Rádio Miúdos quer todos a falar bom português

Maio 18, 2016 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Os luso-descendentes espalhados pelo mundo conhecem poucas palavras portuguesas. Escutam-nas em casa e quase sempre na forma imperativa: “Levanta a mesa”; “faz os trabalhos de casa”. A Rádio Miúdos quer ampliar o vocabulário das crianças falantes de português e dar-lhes música. Lá fora e cá dentro.

Uma emissora nacional online para miúdos dos zero aos 12 anos nasceu em Novembro do ano passado e já foi escutada em 60 países de todos os continentes. A Rádio Miúdos funciona 24 horas por dia e, para já, emite em directo apenas das 14h às 16h e de segunda a sexta-feira. Mas o objectivo é alargar o mais possível o horário das transmissões em directo e com cada vez mais miúdos do lado de lá do microfone.

“Queremos responsabilizá-los e torná-los donos da rádio”, diz João Pedro Costa, um dos fundadores da estação e profissional de rádio há mais de 30 anos. Passou pela RFM, RádioGeste, Rádio Macau, Euronews, entre outras emissoras. “O nosso maior sonho é que, com o passar do tempo, tenhamos sempre um locutor adulto e um locutor miúdo todos os dias, 24 horas por dia. Sempre na conversa, para praticar a oralidade”, diz, mas sublinha que a ideia foi “da visionária” Verónica Milagres.

“Há 20 anos que trabalho com crianças e sempre senti que fazia falta uma rádio para os mais novos”, contou ao PÚBLICO a professora de Música e cantora lírica, numa conversa telefónica que antecedeu a visita ao pequeno estúdio no Bombarral. “É um estúdio portátil”, diz João Pedro Costa, já no meio do equipamento, que junta material do seu espólio e outro que o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian permitiu adquirir.

Essa “portabilidade” tem-lhes permitido acompanhar iniciativas como o 2.º Encontro de Literatura Infantil da Lusofonia da Fundação O Século, que decorreu em Fevereiro. Instalaram uma espécie de tenda com todo o equipamento e aproveitaram para entrevistar escritores nacionais e dos países de expressão portuguesa que participavam no congresso. Fizeram alguns directos e muitas gravações.

Foi também na Fundação O Século que angariaram mais colaboradores para a Rádio Miúdos, como a escritora Margarida Fonseca Santos, que já tem dois programas: Histórias em 77 Palavras e Conversas de Carvão (este com a colaboração de Mariana Ramirez Sanchez, a partir de Barcelona). Os autores José Fanha e António Torrado também foram convocados e já estão a preparar rubricas que hão-de ir para o ar brevemente.

“Todos nos acolheram muito bem, deram-nos uma série de ideias e disponibilizaram-se para colaborar”, diz o radialista, muito entusiasmado com os projectos já em desenvolvimento de teatro radiofónico. “Vamos recuperar um formato que é muito divertido de realizar e também de se ouvir.”

A próxima deslocação da Rádio Miúdos será ao Festival Literário Livros a Oeste, na Lourinhã, de 3 a 7 de Maio. “Vamos instalar o estúdio na rua. Queremos estar onde estão as crianças, bem no meio da confusão. É esta a nossa natureza.”

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Crianças ao leme

Leonor Tapadas e Pedro Gonçalves, ela com dez anos e ele com nove, amigos e cúmplices, eram os dois locutores-mirins presentes na Rádio Miúdos no dia da visita do PÚBLICO, no final de Março. Era dia de workshop e os miúdos acabariam por entrevistar as “entrevistadoras”. Quiseram saber se gostavam da profissão que escolheram, pediram que se lhes explicasse o que era um blogue e o que fazia uma jornalista multimédia. Tudo muito profissional, com os miúdos a testar o som, a ajustar os auscultadores e os microfones, a gerir os silêncios e a repetir as frases que saíam meio gaguejadas… Sempre com supervisão e aconselhamento de João Pedro Costa (“sejam curiosos, perguntem o que não percebem”, “olhem para as entrevistadas”, “agradeçam no final”), numa relação bem-disposta e em atmosfera descontraída.

Antes de Pedro chegar, Leonor, filha da directora Verónica Milagres, tinha explicado que o seu colega de escola e amigo, depois de escutar algumas emissões da rádio, lhe pedira para participar: “Eu também gostava de fazer alguma coisa na Rádio Miúdos.” Depois de obtida a autorização dos pais, fizeram um directo com o rapaz nas férias de Carnaval. “Revelou ter muito jeito e adorou”, completa Verónica.

Leonor, que diz gostar de “dar notícias”, prossegue, embora timidamente e com várias hesitações: “Estamos os dois a gravar um programa sobre instrumentos musicais. Eu sou uma harpa e ele é um violoncelo.” Quem escolheu o tema? “Fomos nós. Gostamos de música. Eu toco flauta transversal e o Pedro quer ir aprender trombone”, justifica. Para dizer depois, entre risos: “Mas o trombone é maior que ele!”

Verónica Milagres já tinha informado que dois miúdos estavam a preparar um programa só deles: “Ali não se vai escutar a voz de adultos. São eles que estão a escolher o tema, que o estão a preparar e que o vão gravar. Quando tiverem tudo oleado e já conseguirem funcionar bem sozinhos, então experimentamos directos apenas com eles.” Ambos já participam em emissões em directo, mas sempre com os adultos na retaguarda.

A directora da Rádio sublinha: “Quando estamos a planear entrevistas ou outros programas, surgem dos miúdos perguntas e ideias que à partida não nos ocorreriam. É mesmo isso que queremos, que eles se identifiquem com os projectos. Porque os miúdos fazem parte da rádio.”

O jovem Pedro diz mesmo que “a Rádio Miúdos é uma ideia genial”. Vê-se que está feliz “no meio das máquinas e botões”. Tem um ar doce e calmo e anota no papel o texto que vai dizer quando se der início à gravação.

 

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Rita Pimenta (Texto) e Vera Moutinho (Fotografia e vídeo) para o Público em 24 de abril de 2016

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