Bullying – artigo de opinião de José Morgado

Maio 26, 2016 às 8:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
Etiquetas: , ,

artigo de opinião de José Morgado publicado na Visão de 12 de maio de 2016.

Notas sobre uma matéria que é recorrentemente identificada como fonte de preocupação para educadores, pais, técnicos e professores.

Diferentes estudos sugerem que em Portugal entre um quarto e um terço dos adolescentes entre os 13 e os 15 anos já se terá envolvido em episódios de bullying, verificando-se ainda com particular inquietação a subida significativa de cyberbullying com recurso às redes sociais e aos dispositivos de comunicação, telemóveis, por exemplo.

Duas notas específicas relativas ao cyberbullying que mostram o seu potencial risco. Dado que o bullying presencial ocorre predominantemente nos espaços escolares, os fins-de-semana são um tempo mais protegido o que não acontece com o cyberbullying.

Por outro lado, não existindo contacto directo, presencial, entre agressor e vítima, não é percepcionado de forma real o sofrimento infligido o que em algumas circunstâncias pode funcionar como “travão” e inibir os comportamentos de agressão.

De forma global sabe-se também que a ocorrência de situações de bullying é bem superior ao número de casos que são relatados. Uma das características do fenómeno, nas suas diferentes formas, incluindo o emergente cyberbullying, é justamente o medo e a ameaça de represálias a vítimas e assistentes que, evidentemente, inibem a queixa pelo que ainda mais se justifica a atenção proactiva e preventiva de adultos, pais, professores ou funcionários.

Este cenário determinaria, só por si, um empenhado investimento em recursos e dispositivos que procurassem minimizar o volume de incidências, algumas das quais com consequências severas.

Neste contexto e dada a gravidade e frequência com que ocorrem estes episódios é imprescindível que lhes dediquemos atenção ajustada, nem sobrevalorizando, nem tudo é bullying, o que promove insegurança e ansiedade, nem desvalorizando, o que pode negligenciar riscos e sofrimento.

Importa considerar dois eixos fundamentais de intervenção por demais conhecidos, a prevenção e a intervenção depois dos problemas ocorrerem. Esta intervenção pode, por sua vez e de forma simplista, assumir uma componente mais de apoio às vítimas e repressão e punição que aos agressores. É importante acentuar que é fundamental uma acção de apoio e também dirigida aos agressores no sentido de minimizar ou eliminar a continuação do seu comportamento. Uma outra via de trabalho a desenvolver será o envolvimento dos “assistentes” que podem desempenhar um papel importante na dissuasão ou denúncia dos episódios a que assistem.

Têm sido criados vários portais e outro tipo de iniciativas desenvolvendo informação, espaços de denúncia, suporte e apoio a pais e professores, bem como a alunos e incluindo também a realização de acções em escolas.

No entanto, boa parte destas iniciativas é exterior às escolas que, pressionadas pela sua cada vez mais vasta gama de problemas e solicitações, também sentem falta de recursos e informação adequada sobre o bullying, desde logo sobre a forma de o reconhecer.

A existência de dispositivos de apoio sediados nas escolas e de recursos qualificados e suficientes, designadamente no que respeita aos assistentes operacionais com funções de supervisão dos espaços escolares, é, a par de ajustamentos nos modelos de organização e funcionamento das escolas, uma tarefa urgente.

Do meu ponto de vista, o argumento custos não é aceitável porque as consequências de não mudar são incomparavelmente mais caras.

Muitas crianças e adolescentes evidenciam no seu dia-a-dia sinais de mal-estar a que, por vezes, não damos atenção, em casa ou na escola, espaço onde passam um tempo enorme.

De uma forma muito breve e solicitando uma enorme cautela sobre interpretações apressadas alguns sinais observados em casa como, livros, materiais ou bens estragados ou escondidos, ferimentos ou rasgões na roupa, “perda” frequente de objectos ou dinheiro, isolamento e exclusão do grupo de pares na escola, receio ou recusa em ir para a escola, desmotivação escolar, tristeza, instabilidade, reactividade, alterações súbitas do comportamento ou ansiedade ao final do fim-de-semana,* sobretudo quando não são habituais e se tornam frequentes devem merecer atenção.

Na mesma lógica e de novo com toda a prudência na interpretação, também na escola sinais como livros, materiais ou bens estragados ou escondidos, ferimentos ou rasgões na roupa, isolamento ou exclusão por parte dos colegas, alvo de brincadeiras abusivas frequentes, proximidade não habitual a adultos, sem intervenção nas aulas, insegurança ou ansiedade, desleixo e negligência não habituais ou absentismo* podem constituir motivo de preocupação.

Sinais desta natureza, apesar de insistir no cuidado da avaliação, não devem ser ignorados ou desvalorizados.

O resultado pode representar sofrimento e mal-estar.

*Fernandes, L.; Seixas, S. (2012) Plano Bullying: como erradicar o bullying da escola. Plátano Editora. Lisboa

(Texto escrito de acordo com a antiga ortografia)

Doutorado em Estudos da Criança. Professor no Departamento de Psicologia da Educação do ISPA – Instituto Universitário. Membro do Centro de Investigação em Educação do ISPA – Instituto Universitário. Colaborador e consultor regular de Programas de Formação de Professores e de Projectos de Investigação e Intervenção. Colaborador regular em Programas de Orientação Educativa para Pais. Autor de diversas publicações nas áreas da qualidade e educação inclusiva, diferenciação pedagógica, etc.

Blogue – http://atentainquietude.blogspot.com

 

 

 

 

TrackBack URI


Entries e comentários feeds.

%d bloggers like this: