Crianças com asma não controlada custam 40 milhões em idas à urgência

Maio 16, 2016 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: ,

1046874

 

Asma é a doença crónica mais prevalente em crianças e jovens portugueses. Absentismo escolar das crianças e absentismo laboral dos pais é três vezes maior nos casos em que a doença não está estabilizada.

Corridas para os serviços de urgência e para os centros de saúde que poderiam ser evitadas e sucessivos agravamentos de uma condição que é controlável na esmagadora maioria dos casos. É um problema de saúde que é, em simultâneo, um problema económico: em Portugal, gastam-se 40 milhões de euros por ano com urgências e atendimentos não programados devido a crises de asma em crianças e adolescentes com a doença não controlada. São dados de um projecto da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP), realizado pelo Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde, que dão uma ideia do impacto da asma não controlada na infância.

É a primeira vez que em Portugal são divulgadas estimativas dos custos associados à asma nas crianças e adolescentes e os números vão ser divulgados nesta terça-feira, dia mundial da doença. Metade das cerca de 175 mil crianças e adolescentes asmáticos não têm a doença sob controlo e este é o principal factor que agrava os custos, acentuam os investigadores do projecto CASCA (Custo da Asma na Criança), que é financiado pela Fundação Calouste Gulbenkian e tem o apoio técnico do LabAIR do Instituto CUF Porto.

“O impacto económico médio por criança com asma não controlada é duas a três vezes superior ao de uma criança com a doença sob controlo”, explica João Fonseca, investigador do CINTESIS e da FMUP, entidades responsáveis pelo projecto. Por cada criança nesta situação, são gastos entre 400 a 700 euros por ano só devido às idas aos serviços de urgência, especifica.

Baseadas nos dados dos estudos Impacto e controlo da asma e rinite e do inquérito nacional sobre asma, as estimativas permitem concluir que, em geral, a doença é causa de mais de meio milhão de dias de faltas à escola. “São crianças que faltam à escola, não fazem actividades, não deixam dormir os pais”, enumera o especialista em imunoalergologia. Ao impacto financeiro juntam-se, assim, os custos sociais. “O absentismo escolar das crianças e o absentismo laboral dos pais ou outros cuidadores é, aproximadamente, três vezes maior nas crianças com asma cuja doença não esteja estabilizada. Em média, faltam à escola seis dias por ano”, acrescenta. Uma situação que poderia ser facilmente evitada, dado que “a asma pode ser controlada com terapêutica em 90 a 95% dos casos”, precisa.

Sendo a asma a doença crónica mais prevalente em crianças e jovens (até 17 anos), no total, de acordo com as estimativas do projecto, as que têm a patologia não estabilizada custam mais de 80 milhões de euros, enquanto aquelas que têm a doença controlada dão origem a uma despesa da ordem dos 40 milhões de euros. A investigação permitiu ainda perceber que são as crianças com obesidade ou sintomas de rinite as que apresentam quadros clínicos piores.

Controlar a doença implica, além de uma boa prescrição, um acompanhamento adequado. O ideal é conseguir o equilíbrio entre dar medicação segura na dose mínima em vez de fazer picos de medicação quando há crises, explica João Fonseca. “O que não podemos é tolerar esta normalidade com que se vai à urgência. Medica-se, diz-se que a criança vai melhorar quando crescer e, assim, está-se a perder capacidade respiratória. É a complacência com esta situação que leva a estes resultados”, lamenta.

Quanto à situação epidemiológica, essa melhorou muito no que se refere à mortalidade (cerca de uma centena de óbitos por ano), mas ainda há demasiados internamentos — basta ver que um terço das crianças portuguesas com asma são hospitalizadas por causa desta patologia respiratória, pelo menos uma vez na vida.

Alerta para sobrediagnóstico
É importante fazer provas de função respiratória e testes alérgicos durante a primeira infância para se ter uma ideia precisa das características do doente, destaca o imunoalergologista Mário Morais de Almeida, que lamenta também que haja tantas pessoas a recorrer às urgências por não terem a doença controlada e não estarem bem diagnosticadas.

Os dados disponíveis reforçam, de facto, a importância de um diagnóstico precoce e apontam para a necessidade de considerar outras patologias na altura de perceber como pode evoluir a doença. “Se o pulmão está constantemente a ser agredido e inflamado sem ser tratado, vai começar a defender-se e fica mais rijo, com uma estrutura mais espessada, e as obstruções deixam de ser reversíveis”, explica o presidente cessante da Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica.

Mas, ao problema do diagnóstico tardio, o especialista acrescenta um fenómeno mais recente e que também o preocupa — o sobrediagnóstico. “Começa a haver um excesso de diagnóstico. Na obesidade, a dificuldade respiratória pode dar origem a um diagnóstico de asma”, exemplifica. Para ajudar os profissionais, em breve vai ser divulgada, pela Direcção-Geral da Saúde, uma nova norma de abordagem de tratamento.

Há um problema suplementar destacado por Mário Morais de Almeida: o da confusão, que por vezes ocorre nos adultos, entre asma e doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC), quando há diferenças substanciais no tratamento e no prognóstico. “Há pessoas que só porque fumaram são catalogadas como tendo DPOC”, diz.

Se a doença pulmonar obstrutiva crónica é, em geral, causada pelo tabagismo, a asma pode estar presente em qualquer idade, afectando habitualmente as crianças e adolescentes. Mas na asma é possível reverter uma obstrução nos brônquios, enquanto na DPOC só parcialmente isso é possível.

Numa altura em que o Governo anunciou que pretende que todos os agrupamentos de centros de saúde realizem espirometrias, um teste essencial para diagnosticar estes problemas, o especialista espera que a promessa se concretize, porque há profissionais de cardiopneumologia em número suficiente para realizar estes exames, que são baratos e fundamentais. Fazer espirometrias é como fazer electrocardiogramas, compara.

 

Alexandra Campos, para o Público, em 2 de maio de 2016

TrackBack URI


Entries e comentários feeds.

%d bloggers like this: