido antes de jogar tênis. Aparentemente, sofria de pressão baixa e isso lhe dava um empurrão na partida”, destacou Smith.

O laboratório onde ele trabalhava, Ciba, começou a comercializar o fármaco para adultos com a mensagem de que era mais forte que uma xícara de café, mas não tão intenso, nem com os efeitos secundários de outras anfetaminas mais potentes.

Na época de seu surgimento, o mercado de medicamentos passava por várias mudanças e avanços.

No pós-guerra, começaram a ser tratadas doenças como tuberculose, e teve início a vacinação contra a pólio.
“As pessoas começaram a recorrer a fármacos como solução para tudo”, disse Smith, acrescentando que drogas psiquiátricas também geraram otimismo e que isso se manteve por mais duas décadas até a descoberta de efeitos secundários e de seu potencial viciante.

 
Fórmula para crianças
Em uma pesquisa de 1937, o psiquiatra Charles Bradley fez uma descoberta: depois de administrar anfetaminas a um grupo de crianças para tratar dores de cabeça, ele notou que elas tinham o surpreendente efeito de estimular sua concentração.

Sua descoberta foi investigada duas décadas depois, quando o psicólogo clínico Keith Conners, em 1964, da Universidade Johns Hopkins em Baltimore (EUA), fez o primeiro ensaio clínico aleatório com ritalina em crianças com “transtornos emocionais”.

O jovem pesquisador estava intrigado com a possibilidade do tratamento com drogas, porque os baseados em terapia não pareciam dar resultado.

O estudo mediu concentração, níveis de ansiedade e impulsividade. A resposta das crianças foi imediatamente positiva.

“Estavam emocionadas de tomar um remédio que ajudava com suas tarefas. Sentiam que já não eram crianças problemáticas ou más”, disse Conners à BBC.

Depois que Conners e seus colegas publicaram os resultados, a ritalina começou a ser usada com mais frequência para tratar hiperatividade em crianças americanas.

Segundo o historiador Matthew Smith, os professores começaram a indicar crianças com problemas de conduta a psiquiatras, que quase sempre diagnosticavam transtorno de hiperatividade.

“O sistema escolar pressionava as crianças a se sentarem quietas nas carteiras e se concentrarem”, disse Smith.

 
Consumo ‘excessivo’
Apesar de haver ajudado a popularizar o medicamento na sociedade americana, Conners acredita que hoje ele é usado em excesso.

“Quando começamos, não conseguíamos convencer as pessoas de que havia crianças com TDAH. Agora parece que elas são encontradas até embaixo das pedras”, disse ele à BBC.

O psicólogo considera que este transtorno está sendo diagnosticado de forma excessiva e que outros fatores são ignorados.

“Um número significativo de crianças em idade escolar é dignosticado com TDAH quando, na realidade, pode ser que sejam muito jovens para a série em que estão. Ou podem ter outras desordens parecidas com o TDAH”, disse.
No Brasil, a discussão sobre consumo excessivo da droga entre crianças também ocorre.

Um boletim divulgado no ano passado pelo Ministério da Saúde diz que, segundo o Instituto Brasileiro de Defesa dos Usuários de Medicamentos, o Brasil era, em 2010, o segundo maior consumidor de ritalina do mundo.

O ministério recomendou que os Estados aumentassem o controle sobre prescrição e distribuição da droga para evitar a “medicação excessiva” de crianças.

O documento diz que há estimativas discordantes sobre a ocorrência de TDAH em crianças e adolescentes no Brasil, que variam de 0,9% a 26,8%.

 

BBC Brasil, em 10 de junho de 2016

I Seminário Internacional “Sala de Leituras do Futuro” 2 de julho em Barcelos

Junho 27, 2016 às 12:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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http://salaleiturasfuturo.wix.com/2016

Crianças felizes? Há várias dicas na Internet

Junho 27, 2016 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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À distância de um clique, há conselhos, sugestões, bibliografia, autores, comentários, sobre a felicidade das crianças. Páginas e páginas com caminhos a seguir pelos adultos, avós, pais e professores que partilham os dias com os mais pequenos. Cada cabeça, sua sentença.

Se há uma autoestrada da comunicação, sem portagens, que leva a todo o lado e que permite pesquisar sobre tudo e mais alguma coisa, então tudo o que diz respeito às crianças acaba por ser assunto obrigatório para quem é mãe e pai e para quem passa os dias na escola a ensinar novos mundos aos mais pequenos. Para quem se preocupa com o bem-estar dos mais novos. Há de tudo um pouco: conselhos de especialistas que também são pais, experiências de quem vive rodeado de crianças, dicas para ultrapassar caminhos mais espinhosos, comentários de quem gosta de falar sobre infância, felicidade e liderança. A seleção fica à consideração de cada um. Tal como seguir ou não os conselhos que se acumulam na Internet. Cada cabeça, sua sentença. A felicidade não é um presente que se possa mandar embrulhar para oferecer no aniversário. O psiquiatra infantil norte-americano Edward Hallowell, pai de três filhos, defende que a felicidade é parte essencial da vida e que deve ser estimulada por pais e professores encarregues de formar os adultos de amanhã. E todos entendem porque assim é. As dicas de Hallowell surgem de imediato quando a pesquisa é mesmo isso, como ter crianças felizes. O especialista avisa que a felicidade dos adultos tem raízes na infância. É exatamente neste período da vida que há aspetos que convém não esquecer. A autoestima é fundamental para que o mundo tenha mais crianças felizes. Felicidade é amor e amor incondicional sabe bem ser sentido todos os dias. Se há um lugar seguro, esse lugar é a família. É aqui que os braços estão sempre abertos, nunca se cruzam ou fecham. Os laços emocionais e o sentimento de pertença são ingredientes imprescindíveis para crianças felizes. Brincar é preciso e os tempos livres devem ser mesmo isso, tempos livres sem relógios no pulso ou trabalhos de casa para fazer. A brincar os mais pequenos expressam e desenvolvem a sua criatividade, vestem vários papéis, imaginam personagens, descobrem gostos e aprendem a resolver problemas. Hallowell lembra que ao brincar, as crianças identificam os seus limites, aprendem a viver em sociedade e a gerir as suas frustrações, definem e afinam o seu comportamento. Há muito para aprender quando se brinca. Conselho que parece desnecessário, mas que muitas vezes é esquecido num mundo tão regulado pelo tempo.

Felicidade também é descobrir o que se gosta de fazer. Por isso, Hallowell fala em experimentar coisas novas, conhecer grupos diferentes, contactar com a diversidade. E o saber fazer também significa rostos alegres. A realização é importante nesta caminhada. Tal como o reconhecimento do que se faz, que sabe sempre bem. Ser feliz é uma missão de todos os dias. E, aqui, pais, familiares e professores têm uma palavra importante a dizer.

E para crianças felizes também é preciso que os pais saibam coisas que podem fazer a diferença. Na Internet, navega um texto publicado nos anos 90 no The Message Internacional. Um texto que mostra caminhos e sentimentos. Uma espécie de carta escrita por uma criança que lembra que os pais não devem exagerar nos mimos e que devem ser firmes na hora de decidir se é para a esquerda ou para a direita. Os mais pequenos não gostam de ser corrigidos à frente de outras pessoas e criar uma capa para proteger das consequências não é assim tão boa ideia. As pequeninas queixas, por vezes, podem ser apenas uma maneira de chamar a atenção. E é preciso não esquecer que as perguntas dos mais novos não devem ser ignoradas, que experimentar coisas novas estimula os neurónios, e que crescer não é um processo feito a passo de caracol.

Há também quem dê conselhos sobre comportamentos dos pais para que não travem sinais de liderança. Tim Elmore fala sobre esse assunto e sobre atitudes a evitar. Como, por exemplo, não deixar os mais pequenos experimentarem o risco. Dessa forma, evita-se que se apercebam que há perigos à espreita. Joelhos esfolados, pernas com pensos, roupa suja e ragada, brincadeiras fora de casa, não devem ter sentidos proibidos. Contornar dificuldades para resolver problemas também não é maneira de ajudar os mais pequenos que, dessa forma, não desenvolvem certas habilidades na vida que lhes permitam resolver contrariedades por conta própria.

Dizer não é uma forma de abrir o apetite por lutar por o que realmente se valoriza. Dar tudo o que pedem não é boa estratégia. E as recompensas materiais em troca de bons comportamentos podem ter maus resultados a médio prazo. Partilhar os erros do passado com as crianças pode ser um passo importante para saber como enfrentar águas mais agitadas pela vida. Erros, entenda-se, que tenham agregado lições positivas. Uma espécie de final feliz. E, em todo este percurso, nunca esquecer que o ditado “faz o que eu digo e não o que eu faço” tem toda a razão de existir.

Paciência e flexibilidade. Os pais, educadores, professores têm de conhecer o significado destas duas palavras que surgem nas pesquisas dos cibernautas. Saber interpretar os sinais, saber quando se está feliz ou triste. Saber construir felicidades. Há muito mais para pesquisar na Internet sobre a felicidade dos mais pequenos. Mas também é preciso refletir e ponderar cada conselho, cada dica, cada rumo apontado. Educar não é fácil, mas é, sem grande margem para dúvidas, um dos desafios mais estimulantes da vida. Porque um sorriso, uma gargalhada, um mimo, um abraço apertadinho, não têm preço.

Sara R. Oliveira, em 13 de junho de 2016, para educare.pt

 


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