De olhos postos nas estrelas

Maio 30, 2016 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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texto do site Educare de 13 de maio de 2016.

educare

Alunos recorrem a interesses pessoais e às matérias lecionadas na escola para apresentarem projetos de investigação ambiciosos.

Andreia Lobo

A notícia de que um adolescente canadiano teria descoberto uma cidade maia até agora desconhecida espalhou-se por estes dias nas redes sociais. Especialistas questionam a sua credibilidade. Mas não conseguem negar o “mérito” de o jovem ter transformado uma paixão num trabalho de pesquisa.
Em Portugal, três alunos da Covilhã fizeram o mesmo. Partiram do facto comprovado de que não há estrelas verdes no céu para chegarem a uma teoria: se existissem, que benefícios trariam? O EDUCARE.PT inicia, a propósito destes dois exemplos, uma pesquisa nas escolas portuguesas para saber o que andam os alunos a fazer. Mas antes, contamos a história de William Gadoury, natural do Quebeque, Canadá.

Estrelas maias

Ganhou a atenção de milhares de leitores pelo trabalho de pesquisa desenvolvido com apenas 15 anos. Com imagens de satélite fornecidas pela Agência Espacial Canadiana e a ajuda de ferramentas digitais, especificamente o Google Earth, William Gadoury localizou no mapa as 117 cidades mais famosas pelas suas grandes pirâmides. Depois, recorrendo a folhas de acetato desenhou as 22 constelações que os maias poderiam observar a partir da sua região.

A informação sobre as constelações foi retirada do conhecido “Códice de Madrid”, um documento de papel de casca de árvores, contendo informação escrita com caracteres hieroglíficos, cujo nome se deve ao facto de estar guardado no Museu da América, na capital espanhola. Por último, William comparou a forma e os ângulos das constelações com o padrão geográfico das cidades.

Assim, descobriu que o posicionamento das 142 estrelas nas 22 constelações usadas por esta civilização correspondia no mapa à localização de 117 cidades maias. Com estes dados o aluno desenvolveu uma teoria de que a civilização pré-columbiana escolhia a localização das suas cidades segundo a das estrelas. Este foi o primeiro passo no estudo, o seguinte levou o aluno a outra descoberta.

Ao analisar a 23ª constelação usada pelos maias, composta por apenas três estrelas, o aluno percebeu que o posicionamento de duas dessas estrelas correspondia, de novo, à localização de duas cidades. Facto que o levou à especulação sobre se a terceira estrela poderia apontar para a existência da 118ª cidade, desta vez aparentemente localizada em plena selva mexicana.

Através das imagens de satélite desse local longínquo e praticamente inacessível da Península de Iucatão, no México, William descobriu uma forma quadrangular que considerou ser mais uma pirâmide maia. A ser verdade, pelo tamanho da suposta pirâmide, esta região passaria a ser considerada a nova quarta cidade mais importante desta civilização.

Entretanto, a proeza do jovem está a ser questionada por especialistas em história maia e astrónomos de diferentes países, como se pode ler num artigo publicado no site do Observador. As críticas apontam falhas na teoria da correlação entre a localização das cidades e o posicionamento das estrelas. Há quem questione a credibilidade do trabalho do aluno. E não hesite em considerá-lo “lixo científico”.

Algumas imagens recolhidas por satélites de várias agências espaciais parecem confirmar os vestígios de uma pirâmide e mais trinta edifícios na região apontada por William. No entanto, alguns investigadores argumentam que a suposta construção maia pode tratar-se simplesmente de um campo de milho abandonado.

Seja como for, em 2014 a descoberta valeu ao jovem o primeiro lugar na Exposição de Ciência do Quebeque e desde então também vários convites para apresentações na NASA, na Agência Espacial do Canadá e na Agência Espacial do Japão.

A falta de recursos e a inacessibilidade ao território da Península de Iucatão, onde estarão estes vestígios, não permitiu ainda realizar nenhuma expedição ao local para explorações arqueológicas, apesar de o jovem ter inclusive contactado dois arqueólogos mexicanos para esse efeito.

Estrelas verdes

William Gadoury não é com toda a certeza o único jovem estudante a aliar o interesse pessoal, neste caso, a paixão pela civilização maia, a conhecimentos escolares, para desenvolver projetos de investigação. Em Portugal, três alunos do 10º ano da Escola Secundária Quinta das Palmeiras, na Covilhã, fizeram algo parecido. Desenvolveram um projeto insólito em torno das estrelas e da cor verde e concorreram a um concurso promovido pela Agência Espacial Europeia (ESA). Hoje, dia 13 de maio, vão apresentá-lo na meia-final que decorre em Madrid.

Tudo começou com a simples constatação de que as estrelas têm muitas cores, mas nenhuma é verde. “Estávamos a falar sobre estrelas e aprendemos que as estrelas tinham montes de cores – vermelhas, esbranquiçadas, azuladas, mas faltava aquela cor que a maioria da população gosta, que é o verde”, recorda Anselmo Falorca, de 16 anos, à Rádio Renascença. Quem olha para o céu pode estar tentado a acreditar que a cor verde está lá, no entanto, o aluno explica tratar-se apenas de uma ilusão.

“Se existissem, haveria uma série de ganhos para a população”, garante outro dos jovens, Pedro Ruas, de 15 anos. “Poderia, de facto, acalmar as pessoas e certos medicamentos seriam desnecessários.” A investigação tem levado os alunos aos mais diversos campos de aplicação: “Também estamos a tentar perceber se pode ou não melhorar a nossa atividade cerebral”, acrescenta Pedro. Estes argumentos foram mais que suficientes para convencer o júri da ESA a aceitar o projeto no concurso de ciência espacial Odysseus [http://www.odysseus-contest.eu/pt-pt/], dirigido a alunos entre os 7 e os 22 anos.

Durante setes meses, os alunos puseram mãos à obra, com o apoio da Universidade da Beira Interior, como relata Gonçalo Gouveia, de 16 anos: “Emprestaram-nos e ensinaram-nos a manusear os equipamentos, tal como um espetroradiómetro, que consegue ver as coordenadas cromáticas de uma cor que estamos a estudar”.

Os especialistas da ESA atribuíram ao projeto 18 valores de cotação. Ainda assim, os alunos estiveram quase a desistir de participar, recorda a professora de Físico-Química, Ernesta Pereira, que tudo fez para contrariar o desânimo dos seus alunos: “Eles achavam que [o projeto] não estava suficientemente bom. Mas eu não permiti que eles deixassem de participar. O meu trabalho foi sobretudo incentivar. O resto foram eles.”

Caso vençam o concurso espacial, o trio da Covilhã vai trazer para a escola como prémio um telescópio. Agora, já acreditam no valor do seu trabalho, como se percebe pelas palavras otimistas de Pedro Ruas: “O verde é superimportante, traz-nos esperança.”

 

 

 

É já amanhã a IX Conferência sobre Crianças Desaparecidas, na Assembleia da República

Maio 30, 2016 às 1:45 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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conferencia

Aplicações (Apps) para Terapia da Fala

Maio 30, 2016 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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texto do blog http://ositiodafala.blogspot.pt/ de 2 de março de 2016.

tablet

São inúmeras as aplicações que se podem usar em contexto de Terapia da Fala. As que não são dedicadas às nossas áreas de trabalho, podem bem ser aproveitadas. Em relação a outros países temos consideravelmente menos quantidade, sobretudo porque somos poucos. Ao seleccionarmos uma aplicação devemos ter em atenção se não é em Português do Brasil, uma vez que há variações que os nossos clientes não perceberão e poderão, eventualmente, ser contraproducentes.

Para além disso, as aplicações de comunicação aumentativa e alternativa tinham (e têm) uma grande limitação – muitas não têm uma fala sintetizada para o português europeu e, se têm, é de uma mulher ou homem, ambos adultos. Assim, devemos preferir aquelas que permitem a gravação de clipes de áudio, em detrimento da fala sintetizada – podemos pedira a voz emprestada a alguém!

Na minha prática uso o tablet de três formas diferentes: deixo a criança manipular a aplicação de forma mais ou menos independente; apenas para apresentação de estímulos visuais ou auditivos; com carácter de prescrição – para que o cliente use ou pratique em casa.

Tive o meu primeiro tablet em 2010 – o iPad (1st gen). Inicialmente usei-o com alguma regularidade mas deixou de ser muito prático, sobretudo por causa da limitação da língua; para além disso, em pouco tempo, deixou de ser compatível com novas aplicações. Actualmente tenho um Asus ZenPad 10, que corre o Android 5 (Lollipop). Se comprarem um equipamento com o propósito de ser usado na terapia, aconselho um tamanho de ecrã generoso – 10″ é o ideal. Fica ainda o link para um artigo da ASHA.

Apresento-vos algumas aplicações da minha eleição, organizadas por área de intervenção. Peço aos leitores que conhecerem outras, que as sugiram nos comentários.

Articulação e fonologia
Falar a Brincar (gratuita) –
Android
Palavras aos bocadinhos (versão experimental limitada) – Android | iOS
Sounds of speech (pago) – Android | iOS

Leitura e escrita
Aventura das palavras (gratuito) –
Android

Competências pré-linguísticas
Talking Tom (versão gratuita com publicidade) –
Android | iOS

Comunicação aumentativa e alternativa
TICO4Android (gratuito) –
Android
Vox4All (versão experimental limitada) – Android | iOS
Sono Flex (versão experimental limitada) – iOS
MyTalk (versão experimental limitada) – Android | iOS
Grid Player (gratuito) – iOS
GoTalk Now (versão experimental limitada) – iOS

Fluência
DAF Professional (versão experimental limitada) –
Android | iOS
Metronome Beats (versão gratuita com publicidade) – Android

Voz
OperaVox (versão gratuita limitada) –
iOS

Outras
BabyPlayFace –
Android | iOS
Toca Kitchen – Android | iOS
Toca Hair Salon – Android | iOS

 

Os desafios da adoção

Maio 30, 2016 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Ilustração Filipa Viana - Who

Ilustração Filipa Viana – Who

Mãe é mãe, quando é do coração. Adotar é uma decisão para a vida. E levanta tantas dúvidas como consolida certezas.

O desejo e o amor ligam-se, crescem juntos e a ideia da adoção surge como fruto desses sentimentos fortes, em muitas situações diferentes. Que desafios coloca?

«No outro dia, o Afonso disse-me: “Sabes mãe, a Margarida queria muito ter nascido da tua barriga.” E o Manuel acrescentou: “Podemos imaginar que nascemos os três da tua barriga?”.» A história é de uma mãe adotiva, que prefere ficar sem nome e que respondeu: «Não há diferenças… todos nasceram de nós, do nosso amor.»
O mais frequente são casais que atravessaram o calvário da infertilidade e passaram por muitas dúvidas, incertezas, fracassos, procedimentos médicos. Nestes casos, a adoção surge como ideia de parentalidade num contexto de grande cansaço e desistência de ter um filho biológico: «Será que algum dia vou ser mãe? Serei capaz?» A estas questões irão somar-se muitas outras, inerentes à própria adoção: «Será que esta criança vai gostar de mim? Será que o meu filho me vai adotar como mãe?»

«Era uma vez três sementinhas que queriam muito ir para a barriga da mãe. Uma escolheu o caminho mais rápido e foi a primeira a chegar. Fui eu, por isso sou o mano mais velho! O Manuel escolheu o mesmo caminho, mas atrasou-se porque se distraiu nas curvas e levou mais tempo. A outra sementinha também queria muito vir para a barriga da mãe mas enganou-se num caminho e foi parar a outra barriga. Mas depois conseguiu arranjar uma maneira de vir para a nossa família. E assim chegou… é a Margarida, a terceira filha.» Afonso, 6 anos

Os pais que passaram pela infertilidade e pela adoção são muitas vezes os que mais valorizam o seu papel de pais, pela consciência das experiências que tiveram. Torna-se por isso necessário apoiá-los de forma especial, já que partem para a adoção fragilizados na sua autoestima. Noutros casos, surge sobretudo o desejo de fornecer um porto seguro a uma criança abandonada ou indesejada.

O que é comum a todos? A determinação, a decisão com a consciência de que o caminho não é curto nem fácil. Em comum, um desejo sonhado, idealizado, temerário e corajoso de ter uma família, de cuidar de alguém.

Na frieza dos números, há demasiadas famílias disponíveis para cada criança apta à adoção em Portugal. Nas instituições, as crianças com idades superiores a 3 anos são a maioria… e, ao mesmo tempo, os menos desejados.

O processo começa por ser burocrático. Depois de reunida toda a papelada, o passo seguinte é entregar a candidatura. Nessa altura, inicia-se o processo de estudo e avaliação da candidatura. Os futuros pais, mesmo os mais predispostos, têm de enfrentar perguntas acerca do seu estilo de vida, sessões de formação e informação e no final será emitido um parecer positivo ou negativo.

Começa a espera pela criança… Uma ansiedade equiparável ao período de gravidez, muitas vezes descrito como o mais difícil de todo o processo. Porém, valerá a pena no dia em que receber a notícia de que existe uma criança à espera.

Quando o filho chega à nova casa, está encerrado um longo e duro capítulo. Ele traz consigo a herança pesada do abandono e do trauma, mas também o sonho de ser amado e cuidado. Nesta fase, os pais adotivos precisam de ter um instinto paterno natural mas também a compreensão e aceitação do contexto que os trouxe até aqui, tornando-se verdadeiramente pais.

A família adotiva construiu-se por escolhas feitas pelos pais adotivos mas também pelos biológicos, que não puderam ou souberam cuidar da criança. Reconhecer esta realidade é o primeiro passo para que tudo corra bem. O grande receio dos pais adotivos surge com o aproximar da idade em que a criança vai compreender que foi adotada. A maior tentação é tentar omitir, mas se existe uma relação de amor sólida, feliz, positiva, não há razão nem sequer benefício algum para evitar «aquela conversa».

«Quando a conhecemos, o amor foi inevitável, ela era tão frágil, de ar tranquilo e meigo, a explorar-nos com um olhar vivo… o Afonso recordou: “Lembras-te mãe, eu não queria muito ter uma mana, queria um mano. Mas apaixonei-me logo que a vi!” É verdadeiramente isto que é a adoção, um abraço em família, forte mas meigo, seguro mas terno, ao presente, ao futuro, mas também ao passado.», Mãe adotiva da Margarida

O vínculo dos pais adotivos com os seus filhos cresce com o tempo, dia-a-dia, com os carinhos, as lágrimas, o consolo e as memórias. Só assim se constrói uma família. Os pais adotivos, como todos os pais, cuidam de feridas, não apenas de esfoladelas de joelho, também feridas do coração. Dão aos filhos a aceitação e a permissão para perguntar tudo, falar do dia do seu nascimento e dos primeiros pais.

Os pais adotivos não acolhem apenas a criança mas também a sua história e herança. Acolhem os factos da vida, com toda a força, por si e pela criança. Criam memórias, férias em família, festas de anos, mas também guardam memórias do tempo anterior, em que se entrelaçam aquelas duas histórias, para criar uma unidade, uma… família.

Paula Vilariça, pedopsiquiatra no CADIn, para o Notícias Magazine, em 1 de maio de 2016


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